LISARDO DE CARVALHO
O mar é eco do mar
O mar é eco do mar
Anterior às conchas
Posterior aos horizontes
O mar é tudo que ele não é.
O mar não pode ser...
O mar é céu derretido:
Água de estrelas;
Areia de sol em vidro.
O mar é invenção do mar.
As flores
cheiro F
cor L
forma O
som R
%
So
l
perpassa
E
(e)vapora
...
Onde o silêncio nasce
Onde o silêncio nasce
Quero me esquecer,
Amigo
Sem abrigo
Do entardecer.
A vida é fase
A morte, quase.
Qual água da fonte...
(É breu...)
Me atravesso sem ponte:
Ao outro lado
(Meu.)
Não permaneço;
Esqueço.
Ao meu silêncio armado.
BEATRIZ BAJO
Cutículas abertas
Assim que se arranca
Propositadamente
Desejo de corte da
Pele protetora
— fortalece
Aura da unha
: rosadinha
Ânsia de ver melhor
Corar ali
Alicate de —
Já me feriram
Politicamente
E cutuco da esquerda
Pra direita
Mas a cutícula acaba
No setor privado
De mim
Roendo os dedos de
milhares
Unhas de fome
Sangrando de epiderme
Tudo fervendo de verme
Se pudesse...
Arranhava a cara da miséria
Mas é duro o pau oco
E lasca minha unha
Fraca mas
De cutículas abertas
dedos sobre folhas ansiosas em se fechar
pele sobre palavras sobre pretéritos
digitais que se fixam entre as pretas tintas
na página 44 duas pessoas procuram um lápis
e eu as esquadrinho entre as frases de antes
sujeitos de papel que me olham sem olhos
de cá fora e eu os vejo sem enxergar
pelas retinas, numa busca mais pra cima.
Esquina literária
O rubro verso
branco
sussurrado
pin
gente
pin
gando
nos recônditos
de toda
insana prosa
orgânica
de sina
por
entre
os sítios virtuais
que os enxovalham
cruzam-se
aqui nesta esquina.
01:45h
11/05/2007
Depoimento
Ler-te é outra vez te ter bem perto
sinto-te em lamento
palavras de antes,
borradas do sangue que
de
r
r
amas
pela alma
abaixo
sobre as linhas de teus cadernos secretos
gozo de encontrar-te por entre os versos
das minhas esquinas que cruzam teus contos
mar/2007
THIAGO PONCE DE MORAES
Alheamento
Aqui jaz sob
Sono de
Retorno algum.
Aqui jaz. Folhas
Ao longo e ao largo
Sonhas
Simples números, traços, coisas
Simples.
Tens pouca luz, tens
Bastante;
Entanto
Nadas – íris verdes –
Juras.
Finis operae
Estar em descanso. Dedilhar no piano
Do qual as cordas cortara. Percebes
O trágico é
Insustentável.
.
Estar descansado. Nada,
Nada recorda;
Iças.
Raio origem,
Céu robusto de contrátil
Luz.
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Cinco retalhos
a Meu Abstrato Mestre
II
Ali está
Junto ao meio-dia
No fundo largo e solitário
Da basta melancolia
III
Ali está
Uma alma ainda
Reside mansas nuvens
Ainda sombras de mergulho
A imagem a imagem
Sono este
Sonho branco
Estranhíssimo marfim
IV
Mole floresce (folhas)
Sombreia sombras
(Ali estão)
Aranhas bebem
Porção de cores
Dormem tranqüilas
Escuras
(Poças)
V
Luz que brisa
Nenhum
A
Paga
Que espelho
Nenhum
Que
Brado
(Só uma
Palavr
A
Vara
Que afund
A
Funda)
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Esmorecer
I
Vai
Vai
Vai
Verbo irritado
Curva de suspiro e barro
II
Rio que desboca agora
Carrega de mãos dadas
Dois bocados de silêncio
Não por saber que a fala
Fraco borbulhar de gênio
Tenta irromper na trova
Vão pensamento
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CLARA RODRIGUES
Outro dia
Lacrimeja a gota doce
Num copo de lógica
Esconde o rosto com as mãos
Será ele_Um dia ele
Sobre as ruas da noite
Desmorona o corpo sujo
Num canto de esquina
Vive pedindo perdão
Será ele_Um dia ele
Sobre as asas do vestido
Escuta a música batida
Num sonho de antes
Morre a estátua da perfeição
Será ele_Um dia ele
Sobre os saltos avermelhados
Desvenda o personagem mudo
Num episódio de reprise
Age com luzes de néon
Será ele_Um dia ele
Sobre os ombros largos
Revela a face refletida
Num grito de paz
Elege a máscara apropriada
Será ele_Um dia ele
Sobre os olhos com rímel
Inventa o desfecho ideal
Num sorriso de dor
Encobre mais um dia que passou
Será ele_Um dia ele
Pelo certo e pelo proibido
Restante
Sempre portas nas aberturas encontro no escuro
Esbarro nos pilares e tropeço sem esforço
De tantas brechas as escolhas loucas
Não guiam e me mudam. Eu muda.
Sempre livros nas prateleiras leio sem lâmpada
Digito nas proporções de linhas e escrevo sem força
De tantas palavras os estilos moldam
Não mostram e me sugam. Eu suco.
Sempre máscaras nas lojas compro com luxo
Visto nos cantos do rosto e participo sem gosto
De tanta vaidade as faces soltam
Não vivem e me restam. Eu resto.
Estranhos
Veja a maneira como passa
Esse par de estranhos
Como se cruzam na multidão
Dispersos olhares tão interessados
Sensibilizam um outro
A possibilidade de algo em comum
O prazer com que se fixam
A rapidez com que se dissolvem
Todos os dias, o tempo inteiro
Grandes encontros desapercebidos
Não custam a passar
Uma visita inesperada
Entrada e saída
Sem permissão
São meus olhos que me enganam
Ou sou eu que te procuro?
VINICIUS BAIÃO
CÓLERA
Visão ilimitada concede
Pausas
ao
poente
Ferozes lábios
Poema preso entre dentes promíscuos
E-
ternos:
EXTRAPULAÇÕES BUCAIS
Bênçãos etílicas
quaram
palavras em conta-gotas
uma
outra
tal
essa
Devagar
vagar entre assimilações cronológicas
rastros de rum minar vocábulos
e odores.
CICATRIZ
Desponta a faca
contra estilhaços de
humor
corte soterrado
ponta desfaça
humor cortês
face a faca
falso a face
estilhaços de
humorte
Poetarde até
findar
rasgo profundo
na estrutura do poema
Afiar-se.
POESIA
O que não é fresta
se filtra sólido
contra a atenção
concentrada ao
que há de falha.
surpresas
...
de
mas
ia
do
choro
às
avessas.
demasiado choro as avessas.