A Antonio Fraga,
poeta de desabrigos
1 - A Aventura
Terrestre do Surrealismo
Nem toda a água do mar bastaria para lavar
uma só gota do sangue intelectual
Lautréamont
Nem o caos me ordena nem a razão me desorienta. A mim,
uma de minhas loucuras. Nenhum comentário sonolento,
nenhuma crítica necrológica arrastando pelos cabelos o
sensível cadáver das obras surrealistas, como só os
espelhos perversos da crítica sabem fazer. O prodígio,
senhores, mas antes é preciso descrever o naufrágio!
Sejamos sérios como o prazer. Colocar o espectro vivo do
surrealismo dentro dos olhos, dentro das nossas palavras,
pois o outono é perigoso como a paixão que nos
aniquila; e o surrealismo é a paixão vidente é a
paixão absoluta é a verdade que queima na palavra do
poeta. O surrealismo é a linguagem desse fogo, é a
linguagem da paixão. Coloquemo-nos diante dessa
fogueira, procuremos fazer como Benjamin a alquimia da
crítica, para percebermos a verdade das chamas. E, se
elas nos queimam, tanto pior para quem sofre do fígado.
Queimemos o pato da dúvida, não podemos ser mentirosos
como os dentistas!
A estética moderna começa com a morte da arte. É do
discurso dessa agonia e desse conflito que a modernidade
constitui o elemento fundamental. A condenação que
Hegel move à arte do futuro, pois no futuro a arte
estaria condenada à extensividade da reflexão, é o
juízo final; o beijo da morte na tese kantiana do juízo
indeterminado e do prazer desinteressado. À arte
restaria o seu devir, ou melhor, a sua morte. E se, para
Hegel, a arte é uma das faces de deus, a morte da arte
compromete o próprio juízo de deus. E, com isto, é a
idéia do belo enquanto único suporte da arte que é
enterrada. Mas, Hegel foi mais longe na sua estética e
sacramentou a função da arte: O objetivo da arte
é o homem (...), a arte reensina ao homem sobre o humano
(...), toda arte é uma vitória sobre a barbárie
(...).
Marx, crítico da dialética hegeliana, fez da teoria do
valor a espada que paira sobre a cabeça dos homens no
sistema capitalista e que determinaria a base em que se
fundamenta toda a prática das relações sociais.
Com isto, os homens e os seus produtos, inclusive
simbólicos, seriam parte do mundo das mercadorias no
processo global de uma sociedade inteiramente reificada.
Portanto, a reificação da sociedade imporia a toda obra
de arte o seu caráter de objeto fetichizado. Tanto o
valor como o sentido de uma obra seria dado, objetivado,
pelo mercado.
Se a arte é a representação sensível da idéia
absoluta na forma hegeliana, e, se na modernidade a
idéia na sua forma absoluta desaparece, então só resta
à representação sensível da verdade, que é a arte,
tornar-se a expressão ideológica da sociedade
reificada. Aquilo que Hegel vê como o fim ou a morte da
arte nada mais é que a ideologia no domínio da
representação sensível para Marx. O retorno da arte ao
paraíso da idéia absoluta torna-se o sofisma trágico
da falsa consciência vencida do artista, que só pode
ser vista como a representação de um herói condenado
ao vazio ontológico num mundo fetichizado. Nesses
limites se dá a verdadeira luta da arte na modernidade:
não ser a ideologia da representação reificada nem
tampouco a representação reificada da ideologia. A arte
estaria condenada a ser a contra-verdade no reino das
sombras da ideologia, a negação anti-heróica da morte
no campo de extermínio das tautologias vazias do
mercado. E, excluída da sua dimensão metafísica, só
restará à arte ser a representação determinada do ser
como utopia.
Para os surrealistas o poeta é o verbo encarnado, por
isso é o autêntico responsável pelo destino da
linguagem. Para os surrealistas, a poesia é o mel e o
fel da verdade que nos redime da miséria do particular.
A poesia é a consciência feita linguagem. E, enquanto
linguagem, consciência do ser, e quando se diz
consciência se diz universal. E universal porque toma o
homem pela raiz, e a raiz para o homem é o próprio
homem enquanto ser da liberdade, fundamento e essência
do ser da consciência. Da solidão do indivíduo, ele, o
poeta, aspira ao ser múltiplo, ao ser em toda a sua
humanidade. Todo poema, toda poesia surrealista instaura
ou pretende instaurar, a partir do reino da necessidade,
o reino da liberdade. Mas a história, como grande teatro
da crueldade, nos ensina que o processo de criação
poética resulta da oposição aos limites das
condições da vida em épocas diversas. Esse processo,
portanto, emerge das condições materiais e simbólicas
das relações sociais e atravessa o campo e o corpo da
linguagem. Dessa forma, à divisão da sociedade em
diversas classes corresponde a divisão social da
linguagem.
Quando falamos em divisão social da linguagem queremos
dizer que somente uma parcela de seres privilegiados têm
acesso ao discurso poético, por razões que não são
propriamente poéticas, mas que são socialmente
determinadas. É esse mundo, onde a ação poética fica
restrita a poucos, que o terrorismo poético da
revolução surrealista tentou explodir. Os surrealistas
trabalharam exatamente na transversalidade que procurava
ligar arte e vida, sonho e desejo, revolução e utopia.
Tentaram fazer com que a arte enquanto
cosmurgia-desejante explodisse o mundo cego da razão
autoritária. Com os surrealistas a criação poética
deixa de ser objeto da contemplação pura das grandes
obras da tradição literária. A poesia tem que nascer
de tudo e de todos, inclusive da tradição. É nesse
sentido que se deve entender as palavras do poeta
Lautréamont: A poesia deve ser feita por todos,
não por um. Por isso a poesia não pode ser
produto da contemplação pura. Ela parte de um risco, um
risco justamente contra a tradição, a má tradição. O
que os poetas surrealistas nos ensinam é que o bom poema
é aquele que coloca precisamente um problema, isto é,
coloca mais problemas do que as armas da crítica podem
resolver. Só assim tem condições, como afirma Adorno,
de passar além da falsa consciência e de falar
aquilo que a ideologia esconde. A poesia
surrealista é essa aventura terrestre no domínio dos
sonhos acordados na língua da liberdade. O poeta André
Breton escrevia: a poesia tem que levar a algum
lugar. Hoje nós sabemos que esse lugar, aventura
de todo o processo de produção poética, é o Reino da
Liberdade - território da utopia do homem como um ser
completo.
2 - Surrealismo e Utopia
A Edson Dantas
A filosofia terá a consciência do amanhã,
o princípio do futuro, o saber da esperança,
ou não terá saber algum.
Ernst Bloch - O Princípio Esperança
A utopia é o coração da modernidade. Somente
relacionando a arte com a utopia, e utopia aqui é
sinônimo de revolução, é que poderemos compreender a
arte do período que nos acostumamos a chamar de
modernidade. A luta por um mundo mais justo e uma
sociedade livre da maldição da miséria foi a verdade
que reuniu os mais importantes artistas, poetas e
escritores das mais diversas correntes estéticas da arte
no início deste século.
Dos olhos de Nadja ao Camponês de
Paris, os caminhos da revolta entrecruzaram-se com
os caminhos da utopia, e os caminhos do surrealismo com
os caminhos da revolução. É preciso assinalar que a
aventura terrestre do surrealismo fundou a sua ação na
construção da utopia concreta de uma literatura livre
numa sociedade igualmente livre. Da superação da
vanguarda positivista futurista é que o surrealismo
consegue elaborar a construção da sua poética da
utopia. Já o primeiro manifesto surrealista afirmava:
Viver ou deixar de viver são soluções
imaginárias. A existência está em outra parte.
Amor, Poesia, Liberdade - três palavras incandescentes,
prontas para criar o homem novo, a nova mulher, o mundo
novo. Mudar a vida, transformar o mundo eram as palavras
de ordem dos poetas e artistas no front da
utopia estético-revolucionária. Revolução na arte,
arte a serviço da revolução. Por isso Breton pode
escrever: Liberdade, cor do homem. Isto é o
surrealismo, filho bastardo da França católica e
positivista; filho legítimo da Comuna de Paris e dos
seus verdadeiros poetas, Rimbaud e Lautréamont, que
forneceram os principais elementos da poesia futura e de
uma poética da utopia:
1) É preciso mudar a
vida. (Rimbaud)
2) É preciso
reinventar o amor. (Rimbaud)
3) O Eu é um outro.
(Rimbaud)
4) É preciso ser
absolutamente moderno. (Rimbaud)
5) O poeta tem que se
tornar vidente. O poeta torna-se vidente através de um
longo, imenso e estudado desregramento de todos os
sentidos. (Rimbaud)
6) A poesia deve ser
feita por todos, não apenas por um. (Lautréamont)
7) Belo como o
encontro fortuito de uma máquina de costura e um
guarda-chuva sobre uma mesa de cirurgia. (Lautréamont)
A estes elementos o
surrealismo acrescentará:
8) A beleza será
convulsiva ou não será. (Breton)
9) O olho existe em
estado selvagem. (Breton)
10) Liberdade, cor do
homem. (Breton)
Que os surrealistas pretenderam transformar o mundo é
mais que sabido. Basta que pensemos o que foi a ação
surrealista no domínio da arte deste século. Na poesia,
na literatura, na pintura, no teatro, no cinema, o
surrealismo sempre esteve a serviço da revolução.
Podemos repetir o primeiro manifesto:nunca o medo
da loucura nos fará baixar a bandeira da
imaginação. Tentava-se armar a imaginação
poética ou como se afirmava, então, em maio de 68,
colocar a imaginação no poder. Essa busca do homem
total pelos surrealistas é que levou ao engajamento
entre o surrealismo e a revolução, a crença que o
socialismo era a utopia concreta e que só no socialismo
o homem poderia realizar-se plenamente no século 20. É
claro que a adesão apaixonada à revolução socialista
criou problemas para o surrealismo, iniciando a primeira
ruptura do grupo. É necessário ressaltar o caráter do
grupo surrealista como um coletivo, superando os limites
das vaidades individuais tão características à arte
burguesa. Era como um coletivo que as suas ações se
exprimiam, seja através dos manifestos ou exposições.
Como não pensar aqui no intelectual coletivo
gramsciano! A ação dos surrealistas na Associação dos
Escritores e Artistas Revolucionários (AEAR) foi das
mais conflitantes. Os surrealistas não apoiaram o pacto
franco-soviético e ao mesmo tempo aproximaram-se da
facção pró-Trótski, o que tornou o Congresso dos
Escritores para a Defesa da Cultura, realizado em 1935,
bastante tenso. A tensão entre comunistas e surrealistas
acabou resultando no suicídio do poeta René Crevel.
Assim como foram os surrealistas os primeiros a
condenarem os crimes dos processos de Moscou. Apesar das
dissidências e das críticas ao PCF, os surrealistas
nunca excluíram de seus planos o sonho da revolução
socialista e a paixão pela utopia. Basta analisarmos a
colaboração entre Breton e Trótski e o manifesto
Por Uma Arte Revolucionária Independente,
redigido pelos dois no México em 1938. Por isso em
Legítima Defesa, Breton podia escrever
não há ninguém entre nós que não deseje a
mudança do poder das mãos da burguesia para as mãos do
proletariado.
O sentido da escrita automática surrealista teria como
intenção passar além da linguagem reificada,
constituindo por superação dialética uma nova
linguagem. Segundo Henri Béhar, há no surrealismo
uma nostalgia rousseauniana de uma linguagem
original; e Breton em 1953 afirmará de forma
irredutível: é hoje notório que o surrealismo
enquanto movimento organizado tem sua origem numa
operação de grande envergadura sobre a linguagem. Era
necessário para isso arrancá-la do seu uso utilitário,
único meio de libertá-la e restituir todo o seu
poder. E poeticamente concluirá: no
surrealismo as palavras fazem amor. Ainda uma vez,
o eco da alquimia do verbo rimbaudiana se faz sentir.
Podemos também medir a ação surrealista pela
influência que exerceu em outros autores,
particularmente em Walter Benjamin que afirmava:
Numa formulação mais concisa e mais dialética: o
domínio da poesia foi implodido, na medida em que um
grupo de pessoas intimamente ligadas levou a vida
poética até as últimas conseqüências.
Benjamin foi o primeiro filósofo a perceber o vulcão
surrealista, já em 1929 escrevia as linhas acima; e o
impacto que o surrealismo exerceu sobre ele está
presente na Obra das Passagens a que ele
dedicou a maior parte da sua vida. Segundo ele mesmo
relata, esta obra teria se originado da leitura de dois
livros mágicos do surrealismo: Nadja de
Breton e O Camponês de Paris de Aragon. O
surrealismo, enquanto a última mitologia da modernidade,
tornou-se o elemento deflagador para Benjamin elaborar a
sua arqueologia da modernidade. Podemos afirmar, sem
temor acadêmico, que Benjamin foi o primeiro filósofo
do surrealismo. Ele próprio escrevia que para dar
conta do surrealismo seria preciso fazer uma história
esotérica da modernidade. E ainda conclui:
No momento os surrealistas são os únicos a terem
compreendido o significado atual do manifesto
comunista. A importância do surrealismo fica ainda
mais expressa quando recorremos ao peruano José Carlos
Mariátegui, que em 1930 escrevia: Nenhum dos
movimentos literários e artísticos de vanguarda da
Europa ocidental teve a significação nem o conteúdo
histórico do surrealismo. Os outros movimentos se
limitaram à afirmação de alguns postulados estéticos,
à experimentação de alguns princípios artísticos;
mas a maior recusa dos surrealistas é quanto a não se
confinarem voluntariamente na pura especulação
artística. Autonomia da arte, sim; mas não clausura da
arte. Nada é mais estranho ao surrealismo que a arte
pela arte. Podemos, então, estabelecer uma ponte
que parte do Manifesto Comunista, passa pela Carta do
Vidente de Rimbaud e chega aos Manifestos Surrealistas;
e, com base nestas reflexões, concluir que os manifestos
surrealistas representam para a arte e a literatura o que
o manifesto comunista representa para a política e as
ciências humanas.
Os surrealistas são os herdeiros desta tradição da
revolta que reúne Marx, Rimbaud e Lautréamont; não
estão interessados em explicar o mundo, mas em
transformá-lo. A alquimia do verbo surrealista é o
lugar e a fórmula, a única a ter a chave deste balé
selvagem. Ao pretenderem criar o homem novo criaram uma
nova arte e uma nova moral. Basta que citemos o
Amor Louco de Breton: Amor, único amor
que existe, amor carnal, eu nunca deixei de adorar a tua
sombra mortal. Chegará o dia em que o homem saberá te
reconhecer como único senhor e te honrar até nas tuas
misteriosas perversões. O surrealismo sempre
declarou a sua indignação e o seu não-conformismo para
com a sociedade burguesa e o sistema capitalista. Paul
Eluard numa conferência dirá: É chegado o tempo
em que todos os poetas têm o direito e o dever de
sustentar que estão profundamente entranhados na vida
dos outros homens, na vida comum. Qualquer
relação de poetas surrealistas mostra que eles estão
entre os mais importantes da literatura deste século.
Sempre surrealistas: André Breton, Louis
Aragon, Paul Eluard, Tristan Tzara, Phillipe Soupault,
Benjamin Péret, Robert Desnos, Antonin Artaud, René
Crevel, René Char, Raymond Queneau, Jacques Prévert,
Jacques Rigaut, Maxime Alexander, Aimé Césaire. E,
depois da guerra, juntar-se-ão, Malcolm Chazal, Joyce
Mansour, Jean-Pierre Duprey, Jose Pierre, Jean Schuster,
Gerard Legrand, Sarane Alexandrian, Jean-Louis Bédouin,
Daniel Abel, Maurice Blanchard, Vincent Bounoure, Joe
Bousquet, Guy Cabanel, Hervé Delabarre, Élie-Charles
Flamand, Maurice Heine, Jacques Hérold, Radoyan Ivsic,
Petr Kral, Dominique Legrand, Gisele Prasinos, Roger
Méyere, René Nelli, Gerard Neveu, Stanilas Rodanski,
Danielle Sarréra, Claude Tarnaud, Jean Thiercelin,
Fréderic Tristan, Marianne Van Hirtum, Michel Zimbarca.
Como escreve Jean Schuster, a arte só pode ser
digna deste nome quando revolucionária, exercendo uma
ação violenta sobre os seres e as coisas.
A chave da pintura surrealista é a sentença com que
Breton, em 1928, inicia o seu livro O Surrealismo e a
Pintura: O olho existe em estado
selvagem. É daí que partem os exploradores dos
sonhos e das paisagens oníricas com os olhos encantados,
a nostalgia do infinito, os prazeres iluminados pela
mulher de cem cabeças. A principal obra sobre a pintura
surrealista continua sendo o livro de Breton. Juntam-se a
este as obras de Patrick Waldberg, Jacques Baron, José
Pierre, René Passeron, Sarane Alexandrian e Ragnar von
Holten. Numa anotação sumária podemos alinhar na
pintura surrealista: Giorgio de Chirico, Max Ernst, Man
Ray, André Masson, Marcel Duchamp, Salvador Dali, Yves
Tanguy, René Magritte, Paul Delvaux, Félix Labisse,
Hans Belmer, Roland Penrose, Augustin Lesage, Clovis
Trouille, Joseph Crépin, Wilhelm Freddie, Victor Braune,
Oscar Dominguez, Wolgang Paalen, Ashile Gorky, Wilfredo
Lam, Eugenio Granell, Kurt Selegmann, Jean Benoit.
Nenhum movimento artístico conheceu o culto da mulher de
forma tão concretamente avassaladora como o surrealismo:
A grande mulher cresce. Agora o mundo é o seu
retrato, o que ela ainda não reuniu em torno do seu
corpo, o que não foi incorporado ao seu prazer, a muito
custo é perdoado pelo meu delírio. E o que se esfuma,
esta enevoada realidade fugidia, reduz-se ao acessório
do seu retrato. Ela cresce. O céu já se modificou
graças a essa feiticeira. Os cometas desabam por causa
da desordem de seus cabelos. Suas mãos, mas tudo o que
eu toco participa sempre das suas mãos. Eu sou apenas
uma gota de chuva sobre a sua pele orvalhada (...) Já
que ela me ama, meu oceano. Passa sobre meus punhos,
água como lágrima, mulher sem limite na qual estou
inteiramente afogado. Passa através meu céu, meu
silêncio, meus véus. Que meus pásssaros se percam nos
teus olhos. Mate, mate: eis minhas florestas, meu
coração, minhas fugas. Minhas mitologias. Minhas
calamidades. A desgraça. E no zodíaco em que me
perpetuo, devasta enfim, lindo monstro, essa carne
selvagem iluminada. Essa é a voz do Camponês de
Paris de Aragon, mas poderia ser a de qualquer outro
poeta surrealista. E, como os surrealistas não viam a
mulher oculta numa floresta, a mulher tornou-se uma
fatalidade visível. E, lembrando Queneau, nós nas artes
amamos as musas e a musas amam as artes; por isso no
mundo da arte surrealista figuram grandes mulheres
espectrais: Leonora Carrington, Dorothea Tanning, Toyen,
Valentine Hugo, Leonor Fini, Frida Khalo, Judith Reigel,
Yahne Letourmellin, Niki de Saint-Phalle e Maria Martins.
Nas barricadas da Poesia, do Amor, da Liberdade - TUDO É
SEMPRE POSSÍVEL: Quem é? Ah, sim, faça entrar o
infinito.
3 - A Miséria da
Utopia no País do Futuro
A Moacyr Félix, poeta da utopia
O amor existe. Mas anda de automóvel
Mário de Andrade
A relação dos poetas brasileiros com o surrealismo ou
uma possível influência do surrealismo na literatura
brasileira envolve duas questões. A primeira é de ordem
estético-cultural. A segunda é de ordem
político-ideológica. As duas formam uma síntese do que
foi a relação da prática conservadora da igreja com o
pensamento autoritário no domínio do estado nos anos
entre 1920/1945 e a sua ação, influência e
conseqüências na poesia e na cultura brasileira desse
período.
Na
década de 20, poetas e artistas brasileiros cerram
fileira contra o academicismo e o conservadorismo que
impregnavam a arte e a cultura brasileira. É o momento
da ruptura com o passadismo cultural, a
revolta contra o que era a inteligência nacional,
que culmina na Semana de 22 e adjacências. Participam da
semana, entre muitos outros, Mário de Andrade e Oswald
de Andrade, que se tornaram os maiores expoentes do nosso
modernismo. Oswald de Andrade, filho mimado de uma rica e
tradicionalista família paulista, mantém com a cultura
européia, principalmente francesa, laços de
proximidade, sempre renovados através de inúmeras
viagens a Paris. Tanto que mais tarde escreverá que foi
do alto do seu apartamento na praça Clichy que descobriu
o Brasil. Essa descoberta antropofágica era a
devoração do poeta-pirata Blaise Cendrars e o que havia
de melhor na cultura moderna francesa. A devoração
oswaldiana era pré-surrealista, pois Cendrars estava
ligado ao dadaísmo de Zurich. Oswald, portanto, vai ser
um tanto refratário ao surrealismo quando este eclode em
Paris em 1920/24. Oswald, que era um mestre em
devorações, não compreendeu que o surrealismo havia
devorado o dadaísmo. Já no caso de Mário de Andrade, o
que nós temos é um verdadeiro seqüestro da
inteligência do que melhor produzia a cultura
moderna. Mário, que jamais saiu do Brasil, viajava a
bordo das melhores revistas européias, estava a par de
tudo o que se passava, seja na Alemanha expressionista,
na Itália futurista, na Suíça dadaísta ou na França
cubista ou surrealista. Podemos contemplar essas viagens,
através das diversas citações em seus textos da
época, principalmente O Prefácio Interessantíssimo e A Escrava que não é Isaura. Este
último é o primeiro tratado de poética moderna escrito
no Brasil, e nele notamos a referência de vários nomes
ligados ao surrealismo. Mário inicia o ensaio com uma
fábula sobre a poesia onde o personagem principal é
Rimbaud, que como vimos é uma das chaves determinantes
para entender o surrealismo e a poética da modernidade.
E no mais importante parêntese da história da poesia
brasileira ele nos diz: Parêntese - Não imitamos
Rimbaud. Nós desenvolvemos Rimbaud. ESTUDAMOS A LIÇÃO
RIMBAUD. E fecha o histórico parêntese. Depois
vemos aparecer, Aragon, Tzara, Picasso, Cocteau, Eluard,
Apollinaire, Soupault, e, ainda de quebra,
Maiakóvski, Marina Tvestaieva e Vicente Huidobro. Mário
numa sentença iluminadora nos adverte: É PRECISO
EVITAR MALLARMÉ!. Advertência que no Brasil muito
poucos entenderam. Entre a poética fria das analogias de
Mallarmé, Mário escolheu desafiadoramente o caminho da
poética da revolta e da utopia do poeta Rimbaud. Nenhuma
palavra sobre Breton que, no mesmo ano em Paris,
publicava o primeiro manifesto do surrealismo, e fazia de
Rimbaud o ponto de partida de uma nova poética que
juntava poesia e utopia. O nosso tupi tangia o seu
alaúde, afinado na mesma escala da utopia. Mas, uma
questão era mais importante para Mário, era
abrasileirar o menino Rimbaud, fazer uso brasileiro da
alquimia do verbo descoberta por Rimbaud. Com isso Mário
procurava criar uma vacina contra o complexo de bastardia
cultural do brasileiro. Daí, Mário ficar reticente em
relação a Breton. Ora pinhões! Ele, Mário, tinha
chegado às mesmas descobertas, aquilo que ele chamou de
Polifonia Poética. E ainda mais: 1o)
Respeito à liberdade do subconsciente. 2o)
O poeta reintegrado na vida do seu tempo.
Mas, em 1930, numa crônica no Diário Nacional, Mário
já advertia: Me dirão que o Sobre-realismo
é individualista também. Não é mais. Está
além do individualismo. E mesmo que fosse, conservaria
sempre o grande mérito social de ter colocado o
problema da Poesia nas suas bases verdadeiras,
libertando-a da arte, colocando-a pra fora da arte,
libertando-a definitivamente de todos os cacoetes,
tecnicismo, que a confundem com a presa intelectual:
polêmica, romance, caso de esquina. E se não fosse
assim o Sobre-realismo não seria um fenômeno tão
tipicamente da época como é. Não sei se ele perdurará
por todos os séculos, porém tocar a identidade do
futuro é banzar dentro do ofício das pitonisas, não me
interessa. O fato é que o Sobre-realismo veio assegurar
definitivamente à poesia uma realidade, uma entidade que
ela nunca teve. Nascido do desgosto legítimo por essa
inenarrável enfermidade do indivíduo que é a
segunda intenção, ele possui uma
lindíssima pureza moral. E se nem todos os
sobre-realistas são assim, como demonstraram faz pouco
os sucessos de França, a culpa não é do
Sobre-realismo. Porque com ele e sem ele, sempre
existirão neste mundo os aproveitadores macacões. Além
disso o Sobre-realismo é uma tendência coletiva,
ajunta, socializa. Tem essa coisa admirável que nós, os
modernos do Brasil, na infinita maioria fizemos o
impossível pra não ter, o espírito de grupo, o ideal
comum. Era a estética do interesse, da qual Mário
foi o grande e perigoso defensor em sua obra e sua vida
enquanto intelectual, até ser obrigado a beber a cicuta
da ditadura do Estado Novo. Era perigoso demais para o
Brasil um poeta que pensava. Platão também havia
expulsado os poetas da sua República. É essa farmácia
andradina, que anos depois tornou-se o alvo de
destruição da chamada geração de 45.
Agora, a questão político-ideológica: em resposta à
revolução soviética, o pensamento conservador no
Brasil organizou-se em duas frentes. Uma delas foi a
fundação em 1922 do Centro Dom Vital, por Dom
Sebastião Leme. Já no ano anterior, Jackson Figueiredo
havia criado a revista A Ordem, órgão de divulgação
do pensamento católico. Durante os anos 20/40 é intensa
a cooptação de intelectuais pela igreja. Seja através
da Ação Católica dirigida pelo Centro Dom Vital tendo
à frente o jesuíta Leonel Franca, seja através do
Instituto Ozanam em São Paulo, que fizeram valer o
ditado: a República vale uma missa. Em 1931, Getúlio
Vargas e Dom Sebastião Leme convertem N. S. da Aparecida
na padroeira do Brasil. No mesmo ano o Cristo Redentor é
ianugurado e passa a abençoar erecto do alto do
corcovado a Capital Federal. À república positivista
sucede a república de batina. Essa conjuntura litúrgica
ligada ao pensamento autoritário desenvolvido por
Cândido Mota Filho, Miguel Reale, Azevedo do Amaral,
Afonso Arinos, Octávio de Faria, que pregavam um estado
forte para deter o avanço do comunismo, culmina na
ditadura do Estado Novo. Compreende-se porque o
surrealismo foi vetado no Brasil. Num primeiro momento o
surrealismo não interessou aos espíritos
brasileiros, porque pregava a anarquia da beleza, a
anarquia do amor e do estado burguês. No segundo momento
tornou-se muito mais perigoso, porque aderiu ao PCF de
carteirinha e tudo mais. Daí, a condenação do
surrealismo no Brasil. Para ilustrar essa condenação,
basta citar o caso do poeta surrealista Benjamin Péret
expulso do Brasil por decreto. Rezava o decreto: O
chefe do governo provisório da República dos Estados
Unidos do Brasil, considerando que o francês Benjamin
Péret, conforme foi apurado pela polícia desta capital,
se tem constituído elemento nocivo à tranquilidade
pública e à ordem social, resolve expulsá-lo do
território nacional. Rio de janeiro, 10 de dezembro de
1931, 110o ano da Independência e 43o da República.
(Ass.) Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha. Com o que
foi visto, constatamos que o surrealismo foi expulso do
Brasil por decreto.
Nesses anos o porta-voz da poesia brasileira passa a ser
o poeta e editor Augusto Frederico Schmidt, o
inventor do câmbio negro literário, segundo o
mestre em canibalismo Oswald de Andrade. A ditadura do
Estado Novo encontra em Schmidt o seu correspondente
literário, pois na poesia deste urde-se um golpe contra
as conquistas estéticas do modernismo brasileiro.
E Mário de Andrade, o homem que deu o grito do
Ipiranga da nossa cultura, punido pelos serviços
prestados à cultura brasileira, começa a ser
assassinado culturalmente pela ditadura de Vargas. Mário
no seu ensaio A Volta do Condor escrito em
1941, vaticinava sobre esta geração liderada por
Schmidt: O misticismo de tais poetas não deriva de
nenhum sistema orgânico, é na verdade, sentimentalismo.
Estamos vivendo de arroubos místicos, em que se percebe
bastante malícia e alguma perversão. Uma literatura
mórbida... A bíblia foi largamente devastada...
ninguém pode mais falar na pedra do meio do caminho, no
beco e no sorriso de Bilú - essas vulgaridades. Tudo se
enloqüentizou, o beco virou caminho perdido, a pedra
virou túmulo vazio. E se deu a perigosa substituição
de Bilú pelo Amado, pelo Amor Desconhecido, pela Noiva
Ausente, por Eros-Cristina, por Ariana, mulher da
primeira fase de Vinícius de Moraes, e mais uma notável
freqüência de maiúsculas... Mas não há como negar
que é toda uma criação nova de condores, de que os
discípulos estão usando e abusando, renegando a poesia
do pequeno e do chão, na sua crença de que com isso é
que se faz grande poesia. Se os criadores deste
condoreirismo nos deram algumas admiráveis formas
líricas, estas formas já viraram assombrações. E hoje
está se fazendo uma poesia de elefantíase verbal, tão
carregada de Sentido (com maiúscula) que o sentido se
amassa, se rompe todo. No modernismo os poetas menores
davam raiva. Os de agora dão medo... Onde iremos parar
com este covencionalismo do profundo, que tudo reduz à
Morte, a Deus, à Amada Ausente... Quem não traz Deus, a
Morte, a Amada na sacola, não pode mais distribuir
versos nesse mundo.
Com toda essa água benta descrita por Mário, fica
patente a impossibilidade da permanência do surrealismo
naquele momento em terras brasileiras. A influência
surrealista no Brasil dos anos 30/40 ficou
praticamente restrita à obra fulgurante de Flávio
Carvalho e a ação do Club dos Artistas Modernos (CAM),
onde a polícia também interveio como foi o caso do
Teatro Experiência em 1933, quando do Bailado do
Deus Morto. Mas a maior marca do surrealismo nesta
época está presente na obra explosiva e transgressora
de Maria Martins, cuja obra escultórica é uma das mais
brilhantes de todo o surrealismo; e que a crítica
brasileira fez e faz questão de ignorar. Em Ismael
Néri, Jorge de Lima e Murilo Mendes, vemos a influência
surrealista se dissolver num catolicismo radical, que
pretendia restaurar a poesia em Cristo. É difícil
relacionar a beleza convulsiva bretoniana com os versos
de Jorge de Lima: Senhor Jesus, o século está
podre./ Onde é que vou buscar poesia?. Todos os
três são grandes artistas, mas não têm nada a ver com
o surrealismo!
A geração que sai da ditadura de Vargas ainda tem como
patrono Frederico Schmidt, esse Átila do modernismo, de
quem Mário ainda escreveu: De Schmidt, pode-se
dizer que atirou no que viu e matou o que não viu (...).
A sua poesia é um convite à procissão. Essa
procissão ficou conhecida como Geração de
45. E os seus poetas se transformaram nos jesuítas
da poesia brasileira, pregando a ressurreição do soneto
e articulando o que podemos chamar de vingança
formalista contra a poesia do modernismo. É no Clube de
Poesia de São Paulo que essa geração teve a sua
igreja: Péricles Eugênio da Silva Ramos, Domingos
Carvalho da Silva, Ledo Ivo, Darcy Damasceno, entre
outros, faziam parte dessa cruzada contra a utopia
modernista. Três jovens poetas também faziam parte
dessa igreja: Augusto de Campos, Décio Pignatari e
Haroldo de Campos, os quais irão formar alguns anos mais
tarde a santíssima trindade da poesia concreta no
Brasil, radicalizando a vingança formalista contra os
ideais estéticos de 22.
Em termos gerais podemos concluir que o conservadorismo
da geração de 45 venceu as propostas
utópico-estéticas do modernismo, porque encastelando-se
em abstrações formais afastou a poesia do público
leitor criando uma verdadeira aversão a qualquer tipo de
poesia. No caso da chamada poesia concreta em particular,
apesar da hegemonia político-cultural do grupo,
hegemonia essa garantida pelo acesso e participação nos
meios de comunicação, certamente os seus poetas terão
o direito de passar à história da poesia brasileira
apenas como os inventores da poesia de marketing no
Brasil. No mais, o concretismo foi luckasianamente a
quarta-feira de cinzas da geração de 45 e croceanamente
foi o ocaso do verso na eutanásia da poesia. O melhor
juízo sobre o concretismo continua sendo a definição
de Cacáso: O concretismo foi o AI. 5 da poesia
brasileira.
A bandeira do surrealismo no Brasil terá que esperar
pelo menos até a década de 60 quando, então, novos
poetas e artistas, principalmente do Rio e de São Paulo,
ressuscitarão a fênix do surrealismo e do modernismo
brasileiro. Como ponto final deste ensaio fiquemos com as
palavras de Mário de Andrade em 1942: Será que a
liberdade é uma bobagem? (...) Será que o direito é
uma bobagem? (...) A vida humana é que é alguma
coisa a mais que ciências, artes e profissões. E é
nessa vida que a liberdade tem um sentido, é o direito
dos homens. A liberdade não é um prêmio, é uma
sanção. Que há de vir.
*Carlos Lima é poeta e professor de História da Cultura Brasileira no Instituto de Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ.