O poema-receita Para fazer um soneto, de Carlos Pena Filho, traduz de maneira simples e honesta a dificuldade e a convulsão por que passa o artista no momento da criação literária. É necessário estar atento, nos ensina Pena Filho, totalmente disponível ao texto e às palavras, e aguardar pelo ‘instante ocasional’, quando a palavra inicial naturalmente aflora. Aí, é preciso regar uma a uma, partindo sempre da flor-palavra mais simples, mais local. Não use muita cor, nem muito espaço e não se apresse. Antes, deixe-se embalar por suas lembranças de infância. Mas, se chegar à escuridão a sua certeza, leia um pouco de Rilke, Borges, Mansfield e Andrade. E então comece.
Rainer Maria Rilke nasceu em Praga em 1875. Poeta, seu estilo é marcado pelo uso de imagens e pelo tom espiritual. Katherine Mansfield nasceu em Wellington em 1888. Escreveu prosa com uma poeticidade rara e contribuiu para firmar o conto como forma literária. Mário de Andrade nasceu em São Paulo em 1893. Foi um dos idealizadores e organizadores da Semana de Arte Moderna de 22, marco do movimento modernista brasileiro. Escreveu poesia, romances e crítica e defendeu com sua obra uma linguagem coloquial e um falar tipicamente brasileiro. Jorge Luís Borges nasceu em Buenos Aires em 1899. Foi poeta, ensaísta e contista e boa parte de sua obra é caracterizada pelo fantástico .
O que, então, têm em comum escritores de estilos tão distintos e diferentes passados continentais, a não ser o fato de terem nascido em fins do século 19 e escrito nas primeiras décadas do nosso século? Veremos, a seguir, como esses artistas compartilham das mesmas idéias sobre o ato de escrever e o mistério da criação literária.
Mansfield entendia o processo de criação literária , em suas palavras ‘a faculdade de escrever’, como uma excitação vital para a saúde do espírito, um exercício da alma que deve ser realizado sempre, simplesmente, livremente. Escrever ao cair da tarde (esta é “a hora das horas”), escrever qualquer coisa e tudo, “do fundo do (...) coração”. Não há porque esperar pela inspiração. Estar inspirada é escrever, é ter uma necessidade natural e urgente de se expressar pela escrita. Tudo pode ser transformado em história, e o que o escritor não toca, seca, murcha, se esvai. Mansfield se refere à beleza do mundo como “as coisas que realmente contam”: o espetáculo das árvores com suas pinhas roxas, as andorinhas e “seu vôo palpitante..., a beleza do jardim, a beleza das aléas...”. Cuidado, alerta: o ócio é o maior hóspede da alma e não cede facilmente. É preciso ser persistente, ler livros (por mais medíocres que sejam), escrever tolices e um dia se perguntar o que pretende com sua escrita. Mansfield pretendeu muitas coisas: pagar uma ‘dívida sagrada’ à pátria onde nasceu, pagar uma dívida de amor às pessoas que deixou para trás, revisitar lugares, reviver conversas, recordar lembranças. Acreditava ser o papel do escritor reconstruir as memórias do passado com um sentido de mistério e esplendor. Para realizar sua vocação, era preciso que ela estivesse em paz com seus demônios, seu passado inquietador.
Rilke, à semelhança de Mansfield, buscava, incessantemente, encontrar ‘o instrumento’ de sua arte, seu ‘martelo’ de mestre escultor de versos. Também este acreditava no trabalho quotidiano, na observação dos acontecimentos diários, na escrita simples, sincera. Rilke ensina: “Fuja dos grandes assuntos em favor daqueles que seu quotidiano lhe oferece. (...) Diga tudo isso com uma sinceridade íntima, tranqüila e humilde. Utilize para se exprimir as coisas que o cercam, as imagens de seus sonhos, os objetos de suas lembranças.” (...) “Preocupa-me saber tão pouco sobre as flores, os bichos e esses fenômenos simples onde a vida se eleva como uma canção. (...) disponho-me a ver, olhar melhor, mais pacientemente, a aprender a me absorver na contemplação das pequenas coisas que sempre negligenciei...” É interessante notar, ainda, como os dois autores chegam a utilizar as mesmas palavras ao refletirem sobre o ato de escrever. Rilke escreve em uma de suas Cartas a um jovem poeta: “Entre em si mesmo, busque a necessidade que o leva a escrever: examine se tem raízes no mais profundo de seu coração. Confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse proibido escrever? (...) Sou realmente obrigado a escrever? Se a resposta é afirmativa, (...) então construa sua vida segundo esta necessidade.” Mansfield, em seu diário, escreve: “Por que esperas, por quê, se o teu desejo mais profundo é ser um escritor, é fazer uma obra?” E em outra carta: “É agora que quero realmente escrever! (...) terei eu menos desejos de escrever do que tinha outrora? A minha necessidade de escrever será menos urgente? Parecer-me-á tão natural como dantes essa forma de expressão? (...) nunca foi tão ardente meu desejo de escrever.” (Todos os grifos são meus).
Rilke, em sua definição de obra de arte, encontra-se estreitamente alinhado com o modernista Andrade. Para Rilke, as obras de arte são “seres secretos cuja vida não acaba e que coteja a nossa que passa.” Acreditava que os bons poemas “têm existência própria, independência (...)” Andrade afirmou em carta a Fernando Sabino: “...o que importa não é exatamente você mas a obra de arte. Isto é: uma forma coletiva de vida humana. (...) Você cria um objeto que vai agir sozinho, ..., sem mais a interferência de você. (...) Você criou um elemento de eternidade.” Para Andrade, a obra de arte visa a transcendência dos objetos comuns para uma forma coletiva de beleza, de singularidade. Os objetos que o poeta não toca, não nomeia, permanecem apenas objetos secos, duros. Essa transcendência é conflituosa e difícil na mente do laborioso escritor. A exemplo de Mansfield, o segredo de escrever, para Andrade, reside no exercício e na reflexão. Escrever sempre, se aperfeiçoar aos poucos, progredir. É preciso ter “uma ambição enorme, uma paciência enraivecida” para agüentar o destino de ser escritor. Ser escritor é ser operário. Labutar horas a fio, mesmo sem disposição. A inspiração não chega sozinha, o artista precisa preparar seu espírito para recebê-la. Então, deve utilizar-se de recursos como o de tomar notas de frases e traços psicológicos, idéias e assuntos com possíveis valores funcionais (o termo é de Andrade), que é uma forma de predispor-se para o ato de criação e convidar a entrar a inspiração. Assim como Mansfield, Andrade preocupa-se com o valor de um assunto. O que ele tem de útil? O que pretende o escritor comunicar ao utilizá-lo? Feita esta avaliação da validade funcional é imprescindível burilar a obra, polir o texto, ser crítico, “cortar o que não presta, (...) encher vazios. Escrever é “coisa lenta, difícil, penosa”, conclui o modernista.
As idéias de Borges a respeito da criação literária tocam, em parte, algumas das definições dadas pelos outros escritores. Tal como Rilke, que afirmou ser a obra de arte um ato inexprimível racionalmente, que se “realiza numa região que jamais uma palavra tocou”, Borges acredita ser a poesia um elemento misterioso , sobre o qual o poeta não tem controle e que não o deve envaidecer. O artista, o escritor, é antes um escolhido pelo ‘Acaso’ ou pelos ‘Espíritos’ para traduzir em versos a beleza do mundo. Mas, ciente desta escolha não deve descuidar-se de ‘astúcia’ ou de uma estética. Deve, antes, “eludir os sinônimos, (...), eludir hispanismos, argentinismos, arcaísmos e neologismos; preferir as palavras habituais às assombrosas [caráter de simplicidade da obra de arte]; intercalar no relato traços circunstanciais, (...).” Isso e mais, para que a obra do artista possa merecer a memória de seu público, mesmo depois, muito depois, de sua partida.
A definição de Rilke sobre obra de arte - “Uma obra de arte é boa quando nascida de uma necessidade”, parece resumir as visões dos quatro autores sobre a criação literária. Yves Bonnefoy, poeta francês nascido em 1923, entende que “é preciso provocar a poesia”, pois, inspiração é algo que não existe. “Um livro de poemas significa trabalho: um trabalho de escuta. Há grupos de palavras que é preciso interpretar quando estão passando por nós.” Encontramos em Bonnefoy um conceito muito próximo do que escreveu Rilke em sua elegia de número 9: “ (...) todas as coisas parecem precisar de nós, essas efêmeras que estranhamente nos solicitam. (...) Estamos aqui talvez para dizer: casa, ponte, árvore, porta, cântaro, fonte, janela (...).” Eis a necessidade de Bonnefoy e a de Rilke: interpretar palavras, mergulhá-las numa outra ordem de conceitos, liberar a mente das pessoas para um interpretar diferente, lutar contra a linguagem preestabelecida. Mostrar em vez de significar. Repousa aí o valor das idéias e das obras de Rilke, Borges, Mansfield e Andrade, escritores que foram uns dos grandes do nosso século.
Marina Ferraz é crítica literária e mestra em teoria literária pela Universidade Federal de Pernambuco.