MEDUSA
Cortei a cabeça da Medusa
por inveja. Quis eu mesmo o
olhar
sem olhos que se vê e recusa
a ser visto e desse modo faz
das demais pessoas : pedras
sim,preciosas, da mais pura
água,
onde o olhar mergulha até a
medula,
diáfanas, translúcidas, cegas.
Refleti muito, antes . Na
verdade
estes meus olhos provêm de
carne
de
mulher, não do nada imortal
da divindade. Como encarar
com eles a Górgona ? Mas mal
pensando assim, lembrei ser
mortal
ela também: e
seu pai é um deus
do mar mas eu sou
filho de Zeus .
Mesmo assim não quis
enfrentá-la olhos
nos olhos. Peguei emprestado
o espelho
da minha
irmã e adentrei o cômodo
da Medusa de soslaio, vendo
tudo por reflexos: o seu corpo
em
terceiro plano, atrás de heróis
de pedra e dos meus olhos
esconsos
em primeiríssimo. Eis o corte
da lâmina especular: do lado
de cá eu, sem corpo, a
olhar; do outro
lado eu, olho olhado, olho
enviesado
e rosto e corpo entre muitos
corpos,
um dos quais o dela. A mesma
lâmina
decapitou-a também: do lado
de
cá guardo seu olhar e faina;
e lá jaz seu vulto desalmado .
Mas nada é tão simples. Do
pescoço
Cortado nasceu um cavalo de
asas
( é que o deus do mar a
engravidara)
e mergulhou no horizonte em
fogo
crepuscular. Contam que, no
monte
Hélicon, seu coice abriu
uma fonte.
A ser
não sendo, de madrugada
Levanto
com sede dessa água.
Antônio
Cícero
( inédito)
VÊNUS ( para N I
B )
1.
sempre disse
este é um lugar onde me
pagam tanta grana por um beijo e
uma moeda pela alma
e tudo bem, podem
esbofetear-me
não será a primeira ou a
última vez
recusei mais de um casamento
por dinheiro
mas venho vendendo todos os
meus sorrisos,mesmo os
que ainda não tive
ondulações de carne,
apertos de músculos
e deixo me enfiarem a mão
sob a saia sem nenhum
sobressalto de voz
olha
eu dou para qualquer um que
queira me pagar uma semana de aluguel
ou acene com com letreiros
luminosos
ainda que levantem dúvidas
sobre meu talento
se não passo de uma
criança estúpida,
manipulada por todo tipo sem escrúpulos
ou se de fato há algo
de inigualável em minha presença
além do volume da bunda e
da angulação dos meus peitos
mas sobre isso, carrego o
argumento imbatível
para mim , tudo é
possível
2.
somente a luz se fixa nas
curvas do meu rosto
o amarelo sobreposto à raiz
negra dos cabelos e uma
calma recém disposta entre o olhar e o aceno
nenhuma sombra dos vômitos,
dos barbitúricos,
estimulantes , tranqüilizantes, moderadores de apetite
das manchas nos dedos e
nos dentes
nenhum resíduo de insônia,
do roer de unhas, da
incontinência urinária
das marcas deixadas pelo
peso anônimo de tantos corpos sobre o meu
nem mesmo lembranças
de nomes, pessoas, clínicas, becos
e bancos traseiros de automóveis
ou de quando acordei
assustada em cama desconhecida
agora em meu corpo não cabe
mais nada
a não ser a pele clara,
arrepiada pelo vento
um discreto e proposital
franzir de cenho
e como toque final, a
sucessiva indagação
até quando
3.
reconheço a crueza no meu
corpo desbotado
agora que a vida me abandona
sem barulho
jornalistas e outros patifes
vão dizer amanhã como foi
trágica a minha morte e todo esse blablablá
mal sabem eles
essa é a mais fácil das
aventuras
duro mesmo foi acordar e
continuar vivendo , mal sabem eles
não vêem nenhuma virtude
na ignorância
nem intensidade nas mentiras
que contei
ao diabo com as homenagens,
missas e rezas
enfiem no rabo as
retrospectivas, as tiragens especiais, os selos comemorativos
sempre deixei claro
prefiro o assobio do
servente de pedreiro quando atravesso
a rua de malha colada e sem calcinha
gostei mais dos caras
comuns, rudes e até meio violentos
no fim das contas, sempre
acabava dormindo sozinha,
envolta somente em aroma e pesadelo
aprendo
diante do corpo esvaziado de
toda dor
trágico foi ter tão cedo
vislumbrado um caminho e tê-lo
seguido apesar de tudo
mal sabem eles o quão foi
tranqüila esta última decisão.
tomada no final da tarde, ao sair do banho
senti que a coisa toda já
dera o que tinha de dar
assim, depois de telefonemas
e anotações inúteis em meu diário
sentei-me na beirada da cama
e meio sem querer
soltei a terrível
gargalhada
Caio
Meira (inédito)

Amanhã
talvez queira ser de novo
um pequeno deus
ou quem sabe ainda
hoje mesmo,
mas mais tarde,
eu
mergulhe
nas horas sucessivas
que o relógio de metal
grava.
Amanhã, ou sei lá
depois
de amanhã, eu talvez pense
de novo que a vida entrou
pela porta
fazendo de mim o que quis
uma inverdade, diga-se,
já que não sabemos
suas reais intenções
naquele exato momento de
entrada, ou,
quem saberá ?, se de saída
,
se porventura não quis
(ela, a vida)
fazer mais, fazer tudo,
pela boca, pela buça, pelo
cu,
ou ainda fazer menos, uma
pequena brisa
apenas roçando a
sobrancelha,
se os intuitos (da
vida ) não foram
interrompidos por um
cigarro, uma bala
de chupar, um guarda-chuva
respectivos, ou, perdoem, a
circunstância
do poema exige que diga, se
existe
isto que chamamos vida,
sendo neste caso a vida
lupanar .
Sim, não sabemos, repito.
Agora
me entrego dentro de um
carro,
soletro meu nome,
a pele no canto dos dedos
arrancada
por alicate ...
Fechando o vidro, penso :
sim,
sim,
a gente nunca pensa
que é
tarde.
Sérgio
Nazar David -1998
in: Onze
moedas de chumbo (inédito)
S/TÍTULO
Como se
opor à ruína
quando ela se desenha no ar
?
São fragmentos, não de
corpo,
memória formando paisagens.
Como deter aqui mesmo
o sofrimento que se avizinha
sem pedir licença
perdão,
e a tudo desmorona
com a força, porém
silenciosa,
dos grandes bombardeios ?
_ Sou fraco, sempre soube
disso.
E rumino, pois também sou
bicho,
as gramas desordenadas
desse jardim .
21/07/97
Heitor Ferraz
in: A mesma noite

NASCIDO NA SEGUNDA
METADE DOS
ANOS 60
Na melhor das hipóteses,
ser salvo por uma certa
corrosão no fígado. Um
gosto de ferrugem
na boca conseguir
saboreá-lo. Um travo de trabalho
entalado na garganta
conseguir engoli-lo,
depois defecá-lo. Não me
importar com a vazante
do dinheiro pelo nervo
cidadão, é o que dizem. Nem
com o destino de antigos
amigos: um em Santa Catarina
numa clínica para drogados;
outro cria canários
em seu quarto na casa dos
pais; um terceiro
pede dinheiro emprestado: a
mulher que tirou do puteiro
para se casar com ela tem de
fazer um aborto
do que seria o quarto filho;
aquele morreu afogado
em dia de ressaca, horas
depois de demitido
e meses após a vasectomia.
Escrevo o poema
de uma nova geração,
dizendo que, se possível, faria como querem.
Iria mais longe,
participaria dos
escândalos políticos, da
violência econômica, esqueceria
o preço do aluguel e do
condomínio, a inadaptação
social ... Mas intimidade
só consigo quando me [esqueço
de mim pela cidade; quando
subo ao cume e avisto _ paisagem ;
quando abraço as
noites de lençóis e álcool
com a mulher amada, quando
encontro, ao mijar nas
pedras da baía, a concha
imensa e ensolarada de um
molusco há muito
desaparecido .
Alberto Pucheu
/ 1999)
In:
Ecometria do silêncio