Poemas de "Essa língua será da alma para alma"
                                                   
          - seleção de Cristina Mayrink

         

      

                                 

      

 

MEDUSA  

      Cortei a cabeça da Medusa  
por inveja. Quis eu mesmo o olhar  
      sem olhos que se vê e recusa  
      a ser visto e desse modo faz  
das demais pessoas : pedras  
sim,preciosas, da mais pura água,  
onde o olhar mergulha até a medula,  
     diáfanas, translúcidas, cegas.  
Refleti muito, antes . Na verdade  
estes meus olhos provêm de carne  
    de mulher, não do nada imortal  
      da divindade. Como encarar  
       com eles a Górgona ? Mas mal  
pensando assim, lembrei ser mortal  
   ela também: e seu pai é um deus   
  do mar mas eu sou filho de Zeus .  
Mesmo assim não quis enfrentá-la olhos  
nos olhos. Peguei emprestado o espelho  
    da minha irmã e adentrei o cômodo  
         da Medusa de soslaio, vendo  
       tudo por reflexos: o seu corpo  
    em terceiro plano, atrás de heróis  
de pedra e dos meus olhos esconsos  
      em primeiríssimo. Eis o corte  
      da lâmina especular:  do lado  
de cá eu, sem corpo, a olhar; do outro  
lado eu, olho olhado, olho enviesado  
e rosto e corpo entre muitos corpos,  
um dos quais o dela. A mesma lâmina  
      decapitou-a também: do lado  
     de cá guardo seu olhar e faina;  
       e lá jaz seu vulto desalmado .  
Mas nada é tão simples. Do pescoço  
Cortado nasceu um cavalo de asas  
( é que o deus do mar a engravidara)  
e mergulhou no horizonte em fogo  
crepuscular. Contam que, no monte  
Hélicon, seu coice abriu uma fonte.  
    A ser não sendo, de madrugada  
    Levanto com sede dessa água.  

                                       Antônio Cícero ( inédito)

  


   

      VÊNUS ( para N I B )  

1.  

sempre disse  
este é um lugar onde me pagam tanta grana por um beijo e  
         uma moeda pela alma  
e tudo bem, podem esbofetear-me  
não será a primeira ou a última vez  
recusei mais de um casamento por dinheiro  
mas venho vendendo todos os meus sorrisos,mesmo os
         que ainda não tive  
ondulações de carne, apertos de músculos  
e deixo me enfiarem a mão sob a saia sem nenhum   
         sobressalto de voz  
olha  
eu dou para qualquer um que queira me pagar uma semana de aluguel  
ou acene com com letreiros luminosos  
ainda que levantem dúvidas sobre meu talento  
se não passo de uma criança estúpida, 
manipulada por todo tipo sem escrúpulos
  
ou se de fato há algo de inigualável em minha presença
além do volume da bunda e da angulação dos meus peitos  
mas sobre isso, carrego o argumento imbatível  
para mim , tudo é possível   

2.  

somente a luz se fixa nas curvas do meu rosto  
o amarelo sobreposto à raiz negra dos cabelos e uma  
         calma recém disposta entre o olhar e o aceno  
nenhuma sombra dos vômitos, dos barbitúricos,  
          estimulantes , tranqüilizantes, moderadores de apetite  
das manchas nos dedos e nos  dentes  
nenhum resíduo de insônia, do roer de unhas, da  
         incontinência urinária  
das marcas deixadas pelo peso anônimo de tantos corpos  sobre o meu  
nem mesmo lembranças de  nomes, pessoas, clínicas, becos  
         e bancos traseiros de automóveis  
ou de quando acordei assustada em cama desconhecida  
agora em meu corpo não cabe mais nada  
a não ser a pele clara, arrepiada pelo vento  
um discreto e proposital franzir de cenho  
e como toque final, a sucessiva indagação  
até quando  
   

3  

reconheço a crueza no meu corpo desbotado  
agora que a vida me abandona sem barulho  
jornalistas e outros patifes vão dizer amanhã como foi  
          trágica a minha morte e todo esse blablablá  
mal sabem eles  
essa é a mais fácil das aventuras  
duro mesmo foi acordar e continuar vivendo , mal sabem  eles  
não vêem nenhuma virtude na ignorância  
nem intensidade nas mentiras que contei  
ao diabo com as homenagens, missas e rezas  
enfiem no rabo as retrospectivas, as tiragens especiais, os selos  comemorativos  
sempre deixei claro  
prefiro o assobio do servente de pedreiro quando atravesso  
         a rua de malha colada e sem calcinha  
gostei mais dos caras comuns, rudes e até meio violentos  
no fim das contas, sempre acabava dormindo sozinha,
          envolta somente em aroma e pesadelo
  
aprendo  
diante do corpo esvaziado de toda dor  
trágico foi ter tão cedo vislumbrado um caminho e tê-lo  
        seguido apesar de tudo  
mal sabem eles o quão foi tranqüila esta última decisão.
          tomada no final da tarde, ao sair do banho  
senti que a coisa toda já dera o que tinha de dar  
assim, depois de telefonemas e anotações inúteis  em meu  diário  
sentei-me na beirada da cama e  meio sem querer   
soltei a terrível gargalhada  
   

Caio Meira  (inédito)  



 
 

Amanhã  
talvez queira ser de novo  
um pequeno deus  
ou quem sabe ainda  
hoje mesmo,  
mas mais tarde,  
eu  
mergulhe  
nas horas sucessivas  
que o relógio de metal grava.  

Amanhã, ou sei lá depois  
de amanhã, eu talvez pense  
de novo que a vida entrou pela porta  
fazendo de mim o que quis –  
uma inverdade, diga-se,  
já que não sabemos  
suas reais intenções  
naquele exato momento de entrada, ou,  
quem saberá ?, se de saída ,  
se porventura não quis (ela, a vida)  
fazer mais, fazer tudo,  
pela boca, pela buça, pelo cu,  
ou ainda fazer menos, uma pequena brisa  
apenas roçando a sobrancelha,  
se os intuitos  (da vida ) não foram  
interrompidos por um cigarro, uma bala  
de chupar, um guarda-chuva  
respectivos, ou, perdoem, a circunstância  
do poema exige que diga, se existe  
isto que chamamos vida,  
sendo neste caso a vida lupanar .  
Sim, não sabemos, repito. Agora  
me entrego dentro de um carro,  
soletro meu nome,  
a pele no canto dos dedos arrancada   
por alicate ...  
Fechando o vidro, penso :  
sim,  
sim,  
a gente nunca pensa  
que é  
tarde.  

Sérgio Nazar David -1998  
in: Onze moedas de chumbo (inédito)

 


 

  
 

      S/TÍTULO  
   

Como se opor  à ruína  
quando ela se desenha no ar ?  
São fragmentos, não de corpo,  
memória formando paisagens.  
Como deter aqui mesmo  
o sofrimento que se avizinha  
sem pedir licença  
perdão,  
e a tudo desmorona  
com a força, porém silenciosa,  
dos grandes bombardeios ?  
_ Sou fraco, sempre soube disso.  
E rumino, pois também sou bicho,  
as gramas desordenadas  
desse jardim .  

                              21/07/97
                                             Heitor Ferraz
                                 in:
A mesma noite


                                 

      NASCIDO NA SEGUNDA METADE DOS ANOS 60  

Na melhor das hipóteses, ser salvo por uma certa  
corrosão no fígado. Um gosto de ferrugem  
na boca – conseguir saboreá-lo. Um travo de trabalho  
 entalado na garganta – conseguir engoli-lo,  
depois defecá-lo. Não me importar com a vazante  
do dinheiro pelo nervo cidadão, é o que dizem. Nem  
com o destino de antigos amigos: um em Santa Catarina  
numa clínica para drogados; outro cria canários  
em seu quarto na casa dos pais; um terceiro  
pede dinheiro emprestado: a mulher que tirou do puteiro  
para se casar com ela tem de fazer um aborto  
do que seria o quarto filho; aquele morreu afogado  
em dia de ressaca, horas depois de demitido  
e meses após a vasectomia. Escrevo o poema  
de uma nova geração, dizendo que, se possível, faria   como querem. 
Iria mais longe, participaria dos
  
escândalos políticos, da violência econômica, esqueceria  
o preço do aluguel e do condomínio, a inadaptação  
social ... Mas intimidade só consigo quando me [esqueço  
de mim pela cidade; quando subo ao cume e avisto _   paisagem ; 
quando abraço as noites de lençóis e álcool
  
com a mulher amada, quando encontro, ao mijar nas  
pedras da baía, a concha imensa e ensolarada de um  
molusco há muito desaparecido . 

                                                 Alberto Pucheu / 1999)
                                                    In: Ecometria do silêncio