Poemas de Eliana Mora

 


Poemas ( de 1 a 10) extraídos de Ondas de Poesias- Especial Eliana Mora 
Seleção feita por Rita Sá (email: rvls@teleweb.pt )
Equipe Mar de Poesias

 

 

 

 

Desabafo cor de sangue

De onde tirei de mim
felicidade
de como arranquei de mimos tufos
da saudade
De como sobrevivi
a tantas e tão constantes
tempestades
de como ainda sorri
e disse
Olá

De como percebi que a minha sina
não era só a de perder
mas poderia ser
a de ganhar

De quanto persegui aqueles sonhos
que são da infância
sim

Mas o que há 
que sonhos já não podem mais
nem ser sonhados

Que trunfos nem sequer maispodem
ser usados
na hora que convém


Que cartas
não se escondem mais
por sob as mangas
por sobre
abas de chapéu
por entre tranças e algum véu
        serenidade

Eles estão em meio a densos
caudalosos rios que percorrem
veias vivas
Veias que podem ser abertas
e delas extraída
tinta rubra
Algo que conta mais do que cantiga 
que cantaram
para nós

Como se fossemos sempre
ser alguém pequeno
de olho arregalado
diante [e distante]
do desdém

E do que existe para além do Além
ou do aquém
da Vida

Ou do horizonte

que se tem

             [ cinco de agosto de 1999]

 

 




 Orquestra encantada

Não faço verso estruturado
nem soneto
Mas sei que guardo alguma espécie

deinstrumento
Um mar de notas
          muito desorganizado

[uma orquestra que reside no meu peito]

Que me congela em qualquer lugar
e hora
Emite tons sinais
valores sentimento

Caixa de som
estúdio interno
       estranho palco
Onde o ator vai se inspirar
no meu tormento

Quebra-cabeças pista
trilha chão rochedo
pisar aqui
é trabalhar em
cena aberta


Porque ele existe
se desarma e nada alega
Só vai trair e traduzir
a dor secreta

Qualquer clarim solta rumores de suborno
E meus regentes me escravizam
      [são estetas
Sua missão é arrancar-me
 do abandono

Eles surgiram do meu vício

de Poeta

                   [ 24 de julho de 1999 ]

 

 

 


Árvore nua

não respondes
vem a brisa
meu coração se arboriza
galhos pendem

um a um

                    [ 08/10/99 ]

 

 



      Soldado raso do amor

Desfalcada infantaria
ferro partido
rumo perdido


             [ 01 de dezembro de 1999 ]

 






       Estranho adeus

Rasga tua boca
em minha faca 
sente a dor
prescrever o verso que tu vais gozar
vê sangrar
num canto da tua boca o gosto
do meu beijo

Aí sim
podes pedir que eu me vá


              [quatro de dezembro de 1999]



 

 

Ele 

Cabelos escorridos
meio dourados
de uma gramatura muito fina
pendurados numa face 
de marfim
a emoldurar aquele rosto
distante de minha mão  que parou nas teclas
como que a sentir 
aquele olhar 

De fato
memória  nunca me faltou

           [17 de março de 2000]  

 



       Bordado comum

Faço tricôs semânticos
para bordar
com linhas já usadas
As letras
do teu nome

E alinho
cordas novas
em refrão
rascunho de novos
acordes

[em meu coração]

1982 [Resgatado e modificado em 13 de agosto de 1999]




 



        Sou esta

Minha tradução
são poucas linhas
discretas
quase junto aos olhos verdes assustados
de assistir há tantas luas
o frio se aproximar

E arranhar
minha pele carente clara e presente
no quarto na sala
nos devo-fazer do dia
[na Poesia]

Na busca de não mais me proteger
da vida que ainda pode bater
aqui
à minha porta

Luta diária
luto de branco
cabelos louros a se enroscar
a tentar espreguiçar
a alma

Fervor de encarar ainda
algum momento
Imenso
como o quadro de Van Gogh preso
aqui na parede

Espero
desespero porém
não desisto

canto
choro
invisto

[estou aqui]


                        [15 de março de 1999]




 

    
   
      



      Previsão

O tempo anda
trovoando em mim

É sempre assim
que as águas de março
se antecipam

                   [14 de janeiro de 1999]



 

   
   

 


        Pacto com um sol de primavera

Eu queria ser um sol
um sal
um sul
de Primavera
para que meu desnorteio
riscasse no teu mapa   algum caminho

a apontar o palco
a luz
a seda
o vinho

E quando conseguisse ser
o sal
no sul
de um sol de Primavera

iria perceber
devagarinho
o som
de sua poderosa  atmosfera

e um delicado pólen a penetrar
em minha tenra
flor

eu sentiria


E de repente   então
feliz

até seria

                [nove de setembro de 2000]


 

 

Estranha encruzilhada

Com qual  daqueles meus olhares vou te olhar
agora

com qual  daquelas minhas bocas vou gritar
pelo teu nome

com qual daquelas minhas vidas

vou seguir prosseguir

ou simplesmente
conseguir


continuar?

                    [sete de outubro de 2000]



 

Óleo sobre tela 

 

Olho para a tela
desenho atalho para o caos
ao registrar a senha de um amor 

E tudo permanece como antes
de eu ter com meu barquinho navegado
em busca de alguns textos
de Dante 

Sem planejar virei Amor 
    
[ou Beatriz
vivi meu Céu 
de notas claras  me vesti
desprogramada para as cores e os pincéis
fui tua dama
tua lenda  luz e tema  

E meu Inferno nem ainda 
terminou 

           [24 de março de 2000]

 

 

 




Eliana Mora, poeta e jornalista, reside no Rio de Janeiro, onde  atua em comunicação para mídias alternativas e integração de comunidades literárias na Internet. É coordenadora e editora do Portal Mar de Poesias [http://www.mardepoesias.com.br]. Participa de listas de discussão sobre literatura, em geral, e poesia, em particular.Tem  trabalhos  publicados em vários sites de literatura. Ministra cursos de Locução & Interpretação de textos (poéticos e jornalísticos) e dá palestras sobre Poesia:" Vida e ato de criar".

 Entre em contato com Eliana Mora pelos endereços eletrônicos abaixo:

elpoeta@ig.com.br
 
elianamora@uol.com.br
 
emorapoeta@yahoo.com.br





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