Affonso Romano
de Sant'Anna

 POESIA REUNIDA

Entrevista realizada em janeirode 2005 por:

 -  Geraldo Carneiro
 - Luís Sérgio dos Santos
 - Antonio Barreto

 

 

 



 
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  a fortuna crítica de
Affonso Romano de Sant'Anna.

POESIA REUNIDA DE
AFFONSO ROMANO DE SANT`ANNA
lançada pela Editora L&PM
Volume 1 / Volume 2

 

 

             

 

 

   

POESIA REUNIDA DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA


Perguntas de Geraldo Carneiro:

1) Conheci você no princípio dos anos 70, quando, além de professor da PUC, você editava uma página sobre poesia no Jornal do Brasil, na qual publicava os poetas mais relevantes daquele tempo. O que foi que mudou na poesia brasileira de lá pra cá?

ARS - A poesia que surgiu nessa época tem ainda um certo charme, conforme os segundos cadernos e suplementos. Vivemos ainda digerindo a “poesia marginal”. Seus autores hoje são poetas maduros e já mereceram até teses universitárias. Outros, entre eles, morreram e portanto suas obras já ganharam contorno. Já começa a haver um distanciamento maior para avaliação crítica. Mas para que isto ocorra efetivamente é necessário que surja uma outra geração com outra linguagem, outro ponto de vista, além dos “guardiães” dessa poesia.
O que não me agrada muito é a impressão que ficou que a poesia dessa época é a poesia quase que só do Rio. Tem muita gente que fez boa poesia e não aparece em antologias nem é citada,a não ser nas antologias que o Assis Brasil fez, cobrindo estado por estado do país
Fora dessa linguagem, no entanto, alguns nomes ganharam celebridade, como Adélia Prado , Manuel de Barros e Hilda Hilst. Mas o que acho importante assinalar é que nos últimos 30 anos já não se nota mais a esquizofrenia que se apossou de nossa poesia nos anos 50 e 60, na qual ela tinha que optar entre o “canto” e a “palavra”.

2) Lá no princípio dos anos 70, todos nós, os mais moços e os mais velhos, queríamos ser modernos. Hoje o sonho de dez entre dez poetas novos é ser clássico. Você acha que essa oscilação é inevitável, ou será que isso é sinal de que vivemos tempos mais caretas e conservadores?

ARS - Por falar em tempo- velhice- mocidade, é curioso pensar que você mesmo, Geraldinho, foi meu aluno. A Ana Cristina,de alguma forma é minha parenta, eu é que a levei para a PUC. O Leminsky , eu o conheci em 1963, fui eu quem o apresentou aos concretos na semana de Poesia de Vanguarda que estávamos organizando lá em Belo Horizonte, quando eu era ainda estudante de letras. Portanto, é isso, o mundo roda e a Lusitana gira.Ora, a tendência natural é as pessoas amadurecerem sua linguagem, isto que você chama de “clássico”, ou, então, aquilo que Drummond dizia: “Agora que ficou chato ser moderno /serei eterno”.

3) Um exercício de futurologia poética: o que é que falta escrever na poesia brasileira? Novos poemas épicos, como o Borges andou preconizando? Uma nova Invenção (ou Desinvenção) de Orfeu?

ARS - Se me permite, respondo com um poema que está em “O lado esquerdo do meu peito”

ESCRITA IMPREVISÍVEL

Estamos escrevendo todos dentro do previsível.

Um trabalha a forma
outro solta o texto
num exercício de auto-estupefação
alguns conferem tudo
com teorias da moda
outros aplicam mais tempo
na imagem que na obra.

Estamos todos escrevendo dentro do previsível.

Segue a vida literária:
cada um polindo seu nome de autor
quando de repente
não se sabe de onde como nem por quê
irrompe o texto inovador
sagrado e transgressor
que nos resgata
com olímpico fulgor.

O texto que torna o texto alheio
um punhado de palha
ungida
       _com inútil suor.



Perguntas de Luís Sérgio dos Santos:

1) Affonso, na recente visita que você fez ao Chile durante a comemoração do centenário de Pablo Neruda você relatou no jornal O Globo o muito que um poeta pode fazer por seu país.
Creio que de fato pode fazer muito, é só imaginar obra do Vinícius que tanto ajudou a colocar principalmente a música brasileira conhecida pelo mundo.
Diga lá o que você considera de mais importante entre tantas realizações que o Neruda fez por seu país?

ARS - Um grande artista é como um grande engenheiro, um grande cientista, ele agrega concretamente coisas novas na paisagem cultural do país. Este não é o mesmo depois que o grande artista surje. Foi assim com Machado ou Drummond, com Rosa e Euclides da Cunha.

2) Acredito que a revista POESIA SEMPRE criada por você é um importante veículo de comunicação da Poesia, e da cultura brasileira pelo mundo.Inclusive a idéia de lançar a revista em vários países foi muito boa, e lançar com a participação de autores de outros países completa a movimentação que surge na divulgação de tantos autores de diferentes culturas.
Como foi a elaboração da criação da revista, descreva as dificuldades, e o que foi conseguido?
( Eu tenho a grande satisfação de ter participado do número seis ).

ARS - A revista foi algo muito original. As seções, por exemplo, onde um poeta explicava um poema seu; a seção de traduções diversas de um mesmo poema- verdadeira aula de criação poética; os poemas brasileiros em dinamarquês, inglês, alemão, etc; a aproximação entre a poesia que se faz agora no Brasil e nos outros países; o esforço de lançar a revista em uma dezena de países, aproveitando viagens de trabalho que eu fazia; o mandar grupos de poetas a várias cidades brasileiras e a vários países, tudo isto ajudou a formar uma geração, certos poetas que nem se conheciam nem se frequentavam tiveram aí uma chance nova em sua vida e carreira. E,sobretudo, o projeto de por na revista sempre a poesia latino-americana, portuguesa e africana, praticando uma política cultural de aproximação de valores. O esforço era produzir uma revista que não fosse provinciana, que fizesse nossa cultura dialogar com o mundo.

3) Como é ser poeta num país de 999.999 poetas ...sem fazer a contagem de todos, e sem colocar que esta estatística já estava no poema do seu livro POESIA SOBRE POESIA a qual lançamento pude comparecer há tanto tempo?
Esse número de poetas tende a aumentar muito?

ARS - Sim, tem aumentado muito. E vai aumentar mais. Dentro e fora do país. A poesia é uma fatalidade do espirito humano.

4) É muito difícil ser poeta? Devido a que tem tanta gente querendo ser poeta?

ARS - Há que diferenciar versejador e poeta, há que diferenciar o exercicio eventual da poesia da preocupação de organizar-se existencial e historicamente através da linguagem. Ser poeta é uma carreira de longo curso.

5) Quais são as vantagens, e desvantagens para quem quer inserir essa atividade no projeto de vida ?

ARS - É um teste. Para mim foi fundamental. Tudo em mim é filtrado pela poesia. Ação e verbo.

6) Neste livro de 1975 portanto que neste ano agora completa 30 anos, você, termina com um poema escrito em Los Angeles em 1996, e diz já nesta época sobre computador:

"O poeta é uma soma:
- sua memória é o que aciona
seu autocomputador"

( no poema O POETA É UM DEVEDOR do livro POESIA SOBRE POESIA ).

ARS - Você tem uma peça arqueológica na mão, caro Luís Sérgio. Você bem lembrou, o livro está comemorando 30 anos e lá em Curitiba o professor Rodney Caetano está publicando uma tese sobre o significado de “Poesia sobre Poesia” dentro do da poesia brasileira entre os anos 50 e 70, a explosão das vanguardas, o autoristarismo e a busca de nova linguagens.

7) Caso eu não estivesse com o livro aqui não poderia dizer que num livro há trinta anos você já mencionava a palavra computador, num poema escrito faz quase 40 anos.
Como você vê a poesia e o computador nos dias de hoje?
Existe para você contra-indicações ao computador e, se existe, quais seriam?

ARS - Não. Mas em geral começo meus textos à mão. Achado o caminho vou para a máquina. Mas poesia, como entre os japoneses, é um exercicio gestual (também).


Perguntas de Antonio Barreto:

1) Affonso, gostaria que você falasse mais de sua experiência à frente da Biblioteca Nacional. O que você acha das atuais políticas públicas de incentivo à leitura no Brasil? O que avançou, o que precisa melhorar? O que foi mais positivo em sua gestão?

ARS - Ih, daria um livro, que comecei a escrever logo que saí da BN, e parei. Poderia, em suma, dizer duas coisas: primeiro dizer das dificuldades: passei por seis ministros e três presidentes, não havia estabilidade para o trabalho, não havia dinheiro, era o caos quando assumi. E descobrimos logo que dinheiro é ficção, que tem que se trabalhar e produzir assim mesmo, que dizer que não tem dinheiro é desculpa de quem não tem projetos nem vontade de trabalhar. O fato é que fizemos e acontecemos. Em qualquer lugar que vou no Brasil, ouço de um porteiro de hotel, de um garçon, de pessoas do povo sempre referências ao trabalho que fizemos. Ou seja, a Biblioteca entrou para o imaginário da população, que passou a dela se orgulhar.

Posso lembrar rapidamente algumas coisas que foram heroicamente feitas no plano da administração:
-reforma do prédio e informatização
-criação do Proler em 300 municipios com 33 mil voluntarios
-criação do Sistema Nacional de Bibliotecas aglutinando mais de 3 mil delas
-exportação da literatura brasileira com bolsas de tradução de obras, feiras de livros internacionais( Frankfurt,Salão do livro de Paris e Colombia), edição de livros e revistas em outras linguas,envio aos brasilianistas de um “clipping” com recortes dos suplementos literários, reuniões anuais com agentes literários internacionais,etc.
-criação da Poesia Sempre para colocar nossa poesia em contato com a poesia atual que se faz em outros países
-aquisição da Casa da Leitura em Laranjeiras e de três andares para a administração e começo de recuperação do Anexo no cais do porto
-uma politica cultural de aproximação com a comunidade de lingua portuguesa e com os países latino-americanos.
-a biblioteca se tornou lugar obrigatório de visita e as filas para consulta de obras eram imensas.
É uma pena a descontinuidade de trabalho. O governo FHC foi o pior que houve para a cultura.Aliás, ele nunca se referiu ao ministério da cultura em seus discursos, o que é revelador. E o atual governo está tentando, já melhorou muito em relação ao anterior,mas na área da promoção da leitura e construção de bibliotecas está ainda patinando.

2) Como você vê o panorama da Poesia Brasileira hoje? Por que ainda se edita tão pouco esse gênero? O que fazer para tirar a poesia brasileira da "margem" e criar um maior diálogo entre os criadores que estão fora do eixo central?

ARS - Este o problema, há bons poetas fora do “eixo”, mas não têm chance. O problema central é o chamado “sistema literário”.No Brasil, não funciona. Não é sistêmico.É fragmentado. Não é integrador. Quando criei a “Poesia Sempre” uma das politicas era publicar poetas de todo o país independente de gerações e tendências.

3) Na sua opinião, por que os escritores foram perdendo espaço na imprensa? Como a gente sabe, a relação entre jornal e literatura criou leitores a partir do século XIX.

ARS - Há alguns anos apresentei num seminário organizado por Alberto Dines no CCBB, uma pesquisa, analisando publicações brasileiras e estrangeiras, mostrando os problemas dos suplementos e segundos cadernos, que se transformaram em páginas voltadas para o espetáculo e que privilegiam fatos e autores estrangeiros secundários em vez de brasileiros de valor.O problema está por aí. E tem outras sequelas.

4) A escola é talvez o circuito privilegiado para a divulgação dos escritores e suas obras (talvez mais do autor do que da obra). O que você acha desse processo de "escolarização"?

ARS - Há autores que não têm espaço na midia e no entanto ocupam bastante espaço nas escolas, é outro circuito. Daí que essas listas de best sellers são um desserviço à cultura, porque enganosas.

5) Em sua trajetória como cronista, percebemos que o "poeta" está sempre lá. Extrapolando um pouquinho as questões de gênero textual, ainda motivo de calorosas discussões pela "academia", pergunto: qual é a fronteira entre a crônica e a poesia? "Gêneros" ainda existem? Como surge seu "insight palavral" para determinar se o texto a ser escrito será um poema ou uma crônica? Os cronistas formam novos leitores? Fale mais sobre essa experiência.

ARS - Você, Barreto, também faz crônica e sabe, como poeta, desses não-limites. Curiosamente Drummond separava muito a poesia de sua prosa. Já o Rubem Braga era essencialmente poeta na crônica.Quando tentou fazer poesia em verso apenas parafraseou Vinícius e Bandeira. Quanto a mim trabalho fundindo as duas coisas,naturalmente. A poesia se infiltra naturalmente na minha crônica. As vezes consigo resgatá-la, boto-a de novo num poema.

6) A imprensa sempre representou um espaço de renovação cultural, criando elos, coesão e debate entre intelectuais de diferentes tendências. Como você explica esse paradoxo entre globalização x isolamento de alguns grupos de criadores? E qual é a saída para aqueles que não fazem parte de nenhum grupo?

ARS - Complicado. Outro dia escrevi um artigo sobre a função
Dos “mediadores” e dos “legitimadores” sociais. São dois mecanismos e personagens que azeitam a engrenagem social e existem também no meio artistico. O artista está tendo que concorrer com “celebridades” que são fabricadas do dia para noite. Não sei que conselho dar, só sei que as coisas mudaram muito.Era mais fácil atuar no sistema literário quando o sistema era mais sistema do que essa coisa anódina e aleatória, que é hoje. Com quase 50 anos de vida literária tenho mais dificuldade de divulgar um livro meu hoje do que quando comecei. Não acredito que eu tenha piorado tanto. Veja o seu caso, Barreto,você que surgiu na poesia com bastante força, ganhou prêmios nos anos 70 sofre isto na carne.

7) Percebo sempre uma grande "musicalidade" em seus textos. Você escreve ouvindo música? O que é mais importante: a música ou a palavra?

ARS - Meu primeiro livro, por coincidência foi “Canto e palavra”.Meus livros estão cheios de referências à música, tenho até um livro “Musica popular e moderna poesia brasileira” e fiz umas letras de música. Não posso viver sem musica. Nisto sou o avesso de João Cabral que dizia que música é apenas um ruído desagradável.

8) Um grande abraço do seu leitor e admirador.


Entrevista realizada em janeiro de 2005.

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Poema publicado na Folha de São Paulo, uma das peças principais do próximo livro de
Affonso Romano de Sant'Anna, a sair em breve: "Sobre os rios da Babilônia":


PASÁRGADA

                          Affonso Romano de Sant’Anna

Foi preciso que um poeta brasileiro
te sonhasse
                          e que outro
                                              aqui viesse
para que em ti -Pasárgada
os extremos se encontrassem.


Não careço dizer
o quanto me custou
o transe
             o passe
antes que aqui
o mágico tapete
da poesia
                          me aportasse.

Pasárgada enfim
entreabriu-se
                          aos meus passos.

Poeta
              aqui estou no Paraíso
que
             despudoradamente

                                                     cantaste.


Mas onde supunha
um jardim de delícias
me esperasse
abriu-se uma lição de ruínas
como se Pasárgada fosse
o paraíso que pelo avesso
se ostentasse.

Primeiro visito
a tumba de Ciro
que a criou
para que das pelejas
descansasse.

-Aqui jaz “o rei dos reis”
cujo império da Babilônia à Etiópia
do Afeganistão à Capadócia
ia aonde seus arqueiros e cavalos
chegassem.
“Não lamente oh! mortal
aquele que aqui jaz
pois ele fez tudo o que fez
e reinou na guerra e paz”.

Adiante
             entre ruínas
                                está Pasárgada.

Onde o ruído dos escudos
o atropelo das patas dos corcéis em guerra
o alarido das lanças
os sons dos instrumentos em festa
ecoando nos canais
jorrando nos jardins?

Caminho entre derribadas pedras
me atrevo entrar no Portal da Casa
na Sala de Audiências
no Palácio Residencial
e piso os quatro degraus restantes
do Altar do Fogo
com quatro homens alados em relevo.

Foi preciso
que nas mesmas planícies
em que Ciro ergueu o seu império
Alexandre irrompesse
e a tudo devastasse
                                      foi preciso
que o vencedor
se visse diminuto
e ante a tumba do vencido
se persignasse
e pedisse a um sábio
que o que estava ali inscrito
traduzisse
             e lhe explicasse
foi preciso
que a ruína e a glória
na mesma pedra aflorassem
e o amor ensinasse à morte
                                                    lições
que só na morte renascem
foi preciso
                          que um poeta brasileiro
te carecesse
                          e outro
                                       de sobejo
te buscasse
que ao Oriente pelo Ocidente
a poesia chegasse
                                 foi preciso
que o menino
no velho despertasse
e que de sucesso
em sucesso
o jovem fracassasse
                                     foi preciso
provar que em Pasárgada
não se chega como conquistador
mas como quem reinando
                                                      obedecesse
e partindo
                          ficasse
e olhando as ruínas
nelas algo edificasse
como se a vitória
pelo avesso celebrasse.

Pasárgada
                  -o não-lugar
onde a poesia
(ausência plena)
                            reinasse.