| POESIA
REUNIDA DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA
Perguntas de Geraldo
Carneiro:
1) Conheci você no princípio dos anos 70,
quando, além de professor da PUC, você editava uma página
sobre poesia no Jornal do Brasil, na qual publicava os poetas mais relevantes
daquele tempo. O que foi que mudou na poesia brasileira de lá pra
cá?
ARS - A
poesia que surgiu nessa época tem ainda um certo charme, conforme
os segundos cadernos e suplementos. Vivemos ainda digerindo a “poesia
marginal”. Seus autores hoje são poetas maduros e já mereceram
até teses universitárias. Outros, entre eles, morreram e
portanto suas obras já ganharam contorno. Já começa
a haver um distanciamento maior para avaliação crítica.
Mas para que isto ocorra efetivamente é necessário que surja
uma outra geração com outra linguagem, outro ponto de vista,
além dos “guardiães” dessa poesia.
O que não me agrada muito é a impressão que ficou
que a poesia dessa época é a poesia quase que só
do Rio. Tem muita gente que fez boa poesia e não aparece em antologias
nem é citada,a não ser nas antologias que o Assis Brasil
fez, cobrindo estado por estado do país
Fora dessa linguagem, no entanto, alguns nomes ganharam celebridade, como
Adélia Prado , Manuel de Barros e Hilda Hilst. Mas o que acho importante
assinalar é que nos últimos 30 anos já não
se nota mais a esquizofrenia que se apossou de nossa poesia nos anos 50
e 60, na qual ela tinha que optar entre o “canto” e a “palavra”.
2)
Lá no princípio dos anos 70, todos nós, os mais moços
e os mais velhos, queríamos ser modernos. Hoje o sonho de dez entre
dez poetas novos é ser clássico. Você acha que essa
oscilação é inevitável, ou será que
isso é sinal de que vivemos tempos mais caretas e conservadores?
ARS - Por falar em tempo- velhice- mocidade, é
curioso pensar que você mesmo, Geraldinho, foi meu aluno. A Ana
Cristina,de alguma forma é minha parenta, eu é que a levei
para a PUC. O Leminsky , eu o conheci em 1963, fui eu quem o apresentou
aos concretos na semana de Poesia de Vanguarda que estávamos organizando
lá em Belo Horizonte, quando eu era ainda estudante de letras.
Portanto, é isso, o mundo roda e a Lusitana gira.Ora, a tendência
natural é as pessoas amadurecerem sua linguagem, isto que você
chama de “clássico”, ou, então, aquilo que Drummond dizia:
“Agora que ficou chato ser moderno /serei eterno”.
3)
Um exercício de futurologia poética: o que é que
falta escrever na poesia brasileira? Novos poemas épicos, como
o Borges andou preconizando? Uma nova Invenção (ou Desinvenção)
de Orfeu?
ARS -
Se me permite, respondo com um poema que está em “O lado esquerdo
do meu peito”
ESCRITA IMPREVISÍVEL
Estamos escrevendo
todos dentro do previsível.
Um trabalha a forma
outro solta o texto
num exercício de auto-estupefação
alguns conferem tudo
com teorias da moda
outros aplicam mais tempo
na imagem que na obra.
Estamos todos escrevendo
dentro do previsível.
Segue a vida literária:
cada um polindo seu nome de autor
quando de repente
não se sabe de onde como nem por quê
irrompe o texto inovador
sagrado e transgressor
que nos resgata
com olímpico fulgor.
O texto que torna
o texto alheio
um punhado de palha
ungida
_com inútil suor.
Perguntas de Luís
Sérgio dos Santos:
1) Affonso, na recente visita que você fez ao Chile
durante a comemoração do centenário de Pablo Neruda
você relatou no jornal O Globo o muito que um poeta pode fazer por
seu país.
Creio que de fato pode fazer muito, é só imaginar obra do
Vinícius que tanto ajudou a colocar principalmente a música
brasileira conhecida pelo mundo.
Diga lá o que você considera de mais importante entre tantas
realizações que o Neruda fez por seu país?
ARS -
Um grande artista é como um grande engenheiro, um grande cientista,
ele agrega concretamente coisas novas na paisagem cultural do país.
Este não é o mesmo depois que o grande artista surje. Foi
assim com Machado ou Drummond, com Rosa e Euclides da Cunha.
2) Acredito que a revista POESIA SEMPRE criada por você
é um importante veículo de comunicação da
Poesia, e da cultura brasileira pelo mundo.Inclusive a idéia de
lançar a revista em vários países foi muito boa,
e lançar com a participação de autores de outros
países completa a movimentação que surge na divulgação
de tantos autores de diferentes culturas.
Como foi a elaboração da criação da revista,
descreva as dificuldades, e o que foi conseguido?
( Eu tenho a grande satisfação de ter participado do número
seis ).
ARS -
A revista foi algo muito original. As seções, por exemplo,
onde um poeta explicava um poema seu; a seção de traduções
diversas de um mesmo poema- verdadeira aula de criação poética;
os poemas brasileiros em dinamarquês, inglês, alemão,
etc; a aproximação entre a poesia que se faz agora no Brasil
e nos outros países; o esforço de lançar a revista
em uma dezena de países, aproveitando viagens de trabalho que eu
fazia; o mandar grupos de poetas a várias cidades brasileiras e
a vários países, tudo isto ajudou a formar uma geração,
certos poetas que nem se conheciam nem se frequentavam tiveram aí
uma chance nova em sua vida e carreira. E,sobretudo, o projeto de por
na revista sempre a poesia latino-americana, portuguesa e africana, praticando
uma política cultural de aproximação de valores.
O esforço era produzir uma revista que não fosse provinciana,
que fizesse nossa cultura dialogar com o mundo.
3)
Como é ser poeta num país de 999.999 poetas ...sem fazer
a contagem de todos, e sem colocar que esta estatística já
estava no poema do seu livro POESIA SOBRE POESIA a qual lançamento
pude comparecer há tanto tempo?
Esse número de poetas tende a aumentar muito?
ARS -
Sim, tem aumentado muito. E vai aumentar mais. Dentro e fora do país.
A poesia é uma fatalidade do espirito humano.
4) É
muito difícil ser poeta? Devido a que tem tanta gente querendo
ser poeta?
ARS -
Há que diferenciar versejador e poeta, há que diferenciar
o exercicio eventual da poesia da preocupação de organizar-se
existencial e historicamente através da linguagem. Ser poeta é
uma carreira de longo curso.
5)
Quais são as vantagens, e desvantagens para quem quer inserir essa
atividade no projeto de vida ?
ARS - É
um teste. Para mim foi fundamental. Tudo em mim é filtrado pela
poesia. Ação e verbo.
6)
Neste livro de 1975 portanto que neste ano agora completa 30 anos, você,
termina com um poema escrito em Los Angeles em 1996, e diz já nesta
época sobre computador:
"O poeta é
uma soma:
- sua memória é o que aciona
seu autocomputador"
( no poema O POETA
É UM DEVEDOR do livro POESIA SOBRE POESIA ).
ARS -
Você tem uma peça arqueológica na mão, caro
Luís Sérgio. Você bem lembrou, o livro está
comemorando 30 anos e lá em Curitiba o professor Rodney Caetano
está publicando uma tese sobre o significado de “Poesia sobre Poesia”
dentro do da poesia brasileira entre os anos 50 e 70, a explosão
das vanguardas, o autoristarismo e a busca de nova linguagens.
7)
Caso eu não estivesse com o livro aqui não poderia dizer
que num livro há trinta anos você já mencionava a
palavra computador, num poema escrito faz quase 40 anos.
Como você vê a poesia e o computador nos dias de hoje?
Existe para você contra-indicações ao computador e,
se existe, quais seriam?
ARS - Não. Mas em geral começo meus textos
à mão. Achado o caminho vou para a máquina. Mas poesia,
como entre os japoneses, é um exercicio gestual (também).
Perguntas de Antonio
Barreto:
1)
Affonso, gostaria que você falasse mais de sua experiência
à frente da Biblioteca Nacional. O que você acha das atuais
políticas públicas de incentivo à leitura no Brasil?
O que avançou, o que precisa melhorar? O que foi mais positivo
em sua gestão?
ARS - Ih, daria um livro, que comecei a escrever logo
que saí da BN, e parei. Poderia, em suma, dizer duas coisas: primeiro
dizer das dificuldades: passei por seis ministros e três presidentes,
não havia estabilidade para o trabalho, não havia dinheiro,
era o caos quando assumi. E descobrimos logo que dinheiro é ficção,
que tem que se trabalhar e produzir assim mesmo, que dizer que não
tem dinheiro é desculpa de quem não tem projetos nem vontade
de trabalhar. O fato é que fizemos e acontecemos. Em qualquer lugar
que vou no Brasil, ouço de um porteiro de hotel, de um garçon,
de pessoas do povo sempre referências ao trabalho que fizemos. Ou
seja, a Biblioteca entrou para o imaginário da população,
que passou a dela se orgulhar.
Posso lembrar rapidamente algumas coisas que foram heroicamente feitas
no plano da administração:
-reforma do prédio e informatização
-criação do Proler em 300 municipios com 33 mil voluntarios
-criação do Sistema Nacional de Bibliotecas aglutinando
mais de 3 mil delas
-exportação da literatura brasileira com bolsas de tradução
de obras, feiras de livros internacionais( Frankfurt,Salão do livro
de Paris e Colombia), edição de livros e revistas em outras
linguas,envio aos brasilianistas de um “clipping” com recortes dos suplementos
literários, reuniões anuais com agentes literários
internacionais,etc.
-criação da Poesia Sempre para colocar nossa poesia em contato
com a poesia atual que se faz em outros países
-aquisição da Casa da Leitura em Laranjeiras e de três
andares para a administração e começo de recuperação
do Anexo no cais do porto
-uma politica cultural de aproximação com a comunidade de
lingua portuguesa e com os países latino-americanos.
-a biblioteca se tornou lugar obrigatório de visita e as filas
para consulta de obras eram imensas.
É uma pena a descontinuidade de trabalho. O governo FHC foi o pior
que houve para a cultura.Aliás, ele nunca se referiu ao ministério
da cultura em seus discursos, o que é revelador. E o atual governo
está tentando, já melhorou muito em relação
ao anterior,mas na área da promoção da leitura e
construção de bibliotecas está ainda patinando.
2) Como você vê o panorama da Poesia Brasileira
hoje? Por que ainda se edita tão pouco esse gênero? O que
fazer para tirar a poesia brasileira da "margem" e criar um
maior diálogo entre os criadores que estão fora do eixo
central?
ARS - Este o problema, há bons poetas fora do
“eixo”, mas não têm chance. O problema central é o
chamado “sistema literário”.No Brasil, não funciona. Não
é sistêmico.É fragmentado. Não é integrador.
Quando criei a “Poesia Sempre” uma das politicas era publicar poetas de
todo o país independente de gerações e tendências.
3) Na sua opinião, por que os escritores foram
perdendo espaço na imprensa? Como a gente sabe, a relação
entre jornal e literatura criou leitores a partir do século XIX.
ARS - Há alguns anos apresentei num seminário
organizado por Alberto Dines no CCBB, uma pesquisa, analisando publicações
brasileiras e estrangeiras, mostrando os problemas dos suplementos e segundos
cadernos, que se transformaram em páginas voltadas para o espetáculo
e que privilegiam fatos e autores estrangeiros secundários em vez
de brasileiros de valor.O problema está por aí. E tem outras
sequelas.
4)
A escola é talvez o circuito privilegiado para a divulgação
dos escritores e suas obras (talvez mais do autor do que da obra). O que
você acha desse processo de "escolarização"?
ARS - Há autores que não têm espaço
na midia e no entanto ocupam bastante espaço nas escolas, é
outro circuito. Daí que essas listas de best sellers são
um desserviço à cultura, porque enganosas.
5) Em sua trajetória como cronista, percebemos
que o "poeta" está sempre lá. Extrapolando um
pouquinho as questões de gênero textual, ainda motivo de
calorosas discussões pela "academia", pergunto: qual
é a fronteira entre a crônica e a poesia? "Gêneros"
ainda existem? Como surge seu "insight palavral" para determinar
se o texto a ser escrito será um poema ou uma crônica? Os
cronistas formam novos leitores? Fale mais sobre essa experiência.
ARS - Você, Barreto, também faz crônica
e sabe, como poeta, desses não-limites. Curiosamente Drummond separava
muito a poesia de sua prosa. Já o Rubem Braga era essencialmente
poeta na crônica.Quando tentou fazer poesia em verso apenas parafraseou
Vinícius e Bandeira. Quanto a mim trabalho fundindo as duas coisas,naturalmente.
A poesia se infiltra naturalmente na minha crônica. As vezes consigo
resgatá-la, boto-a de novo num poema.
6) A imprensa sempre representou um espaço de
renovação cultural, criando elos, coesão e debate
entre intelectuais de diferentes tendências. Como você explica
esse paradoxo entre globalização x isolamento de alguns
grupos de criadores? E qual é a saída para aqueles que não
fazem parte de nenhum grupo?
ARS - Complicado. Outro dia escrevi um artigo sobre
a função
Dos “mediadores” e dos “legitimadores” sociais. São dois mecanismos
e personagens que azeitam a engrenagem social e existem também
no meio artistico. O artista está tendo que concorrer com “celebridades”
que são fabricadas do dia para noite. Não sei que conselho
dar, só sei que as coisas mudaram muito.Era mais fácil atuar
no sistema literário quando o sistema era mais sistema do que essa
coisa anódina e aleatória, que é hoje. Com quase
50 anos de vida literária tenho mais dificuldade de divulgar um
livro meu hoje do que quando comecei. Não acredito que eu tenha
piorado tanto. Veja o seu caso, Barreto,você que surgiu na poesia
com bastante força, ganhou prêmios nos anos 70 sofre isto
na carne.
7) Percebo sempre uma grande "musicalidade"
em seus textos. Você escreve ouvindo música? O que é
mais importante: a música ou a palavra?
ARS - Meu primeiro livro, por coincidência foi
“Canto e palavra”.Meus livros estão cheios de referências
à música, tenho até um livro “Musica popular e moderna
poesia brasileira” e fiz umas letras de música. Não posso
viver sem musica. Nisto sou o avesso de João Cabral que dizia que
música é apenas um ruído desagradável.
8) Um grande abraço do seu leitor e admirador.
Entrevista realizada em janeiro de 2005.
Visite no Palavrarte:
a página de Affonso
Romano de Sant'Anna.
Poema publicado
na Folha de São Paulo, uma das peças principais do próximo
livro de
Affonso Romano de Sant'Anna, a sair em breve: "Sobre os rios da Babilônia":
PASÁRGADA
Affonso Romano de Sant’Anna
Foi preciso que um
poeta brasileiro
te sonhasse
e que
outro
aqui viesse
para que em ti -Pasárgada
os extremos se encontrassem.
Não careço dizer
o quanto me custou
o transe
o passe
antes que aqui
o mágico tapete
da poesia
me aportasse.
Pasárgada enfim
entreabriu-se
aos
meus passos.
Poeta
aqui estou no Paraíso
que
despudoradamente
cantaste.
Mas onde supunha
um jardim de delícias
me esperasse
abriu-se uma lição de ruínas
como se Pasárgada fosse
o paraíso que pelo avesso
se ostentasse.
Primeiro visito
a tumba de Ciro
que a criou
para que das pelejas
descansasse.
-Aqui jaz “o
rei dos reis”
cujo império da Babilônia à Etiópia
do Afeganistão à Capadócia
ia aonde seus arqueiros e cavalos
chegassem.
“Não lamente oh! mortal
aquele que aqui jaz
pois ele fez tudo o que fez
e reinou na guerra e paz”.
Adiante
entre ruínas
está Pasárgada.
Onde o ruído dos escudos
o atropelo das patas dos corcéis em guerra
o alarido das lanças
os sons dos instrumentos em festa
ecoando nos canais
jorrando nos jardins?
Caminho entre derribadas
pedras
me atrevo entrar no Portal da Casa
na Sala de Audiências
no Palácio Residencial
e piso os quatro degraus restantes
do Altar do Fogo
com quatro homens alados em relevo.
Foi preciso
que nas mesmas planícies
em que Ciro ergueu o seu império
Alexandre irrompesse
e a tudo devastasse
foi preciso
que o vencedor
se visse diminuto
e ante a tumba do vencido
se persignasse
e pedisse a um sábio
que o que estava ali inscrito
traduzisse
e lhe explicasse
foi preciso
que a ruína e a glória
na mesma pedra aflorassem
e o amor ensinasse à morte
lições
que só na morte renascem
foi preciso
que
um poeta brasileiro
te carecesse
e outro
de sobejo
te buscasse
que ao Oriente pelo Ocidente
a poesia chegasse
foi preciso
que o menino
no velho despertasse
e que de sucesso
em sucesso
o jovem fracassasse
foi preciso
provar que em Pasárgada
não se chega como conquistador
mas como quem reinando
obedecesse
e partindo
ficasse
e olhando as ruínas
nelas algo edificasse
como se a vitória
pelo avesso celebrasse.
Pasárgada
-o não-lugar
onde a poesia
(ausência plena)
reinasse.
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