
Aos setenta e cinco anos de vida, Thiago de Mello
completa meio século de poesia,
com uma indicação ao Prêmio Jabuti/2002 por seu livro mais recente,
Poemas Preferidos (Bertrand
Brasil, 294 págs.)
Considerado um dos grandes escritores brasileiros e um dos
mais traduzidos, o poeta amazonense mora atualmente em Barreirinha,
uma vila de 5 mil habitantes, no Baixo Amazonas, distante de Manaus
(vinte
horas de barco).
Em entrevista concedida a Fabrício Carpinejar,
o escritor fala de seu re-encontro com a terra natal, sua vivências
plenas de poesia, criada ao som das aves , plantas e bichos da floresta
Os editores
Carpinejar
-
O isolamento em Barreirinha é um descontentamento com os rumos da literatura
ou uma forma de preservar a privacidade e fugir das intrigas de grupos literários?
Thiago de Mello - Não me isolei em Barreirinha. Viajo várias vezes por ano para dar recitais, conferências, participar de Congressos, Encontros de Escritores, Bienais, mais no Exterior do que no Brasil. A decisão de vir para esta cidadezinha, onde nasci, plantada no coração da selva amazônica, foi tomada no último ano do meu exílio, 77, na Alemanha. Vim para estudar, mas principalmente para conviver com o povo, aprender como é a vida na civilização da água. E contar. Valeu a pena. Já escrevi cinco livros, em prosa, sobre a Amazônia. Consagro muito da minha vida à causa da preservação da floresta, tão perigosamente ameaçada. É natural que os verdes, as águas, os ventos, tenham se agasalhado em meus poemas. Já não me acostumo ao ritmo das cidades grandes, onde passei mais da metade da vida e encontrei pessoas que me enriqueceram de luz. Sempre me assombrou como artistas, pessoas dotadas de sensibilidade especial, fazem da convivência com os companheiros um exercício de intriga e maledicência. Não é só nas capitais. A província padece da mesma vocação. Não freqüento o ninho de cobras. Fico feliz quando leio um poema de autor desconhecido, sobretudo se jovem.
Carpinejar - O sr. celebra os 75
anos de vida e 50 de poesia com uma antologia diferente e peculiar, já que
democratiza a escolha dos poemas e estende aos leitores. Houve confluência
entre seu gosto e o dos amigos? Nenhuma briga (risos)?
Thiago de Mello - Faz tempo creio que o maior prêmio que um escritor pode receber é o apreço e o amor de seus leitores. Ganhei este prêmio, digo com naturalidade porque não padeço da enfermidade da falsa modéstia. Quis mostrar o meu reconhecimento, pedindo a alguns deles, entre os que conheço, que me ajudassem a selecionar os poemas. A idéia do livro saiu na imprensa, então recebi sugestões, todas felizes, de leitores desconhecidos. A maioria dos poemas foi sugerida pelos leitores.
Carpinejar - Em várias oportunidades, a crítica o reduziu a figura de poeta engajado,
confundindo sua poesia combativa e humanista, de cunho popular, com ideologia
e sectarismo. Isso é uma incompreensão?
Thiago
de Mello -
Sempre, desde o meu primeiro livro, fui um poeta comprometido com vida do
homem (a minha de permeio). Escrevo sobre o que me comove, o que instiga
a minha sensibilidade ou a minha inteligência. O que me alegra ou me dói.
Quando a ditadura militar, com o seu terror cultural e a indignidade da
tortura, feriu a própria dignidade da condição humana, os meus versos se
ergueram em defesa do homem. Nunca fui panfletário (nada tenho contra o
panfleto bem sucedido) nem populista. Não há porque negar que os meus livros
Faz Escuro Mas Eu Canto e A
Canção do Amor Armado me fizeram popular. O Faz Escuro vai hoje na sua vigésima edição. Não tenho culpa. “Escrevo
sobre o silêncio sonoro da floresta ou sobre a menina que dorme com fome.
Sobre as ancas da moça que passa ou sobre o milagre do telescópio que fotografou
a luz fossilizada dos primeiros estilhaços do big-bang. Sobre a dor dos
deserdados e a esperança de quem tem fé.” Aproveito a sua pergunta para
revelar pela primeira vez que fiquei dias atordoado quando li artigo sobre
a tradução que fiz da Poesia Completa
de Cesar Vallejo. O autor (a quem, sem conhecê-lo, pedi um encontro que
não me concedeu) depois de celebrar os poemas de Trilce,
de versos de acesso difícil, achou uma pena que com Poemas
Humanos o genial poeta peruano tivesse sujado as mãos com a esperança
humana. A marca da minha palavra é a velha e cada dia mais necessária ternura
humana. Padeço com os puristas impenetráveis, ainda que reconheça que nada
mais livre do que a criação artística. Mas infelizmente os seus versos se
fazem murchos, acabam por secar. Ninguém os lê. O escritor escreve para
ser lido. Só assim se cumpre o seu destino.
Carpinejar
- A simplicidade é a sua marca, alheio ao experimentalismo, aos modismos
e sofisticação. Nos quinze livros publicados, preserva a métrica e ritmos
tradicionais. Difícil é ser simples? Não há nada mais revolucionário do
que a tradição? O sr. acredita que os jovens complicaram demais a poesia,
sendo uma das causas para a pouca leitura do gênero?
Thiago
de Mello
- Trabalho muito para alcançar a simplicidade. Escrever difícil é muito
fácil. Difícil e trabalhoso é chegar a uma linguagem que, sem perder o seu
compromisso fundamental que é com a arte poética, seja acessível, a metáfora
se abrindo feliz, ambígüa, deixando que o leitor veja nela o que os seus
olhos sabem enxergar. Você lê bem: preservo a métrica e o ritmo. Mas os
meus versos livres, que não são poucos, têm cadência e principalmente música.
A música é matéria prima do verso. Porventura a inclinação natural pelo
verso medido me venha da infância, da leitura em voz alta, no Grupo Escolar
José Paranaguá, em Manaus, dos versos cadenciados dos Meus
oito anos, do Casimiro, do Y-Juca-Pirama,
do Gonçalves Dias, do A Carolina,
do Machado de Assis a quem
aprendi a amar menino e não o largo até hoje. Vou lhe contar: os meus primeiros
versos já me saíram medidos. Vi quando um colega meu morreu afogado, na
ribanceira do meio dia, de tardinha. Quando foi de noite, disse em voz alta
e fui logo escrevendo: “Vi meu amigo morrer/ Afundando no perau./ O que
vai acontecer?”. Era um terceto em redondilhas, só mais tarde
é que aprendi. Bandeira gostava do meu tercetozinho, ria muito me
advertindo: “Você já andava de criança mexendo com a morte!”
Estou de acordo com a primeira parte da pergunta final: acho, sim, que os
jovens estão complicando o caminho de dar com a poesia, me chegam originais
que sinceramente não consigo entender e alguns mostram deficiente manejo
do idioma. Os poetas moços são pouco lidos, porque raros os que encontram
editores, muitos pagam o custo da edição (o que autores maduros também fazem),
alguns publicam por conta própria. Por sorte, cresce o número de revistas
e publicações que dão acesso aos poetas e escritores moços.
No mais, o forte do Brasil nunca foi a leitura. A população aumenta,
a tiragem dos livros diminui. Edita-se para iniciados.
Carpinejar - Encontro um alto grau de intensidade e ardor em sua poética, como se o sr. estivesse recordando e imaginando ao mesmo tempo. Poderíamos afirmar que sua memória já foi escrita em versos (“Somente sou quando em verso”)? Ou é um modo de corrigir as lembranças?
Thiago
de Mello
- Você acertou em cheio. E já disse tudo com o “Somente sou quando em verso”.
O Paul Valéry já disse que a poesia nasce da memória. Da vida acumulada
na memória, acrescento eu, cujo pão de cada dia é a imaginação. Recordo
e imagino. Um dos poemas escolhidos pela maioria dos leitores, e muito do
meu agrado, no qual trabalhei dias e dias, é O
Poema e o Papagaio, no qual memória e imaginação voaram juntas, no céu
e no papel. A intensidade e o ardor vão por sua conta.
Carpinejar- Sua vida foi marcada por ressurreições, perto da morte em várias oportunidades. Viver é se inventar? Por ser ateu, não acredita que Deus lhe dá uma atenção especial, tentando convencê-lo do contrário (“Se Deus me desperdicei,/ Jesus foi quem ficou”)?
Thiago
de Mello
- Nunca disse que sou ateu. Entende assim quem me leu os versos: “A vida
eterna não me diz respeito” e “não me compete, nem de mim depende”. Digo
mais: o banquete que se pretende eterno começou antes das constelações.
Do banquete, de resto, já participam os que têm a fé poderosa de, um exemplo,
minha Mãe dona Maria, que conversava com Jesus como se fala a um amigo amado
e íntimo. Ela pedia muito pela salvação de minha alma. Eu lhe dizia que
o problema era de Jesus, não dependia de mim. A verdade é que a fragilidade
de minha fé não me garante a vida eterna.
Quem
sou eu, quem me dera merecer atenção especial de um Ser Poderoso. Prefiro
de coração que ele incline os seus cuidados ao desamparo dos milhões de
mulheres, homens e crianças, que se dizem filhos de Deus, e vivem na mais
feroz miséria .
Carpinejar - Depois “De uma vez por todas” (1996), o sr. declarou que não escreveria mais. Apesar de querer abandonar a poesia, ela parece que não quis o abandonar?
Thiago
de Mello -
Disse também que a poesia não me abandonaria. De vez em quando ela me dá
o ar de sua graça e lá eu me ponho a
sentir o gosto da agonia misturado ao da alegria que é o da composição
do poema. Pretendo não publicar mais outro livro de poemas. O que sai agora
é um texto em prosa, com fotografias do Luiz Claudio Marigo, sobre Mamirauá,
a mais extensa reserva de várzeas do Amazonas.
Carpinejar -
“Campo de Milagres”, Jabuti de Poesia/2001, é uma declaração de amor ao
pudor, ao recato, ao distanciamento (“Demora a mão, a alça/ entre os dedos”).
Houve a intenção de resgatar a totalidade, o mistério feminino, e contestar
a pressa e a banalização da nudez?
Thiago
de Mello
- “Campo de Milagres” tratou de outros milagres que me comovem como os da
memória, os da palavra, o da fé, mas também o de resgatar a glória da beleza
feminina, tão banalizada, eu ia escrevendo degradada, pela nudez sem mistério
nem encanto, quase brutal, que mais assusta que agrada a sensualidade. Depois
de publicado o livro, fiquei com pena de não ter posto no poema As
Prendas do Recado que os Anos Não Trazem Mais o belo verso de Paulo
Mendes Campos por epígrafe “Despede o teu pudor com a camisa.” O velho Machado
já ensinava que bom mesmo era ir vendo aos poucos, enquanto se imaginava
o resto.
Carpinejar- Na região em que o sr. vive, o homem tem uma ligação direta com a terra, descreve o tempo pela reação das aves, procura pistas pela água, lê diretamente a natureza. Esse mesmo instinto norteia grande parte de sua produção, seja na resistência do exílio, seja na exuberância das cantatas. O instinto é a mais alta inteligência?
Thiago de Mello - Meu caro poeta, você já respondeu: “O instinto é a mais alta forma de inteligência”. Mas aproveito a sua pergunta para tentar desfazer um equívoco maniqueísta que não cai de moda, entre razão e coração. A inteligência tem sentimentos delicadíssimos, e o coração não esconde os seus poderes de inteligir os segredos mais bem guardados pelos neurônios.
Carpinejar - O sr. conviveu com personalidades como Pablo Neruda, tanto que o traduziu e foi traduzido por ele. Qual a influência do chileno em seu legado?
Thiago
de Mello
- Freqüentei, é verdade, a intimidade e a ternura de Neruda. Anos memoráveis,
os de nossa convivência, ainda que nem todas as recordações guardem o gosto
da alegria. Não reconheço influência literária. Quando nos encontramos,
eu já tinha o meu jeito de cantar. Mas uma coisa reconheço: sua obra me
lavou para sempre do hermetismo.
Carpinejar-
Morar num nome famoso como Thiago de Mello não é uma solidão?
Thiago
de Mello -
É. Mas não me faz mal.
Fabrício
Carpinejar é jornalista e poeta , autor de Biografia
de uma árvore, Terceira Sede,
Um Terno de Pássaros ao Sul e
As Solas do Sol.
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