Poemas de Floriano Martins  (traduzidos para o espanhol por Benjamín Valdívia)

 

 

                                           

 

                                                                                              

PRIMEIRO ESBOÇO

Quem te envia, diluviana forma que me extravasa?  
Não és um disparate, suponho, ou mesmo  
o começo de uma nova história. Hábil conduzes  
as imagens secretas de muitos martírios.  
Sinto-me fausta criatura ao receber-te em casa.  
Parecem não te importar as perguntas que faço.  
Reinas em qual floresta, em qual enigma de folhas?  
Para atender a qual desígnio deves me levar contigo?  
Avilta-me a proteção do morto. Dispenso-te  
as núpcias, as leis do entranhado sacrifício.  
Mas podes repousar da longa viagem, quem sejas,  
enquanto me sucedem os aforismos de teu corpo.

 

PRIMER ESBOZO  

¿Quién te envía, diluviana forma que me desborda?  
No es un disparate, supongo, ni tampoco  
el comienzo de una nueva historia. Hábil conduces  
las imágenes secretas de muchos martirios.  
Me siento criatura fausta al recibirte en casa.  
Parecen no importarte las preguntas que hago.  
¿Reinas en cuál floresta, en cual enigma del follaje?  
¿Para atender a qué designio debes llevarme contigo?  
Hunde en mí la coraza de lo muerto. Te dispenso  
las nupcias, las leyes del interno sacrificio.  
Mas puedes reposar del largo viaje, quien seas,  
mientras suceden en mí los aforismos de tu cuerpo.

 

 

 


 

OUTRAS FORMAS DE EXTRAVIO  
 

Qual o sopro queimante de tua eternidade?  
Agora estamos para a medida da ruptura.  
Tomar nota do vôo para identificar a ave,  
os soluços do fogo que soa feliz em sua função.  
Agora é indagar da virgem por onde percorrer  
a chama de sua origem, o mergulho incerto  
nas pálpebras espelhadas de tantas visões.  
Para ela, todo sentido é movimento. Mais breve  
aquele que lhe toque antes que o perceba.  
Desata-se a animada criatura em aparições,  
velada por seus ídolos, que não nadam
(nadam) como as criaturas de Santa Teresa.  
Apenas o rio, circundado pela sombra  
de seu fino papiro que se escreve a si mesmo,  
mares a fio. Quem te envia, se não queres  
ser a medida de teu próprio extravio?  

OTRAS FORMAS DE EXTRAVÍO  

¿Cuál es el soplo quemante de tu eternidad?  
Ahora estamos a la medida de la ruptura.  
Tomar nota del vuelo para identificar el ave,  
los gemidos del fuego que suena feliz en su función.  
Ahora es indagar de la virgen dónde recorrer  
la llama de su origen, el incierto buceo  
en los párpados reflejados de sus visiones.  
Para ella, todo sentido es movimiento. Más breve  
aquél que le toque antes que lo perciba.  
Se desata la animada criatura en apariciones,  
velada por sus ídolos, que no nadan  
como las criaturas de Santa Teresa.  
Apenas el río, circundado por la sombra  
de su fino papiro que se escribe a sí mismo,  
mares a hilo. ¿Quién te envía?, si no quieres  
ser la medida de tu propio extravío.  

 

   


À SOMBRA DA ORIGEM  

Quem somos? Os magníficos restos da espécie,  
sacerdotes de ruínas, vastas e frustrantes?  
Prosseguimos banhados de cinzas e fétidas  
memórias, em comunhão com a dor infatigável.  
Somamos aos milhares os lamentos das divindades,  
féretro de peregrinos, mórbida colheita de cadáveres.  
Na ilha inteira, nada se revela que não seja a grande catarse  
do vazio. Todas as lembranças alucinam,  
não há onde esquecer o sofrimento e as dores humanas.  
Sangra o carvalho dos celtas, a árvore cósmica  
sumeriana, o jícaro do popol-vuh e o desprezado

fícus-benjamim
do nordeste brasileiro.  
Decaem as cidades com o degredo de suas árvores.  
Somente a Nergal caberia o amor de sua Eresquigal.  
Somos os magníficos trapos encharcados  
de óleo e argila. Invocados, uma vez mais seremos  
o nascimento e a queda. Abismos descontínuos.    


A LA SOMBRA DEL ORIGEN
 

¿Quién somos? Los magníficos restos de la especie,  
sacerdotes de ruinas, vastas y frustrantes.  
Proseguimos bañados de cenizas y fétidas  
memorias, en comunión con el dolor infatigable.  
Sumamos a los millares los lamentos de las divinidades,  
féretro de peregrinos, mórbida cosecha  
de cadáveres. En la isla entera nada se revela  
que no sea la gran catarsis del vacío.  
Todos los recuerdos alucinan, no hay dónde  
olvidar el sufrimiento y los dolores humanos.
Sangra el encino de los celtas, el árbol cósmico  
sumeriano, el jícaro del popol-vuh y el despreciado  

f
icus-benjamina
del noreste brasileño. Decaen  
las ciudades con el retraimiento de sus árboles
solamente a Nergal tocaría el amor de Eresquigal.  
Somos los magníficos trapos encharcados  
de aceite y lodo. Invocados, una vez más seremos  
el nacimiento y la caída. Abismos discontinuos.

 

 

 

ANOTAÇÕES DO CARTÓGRAFO 

Busca-se a força no tempo, em suas largas raízes.  
Uma noite me falou Alexander Search dos mapas  
que ele próprio rascunhara, as distâncias  
que nos unem sem que as percebamos. Nas mãos  
do próprio tempo as do alucinado cartógrafo,  
explorando a memória como um banho de óleos.  
Paredes desfiguradas, chão de restos, luz  
quase nada. O incenso rastejante. Tecidos urdiam  
o sinistro significado de suas vértebras longevas.  
Nada era descrito ou classificado, um atormentado  
mundo de insinuações. Ali, não éramos senão bestas,  
anotações baseadas em nossa própria parvoíce.  
Sua mão, contudo, seguia traçando a contradição  
entre arte e ciência: “Não estamos retocando  
os velhos traumas — disse-me —, mas sim elegendo  
melhor nossos equívocos”, e seguiu convincente.  


ANOTACIONES DEL CARTÓGRAFO
 

Se busca la fuerza en el tiempo, en sus largas raíces.  
Una noche me habló Alexander Search de los mapas  
que él mismo esbozara, las distancias  
que nos unen sin que lo percibamos. En las manos  
del tiempo mismo las del alucinado cartógrafo,  
explorando la memoria como un baño de aceites.  
Paredes desfiguradas, suelo de restos, luz  
casi nada. El incienso rastreador. Tejidos urden  
el siniestro significado de sus vértebras antiguas.  
Nada estaba descrito o clasificado, atormentado  
mundo de insinuaciones. Allí no éramos sino bestias,  
anotaciones basadas en nuestra propia estupidez.  
Su mano, sin embargo, seguía trazando la contradicción  
entre arte y ciencia. “No estamos retocando  
los viejos traumas —me dice—, mas si elegiendo  
mejor nuestros equívocos”, y siguió convincente.  

 

 

 

 

REINO DE VERTIGENS  

                               A Socorro Nunes  

Teu corpo e o meu caindo sobre o mundo:  
noite saqueada por uma caravana de relâmpagos.  
Despojos do tempo foragido de sua fonte,  
minando abismos à deriva, perdas flutuantes.  
O rosto deformado da beleza que as ruínas cultuam,  
linguagem extraviada ao querer entrar em si.  
Teu corpo e o meu em sua queda mais secreta.  
Um labirinto que fosse um deserto e um deus  
ciente que dali não há retorno. Fuga de trevas.  
Os disfarces fatais da memória ante o infinito.  
Indetíveis sombras caindo sobre o mundo.  
Teu corpo e o meu: o que resta de um no outro.


REINO DE VÉRTIGOS
 

                     A Socorro Nunes  

Tu cuerpo y el mío cayendo sobre el mundo:  
noche saqueada por una caravana de relámpagos.  
Despojos del tiempo fugitivo de su fuente,  
minando abismos a la deriva, pérdidas fluctuantes.  
El deformado rostro de la belleza que las ruinas cultivan,  
lenguaje extraviado al querer entrar en sí.  
Tu cuerpo y el mío en su caída más secreta.  
Un laberinto que fuese un desierto y un dios  
sabedor que de allí no hay retorno. Fuga de tinieblas.  
Los disfraces fatales de la memoria ante el infinito.  
Indetenibles sombras cayendo sobre el mundo.  
Tu cuerpo y el mío: lo que resta de uno en el otro.

 

 

 

      

ESTATUETAS 

                         A Rolando Toro  

Ser tua imagem sem causar-te aflição,  
figurando em teu ser como o fogo.  
Passas por mim e não me fraudas a dor,  
em paz com o deus de tua morada.  
Tu me deste o espírito e me deste o olho,  
o côvado profundo em que me ponho  
para que lutes com toda a força do nome.  
Teu duplo refaz o que tive e vi e fui,  
sombras cujos atributos conspiram ainda.  
Uma delas mora na esquiva escuridão.  
Outra se arrasta por rostos que recuam.  
Haverá uma que me vê trazendo a noite.  
São como palavras herdadas pelo fogo.  
Por toda a terra vagam e nada cresce ali.  
O nome é apenas parte de seu legado,  
um dos símbolos da morte que entalham  
em formas várias e suplicantes versos  
que dizem o mesmo dá-me um caminho.  
Figuras de pedra e madeira e porcelana,  
as mesmas que temos sempre em casa  
e que não deixam de bater o coração.  
Tu és um pássaro e um sol e o túmulo  
de um deus que imita o curso de teus dias.  
Tua bela forma golpeia qualquer escriba  
em tradução de trevas ou terra santa.  
Passagem e selo abissal de toda crença.  
O que buscas e o que o livro oculta  
em linhas invisíveis a quem supõe sabê-las.  

 

ESTATUILLAS  

             A Rolando Toro  

Ser la imagen tuya sin causarte aflicción,  
figurando en tu ser como el fuego.  
Pasas por mí y no me ocultas un dolor,  
en paz como el dios de tu morada.  
Tú me diste el espíritu y me diste el ojo,  
la caverna profunda en que me pongo  
para que luches con toda la fuerza del nombre.  
Tu doble rehaz el que tuve y vi y fui,  
sombras cuyos atributos conspiran aún.  
Una de ellas habita en la esquiva oscuridad.  
Otra se arrastra por rostros que retroceden.  
Una habrá que me verá trayendo la noche.  
Son como palabras heredadas por el fuego.  
Por toda la tierra vagan y nada crece allí.  
El nombre es apenas parte de su legado,  
uno de los símbolos de la muerte que graban  
en formas diversas y versos suplicantes  
que dicen también dame un camino.  
Figuras de piedra y madera y porcelana,  
las mismas que tenemos siempre en casa  
y que no dejan de agitar el corazón.  
Tú eres un pájaro y un sol y un túmulo  
de un dios que imita el curso de tus días.  
Tu bella forma golpea a cualquier escriba  
en traducción de tinieblas o tierra santa.  
Pasaje y sello abisal de toda creencia.  
Lo que buscas y lo que el libro oculta  
en líneas invisibles a quien supone saberlas.

 

 

 

 

UM ENCONTRO SECRETO  

Esmolo as pétalas de tua sábia  
desilusão, algum verso escrito,  
o rosto dissipado de meu lívido  
engano. O tempo nos tem por  
dois rafeiros de suas miçangas.  
Almejas a valise de encantos  
do que supõe meu vago olhar.  
Prontas minhas formas ainda,  
mas em tuas mãos o que serão?  
Por dois larápios de alforjes  
o tempo nos toma. Meu gozo  
esmolas e te iludes no espelho.  

UN ENCUENTRO SECRETO  

Mendigo los pétalos de tu sabia  
desilusión, algún verso escrito,  
el rostro disipado de mi lívido  
engaño. El tiempo nos tiene por  
dos entretelas de sus capas.  
Anhelas la valija de encantos  
de lo que supone mi vago mirar.  
Prontas mis formas aún,  
mas en tus manos, ¿lo que serán?  
Por dos ladrones de monederos  
el tiempo nos toma. Mi gozo  
mendigas y te eludes en el espejo.

 

 

 

 

 

TRAÇAS  

A Jorge Pieiro  

Fundo do ser, qual será? Que nobre entulho  
orgulha-se da soalheira de seus derrames?  
Engendra quais cicatrizes o delírio no espelho?  
O que for, o que somos, temos aceito, corpos  
caindo em círculos, miséria desencontrada,  
rios de mármore, parágrafos em soluços,
batismo daquilo que vemos, o que nos cabe?  
Nódoa que afirma o crime na oculta criatura  
que nos persegue, deforma, ímpeto da forma  
que a pedra respira em canto, a repetir-se
não sendo mais que lágrima, urina, orfandade  
da areia guardada no verso, torpe memória,  
quais sombras roem, ao caírem do espelho,  
a memória em soluços do que ainda vemos?  
Desramadas as imagens, olhos sem templos,  
perde-se a alma em quê? Além não vai o homem  
do orgulho da pena. Ingênuo o ar da troça,  
corroendo a matéria já desfeita em si. Exaustos  
dramas engodos afrescos do inferno os versos  
lentos. Dentro do que pude vê-los, quantos
lidam com a lenda que inspeciona o caos?  

Estamos desaparecendo
, dos lábios julgo haver  
ouvido de uma delas. O que são? Névoas  
da ramagem, o que faz com que caiam em si  
e se desfaçam. Também os sentidos decaindo  
hostilizam a própria queda. O que seremos,  
naquilo que roemos? Tábuas ossos ramos,  
ao menos um livro além de toda melancolia.  


POLILLAS
 

A Jorge Pieiro  

Fondo del ser, ¿cuál será? ¿Qué nobles escombros  
se enorgullecen de la llanura de sus derrames?  
¿Qué cicatrices engendra el delirio en el espejo?  
¿Lo que fue, lo que somos, tenemos aceptado, cuerpos  
cayendo en círculos, miseria desencontrada,  
ríos de mármol, párrafos en sollozos,  
bautismo de aquello que vemos, lo que nos toca?  
Mancha que afirma el crimen en la oculta criatura  
que nos persigue, deforma, ímpetu de la forma  
que la piedra respira en el canto, a repetirse  
no siendo más que lágrima, orina, orfandad  
de arena guardada en el verso, torpe memoria,  
¿qué sombras roen, al caer del espejo,  
la memoria en sollozos de lo que aún vemos?  

 

 

 

 

DIANTE DO FOGO  

Meu pai envelhecido diante do fogo,  
árvore não mais guardada em tremores.  
Oh doce treva, tua idade se extingue  
para sempre? Que obscuro cântico
afasta o homem do júbilo de sua morte?
Terra e homem diante do fogo, névoa  
a voz das cinzas. A língua não pode
conter sua imagem derramada em cal.  
Meu pai, com seu pesado corpo alheio  
ao tempo, parece haver desnudado  
o inferno, aprendido as palavras com que
se faz o abismo descarnar. Rodeado  
por ávida quietude, o fogo, eterno súdito  
de impiedades, rege o olhar do morto.
 

 

DELANTE DEL FUEGO  

Mi padre envejecido delante del fuego,  
árbol no más resguardado en temblores.  
Oh dulce tiniebla, ¿tu edad se extingue  
para siempre? ¿Qué oscuro cántico  
separa al hombre del júbilo de su muerte?  
Tierra y hombre delante del fuego, niebla  
la voz de las cenizas. La lengua no puede  
contener su imagen derramada en cal.  
Mi padre, con su pesado cuerpo ajeno  
al tiempo, parece haber desnudado  
el infierno, aprendido las palabras con que  
se hace el abismo descarnar. Rodeado  
por ávida quietud, el fuego, eterno súbdito  
de impiedades, rige la mirada del muerto.

 

 

 

 

 

SÉC. XX: SECRETAS RUÍNAS  

                                                   A Sérgio Lima  

Estrondos da linguagem repercutem confusos.  
Nada entre nós suporta seu próprio centro,  
não há expansão e sim degeneração.  
Ruídos  
de uma relojoaria fantasma, bagaços do tempo.  
Tudo o que somos está fora de seu lugar,  
festim de simulações, sistema sem princípio.  
Rigor único da decadência, nenhum manifesto  
contra a ciência do ser e sua mordaz idolatria.  
Abolidos os diários do espírito, torna-se  
virtual a história, vítima de sua própria ilusão.  

 


SECC. XX: SECRETAS RUINAS  

                                                       A Sérgio Lima  

Estruendos del lenguaje repercuten confusos.  
Entre nosotros nada soporta su propio centro,  
no tiene expansión y sí degeneración.  
Ruidos  
de una relojería fantasma, bagazos del tiempo.  
Todo lo que somos está fuera de su lugar,  
festín de simulaciones, sistema sin principio.  
Rigor único de la decadencia, ningún manifiesto  
contra la ciencia del ser y su mordaz idolatría.  
Abolidos los diarios del espíritu, se vuelve  
virtual la historia, víctima de su propia ilusión.  

 

 

 

 

HÉCATE  

Esquecemos o mito, que somos cem  
e que tudo esteja por trás do nome.  
Recostamo-nos sobre o dorso de Deus.  
Suas imagens disformes folheamos,  
a nobreza resignada de suas criaturas.  
Estamos todas ali em meio às páginas  
de uma anônima escritura, quietas.  
Curva-se o verbo diante do alpendre
das oferendas: o culto deforma o mito.
 

 

HÉCATE  

Olvidamos el mito, que somos cien  
y que todo está por detrás del nombre.  
Nos recostamos sobre el dorso de Dios.  
Sus imágenes disformes hojeamos,  
la nobleza resignada de sus criaturas.  
Estamos todas allí en medio de las páginas  
de una anónima escritura, quietas.  
Se inclina el verbo frente al umbral  
de las ofrendas: el culto deforma el mito.

 

 

 

 

OCORRÊNCIAS  

                               Ao escultor Fernando Casás  

Parte do que somos somente nos recorda  
se um acidente lhe importa: entrada  
redecorada por cupins ou sátira do acaso  
a reinscrever o homem em seu trajeto.  
Parte do que somos somente o desgaste  
reaviva: proeza concreta de carcomidos  
ciclos da humanidade encravada em nós.  
Nós da memória, rasgos, erosões da alma:  
longa jornada da decomposição, até que  
reescreva seu nome destinado a apodrecer.  

 

OCURRENCIAS   
                              
Al escultor Fernando Casás
 

Parte de lo que somos nos recuerda tan sólo  
si un accidente le importa: pórtico  
redecorado por polillas o sátira del azar  
al reinscribir al hombre en su trayecto.  
Parte de lo que somos solamente el desgaste  
reaviva: proeza concreta de carcomidos  
ciclos de la humanidad enclavada en nosotros.  
Nudos de la memoria, rasgos, erosiones del alma:  
larga jornada de la descomposición, hasta que  
reescriba su nombre destinado a pudrirse.

 

 

 

 

POR TRÁS DA MEMÓRIA  

Resplenda um mito, seu nome vago.  
Manchas do ser, fuligem, contemplação.  
Reino fugaz de formas, fulgor mutante.  
Sua sombra concentrada na memória  
define a cartografia do abismo, a queda  
abismada pelo equívoco da matéria.  
Arquivo de sombras, zelos e fraudes,  
a imagem duplica-lhe a horda de vultos,  
errância fantasmagórica de conceitos.  
Não importa Klee ou Bacon, anotações  
sutis do assombro. Da própria cauda  
cuida a memória, Uroboros regurgitada  
a cada confronto com a matéria do ser.  

 

DETRÁS DE LA MEMORIA  

Resplenda un mito, su nombre vago.  
Manchas del ser, hollín, contemplación.  
reino fugaz de formas, fulgor mutante.
Su sombra concentrada en la memoria  
define la cartografía del abismo, la caída  
abismada por el equívoco de la materia.  
Archivo de sombras, celos y engaños,  
la imagen le duplica la hora de cuerpos,  
errancia fantasmagórica de conceptos.  
No importan Klee o Bacon, anotaciones  
sutiles del asombro. De su propia cauda  
cuida la memoria, Uroboros regurgitada  
en cada enfrentamiento con la materia del ser.

 

 

 

 

O TABELIÃO  

Um nome para as partes de teu corpo que emitem fogo,  
outro para o rosto que se guarda de tais chamas.  
Um nome que seja para o guia de tuas pernas flutuantes,  
e outro mais para os campos que evitam tua morada.  
Todos estarão felizes com seus nomes. Uns com mais de um,  
outros a ponto de perdê-lo. O nome os torna quase perfeitos.  
Aponta-me um deus sem nome e disto me encarrego.  
Serão belos ou tristes, enfaixados ou traídos pela corte,  
violentos ou angustiados. Há os que se sentem únicos  
e julgam-se renascidos a cada vez que o nome é pronunciado.  
Mesmo sendo iguais, os nomes também são distintos.  
Distribuo-os carregados de ilusões. Fábulas ou decretos,
rubrica de tudo o que somos ou rejeitamos. Não te protege  
o inferno do nome certo, traje com que entras em cena.  

 

EL NOTARIO  

Un nombre para las partes de tu cuerpo que emiten fuego,  
otro para el rostro que se cubre de tus flamas.  
Un nombre que sea para el guía de tus piernas fluctuantes,  
y otro más para los campos que evitan tu morada.  
Todos estarán felices con sus nombres. Unos con más de uno,  
otros a punto de perderlo. El nombre los torna casi perfectos.  
Anótame un dios sin nombre y de esto me hago cargo.  
Serán bellos o tristes, vendados o traídos por la corte,  
violentos o angustiados. Hay los que se sienten únicos  
y se juzgan renacidos cada vez que el nombre es pronunciado.  
Pues siendo iguales, los nombres también son distintos.  
Los distribuyo cargados de ilusiones. Fábulas o decretos,  
rúbrica de todo lo que somos o rechazamos. No te protege  
el infierno del nombre cierto, traje con el que subes a la escena.

 

 

 

 

  Benjamín Valdivia (Aguascalientes, México, 1960) tiene estudios de doctorado en filosofía y en educación. Es profesor en la Universidad de Guanajuato. Ha desempeñado labores en universidades de Canadá, Estados Unidos y España. Ha publicado poesía, novela, cuento, teatro, ensayo y traducciones (del inglés, francés, portugués, alemán y latín) en diversos medios mexicanos y extranjeros. Algunas de sus obras publicadas son los libros de poesía El juego del tiempo (Secretaría de Educación Pública, 1985), Demasiada tarde (Universidad de Guanajuato, 1987) y Paseante solitario (Ediciones La Rana, 1997); el de ensayo Indagación de lo poético (Tierra Adentro, 1993) y la novela El pelícano verde (Ediciones Castillo, 1989) con la que obtuvo el premio internacional "Nuevo León" en 1988. Ha sido miembro del Sistema Nacional de Investigadores y becario del Fondo Nacional para la Cultura y las Artes, en México. Entre sus libros recientes están: Nuevas meditaciones cervantinas (Universidad Autónoma de Querétaro, 1997), Breviario del unicornio (Verdehalago, 1998), Argumentos para la retórica (Ediciones Desierto, 1999) y Veleidades de Numa Fernández al caer la tarde (Ediciones La Rana, 1999), libro con el que obtuvo el Primer Premio Nacional de Novela "Jorge Ibargüengoitia" en 1998. Actualmente valdivia@quijote.ugto.mx es su correo electrónico. Su página personal en Internet es: www.angelfire.com/pa/BenjaminValdivia.