Goulart Gomes -poemas

 

          

 

 

                 

 O TOURO  

com sorte verás o touro  
no caminho para casa  
em seu nariz uma argola  
brilho dourado nas asas  

um chifre mocho da queda  
que tomou em uma escada  
e a língua verde-oliva  
pela erva ruminada  

os olhos são como as luas  
do planeta marciano  
ápis, nandi, touro minos  
boi do egypto, boi troiano  

com sorte o touro verás  
sem ires sequer a granada  
voando sobre o cerrado  
galopando na chapada  

talvez, se abrires os olhos  
enxergarás muito mais  
o touro e sua manada  
povoando pantanais  

se o veres, beija o focinho  
do bicho, que é pra dar sorte  
alisa seu pelo de prata  
acima da anca forte  

com sorte verás o touro  
e seu rabo de dois metros  
com suas patas de bronze  
e o falo como um cetro  

talvez ele até puxe prosa  
se estiver animado  
e te conte como virou  
este animal encantado  

joga basquete em chicago  
aqui e acolá puxa arado  
no mac vira alimento  
na índia, deus, seja louvado  

europa e pasífae  
habitaram seu harém  
ele pasta na manjedoura  
em Wall Street também  

com sorte verás o touro  
se tiveres merecimento  
guarde um tanto do estrume  
que é o melhor ungüento  

e quando estiveres indo  
não faças qualquer alvoroço  
com uma guirlanda de flores  
adorne o seu pescoço  

que o touro ficará  
muito mais que agradecido  
pois o boi é caprichoso  
boi-tatá, boi garantido




TEMPO FARPADO

 

arame farpado  
o Tempo recurva  
até os pregos;  
nos ferros  
depõe suas marcas  
amarga as madeiras  
descendo as ladeiras  
dos dias  

A flor impera  
promessa da semente
e do húmus da terra  
espinhos e farpas  
não cortam o vento  

(o Tempo se cala)  
a pétala fala  
também somos eternos  

   




SEMEADURA

 

não me chamem para a colheita,  
eu tenho mesmo é uma relação  
incestuosa com os grãos  

catar as sementes, acolher as boas  
e eroticamente introduzi-las  
na vulva da terra  
cobrir a terra  
e esperar a chuva  

bendizer o milagre da fecundação  
saber que existe um ser  
em cada grão  

e ver crescer a planta  
sexualmente multiplicando-se  
entre androceus e gineceus  

o nosso é um caso de amor
como o que existe entre uma menina  
e sua boneca,  
essa necessidade de dar vida  

concebê-la, cuidá-la  

eu gosto mesmo é de morder os grãos  
crus  
marcar as mãos, calejar os pés nus  
debulhar as sombras  
e esconjurar as pragas  

os espantalhos são meus irmãos  
crucificados entre as plantações  
nem bons nem maus ladrões  

sou mais de assustar as nuvens  
e macular os rios  
ouvir o eco a responder distante  
meus desvarios  
necessito muito é de cantar sozinho!  

mas não me chamem para a colheita  
se puderem... mandem-me os grãos


 



CABRALINA

 

em cada gaiola um ninho  
em cada rede um finado  
pele e ossos passado  
o homem, o passarinho  

e se se fala em deserto  
impõe-se um ceará
saara menor, quiçá  
ou outro do peito perto  

que o que dista permanece  
em alma fundo lavrado  
amor que requer cuidado  
e os fios encanece  




SINÉSIO PÁRA-CHOQUE

 

Sinésio curupira  
encantava chãos  
anuviava a visão dos transeuntes  
com serelepes de calango:  
três quartos de séculos vividos  
e alegria de moleque  
no rasgo da cara.  
Dentes poucos, nenhum siso  
e as cabeças ocas:  
muitos filhos

Sinésio envultava desde pequeno,  
isto era sabido,
 

feito raio de corisco  

Liberdade é coisa cara  
que não se sabe apreçar,  
definir ou entender,  
feito ar,  
apenas necessária  

Sinésio vivera assim  
desalgemado  
misturando-se à fumaça das estradas  
e ao lume das estrelas,  
feito neblina  

De modo que não se precisa  
na incerteza  
- este mundo é uma belezura! -  
que seta indica  
os rumos que tomou  

Viva e deixe-me viver  
uivava a última traseira de caminhão.

 




MARCOLINO ARREMETADOR

 

Marcolino esbronhava-se com veemência  
isso era peremptório.  
O impositório do impossível lhe ridicularizava.  
Celeste, furtiva  
esquiva, dissimulada feito Capitu  
escoiceava.  
Não que não pretendesse,  
tinha seus eivos,  
suas inclinações ao tentatório,  
um bruto que a abastava  
e bugrinhos chucros entremeando-lhe as pernas.  

Essas coisas de querência tem mais vidas que gatos remelentos;  
ano pós ano sucedia-se  
e aumentava o desejo, o medo.  

Ele abalroava, insistia, tentava...  
e se consumia.  
Celeste habitava os seus particulares:  
banho de rio, sono gozoso, escuro,  
fim-de-semana à toa  
umedecia-lhe as cuecas, surgia à mesa  
habitava revistas  
suecas e dinamarquesas.  
À noite, com damas de luzes vermelhas
e cortinas de contas coloridas  
comia Celeste no imaginário.  

Evidenciava-se em mimos  
e quinquilharias  
presenteadas com afeto incomum,  
quase dois lustros.  

Ela imaginava, ardia, recuava  
debatia-se em dúvidas de cio  
sua própria seiva exigindo  
lutar ou fugir.  

Certo dia findo  
o destino ou outro qualquer fantasma  
confronta-os numa trilha  
de poucos passos pisada.  

O terminativo é indefinível.  
Uns falam que nesse dia impreciso  
uma fragrância mágica cobriu a cidade  
outros dizem que uma chama brilhava  
nos ventres, implorando sêmens  
terceiros acusaram uma sede só saciável  
em ângulos, retos ou curvos.  

Marcolino e Celeste jamais se reviram.
Encontros e desencontros não se explicam.  
Fato é que em um somaram os dias  
que poderiam dividir  
e as águas salgados do lago brotado  
no meio da trilha  
até hoje tem poderes de Afrodite.  
Extinguiram-se, danaram-se  
e marcaram na alma a pele do outro  
eternizando a matéria.  

Um pôr-de-sol não se repete.  

curiboca não tem futuro  
os dias se espicham  
sucedendo-se entre os clarões  
de escuro e luz  
aquiali, aquiali, aquiali  

não há rememoros  
amanhã é a conjuração das horas  
não existe o que não existe  
quando for, passado é  

futuro é fermentação  
adubo de crânio, vontade  
e se o presente atende  
outros se desfazem  

puxamos a corda dos ideais  
para trazê-los aqui  
perdemos metais e, senão  
enfeitam-nos uns tufos
de pelos brancos  

corre, flutua  
as nuvens também se desfazem  

 




AMORFINA

 

viver numa falta de ritmos  
com vácuo nas veias  
e constantes arrepios  
predando desvãos de retinas  
e línguas malsãs  

droga se é boa  
necessárias palpitações engilhadas  
caídas de espinhela:  
nem toda luz é dia  

se a mesa é farta de cores  
lembranças tiram o gosto do jiló  
e recendem melaço  
cheiros espiralam no tutano  
feito pião  

quem provou viu que é bom  
justifica a dor, arraiga  
e permite sobrevidas de gatos  
semeia verde até nos olhos  
colhe tempestades  
de gosto é impreciso  

amorfina dilata vasos  
entorpece sentidos  
cura moléstias contraídas até à distância;  
quem não leu tatuagens de árvores, ignora 

espoca a jugular, sufoca, tensiona  

coxa de moça ou maçã de rosto madura  
bico duro e pelo  
saliva, giro de língua, glúteos  
contém gramas  
e não existe dose letal  
se o siso escapole, recompensa  
o riso amaina e se a fome é leviana  
esconjura  

rouba o vôo dos pássaros  
sê leve ao corpo que te recebe  


A LEGÍTIMA DESESTÓRIA DO INCANSÁVEL AFRÍGIO AROEIRA

 

A felicidade é estradeira  

para então necessário é dissolver costuras  
revirar as bainhas do silêncio e  
indagar das cavalinhas o caminho do oráculo  
onde se vendem promessas  
e mistérios de semana santa.  
Também é preciso inferir o medo  
mensurar as forças do escuro  
desmontar o muro, pessoar as coisas  
e represar o mito  
debulhando as pegadas no cascalho.  
É que largaram pelos quintos  
as madrugadas e cansaram  
de contar estios.  

Afrígio, duplicativo  
após muito entrevistar  
formigas parideiras e perseguir calangos  
pensou tê-la achado  
num curral de vidro. Não era.  

Cansou de serrar cornos  
viandou pelos chãos  
até pocar os calos num quintal de luzes  
onde a desinfância tinha valor marcado  
na tatuagem das coxas  
pela fissão da cachaça:  
entremeou, desgastou os olhos  
chorando branco. E andou. Não era.  

Aroeira esmagou estrume  
e deixou asfalto fubento  
xingou o tempo;  
de raiva, descarregou o cravinote
na primeira nuvem que voava baixo  
e capinou o buço a punhal  
transbordou o embornal, de cheia  
ribanceirou, ribanceirou  
e se esbarrou na capital  
foi dar com os quartos no tacho verde  
de salmoura e areia;  
desdentou de rir vendo as moças nuas  
lambendo o sol.  
Intentou desentristecer a cidade  
de tanta luz amarela  
beirou as sarjetas e desancou os postes
virou bicho quando lhe roubaram  
as estrelas  
(não foi, era só um furo n’algibeira).  
Desgostou dos fios. Era tudo enorme  
sem cumieira. Rebuscou os vãos  
com olhos de vermelho  
fez-se escravo dos ponteiros. Não era.  

Afrígio pariu quimeras e teve  
crias para abençoar,  
mas carecia de esmolas  
e de encontrar sentenças.  

Homequá, disgrama,  
este é o meio da desestória, não acaba.  

Vigiliei Afrígio tresontonte,  
escondendo aurora  
pegando picula com o cheiro da chuva molhada  
criando cisco na lapela.  
Nera longe, não, pilhéria. Cansou  
remendou atalhos, desconversou da sorte e  
voltou pra brincadeira  
artesão de latas e esferas.  

A felicidade é estrada...  
enganaram Aroeira.    




CLÃ

 

somos iguais  
menos normais  
a cada manhã  

 

   




A$$ALARIADO

 

vende a vida inteira  
pelo pão de cada dia  
a liberdade bóia, fria  

 

   

 



PARAPLEGIA

 

não mais amor  
as pernas, braços; dor -  
e não abraçam  




 

 

DIÁSTASE

 

 

você sem dor  
sem mim, semáforo  
o sol também amarelo  



 

 


GRAVIDEZ 

 

pingos pousam no brilho  
a mulher cresce  
nasce o filho  



   

 



BASALTO

mesmo a rocha solve  
magma que mata a fome  
teu olhar só me consome  




   


 


HOLOKAWSTO

 

há o que não houve  
retalhos de nylon  
cogumelo atônito  


 

   

 

 

ARADO

espirais e labirintos  
traçam, escravos do homem:  
um de canga, outro de cinto  





   



 


Á C I D O  

 

a água furou a pedra  
moinhos de amsterdã  
a manhã será mais bela