|
Moacyr Félix
Depoimento de um poeta exilado em seu próprio país -
Gabriel Nascente
[org.] |
|
|
Os editores |
|
De mangas arregaçadas,
briguento, austero, humanista, poeta sobretudo intelectual, Moacyr Félix
(Rio de Janeiro, 1926) é talvez um dos
mais lúcidos brasileiros que conseguiu ultrapassar as barreiras
do obscurantismo e do medo,
impostas pelo regime opressor de 64, e agora respira um tanto livre,
tentando salvar o que sobrou desta geração castrada.
AS OBRAS E O AUTOR
Autor dos livros Cubo de Trevas (1948),
Lenda e Areia (1950), Itinerário
de uma Tarde (Suécia, 1953);
O Pão e o Vinho (Prêmio
Alphonsus Guimaraens, lNL, 1959), Canto para
as Transformações do Homem (1964), Um Poeta
na Cidade e no Tempo (1966);
Canção do Exílio Aqui (1977),
Neste Lençol (1977), Invenção
de
Crença e Descrença
(1978), Moacyr Félix nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1926,
viveu a infância em Juiz de Fora, Minas, formou-se em Direito pela
primeira turma da então recém-fundada PUC em 1948,
Cursou Filosofia (Ética, Estética, Metafísica e Lógica) na
Sorbonne, em Paris, 1950/53. Participou da revista Cadernos do Nosso Tempo, onde escrevia ensaios sobre situações da política e
economia do Terceiro Mundo.
Antes de mais nada, temos que ser mundo
Elpídio Pereira de Faria – Moacyr fale am pouco sobre a emoção na arte. MF – E sem o que, não existe arte. Na revolução cultural chinesa, em
determinado momento, não se podia falar em Bach, Mozart, em coisa
nenhuma. Hoje, em várias fábricas, você usa como fundo musical a
sonata de Mozart. Anos atrás (nós
sofremos muito com o stalinismo), muita gente dizia que falar no
amor ou preocupar-se com o problema da mulher, com o problema do sexo,
era desviar-se da luta principal; porque o que interessa é o
problema da luta de classes, é o problema do imperialismo. Mas
se esquecem de que quando se fala em classe, imperialismo, está se
falando em nome do ser humano. E se não se dialoga sobre o problema
do amor, não questiona o que é um homem, uma mulher, você
perde o pé, o pino, a visão; o prisma essencial
para questionar o que é um homem e sua enxada, um homem e seu
trator, o homem e seu papel em branco para escrever. E veja o
seguinte: os grandes poetas sociais
... Maiakovski, por exemplo, fazia poemas de amor excepcionais.
Democracia não desce dos céus
Gabriel Nascente – Depois de 17 anos de escuridão, em termos de manifestações política e ideológica; depois que o nosso povo perdeu o direito de escolha de seus representantes, o direito de expressão e do diálogo aberto, você acredita que em novembro de 1982 o homem brasileiro voltará às urnas ? MF – Você pergunta: haverá eleição em 82? É um problema de usar bola de cristal, o que é muito difícil em história. As afirmações todas levam a isso, quer dizer: as exigências das várias camadas da sociedade brasileira clamam isso: querem eleições. Na medida em que querem cada uma, sejam os empresários reunidos na FIESP – agora atuando politicamente os empresários de São Paulo, o alto poder econômico da burguesia nacional brasileira – sejam eles que estão ligados a multinacionais ou ao capital estrangeiro (que também quer se fazer representar de uma forma indireta), este menos do que os outros desejam eleições. Mas sejam as várias camadas de classe média, seja o povo trabalhador– todos querem eleições. Então eu acho que desse apelo geral virá o momento em que essas eleições terão de ser feitas na medida em que se caminha para uma democracia. Agora, isso não se consegue sem pressão, luta, insistência ..., isso não desce dos céus. É uma conquista de todos nós. Inclusive acho, e é bom dizer até que há elementos do governo que são sinceros e estão inteiramente interessados nisso, apesar das contradições dominantes entre eles – que querem a instalação de um governo democrático. Eles também terão que ver na democracia a conquista de uma luta diária. Luta essa que eu gostaria que eles fizessem lado a lado, com todas as camadas do povo brasileiro. Luís Sérgio – E o Partido Comunista, Moacyr, poderá ser legalizado pelo atual regime político do país? MF – Quem pode falar pelo atual regime não sou eu e sim aqueles que são detentores de autoridade para falar em nome do regime atual. E pelos pronunciamentos que tenho visto na imprensa eles dizem que não legalizarão o Partido Comunista no Brasil. Osório Peixoto – Juscelino Kubitschek, com todo o seu carisma de líder; como você o vê n o contexto político em que viveu e atuou no Brasil? MF –O Juscelino, em termos de pessoa física, era realmente uma figura muito simpática, humana, larga, generosa. O que me importa, no entanto, é o seu papel político. No tempo em que ele assumiu, com relação aos interesses estrangeiros, havia uma certa complementaridade de interesses. Você poderia defender determinados interesses brasileiros, sem choques. Isto agora não é mais possível. Já existe o conflito, uma equiparação, um choque entre esses interesses. Muitas vezes, interesses da nacionalidade brasileira se chocam com os interesses das multinacionais, com suas matrizes, sobretudo, nos Estados Unidos. O entreguismo do Juscelino Kubitschek não impedia o desenvolvimento do país. Hoje, se ele usasse esse mesmo entreguismo, seria um desastre, como está sendo, como estão fazendo.
Os livros estão
ficando difíceis
Nauro Machado – Moacyr, há pouco você dizia que quem não publicar livros até julho do corrente ano poderá perder totalmente a chance, por causa das perspectivas que são um tanto sombrias, do ponto vista do alto custo industrial do papel, da mão-de-obra etc. É verdade? MF
– Não
tanto sombria. Nem fui eu quem colocou essa escuridão sobre a frase.
As manchetes de jornais a colocam, as declarações das autoridades a
ratificam: o próprio presidente da República falou que este seria um
ano difícil, o ministro do Planejamento fala que será será um ano
de sacrifício. Mas nós estávamos falando mesmo é sobre editoras,
ou seja: empresas de nível médio, empresas pequenas, empresas que
vivem dependendo de faturamento na base de duplicatas, que são
descontadas em bancos. Ora, com a inflação, com a ascensão do preço
do papel, com a ascensão do preço da gráfica, com o aumento
semestral do funcionalismo, com o aumento de todos os serviços necessários
à confecção da capa (artistas, desenhos etc.) – você vai ter o
livro a um preço tal que... E falávamos de estreantes, iniciantes,
daqueles poetas que ainda não têm nome, malgrado do ponto de vista
da qualidade, às vezes merecem maior
destaque do que aqueles que têm nome. Portanto, pelo fato de não
terem nome, não são considerados comercialmente como sucesso, como
suscetível de, a curto prazo, ou seja, 90 dias, que é o tempo de se
vencer o título, cobrir pelo menos 50% das despesas do livro. No caso
desses poetas é que eu estava dizendo que a situação ficará cada
vez mais difícil.
Poema, material para pensamento
Osório Peixoto – É claro que as coisas não andam tão bem assim. A gente sabe que daqui a pouco teremos que pagar para continuarmos respirando o ar do novo dia. Neste plano, de arruinadas perspectivas,é claro, gostaríamos de saber como vai o seguimento editorial da Revista Encontros com a Civilização Brasileira, a qual vem dirigindo desde sua fundação. Sabemos que ela já foi Interrompida pela mão carrasca da censura, mas agora, em sua nova fase, a gente sente que a a revista vai obtendo uma penetração cada vez mais positiva dentro da sociedade brasileira, apesar de sermos um povo ainda maciçamente iletrado. MF
– A revista pretende abrir um leque de divulgação, interpretação.
discussão, critica. Em suma: uma informação cultural,
intelectualmente praticável
dentro das várias camadas da sociedade brasileira. Ela abarca
desde os aspectos da política, da sociedade, da política internacional, da economia, da literatura, das artes
plásticas, do cinema, do teatro, até a crítica literária em seção
de livros.
Clique nos nomes dos poetas para ver suas páginas em PALAVRARTE .
|