
A entrevista
concedida por Goulart Gomes, criador e coordenador geral do Movimento Internacional
Poetrix a Ivan Cavalcanti Proença, Professor, Mestre e Doutor em Literatura,
autor de inúmeros livros/Ensaios de Literatura e Diretor/Professor da oficina
literária mais antiga do Brasil , representa mais um marco nas questões
que levantamos sobre as funções da literatura e suas injunções artesanais.
De Ivan, teórico de construção própria e
aglutinador de idéias sobre o fazer literário, inegavelmente, um dos
mais situados no debate geral da literatura brasileira, partem indagações
sobre a existência de uma nova forma do fazer poético - o poetrix,
emulada no nordeste brasileiro e articulada através de uma lista de remessa
por correio eletrônico e uma página recentemente inaugurada, que se amplia
cada vez mais com a participação de poetas de todas as partes do Brasil
e do exterior.
De Goulart Gomes, jovem poeta baiano,
a definição das bases teóricas do que se caracteriza e se preza num
poetrix, alguns de seus poemas e poetrixes representativos do movimento.
A ambos, PALAVRARTE agradece pela relevante contribuição.
OS EDITORES
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Ivan Cavalcanti Proença:
Qual a inspiração mais atuante? Os micropoemas, poemas-minuto do Modernismo
ou os tercetos orientais? Ou nenhum deles? Nesse caso, revelar a(s) fonte(s).
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Goulart Gomes:
Eu diria que ambas. Rilke (1) afirmava
que um poema é bom se nasceu pela necessidade. O POETRIX nasceu pela necessidade.
Transmitir uma mensagem poética em apenas uma estrofe de três versos já
impõe uma grande limitação; se, aliado a isto, temos ainda limitações temáticas
ou estilísticas, a dificuldade
torna-se ainda maior. Mas este não é o único entrave: perde-se em criatividade,
perde-se a possibilidade de alçarmos maiores vôos. O POETRIX tem sido chamado
de "anti-haicai" ou "filho rebelde do haicai". Eu diria
que ele é um 'herdeiro" do haicai, pela sua forma e um "herdeiro"
dos micropoemas e poemas-minuto, pelo seu conteúdo. Mas, não esqueçamos
que o terceto também tem uma tradição ocidental, oriunda dos terzettos
italianos, praticados por Dante Alighieri.
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Ivan Cavalcanti Proença:
O movimento literário Poetrix se vale de liberdades métrica e rímica, mas
padrão estrófico. Como se explica, diante da, hoje, aceita conceituação
de que Conteúdo é forma que vem à tona?
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Goulart Gomes:
Conceitos são bons até que surjam outros, melhores, que os substituam.
Qualquer paradigma só aguarda o momento de ser quebrado. O POETRIX preza
a similicadência (frases com um mesmo ritmo ou cadência) ou, ao menos, o
isocronismo (mais ou menos o mesmo número de sílabas) (2). Mas isto não
é uma regra. Aliás, é sempre bom relembrar: não existem regras no POETRIX.
No Manifesto Poetrix (3) apenas identificamos algumas características
principais, que viriam a contribuir para a formulação da definição (ainda
não definitiva) à qual chegaram os integrantes do Movimento Internacional
Poetrix: um terceto contemporâneo,
de temática livre, com título, ritmo e um máximo de trinta sílabas, possuindo
figuras de linguagem, de pensamento,
tropos ou teor satírico. Alguns teóricos defendem a opinião segundo
a qual o que diferencia a poesia da prosa é o ritmo. Ainda assim, a poesia
concreta despreza o ritmo; não seria ela, então, nem prosa nem poesia? O
POETRIX insere-se no universo dos tercetos, possui padrão estrófico e rítmico
mas, ao mesmo tempo, temos visto surgirem POETRIX CONCRETOS, no espaço das
três linhas. O que vem à tona sempre é o conteúdo, na forma que melhor se
adeque.
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Ivan Cavalcanti Proença:
Os
não-ditos e o jogo imagístico constituem a força, a essência dos poemas?
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Goulart Gomes:
Em grande parte, sim. A nossa linguagem, ocidental, não tem o recurso "paisagístico"
dos ideogramas japoneses. O grande haijin Masuda Goga (4) cita, em um dos
seus livros, o escritor nipônico Ikutarô Nishida: "penso que uma forma
poética como o haiku não poderá ser, absolutamente, traduzida para idioma
estrangeiro... [ele]... mostra a atitude peculiar dos japoneses em relação
à vida e ao mundo" .
As mais bem intencionadas tentativas ocidentais (inclusive as
brasileiras, como a de Guilherme de Almeida) de prática do haiku
- e sua adaptação, transformando-o em haicai - não passam de pálidos reflexos,
sem a riqueza dos originais. Então, parodiando Caetano Veloso ("só
é possível filosofar em alemão"): só é possível fazer haiku em japonês.
Por aqui, "atropelamos" o haicai. A maioria dos poetas, por absoluto
desconhecimento, acredita que está fazendo haicai, mas não. Ignoram o kigo
(emoções vinculadas a estações do ano),
o haimi (sabor, essência),
o kireji (cadência). Para compensar
esta nossa "desvantagem" visual, o POETRIX traz a imagética para
o texto. O não-dito, por vezes, fala mais. Reconstruímos as imagens com
o que nos permitem as palavras, incorporando metáforas, o non-sense, o humor. Acredito que, principalmente por isso, o POETRIX
esteja sendo tão bem aceito por poetas do México, Argentina, Espanha e Portugal,
dentre outros. Ele já "nasceu" ocidental, adequado à nossa escrita
e facilmente assimilável pelas mais diferentes culturas.
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Ivan Cavalcanti Proença:
Poetrix resulta do experimentalismo de vanguarda, da exaustão do Modernismo,
ou de uma retomada da idéia de que "não sabemos o que queremos, mas
sabemos o que não queremos!"
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Goulart Gomes:
O POETRIX sabe o quer: tornar-se uma nova linguagem poética, que permita
ao autor realizar altos vôos num curto espaço, "desengessar" o
terceto, retirar-lhe as amarras, torná-lo contemporâneo. O POETRIX surge
no "rastro" de poetas como Leminsky, Millôr e Cacaso e totalmente
adequado à dinâmica e à velocidade da informação no cibermundo em que vivemos.
Mas um dos grandes enigmas da literatura brasileira hoje é: Onde termina (ou terminou) o Modernismo? Esse movimento quase octogenário
é um divisor de águas. O recente e polêmico livro Os
Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, tem a sua primeira parte
intitulada "Pré-Modernismo", adotando o conceito de Alceu Amoroso
Lima: "o que concede ao prefixo pré
uma conotação meramente temporal de anterioridade". Nela estão reunidos
poetas tão distintos quanto Augusto dos Anjos e Machado de Assis!
Então, a nossa literatura está claramente dividida entre a.M. e p.M?
Mas o que aconteceu após a Semana de 22 que realmente
se diferenciasse da proposta modernista? Talvez, apenas, o Concretismo e
o Poema-Processo, que tem um apelo muito mais visual, gráfico, do que semântico.
Hoje, temos bons poetas românticos, simbolistas, parnasianos, modernos;
sonetistas, cordelistas, trovadores, de visuais, de versos livres. Vivemos
uma agradável "babel", onde todos se entendem. Neste ponto, sim,
o conteúdo é forma que vem à tona... de qualquer forma! O Modernismo deu
um tiro de misericórdia nas "escolas literárias" ou, como diria
Raul Seixas, "faça o que tu queres pois é tudo da Lei". O POETRIX
é tipicamente modernista enquanto culturalmente antropofágico, deglutindo
o que vem de fora, transformando-o em algo nosso ("é moderno ser moderno").
Melhor seria considerar o POETRIX como resultante do experimentalismo de
vanguarda, da busca por novas formas de expressão da nossa criatividade
ou, apenas um exercício do que preconiza o mestre Ferreira Gullar: é preciso,
ao poeta, saber elaborar a sua linguagem.
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(1)
Rilke, Rainer Maria. Cartas a um Jovem Poeta.
(2)Garcia, Othon M. Comunicação em Prosa Moderna.
(3) Gomes, Goulart. Trix Poemetos Tropi-kais.
(4) Goga, H. Masuda. O haicai no Brasil.
(5) Pinto, José Nêumane.
Os cem melhores poetas brasileiros do século.
Para conhecer o Movimento POETRIX visitem: http://www.movimentopoetrix.com.
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