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Por que o
título Textamentos ?
O título é uma mistura de
Textos e Testamento . Um testamento de Textos. Mas não
uma despedida, e sim
a inscrição de mais algumas palavras no discurso de
minha vida. Acresce que muitos poemas têm um tratamento textual,
meio original dentro do que venho fazendo.
Por exemplo: resgato alguns poemas que estavam diluídos
em crônicas, confundindo intencionalmente esses gêneros
e pratico uma coisa que Manuel Bandeira gostava de fazer:
pegar os textos alheios, às vezes uma notícia de
jornal e manipulá-la de tal modo que vire poesia.
Você diria que este
livro tem uma suave conexão com O lado esquerdo do meu
peito? Por que ?
Todos os meus livros se
armam organicamente . Eu não ajunto simplesmente um
punhado de poemas e publico . Vou escrevendo, jogando-os
em pastas e esperando que um dia eles se aglutinem,
informando-me do sentido oculto que têm entre si. Neste,
prolongo a temática do amor e da morte, mas insiro
coisas novas; inclusive
uma série de poemas sobre a Toscana, Grécia, Israel,
América Latina . Quando você viaja, tem lampejos de
observações. E o leitor, conforme experimentei nas
crônicas de viagem, viaja também nesses textos.
Os poemas deste livro
são curtos. Foi uma opção ou simples
coincidência?
Tive uma fase de longos,
largos poemas, Que país é este ? , A
grande fala do índio guarani, A catedral de
Colônia , e alguns críticos assinalaram neles
a retomada da linguagem épica ou da antiepopéia na
modernidade. Era uma reação à censura estética das
vanguardas e à censura da ditadura. A opção por
poemas menores decorre também de muitas coisas.
Inclusive faço nesses textos uma experiência
arriscada, que é bordejar a prosa, fazer a poesia
conversacional, ao contrário de um certo ritmo que
eu já havia adquirido. É como se, depois de pintar com
a mão direita, quisesse pintar com a mão esquerda
.
Ao falar de morte,
você valoriza a vida, ter um dia pela frente
é algo capaz de dar uma quase- felicidade. Você acha
que somente a passagem do tempo é que nos dá a
possibilidade de degustar uma bela
tarde de primavera, por exemplo?
Esse livro dobra-se sobre a maturidade,
essa coisa que chamam de velhice ( o que é isso se hoje os velhos vão
viver 120?).Inclusive a maturidade erótica.Por isto digo num desses
poemas: Estou
vivendo a glória de meu sexo / a dois passos do
crepúsculo / Deus não se escandaliza com isto / O
júbilo maduro da carne / me enternece /
Envelheço sim, / E (ocultamente) resplandeço”.
Desconfiando é uma
poema que estranha a liberdade (de poder ler livros, ver
filmes, falar ao telefone...). O país mudou para melhor?
É que a democracia a que
tanto aspirávamos não fez o Brasil dar o salto que
queríamos. E atuais representantes de nossa geração
que chegaram ao governo mostraram-se um blefe . Não têm
projeto. O projeto deles é estar no poder. Por isto,
naquele poema, ironicamente, mostro o desconforto diante
dessa época de terrorismo econômico, onde as pessoas
não fazem greve nem tem coragem de reivindicar, porque
tem medo de ser despedidas ou porque sequer têm
empregos. No tempo da ditadura todos conhecíamos alguém
preso ou torturado, hoje todos conhecem um ou mais
desempregado.
Há alguma fórmula
para se manter sempre amando ou amável ?
Não, o amor é o
interminável aprendizado. Em cada época da vida tem uma
coloração e uma densidade diferentes. E isto, tento
dizer em vários poemas. Assumo uma humildade diante
desse sentimento na verdade inexplicável.
A tal certa
idade aperfeiçoa a forma de amar e a própria sexualidade
– ou não existe isso de idade em amor ?
Deve ter gente que não
aprende nada com a idade. Não digo que tenho
aprendido.Tento ver e assumir o ponto de vista que essa
idade me oferece. E assim a vida vai ficando polivalente.
Como disse uma crônica muito divulgada, A mulher
madura: cada idade tem seu esplendor. É um
equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de
juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias
do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada
um descubra o fulgor do próprio corpo.
Quais
são seus próximos projetos literários ? Provavelmente em abril próximo a
Rocco estará lançando Barroco, do quadrado
à elipse, onde estudo este estilo ontem e hoje, não só
na literatura e nas artes, mas na moda, na guerra, na
gastronomia, na ciência, etc. Estou terminando um livro
de ensaios, preparando um novo de crônicas e, nos
primeiros meses de 2000, deve sair um CD de crônicas
faladas por mim e Paulo Autran. Há, também, um projeto
de transformar A grande fala do índio
guarani em CD-ROM. E, é claro, viajar muito.
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