Affonso Romano de Sant’Anna fala a Eliane Lobato sobre seu mais recente livro de poesias.

     Ao  analisar  seu último livro do século, Textamentos, Affonso Romano de Sant’Anna fala-nos sobre o sentido do fazer poético em sua obra e o amadurecimento do texto, como legado do processo de ir construindo novas relações no diálogo com a vida. A par disto, coloca-se face  à maturidade  do homem  e do escritor sábio de si mesmo que se projeta  para o aprendizado da idade e do amor.

                                                   
Amélia Alves


 


Por que o título
Textamentos ? 
 
O título é uma mistura de Textos e Testamento . Um testamento de Textos. Mas não uma despedida, e sim
a inscrição de mais algumas palavras no discurso de minha vida. Acresce que muitos poemas têm um tratamento textual, meio original dentro do que venho fazendo.
Por exemplo: resgato alguns poemas que estavam diluídos em crônicas, confundindo intencionalmente esses gêneros e pratico uma coisa que Manuel Bandeira gostava de fazer: pegar os textos alheios, às vezes  uma notícia de jornal e manipulá-la de tal modo que vire poesia. 
 

Você diria que este livro tem uma suave conexão com O lado esquerdo do meu peito? Por que ?  
Todos os meus livros se armam organicamente . Eu não ajunto simplesmente um punhado de poemas e publico . Vou escrevendo, jogando-os em pastas e esperando que um dia eles se aglutinem, informando-me do sentido oculto que têm entre si. Neste, prolongo a temática do amor e da morte, mas insiro coisas novas; inclusive
uma série de poemas sobre a Toscana, Grécia, Israel, América Latina . Quando você viaja, tem lampejos de observações. E o leitor, conforme experimentei nas crônicas de viagem, viaja também nesses textos. 
 

Os poemas deste livro são curtos. Foi uma opção ou simples coincidência?  
Tive uma fase de longos, largos poemas, Que país é este ? , A grande fala do índio guarani, A catedral de Colônia , e alguns críticos assinalaram neles a retomada da linguagem épica ou da antiepopéia na modernidade. Era uma reação à censura estética das vanguardas e à  censura da ditadura. A opção por poemas menores decorre também de muitas coisas. Inclusive faço nesses textos uma experiência  arriscada, que é bordejar a prosa, fazer a poesia conversacional, ao contrário de um certo ritmo que eu já havia adquirido. É como se, depois de pintar com a mão direita, quisesse pintar com a mão esquerda .  

Ao falar de morte, você valoriza a vida, ter um dia pela frente é algo capaz de dar uma quase- felicidade. Você acha que somente a passagem do tempo é que nos dá a possibilidade de degustar uma bela tarde de primavera, por exemplo?  
Esse livro dobra-se sobre a maturidade, essa coisa que chamam de velhice ( o que é isso se hoje os velhos vão viver 120?).Inclusive a maturidade erótica.Por isto digo num desses poemas: Estou vivendo a glória de meu sexo / a dois passos do crepúsculo / Deus não se escandaliza com isto / O júbilo maduro da carne / me enternece / Envelheço sim, / E (ocultamente) resplandeço”.  

Desconfiando é uma poema que estranha a liberdade (de poder ler livros, ver filmes, falar ao telefone...). O país mudou para melhor?  
É que a democracia a que tanto aspirávamos não fez o Brasil dar o salto que queríamos. E atuais representantes de nossa geração que chegaram ao governo mostraram-se um blefe . Não têm projeto. O projeto deles é estar no poder. Por isto, naquele poema, ironicamente, mostro o desconforto diante dessa época de terrorismo econômico, onde as pessoas não fazem greve nem tem coragem de reivindicar, porque tem medo de ser despedidas ou porque sequer têm empregos. No tempo da ditadura todos conhecíamos alguém preso ou torturado, hoje todos conhecem um ou mais desempregado.  

Há alguma fórmula para se manter sempre amando ou amável ?  
Não, o amor é o interminável aprendizado. Em cada época da vida tem uma coloração e uma densidade diferentes. E isto, tento dizer em vários poemas. Assumo uma humildade diante desse sentimento na verdade inexplicável.  

A tal  certa idade aperfeiçoa a forma de amar e a própria sexualidade – ou não existe isso de idade em amor ?  
Deve ter gente que não aprende nada com a idade. Não digo que tenho aprendido.Tento ver e assumir o ponto de vista que essa idade me oferece. E assim a vida vai ficando polivalente. Como disse uma crônica muito divulgada, A mulher madura: cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.  

Quais são seus próximos projetos literários ?   Provavelmente em abril próximo a Rocco estará lançando Barroco, do  quadrado à elipse, onde estudo este estilo ontem e hoje, não só na literatura e nas artes, mas na moda, na guerra, na gastronomia, na ciência, etc. Estou terminando um livro de ensaios, preparando um novo de crônicas e, nos primeiros meses de 2000, deve sair um CD de crônicas faladas por mim e Paulo Autran. Há, também, um projeto de transformar A grande fala do índio guarani em CD-ROM. E, é claro, viajar muito.