Renato Casimiro:
O objeto livro,
entendido como hoje entendemos, isto é: uma base de papel, onde se
imprime tipos – letras e imagens, seqüencialmente encadernados, tem
sua história desde o códex, somando já vários séculos. Hoje
deparamos com a possibilidade de uma nova base, a base eletrônica,
que pode ser um disquete, CD, memória de um computador - o livro
virtual, como usualmente chamamos. Vendo desta forma não existe razão para falarmos no fim do
livro. Apenas estaríamos substituindo uma base, pela outra – o
papel cedendo lugar a outros materiais. Seria o caso da troca do vinil
pelo CD, o que fundamentalmente não modificou a maneira como as
pessoas ouvem música.
Por outro lado o surgimento das fitas de vídeo traz mudanças
comportamentais na forma de se assistir a um filme: fica-se em casa numa
posição de conforto e relaxamento, a possibilidade de se
interromper, recuar, avançar a fita etc. Podemos supor que o
surgimento do livro eletrônico também possa provocar mudanças no
hábito de ler – não haverá mais necessidade de grandes espaços
para guarda de livros, estantes, bibliotecas etc, as facilidades de
edição permitindo que o próprio autor seja o editor através dos
diversos programas de edição de texto, a própria postura física no
ato de leitura etc. As mudanças comportamentais certamente modificam a
forma de se compreender uma obra e por conseguinte, a própria
concepção desta obra . O próprio livro quando do surgimento da impressora de tipos móveis
de Gutenberg trouxe transformações na produção textual - uma vez
que o alcance de leitura se tornou sensivelmente maior etc. A pergunta
é: não se trata de saber se o dito livro virtual põe em risco a
existência do livro tradicional – isso é o mesmo que se acreditava
quando se julgava que o cinema acabaria com o teatro, a televisão com
o rádio, a fotografia com as artes plásticas. Costumo dizer que
apesar de toda a tecnologia de comunicação hoje disponível ainda
picha-se muros e se talha corações com frases tipo eu te amo nos
troncos das árvores. O Homem convive com diversos meios de expressão.
A questão é se saber de que forma a tecnologia, e não só a de
recepção, mas a de produção também, modificam o ato de criação
e de recepção de uma produção simbólica – o texto, o filme, as
artes plásticas. Esta longa introdução embora possa parecer
enfadonha se justifica como uma reflexão para duas indagações
concretas:
1. Você
acredita que o livro virtual pode contribuir para uma maior
democratização da leitura, ou simplesmente para uma banalização da
produção escrita?
Tomaz Adour: Eu acredito que o livro virtual vai contribuir em muito para a democratização da leitura porque permite a obtenção rápida dos arquivos digitais dos livros e a um custo muito mais barato. Além disso, permite também que se preservem os direitos autorais que antes eram perdidos por causa das fotocópias, permitindo que os escritores, se não puderem sobreviver, que pelo menos recebam os benefícios de seu trabalho. E apesar da facilidade de publicação virtual e de seu custo baixo, podem até aparecer textos de baixa qualidade literária. Porém, aparecerão textos de altíssima qualidade literária tanto de autores novos quanto de autores consagrados porque são textos passíveis de publicação digital a custo baixo sem a preocupação comercial das editoras convencionais de que precisam vender muito para valer a pena ser publicado.
2. Com a tecnologia disponível, quando já é possível se ler um texto em formato de livro num computador de bolso que possibilita anotações nas margens das páginas, avançar as páginas ou recuar, etc, determinadas produções textuais, como a poesia, por exemplo, passará a ter um caráter mais efêmero, uma vez que pode ser simplesmente deletado para ceder lugar a um outro texto na memória do computador?
Eliana Mora:
Carlos
Lima:
1 - Na história da humanidade as utopias sempre representaram as possibilidades de se construir um mundo melhor e mais humano. Que tipo de utopia podemos esperar desses novos meios de comunicação?
Tomaz: Que o mundo realmente possa ser a
"aldeia Global" de Mc Luhan, mas no sentido de que todos
tenham direito às mesmas oportunidades..
Que uma nova utopia seja construída em torno do conhecimento e do
saber. Para todos, cada um preservando sua Cultura, sua identidade.
2 - Os novos meios de
comunicação criam uma certa ilusão positivista. O positivismo correspondeu no século IXX a uma crença
infinita apenas no progresso das ciências. De
que forma se pode aumentar o grau de consciência das pessoas através
destes meios de comunicação para diminuir esta ilusão positivista?
Eliana
Mora:
A questão é usar esses meios para relembrar que, para além e
por detrás de qualquer máquina, poderio eletrônico, bélico ou
e científico, existem mentes humanas.
Não
existiria absolutamente nada, nem sequer uma perspectiva, se o
caminhar da humanidade passasse
pela lógica [?] de abandonar o homem
em sua essência.
O progresso de toda e qualquer ciência deve existir e ser incentivado
[e divulgado pelos meios a que nos referimos] -, para que venha a se
juntar ao arsenal humanístico que já se conhece. Aí podem-se
incluir os estudos ditos "não-científicos", como
os da psiqué humana.
Sem esta visão, na realidade nunca será possível atravessar a
linha discreta - porém forte e intransferível -que liga o homem à
sua natureza, e à Natureza e origens de ambos.
Luís
Sérgio:
1 - Você imagina que no futuro haverá um notebook em cada carteira escolar?
Tomaz: Com a tecnologia atual, não digo nem um notebook. Os próprios e-books custam US$200 e podem evitar que os alunos carreguem aqueles livros pesados que acabam com a coluna. Mas sempre que estes aparelhos (gadgets) ficam baratos, surge um melhor caríssimo. Mas a tendência é crescer o uso de aparelhos, mesmo que sejam bancados pelas escolas ou governos.
2 - Certamente, isto mudaria a economia, o que você pensa sobre esta
possibilidade?
Tomaz: A informática irá baratear o custo da educação, permitir que todos possam se nivelar com informações a custo acessível e as pessoas terão que se diferenciar de outra forma. Com a facilidade gerada, as pessoas poderão produzir mais, viver melhor e ter mais tempo para as famílias.