
Luís Sérgio
1 - Como surgiu o Panorama da
Palavra?
Ortiz: A idéia de fazer o Panorama
da palavra saiu da constatação de uma lacuna no
meio literário: a falta de lugares onde as pessoas
dissessem poesia e pudessem se
conhecer.
Egressos da oficina
literária da Estação das Letras, os poetas que hoje
são a equipe do panorama, eu, Augusto Sérgio Bastos,
Marcus Vinicius e Victor Farinha, passamos a nos
encontrar informalmente, no Bar Bip Bip, em Copacabana,
às quartas-feiras.
Eram (e continuam sendo)
reuniões muito interessantes, porque além de nos
estimular a escrever sempre, tiramos cópia dos poemas e
distribuímos aos presentes, para que possam acompanhar a
leitura. A poesia, na minha opinião, é bonita falada,
mas é muito mais a escrita do que outra coisa. A forma
como é apresentada diz muito das intenções do autor,
das influências e do conhecimento do idioma.
O Bar Bip Bip, no entanto,
reduto tradicional da MPB, agora com 31 anos de idade,
comandado por Alfredo, tem um vizinho barulhento, e isso
me incomodava muito. Já tinha ido ao CEP 20000, antes de
fechar, no teatro Sérgio Porto, mas não tive vez.
E sonhava com um lugar em que a poesia fosse ouvida em
silêncio, com atenção e sentimento. Além disso, sei
que a poesia falada, além de sensibilizar, é fonte de
curiosidade. No momento em que se escuta um poema que nos
toca, a gente fica interessado em conhecer mais do autor,
e isso ajuda na divulgação do livro, que por acaso ele
tenha publicado, ou estimula o autor a publicar, se ele
chega a saber que é admirado. A minha experiência me
mostrou isso. Vinda do Rio Grande do Sul há pouco tempo,
como divulgar a minha própria poesia? A constatação de
que é difícil penetrar nos grupos já consolidados me
levou a abrir um espaço próprio que não adotasse a
mesma prática. (É verdade que dele
pouco me utilizei. Das 41 edições do Panorama da palavra, eu estive apenas duas vezes no
programa. Tenho certeza de que hoje, na área, meu nome
circula muito mais que o meu trabalho).
Foi quando fiquei sabendo
que uma conterrânea, Ignez Pinto de Moraes, possuía um
teatro em Copacabana. Entrei em contato com ela, que
imediatamente gostou do projeto e abriu as portas da Casa
de Cultura Margarida Rey. Foi quando começou o Panorama
da palavra.
2 - O seu
projeto abrange também um jornal. Como é o processo de
editoração e distribuição deste jornal?
Ortiz: A falta de divulgação na
mídia é que me levou ao jornal, tornando ainda mais
original o evento, já que ele agora tem a sua própria
cobertura. O ingresso de RS$ 5,00, com o qual eu
pretendia, inicialmente, pagar um cachê aos artistas,
foi destinado à confecção do jornal, que se destina,
antes de tudo, a dar espaço aos poetas que a mídia não
contempla. Se um poeta faz um livro e não sai nos dois
cadernos de literatura, do JB ou do outro, acabou-se. E
pouquíssimos saem.
3 - Em sua
trajetória, de jornalista a poeta e de poeta a
coordenadora de um projeto que tem por princípio e objetivo
divulgar a obra de outros poetas, houve algum momento que
mereça especial destaque?
Ortiz: De 1º de março a 13 de
dezembro, o Panorama da palavra funcionou
regularmente, mostrando novos talentos ou os nomes
consagrados da poesia brasileira. Talvez o seu dia mais
glorioso tenha sido o da apresentação de Ferreira
Gullar, quando a Casa de Cultura Margarida Rey, que tem
uma capacidade de 60 lugares (o que considero ideal para
poesia) foi pequena para abrigar tantas pessoas que foram
ouvi-lo, em noite particularmente inspirada.
Do balanço de todo esse
trabalho deu para concluir muitas coisas:
Foi maravilhoso ter tido a
idéia e forças para concretizá- la. Os laços que se
formaram, as pessoas que passei a conhecer, a
solidariedade, a alegria de ter revelado talentos novos e
estimulado a troca foi a recompensa de tanto trabalho.
Pensar o jornal, fazê-lo, selecionar os poemas, imaginar
a distribuição gráfica me dá muito prazer. E as
respostas são sempre positivas.
Mesmo se tratando de uma
classe naturalmente mais preparada, intelectualmente,
ainda me ressinto de uma falta de visão no que concerne
às possibilidades do projeto.
Os projetos culturais são
difíceis e lentos. Apesar dos bons resultados, a minha
expectativa não foi alcançada. Acho que a poesia
merecia muito mais dedicação do que a que tem recebido.
Vejo também que os poetas estão mais interessados em
falar do que em ouvir. E fora isso, não despertaram
ainda para a necessidade de união com objetivos
definidos, com organização e apoio financeiro, como se
organizam as forças contrárias. Uma classe bem
organizada e com os mesmos instrumentos de poder
certamente daria um adianto legal no mundo que se
apresenta diante de nós.
Faço, no entanto, o que
posso. E os amigos que me ajudam nessa tarefa me mostram
que ela é possível e necessária.
A idéia é prosseguir na
certeza de que estamos no caminho certo: a divulgação
da poesia é necessária e continuaremos a trabalhar por
ela. A campanha de assinaturas iniciada no número 6 do
jornal demonstra a intenção de não parar.
O trabalho na área da
cultura é lento, ainda mais numa época em que a
educação de base se torna cada vez mais precária. Sei
que se deve fazê-lo sem esperar resultados imediatos,
olhando tudo de uma perspectiva histórica. Muitos
jornais de poesia são editados, duram um tempo e
desaparecem. Os motivos são variados, mas o principal é
a falta de apoio financeiro.
A intenção é prosseguir
com o Panorama da palavra em 2000, e também com
o jornal. Eles existirão como nós: enquanto houver a
vida. É temerário estabelecer prazos, porque o
fluxo da vida é que determina o que segue ou o que
termina.
Amélia
1 - Até hoje quantos
poetas passaram pelo projeto?
Ortiz: Com uma divulgação
precária e sem patrocínio, o Panorama da palavra se impôs como uma mostra democrática dos trabalhos dos
quase 300 poetas que por lá já passaram.
O poeta Paco Cac já
trabalhava em evento semelhante no Museu da República,
convidando poetas para falar uma vez por mês. Existia
também o trabalho de Teresa Drummond -Poeta, Saia da
Gaveta, no Méier, também uma vez por mês. Mas o Panorama
da palavra foi implantado para funcionar
semanalmente, todas as segundas-feiras. E assim aconteceu
até dezembro, firmando-se como espaço de valorização
e divulgação da poesia.
Foi um trabalho duro,
principalmente pela falta de divulgação. A mídia, até
hoje, insiste em ignorar o Panorama da palavra,
o que não impede que ele exista, e é bonito
.
A partir daí ,vários
outros espaços começaram a abrir para a poesia e,
atualmente, no Rio de Janeiro, não há um dia da semana
que não se tenha lugar para ir a fim de ouvir poesia e
encontrar poetas.
2 - Acima de
tudo, você é poeta. Fale-nos de sua obra.
Ortiz: Paralelamente a tudo isso
ainda pude preparar um livro, Ímpar que
pretendo lançar em 2000. É a poesia que escrevi em 98 e
99. Além disso, tive um poema editado num cartão
telefônico da Telemar, na série Pintores e Poetas,
com tiragem de 200.000 exemplares.
O meu projeto pessoal está
sendo tocado com afinco. Quando uma pessoa se aproxima e
diz que comprou meu livro, que achou maravilhoso, sei que
ela se identificou com os meus sentimentos e entendeu
minhas palavras. O que mais quer o poeta? Mas para chegar
a isso é preciso trabalhar todos os dias, nunca nos
distanciando dos nossos propósitos, fortalecendo
nossos valores, lendo e aprendendo cada vez mais,
estendendo a nossa mão para o trabalho do outro,
divulgando e sonhando. Principalmente sonhando. Mas
acordar e trabalhar, que o trabalho contra a corrente é
muito mais árduo e demorado.
3 - Que
perspectivas se apresentam para a continuidade desse
projeto no futuro?
Ortiz: Tenho muitos projetos para o
futuro. Um deles é levar a poesia às escolas. E
para isso conto com os poetas que trabalham na área
educacional. Está provado que a expressão da
criatividade é mola propulsora para o entendimento e a
interpretação original do mundo. A massificação
perversa a que nos levou o capitalismo desenfreado sufoca
as pessoas e as levam a se comportar dentro de
padrões uniformes, sem oposição ao sistema, que as
submete para explorá-las.
A expressão da criatividade
é a única forma de interferirmos na realidade e
fazermos chegar aos outros a nossa voz.
ATENÇÃO !
Atualmente, o projeto Panorama da Palavra
acontece às quartas-feiras, a partir de 21 horas, no Teatro Cândido
Mendes, em Ipanema.
Conheça a versão on-line do jornal Panorama
da Palavra em
http://www.panoramadapalavra.com.br .