Entrevista realizada em outubro e novembro de 2009 por:
 
- Arlete Parrilha Sendra
Pesquisadora e docente da Universidade Estadual do Norte Fluminese
Darcy Ribeiro
Pós-doutora em Semiótica pela Universidade de Salamanca.
Doutora em Literaturas de Língua portuguesa / PUC /Rio
Mestra em Literatura Brasileira PUC/Rio


- Manoel Carlos Pinheiro 
http://www.agrestino.blogger.com.br
http://www.agrestino.blogger.com.br/2009_10_01_archive.html#40735529


- Mariel Reis
http://cativeiroamoroedomestico.blogspot.com/


- Andrey do Amaral
http://www.andreydoamaral.com
http://andreydoamaral.blogspot.com/




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50 anos de Literatura

Perguntas de Manoel Carlos Pinheiro:

1. Em seus romances, o *mar* é mais do que um pano de fundo, um ambiente, torna-se personagem vivo. Fale sobre esta abordagem e a importância literária dela.

Moacir: Sim, pretendi mesmo, a partir de Maria de cada porto, apresentar o mar como um dos personagens centrais da trama, porque ele exerce grande influência na vida dos que o enfrentam nas longas viagens, e eu o conheci nos seus momentos de maior fúria e nos de calmaria, nesses momentos parecemos inundados de maresia, influi no nosso humor, nos dá medo, provoca solidão e isolamento, e nos torna cativos, impotentes em relação a sua força, seus vastos horizontes nos dão a impressão de eternidade. Nunca fui náufrago, mas testemunhei mais de um e os transformei em romances, onde ele é o algoz e o túmulo, numa incansável fome de corpos e de almas.

2. Qual a importância de recursos estilísticos no tratamento do *tempo*, como os utilizados, por exemplo, em "*Por aqui não passaram rebanhos*" e em "*A ostra e o vento*"?

Moacir: Em A ostra e o vento, a personagem central, Marcela, cria um homem na sua imaginação, e ele passa a ter vida própria na Ilha dos Afogados, onde ela vive entre dois velhos, sendo um seu pai. Criando esse personagem, ela se projeta com ele no espaço e no tempo, porque ele, Saulo, nome que ela lhe dá, passa a ser passageiro do vendo e das nuvens que envolvem sa ilha, rodopiando em torno dela, sem poder libertar-se. No caso, Marcela se liberta de seu tempo físico e cria uma eternidade só para os dois. Nesse contexto, procurei eliminar o tempo e o espaço físico em que ela se move, o que me forçou a criar o tempo circular da narrativac (ver, como exemplo, que o livro começa com uma vírgula e termina com uma vírgula, fechando o círculo), criando, dessa forma, um estilo próprio para a narrativa desse livro.
Em Por aqui não passaram rebanhos, procuro eliminar inteiramente o tempo na narrativa. Selene e o velho Sumé estão vivendo uma eternidade na região das Sete Cidades, Piauí, quando chega o terceiro personagem, Emiliano. Este e Selene, apaixonados, estão em tempos diferentes, cerca de 3.000 anos os separam e seus encontros têm curta duração, mas para ela cada encontro é uma existência completa vivida ao lado de Emiliano. Nesse caso, tive que também subverter o conceito de tempo e de espaço. Ele tudo fará, na trajetória da narrativa, para que o tempo de Selene venha a coincidir com o seu.
Na verdade, desde meu primeiro romance tive essa preocupação de não utilizar tempos ociosos na narrativa, tanto é que que começo cada um de meus livros pelo clímax, ou pelo final, para ir desdobrando o tempo, ou seja, começa a narrativa nos minutos finais do tempo da trama para ir desmembrando-a. Assim, agi na maioria de meus romances.

3. Os nomes de seus personagens têm forte ligação com os temas de seus romances, por exemplo, Marcela = mar + cela, prisioneira do mar; Maristela =estrela do mar; Saulo, o invocado... Qual o processo utilizado por você na atribuição de nomes dos personagens?

Moacir: A escolha de nomes de personagens é a primeira coisa a fazer quando começo a pesquisar e elaborar um romance. Em quase todos os meus livros, tive que recomeçar mais de uma vez a narrativa porque determinado nome de persoagens não estava coincidindo com sua vivência na história. "Mundo mundo grande mundo, se eu me chamasse Raimundo seria uma rima não seria a solução", diz Drummond, assim acho que o nome de uma pessoa é sua marca registrada, suporte de sua personalidade. Em todos os meus personagens, procurei nomes apropriados para a função que exerceriam. Assim, o caso de Marcela, como você mesmo cita, assim o caso de Saulo. Assim o caso de Selene, a lua, assim Maristela (estrela do mar), assim o caso de Sumé, corruptela de Thomé, o santo que teria permanecido alguns anos na região das Sete Cidades, evangelizando indígenas. Emiliano, que guerreia contra o tempo, me foi inspirado por Emiliano Zapata.


Perguntas do Andrey Amaral:

1. Com a invasão dos autores estrangeiros no nosso sistema de ensino educacional, a literatura brasileira pode acabar?

Moacir: Nossa literatura atingiu um grau de maturidade que a faz sustentar-se por si própria, não ainda como a francesa, a russa, a inglesa,a alemã, a italiana, mas já se aproximando. O que existe em contrário são determinadas fases de aparente silêncio ou conformismo, com as causas e os efeitos sociais, como se viu no final do século XIX e início do século XX, segundo afirmação de Afrânio Peixoto de que "a literatura é o sorriso da sociedade". Que forma de sorriso, é de perguntar-se, quando a sociedade brasileira tem conhecido mais o pranto, a angústia, a desesperança? Mas logo vieram a Semana de Arte Moderna e ficcionistas da Geração de 30, sacudindo a mesmice. Quando era apontada a morte da literatura e do livro, surge o boom dos anos 60 do século passado, outra vez renovando a linguagem. Estamos vivendo esse período de acomodação, e estou certo de que a literastura brasileira encontrará outros rumos estéticos. O fato de nossos sistema educacional estar sendo invadido por autores estrangeiros, deve-se a total descrença de profissionais do ensino nos valores nacionais, e por esse estado de coisas muito são responsáveis os governantes e as elites empresariais que estão mais preocupados com os rendimentos da bolsa que com os valores mais permanentes da nossa cultura. Não é para menos estarmos sendo governados por um presidente que confessa nunca haver lido um livro, vangloria-se disso, no pior exemplo para os que chafurdam na cultura da boçalidade. Quando os professores compreenderem que o escritor brasileiro é o mais autêntico porta-voz da nossa cultura acumulada, aí o difundirão em maior escala para as novas gerações. Que venham outras formas de leitura, mas não abalarão a potencialidade do livro de ficção, de poemas, como o mais autêncio e permanence veículo de comunicação e de integração dos povos.

2. Qual a importância para um autor ter um agente literário?

Moacir: Descobri muito tarde que o Agente Literário é fundamental como suporte para a carreira do escritor, representando-o junto a editores e leitores, aos meios de comunicação, na formulação de contratos e extensão de contatos, assim evitando que ele escritor se exponha mais que o essencial. A função  do escritor é escrever e a do Agente Literário é expor essa escrita ao público mais abrangente possível, de acordo com a linguagem de seu agenciado. Que o diga você mesmo, que já é um dos mestres na maioria desses caminhos.


Perguntas do Mariel Reis:

1. Em As Fêmeas da Ilha da Trindade, o impulso entre Eros e Tanatos é uma constante; no romance Maria de Cada Porto já se insinuava esta questão e no conto Tiros de Luz - mesmo que virtualmente - ocorre um crime   brutal,  mesmo se constatando que isso é apenas uma alucinação do narrador como ao final fica provado. A obra de Moacir C. Lopes, em minha opinião, deriva desta opção pelo alucinatório que se presentifica no "real", evitando o realismo.Machado de Assis comentou que o realismo é pobre, mas não a realidade". Este jogo parece entremear todo o fazer ficcional do autor de a Ostra e O  Vento, tão alinhado com a mentalidade trazida pelos maiores autores do século XX: Kafka, Musil e Hermann Broch.

Gostaria que Moacir C. Lopes explicitasse  a presença do alucinatório e do diálogo - se existe - com estas  mentalidades.

Moacir: Entre Eros e Tanatos estamos caminhando pelo tempo e pelo espaço como se perdidos em nossas próprias alucinações, nos nossos medos particulares. A realidade é pobre demais, chã, grosseira e mesquinha. Na minha visão, a realidade é mais encontrada nos atos que a transcendem, na abstração do sonho, no estado de divindade em que mergulhamos no ato da criação, até no ato da leitura. Existe um azul no azul, um mar no mar, as árvores e as flores possuem uma alma, gostaria de saber como é que as borboletas extraem da natureza as cores com que pintam as asas, ou como o albatroz-viajeiro atravessa oceanos na sua solidão. São esses alguns dos mistérios da criação, quando escapamos da nossa realidade para irmos nos integrar numa eternidade que convive em nós mesmos.
Sim, ficcionistas como Kafka, Musil, Hermann Broch, Ítalo Calvino, mesmo Saramago e alguns autores modernos portugueses e africanos, até alguns brasileiros, utilizam a metáfora e o alucinatório como sua principal mensagem, e nem vejo diálogo entre eles, mas apenas a criação de um mundo isolado do mundo, para atingir a idealização da possível convivência entre o profano e o sagrado.

2. A pergunta mais manjada de todas, embora não se pode deixá-la de lado: o que representa a escrita para você?

Moacir: Desde que me entendo como gente, quando em criança lia literatura de cordel, com seu universo mágico, já criava mundos fora da minha realidade. A escrita, como a leitura, são uma extensão, sem elas eu não passaria de um animal ruminante.

3.  Com quais ficcionistas atuais você procura dialogar?

Moacir: Meu diálogo não é apenas com ficcionistas modernos, releio Dante Alighieri e Cercantes, e Goethe, Dostoievski, Victor Hugo e Stendhal, e vários poetas, como se estivesse com eles convivendo nos dias atuais, porque foram eles que instituíram o sonho e me ensinam a voar além do vôo das gaivotas.

4. Em a Ressureição de Antônio Conselheiro e seus doze apostolos existe o flerte bem sucedido com uma página da história de nosso país, retratada também por outro grande escritor Euclides da Cunha em Os   Sertões. Quando um escritor recria um fato histórico estamos diante de um impasse, porque nos sugere que de algum modo que a História é uma modo ficcional, embora  rígido pelos príncipios de pesquisa que contém, mas que existem quando   se  realiza o gênero aludido : romance histórico ou com elementos históricos. Daí depreende que há uma crise de discurso, talvez acenando com uma crise VERDADE, como alguns filosofos apontaram - Nietzsche

 "Sobre a verdade e a mentira" - como isso é visto pelo escritor?

Moacir: Escrevi "A ressurreição de Antônio Conselheiro e a de seus12 apóstolos", como o anterior romance-histórico "O Almirante Negro (Revolta da Chibata, a vingança)" como compromissos comigo mesmo, sem negligenciar essa obra-prima que é "Os sertões" e "Revolta da Chibata", de Edmar Morel. É lógico que o romance histórico inibe até certo ponto o ato criativo, não podendo o autor fugir de alguns estereótipos, mas assim mesmo há o apelo de sua interpretação da mensagem contida no tema e na trama. No caso de Antônio Conselheiro, centenas ou milhares de livros já foram escritos sobre o mesmo tema, e são inúmeras as interpretações sobre fatos e os personagens centrais que lutaram e morreram em Canudos, como o famigerado coronel Moreira César e as vítimas de suas atrocidades. É tudo questão de ponto-de-vista. Não há, contudo, que desprezar a importância da ficção contida num romance hiustórico, haja vista obras-primas como "Ilíada", de Homero, e "Guerra e paz", de Tolstoi.

5. Quantos presentes pode existir em um tempo histórico, quando recriado?

Moacir: Na ficção, histórica ou livre, a verdade é a que se encontra no texto, o resto é verdade dos burocráticos, tanto mais falsa quanto mais verdadeira. Um fato histórico pode ser narrado sob múltiplas perspectivas, como seu tempo histórico pode abrir conexões com outros tempos. Assim, nenhuma verdade é verdadeira se olhada pela visão do narrador literário, tudo faz parte de um mundo dentro de outro mundo dentro de outro mundo.


Perguntas de Arlete Sendra:

1. Sempre metaforizei a ficção como um pássaro que pousa no real e ao levantar voo vai levando deste real fragmentos, pedaços  e em novos espaços  cria com esses pedaços e fragmentos sua verdade ficcional. Suas narrativas me levam a ratificar essa metáfora. Estou equivocada ou seu pássaro ficcional também se alimenta do real?

Moacir: Arlete, belíssima sua metáfora do pássaro que pousa no real e ao levantar vôo vai levando deste real fragmentos, pedaços, e em novos espaços cria com esses pedaços e fragmentos sua verdade ficcional, porque na verdade os pássaros colhem sementes e largam parte delas no espaço para se adubarem e se recriarem. Na maioria das obras de ficção, o autor se expõe na pele de personagens, porque ao escrever sobre vivências de outros, ele não foge de suas próprias vivências. Gustave Flaubert, ao responder, no tribunal francês, acusações por expor ao público caso de adultério implícito no romance "Madame Bovary", ele afirmou: eu sou Madame Bovary.
Eu estou na pele de vários personagens de meus romances, principalmente naqueles em que explorei o tema de mar, de viagens, de portos e beiras de cais, de despedidas e saudades. Senão com fatos por mim mesmo vividos, pelo menos sob a visão dos personagens, seu lado cultural e emocional. Pode ratificar sua metáfora.

2. Você endereça seu texto a determindados leitores ou a estética da recepção não entra como ingrediente na produção de suas narrativas?

Moacir: Não, não endereço meu texto a determinados leitores. A estética da recepção não entra como ingrediente na produção de minhas narrativas; Mesmo meu primeiro romance, o "Maria de cada porto", em que narro a vida dos marinheiros, a bordo ou em terra, na guerra e na paz, não é dirigido a um público específico, como o de marinheiros e suas namoradas ou amantes. Toda obra de ficção precisa transmitir uma mensagem de universalidade, que faz parte  da memória e do inconsciente coletivos. Antoine de Saint-Exupéry, ao escrever "O pequeno príncipe" como uma parábola infantil, criou uma obra-prima para leitor de qualquer idade ou condição intelectual. "Vidas secas", com tão poucos personagens e situações, ultrapassa os limites do comportamento humano para se tornar um símbolo da desgraça humana.

3. Seu livro "A ostra e o vento" é, para mim, ontológico e antológico.Ao ser traduzido para a linguagem cinética que ganhos, em termos de arte, Você contabilizou? Por ser impactante o poder das imagens, em alguns momentos o verbal perdeu sua intensidade significativa. Como Você analisa esta mudança de paradigma, considerando que para alguns críticos filmar histórias escritas para serem lidas em papel é como "tomar café requentado"?

Moacir: Ao ser transposto para o cinema, "A ostra e o vento" nada me acrescentou em termos de arte, mesmo porque o filme foi mais um tipo de linguagem interpretativa da minha história, embora diferente do texto escrito, e o livro já contabiliza centenas ou milhares de interpretações críticas, de vários segmentos culturais, universitário ou não, do Brasil e do estrangeiro, o que consolida sua universalidade e alguma permanência (sua primeira edição éde 1964). O filme deixou de aproveitar grande parte do livro, na parte do fluxo de consciência, mesmo nos diálogos entre Marcela e o velho Daniel, e até nos diálogos entre Marcela e Saulo, este personagem que não tem existência física, é projeção da mente dela e passa a habitar o vento, além da linguagem usada no tratamento do tempo e do espaço. Não estou desmerecendo o filme, que considero da mais alta qualidade, mas apenas constatando que texto escrito e o texto filmado são duas linguagens diferentes e autônomas.

4. Você (é ou foi) proprietário de editora e neste caso Você transita entre as duas margens: a do escrever e a do editar. A "terceira margem" ou seja, o caminho para se chegar à editora tem roteiro definido além dos meios naturais onde incluo a qualidade do texto?
Como realizar a "travessia"?

Moacir: Sim, fui editor por quase 30 anos, editei perto de mil títulos na maioria de autores nacionais estreantes. Dessa experiência, e também como professor universitário, resultaram dois livros de ensaios de minha autoria: "A situação do escritor e do livro no Brasil" e "Guia prático de criação literária". Essa prática editorial me reforçou a visão literária de vários ângulos, principalmente das dificuldades de editar um livro, e mais a análise de textos de autores principiantes, e o valor literário e de mercado dos respectivos textos. A qualidade dos textos é um dos caminhos para se chegar a uma editora, mas nem sempre indica sucesso. Que o diga James Joyce, que da edição de 700 exemplares de "Ulisses", não conseguiu vender nem 50 exemplares, tendo ele que picotar o restante da edição. Muitas obras-primas foram inicialmentre recusadas por editores, e dou como exemplo as obras de estréia de Marcel Proust e Guimarães Rosa. E muitas obras que foram consideradas best-sellers por algum tempo, morreram definitivamente com a morte de seus autores, porque best-seller é fenômeno que nada tem a ver com a qualidade do texto. Não há roteiro específico para o sucesso ou insucesso de um texto para chegar à edição em livro, entra em questão o conhecimento do autor, sua condição social, e, principalmente, sua determinação.

 

Site do Moacir C. Lopes
www.moacirclopes.com.br