Nos
Anos 70, em sua luta pela democracia, Moacyr Félix editava a revista
ENCONTROS COM A CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA, que contava com a
participação em seu Conselho Consultivo dos seguintes
intelectuais: Affonso
Romano de Sant'Anna, Alberto Dines, Alberto Passos Guimarães, Alberto Passos Guimarães Filho, Alceu Amoroso Lima, Alex Vianny, Alfredo Bosi, Antônio Callado, Antônio Cândido
de Mello e Souza, Antônio Houaiss, Antônio Sérgio da Silva Arouca,
Arthur Giannotti, Barbosa Lima Sobrinho, Carlos Guilherme Mota, Carlos
Nelson Coutinho, Cícero Sandroni, Darcy Ribeiro, Dias Gomes, Fábio
Lucas, Fausto Cupertino, Fausto Cunha, Félix de Athayde, Fernando
Henrique Cardoso, Fernando Novais, Ferreira
Gullar, Frei Betto,
Gilberto Velho, Gisálio Cerqueira Filho, Hélio Jaguaribe, Jânio de
Freitas, José Goldenberg, José Honório Rodrigues, Leandro Konder,
Leon Hirschman, Leonardo Boff, Luís Fernando Cardoso, Luiz Mário
Gazzaneo, Maria da Conceição Tavares, Maria Helena Kühner, Maria
Rita Galvão, Mário Pedrosa, Moacyr Werneck de Castro, Nelson Pereira
dos Santos, Octavio Ianni, Osny Duarte Pereira, Raymundo Faoro,
Roberto Lent, Roland Corbisier, Rubem César Fernandes, Sérgio
Augusto, Vanilda Paiva, Waldir Pires, Waldo César e Wilson Fadul.
A entrevista,
organizada por Gabriel
Nascente, publicada em Goiânia no
Diário da Manhã ( 07/06/1981) e reproduzida no jornal O popular
(06/09/1981) foi
realizada em 1981, época em que o Brasil passava pela
expectativa de grandes mudanças políticas. Recentemente , foi publicada no
livro O pensar e o sentir na obra de Moacyr Félix pela Editora
Bertrand Brasil, em associação com a Fundação Biblioteca Nacional.
Dela também participaram , formulando perguntas, o maestro Elpídio
Pereira de Faria e
os poetas Nauro Machado, Osório Peixoto Silva e Luís Sérgio dos
Santos .
Os editores
De mangas arregaçadas,
briguento, austero, humanista, poeta sobretudo intelectual, Moacyr Félix
(Rio de Janeiro, 1926) é talvez um dos
mais lúcidos brasileiros que conseguiu ultrapassar as barreiras
do obscurantismo e do medo,
impostas pelo regime opressor de 64, e agora respira um tanto livre,
tentando salvar o que sobrou desta geração castrada.
Espécie de reinventor da vida, exilado dentro de seu próprio país, jamais permitiu que os detentores
dos chamados governos revolucionários tolhessem as forças de seu
raciocínio. E grita: “Eu acho que nunca houve uma democracia neste país. Nós não temos que
voltar a coisa alguma porque, na realidade, nunca houve um governo que fosse realmente em
nome do povo. Quer dizer: o interesse de "João", "Antônio",
"José" – aquele que está na fábrica, aquele que está
guiando um ônibus, aquele que está plantando tomate no interior –
sempre foi preterido. Então, a meu ver, nunca houve governo democrático.
E no meu livro Canção do Exílio
Aqui, afirmo mesmo que no momento, em nenhum país do mundo, ainda
chegamos a uma forma de governo em que o povo realmente esteja no
governo. Embora, com muita nitidez, as etapas socialistas dentro da
história, essas contradições essas lutas, já se desenvolvam num
plano mais elevado. Já é um degrau mais acima do capitalismo.
Considero a luta pelo socialismo uma etapa de avanço na luta do ser
humano pela sua libertação, dignificação
do trabalho...”
Com 42 anos de briga pela democratização da
poesia, em todo o país, enfrentando inclusive o triste bloqueio
cultural desses últimos 17anos, a onda de “caça às bruxas”, o fechamento de editoras e interrupções
de importantes veículos de comunicação, ele rompe o silêncio
compulsório e volta, com as trincheiras do seu pensamento, a falar
sobre os mais palpitantes assuntos que borbulham na sensibilidade de
milhões de brasileiros que, engarrafados no túnel da incerteza,
continua buscando os rumos da
justiça, da liberdade, do amor e da fraternidade.
"Defendo a tese"– diz o poeta – “de
que o intelectual não pode omitir-se e deve sempre inserir-se, através
de sua obra, no esforço geral de todos os povos para se elevarem numa
vida cada vez mais afinada com os valores morais inerentes às lutas
em nome do amor e da verdade, da alegria e da beleza, da democracia e
da justiça.”
AS OBRAS E O AUTOR
Autor dos livros Cubo de Trevas (1948), Lenda e Areia (1950), Itinerário de uma Tarde (Suécia, 1953); O Pão e o Vinho (Prêmio
Alphonsus Guimaraens, lNL, 1959), Canto para
as Transformações do Homem (1964), Um Poeta
na Cidade e no Tempo (1966); Canção do Exílio Aqui (1977), Neste Lençol (1977), Invenção
de
Crença e Descrença (1978), Moacyr Félix nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 1926,
viveu a infância em Juiz de Fora, Minas, formou-se em Direito pela
primeira turma da então recém-fundada PUC em 1948, Cursou Filosofia (Ética, Estética, Metafísica e Lógica) na
Sorbonne, em Paris, 1950/53. Participou da revista Cadernos do Nosso Tempo, onde escrevia ensaios sobre situações da política e
economia do Terceiro Mundo.
Fundador e diretor da antiga Revista da Civilização
Brasileira, ainda após 1964 e que se manteve de pé a até 1968, ano do A1-5. Fundador e diretor da revista Paz e Terra (sendo então também o diretor da Editora), que tinha
como lema "Encontro e Diálogo”. Diretor e criador das séries Perspectivas do Homem e Poesia Hoje, da Editora Civilização
Brasileira. Atualmente
é o editor-chefe da revista Encontros com a Civilização Brasileira,
cujo número 28 já está em todo o país. Idealizou e coordenou a série
Violão de Rua, poesia engajada. Seu décimo livro – Eu feito de Vós – foi enviado para o prelo, e logo estará na praça com e
selo da Editora Civilização
Brasileira.
A
entrevista foi concedida numa noite de quinta-feira, no apartamento do poeta, na Rua das Palmeiras, em Botafogo. Depois de alguns
tragos de vodca polonesa, Moacyr Félix se colocou à disposição para enfrentar as perguntas do poeta e psiquiatra Luís
Sérgio dos Santos, do folclorista Osório Peixoto (de Campos, RJ), do
maestro Elpídio Pereira de Faria, do poeta Nauro Machado, do Maranhão;
e do representante do Diário da Manhã.
Antes de mais nada, temos que ser mundo
Elpídio Pereira de Faria – Moacyr fale am pouco sobre a emoção na arte.
MF – E sem o que, não existe arte. Na revolução cultural chinesa, em
determinado momento, não se podia falar em Bach, Mozart, em coisa
nenhuma. Hoje, em várias fábricas, você usa como fundo musical a
sonata de Mozart. Anos atrás (nós sofremos muito com o stalinismo), muita gente dizia que falar no
amor ou preocupar-se com o problema da mulher, com o problema do sexo,
era desviar-se da luta principal; porque o que interessa é o problema da luta de classes, é o problema do imperialismo. Mas
se esquecem de que quando se fala em classe, imperialismo, está se
falando em nome do ser humano. E se não se dialoga sobre o problema do amor, não questiona o que é um homem, uma mulher, você
perde o pé, o pino, a visão; o prisma essencial para questionar o que é um homem e sua enxada, um homem e seu
trator, o homem e seu papel em branco para escrever. E veja o
seguinte: os grandes poetas sociais ... Maiakovski, por exemplo, fazia poemas de amor excepcionais.
Se você não sabe amar aquele que está a seu lado, se você
não sabe olhar a cara de uma criança na rua, se você não sabe
olhar a cara de um operário,
o perfil de um chofer de táxi assim contra a luz do sol e ali ver
muita coisa, e através de todo aquele rosto ver o rosto humano da
cidade. Se você não sabe ver no trabalho, no trabalho de cada um, a
alma de cada coisa que você está lidando. Se você não sabe pegar
este copo e saber quanto de vida tem neste copo desde a areiazinha que
foi colhida para fazer esse vidro; quantas mãos existem aqui, e atrás
dessas mãos, quantos sonhos, quantas frustrações, quantas lágrimas,
quantos atos sexuais – se não sabemos o valor de cada uma dessas
coisas, nós não temos a menor noção do mundo em que vivemos. E
antes de mais nada, temos que ser mundo. Temos de ter a coragem de
engolir o mundo.
Democracia não desce dos céus
Gabriel Nascente – Depois de 17 anos de escuridão, em termos de manifestações política e ideológica; depois que o nosso povo perdeu o direito de escolha de seus representantes, o direito de expressão e do diálogo aberto, você acredita que em novembro de 1982 o homem brasileiro voltará às urnas ?
MF – Você pergunta: haverá eleição em 82? É um problema de usar bola de cristal, o que é muito difícil em história. As afirmações todas levam a isso, quer dizer: as exigências das várias camadas da sociedade brasileira clamam isso: querem eleições. Na medida em que querem cada uma, sejam os empresários reunidos na FIESP – agora atuando politicamente os empresários de São Paulo, o alto poder econômico da burguesia nacional brasileira – sejam eles que estão ligados a multinacionais ou ao capital estrangeiro (que também quer se fazer representar de uma forma indireta), este menos do que os outros desejam eleições. Mas sejam as várias camadas de classe média, seja o povo trabalhador– todos querem eleições. Então eu acho que desse apelo geral virá o momento em que essas eleições terão de ser feitas na medida em que se caminha para uma democracia. Agora, isso não se consegue sem pressão, luta, insistência ..., isso não desce dos céus. É uma conquista de todos nós. Inclusive acho, e é bom dizer até que há elementos do governo que são sinceros e estão inteiramente interessados nisso, apesar das contradições dominantes entre eles – que querem a instalação de um governo democrático. Eles também terão que ver na democracia a conquista de uma luta diária. Luta essa que eu gostaria que eles fizessem lado a lado, com todas as camadas do povo brasileiro.
Luís Sérgio – E o Partido Comunista, Moacyr, poderá ser legalizado pelo atual regime político do país?
MF – Quem pode falar pelo atual regime não sou eu e sim aqueles que são detentores de autoridade para falar em nome do regime atual. E pelos pronunciamentos que tenho visto na imprensa eles dizem que não legalizarão o Partido Comunista no Brasil.
Osório Peixoto – Juscelino Kubitschek, com todo o seu carisma de líder; como você o vê n o contexto político em que viveu e atuou no Brasil?
MF –O Juscelino, em termos de pessoa física, era realmente uma figura muito simpática, humana, larga, generosa. O que me importa, no entanto, é o seu papel político. No tempo em que ele assumiu, com relação aos interesses estrangeiros, havia uma certa complementaridade de interesses. Você poderia defender determinados interesses brasileiros, sem choques. Isto agora não é mais possível. Já existe o conflito, uma equiparação, um choque entre esses interesses. Muitas vezes, interesses da nacionalidade brasileira se chocam com os interesses das multinacionais, com suas matrizes, sobretudo, nos Estados Unidos. O entreguismo do Juscelino Kubitschek não impedia o desenvolvimento do país. Hoje, se ele usasse esse mesmo entreguismo, seria um desastre, como está sendo, como estão fazendo.
Os livros estão
ficando difíceis
Nauro Machado – Moacyr, há pouco você dizia que quem não publicar livros até julho do corrente ano poderá perder totalmente a chance, por causa das perspectivas que são um tanto sombrias, do ponto vista do alto custo industrial do papel, da mão-de-obra etc. É verdade?
MF – Não
tanto sombria. Nem fui eu quem colocou essa escuridão sobre a frase.
As manchetes de jornais a colocam, as declarações das autoridades a
ratificam: o próprio presidente da República falou que este seria um
ano difícil, o ministro do Planejamento fala que será será um ano
de sacrifício. Mas nós estávamos falando mesmo é sobre editoras,
ou seja: empresas de nível médio, empresas pequenas, empresas que
vivem dependendo de faturamento na base de duplicatas, que são
descontadas em bancos. Ora, com a inflação, com a ascensão do preço
do papel, com a ascensão do preço da gráfica, com o aumento
semestral do funcionalismo, com o aumento de todos os serviços necessários
à confecção da capa (artistas, desenhos etc.) – você vai ter o
livro a um preço tal que... E falávamos de estreantes, iniciantes,
daqueles poetas que ainda não têm nome, malgrado do ponto de vista
da qualidade, às vezes merecem maior destaque do que aqueles que têm nome. Portanto, pelo fato de não
terem nome, não são considerados comercialmente como sucesso, como
suscetível de, a curto prazo, ou seja, 90 dias, que é o tempo de se
vencer o título, cobrir pelo menos 50% das despesas do livro. No caso
desses poetas é que eu estava dizendo que a situação ficará cada
vez mais difícil.
Infelizmente a inovação, a abertura
de novos caminhos, a apresentação de novos nomes, as chances dadas a
novos poetas tornar-se-ão cada vez mais difíceis na medida em que a
situação econômica torna-se cada vez mais obstaculizada, cercada,
cerceando a comunicação de livros.
Então, o econômico realmente vai começar a
garrotear o cultural. As aberturas do cultural fechar-se-ão à medida
que economicamente você se sentir pendurado. Dificilmente um editor
vai empregar milhares de cruzeiros num poeta novo, desconhecido, que
numa pesquisa de mercado não apresenta sucesso. Em poesia, às vezes, os melhores nomes ( sobretudo aqueles que não publicaram, ou
já publicaram pouco, ou alguns que já vêm publicando antes) – ,
muitas vezes o poeta é daqueles que não quebra a espinha, não faz
aquela sociabilidade interesseira,não cumprimenta para ganhar, para
ter; não adota máscaras para ter esta ou aquela vantagem dentro das
convenções. Essa troca de interesses sociais não faz a poesia como
um cartão de visitas, não vende no poema uma ascensão
institucionalizada, dentro da sociedade – ele não pretende fazer
carreira de poeta. Ele pretende dar um sentido à sua vida. E quanto
mais poeta ele é, mais a exigência desse sentido, às vezes, o
coloca em contraposição a isto que é, que está aí, na medida em
que o que está aí configura, não só aqui como no mundo inteiro,
ainda uma humanidade incompleta, indefinida, injustiçada, amputada,
quebrada, deformada,sofrida, monstrualizada, muitas vezes...Neste
caso, este poeta mais dificuldade ainda terá, porque não passará
dos vestíbulos das grandes editoras. É doloroso.
Poema, material para pensamento
Osório Peixoto – É claro que as coisas não andam tão bem assim. A gente sabe que daqui a pouco teremos que pagar para continuarmos respirando o ar do novo dia. Neste plano, de arruinadas perspectivas,é claro, gostaríamos de saber como vai o seguimento editorial da Revista Encontros com a Civilização Brasileira, a qual vem dirigindo desde sua fundação. Sabemos que ela já foi Interrompida pela mão carrasca da censura, mas agora, em sua nova fase, a gente sente que a a revista vai obtendo uma penetração cada vez mais positiva dentro da sociedade brasileira, apesar de sermos um povo ainda maciçamente iletrado.
MF – A revista pretende abrir um leque de divulgação, interpretação.
discussão, critica. Em suma: uma informação cultural,
intelectualmente praticável dentro das várias camadas da sociedade brasileira. Ela abarca
desde os aspectos da política, da sociedade, da política internacional, da economia, da literatura, das artes
plásticas, do cinema, do teatro, até a crítica literária em seção
de livros.
Coloco o fazer do poeta como um ato de pensar no
mundo de hoje. Para mim, a poesia não é apenas uma expressão de
estado emociona, mas uma expressão sobre uma visão de mundo, de uma tomada de posição:
de um determinado ser humano, que ao tomar essa posição, não só
reflete o mundo em que vive, como nos dá, através dessa atividade
sofrida, uma visão da humanidade que nos cerca, da humanidade não só
deles, da humanidade de todos nós. A poesia tem muito de parecer com
a filosofia, apenas usam instrumentos diferentes. O poeta oferece
material para pensarmos, para entendermos o mundo. Entendemos de uma
forma muito mais profunda do que apenas o conceitual nos diria. Não
é se juntando palavras de dicionário, em termos lógicos, em termos
conceituais, que você explica determinadas situações. A percepção
humana é muito mais rica, e nesse sentido a poesia nos leva a esse
entendimento emotivo, a essa compreensão afetiva, e esse sentimento
organizado, de um fato, de um episódio, de uma parte da História, de
uma vida humana.
Portanto, acho fundamental que, ao lado de ensaios
de sociologia e de economia, existam os poemas. O poema dá exatamente
o concreto, dá o ser humano tal como ele existe. O sociólogo, o filósofo,
o economista se referem a esse ser humano de uma forma abstrata. Eu
penso como Gramsci, quer dizer: sem emoção, sem paixão. Não há
por que tentar compreender intelectualmente o mundo. Se você é
verdadeiramente um intelectual, porque é fundamental a você a emoção,
a compreensão. Infelizmente nós temos uma série de pessoas que se
misturam com intelectuais, os chamados tecnocratas. Fulano com uma
determinada erudição sobre os vários aspectos das áreas humanas,
mas que não tem essa empatia, esse aspecto positivo, esse porquê do saber daquilo. Eu sei disso porque pretendo amar o próximo.
Sei disso porque pretendo dignificar-me como ser humano. Faltando essa
emoção básica como causa, esse fazer intelectual desumaniza o
Homem, o esquematiza, o descarnifica, admite o Homem como matéria
morta, na medida em que ele tenta explicar exatamente a vida.
(DIÁRIO
DA MANHÃ, Goiânia, 07/06/1981)
(Reproduzida no jornal O POPULAR, de Goiânia, em 06/09/1981)
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