Poemas de Helena Ortiz

         

      

 

                                 

 

Para sempre Argentina
 
 

com quantos mil lençóis amordaçaram a noite  
com quantos corpos cegos sangraram o mar  
quantas e quantas noites mal dormidas  
suportando passar os vendavais  
o último cigarro a espera o rio  
calçadas molhadas ossos frios  
reflexos nas poças  
os olhos de Borges  
bandoneón  
mar frio  
maldita  
               dura 

 
  
  
  

 

Na repartição 
 

são tantas as vozes  
tão pouca luz na única janela  
que dá para o nada  
por onde o nada   
também se introduz  
são tantos os ruídos  
timbres e trinados  
lembrando gansos  
desatinados  
a cortina em coma  
espero que eu a chame  
manto e se teça  
invólucro do assombro  
o arcaico se sobrepõe  
ao milênio  
ao bug ou à babel  
mais as vozes os ruídos as sirenes  
as campainhas os gritos  
os motores  
na repartição  
o sol nunca o ar  
vazado  
azedo e rarefeito  
nenhuma luz na janela  
e nem ao menos  
          jogar-se dela 

 
  
  

 

Matutino 
 

rodam milhões de palavras  
e não trazem nada  
as folhas já velhas  
         da iniciativa privada 

 

 
  

 

 

Desolação
 
 

o fogo varre a cidade  
com balas de revólver e fuzis  
a esmo se prende e se arrebenta  
justiça se faça: o medo aumenta  
de ninguém virá ajuda. O pássaro  
voa no escuro. A baleia se afoga no mar  
a coruja abre os olhos e cega  
         no meio-dia espúrio.