Para sempre
Argentina
com quantos mil lençóis
amordaçaram a noite
com quantos corpos cegos
sangraram o mar
quantas e quantas noites mal
dormidas
suportando passar os
vendavais
o último cigarro a espera o
rio
calçadas molhadas ossos
frios
reflexos nas poças
os olhos de Borges
bandoneón
mar frio
maldita
dura
Na
repartição
são tantas as
vozes
tão pouca luz na única
janela
que dá para o nada
por onde o nada
também se introduz
são tantos os ruídos
timbres e trinados
lembrando gansos
desatinados
a cortina em coma
espero que eu a chame
manto e se teça
invólucro do assombro
o arcaico se sobrepõe
ao milênio
ao bug ou à babel
mais as vozes os ruídos as
sirenes
as campainhas os
gritos
os motores
na repartição
o sol nunca o ar
vazado
azedo e rarefeito
nenhuma luz na janela
e nem ao menos
jogar-se dela
Matutino
rodam milhões de
palavras
e não trazem nada
as folhas já velhas
da iniciativa privada
Desolação
o fogo varre a
cidade
com balas de revólver e
fuzis
a esmo se prende e se
arrebenta
justiça se faça: o medo
aumenta
de ninguém virá ajuda. O
pássaro
voa no escuro. A baleia se
afoga no mar
a coruja abre os olhos e
cega
no meio-dia espúrio.