CRÔNICA
DE UM DESASTRE
A uma tempestade
não se afaga
quando se vai por dentro.
Como se o século todo se incendiasse
e os gritos ficassem roendo
outros gritos subindo, descendo.
E ensurdecesse de dor a América,
mãe atrás dos filhos, mãe parindo
a eternidade de escombros, chuva
e areia. Mãe sozinha à beira de um rio
e do mundo. Todos os gemidos vêm
do fundo de teu poço, mãe ! As chamasnão
têm pátria , como as patas
deste animal no homem que , sem data,
é o ódio, o ódio, gafanhotos, vômito.
De um momento a outro, milhares
de almas se aninham, pombas na morte
sem pombal e a morte é doida
que caminha errante e não sabe onde
pousar sua cabeça. A hecatombe
come em tua mesa de ossos. E o ódio
não tem mais natureza, nem de semente
nasce. Vem das baionetas, das pilhagens
do sol , antes do meio-dia. Aviões
não são olhos, nem ouvidos
e batem , morcegos acendidos
nos corpos e destroços. Mãe-humanidade,
por que as bestas à tona vêm do homem,
quando podem tornar para as cavernas ,
ou meter-se nas gavetas das estrelas
e sumir ? Nenhuma falta fazem à vida,
cestas de água e nada . Mãe-humanidade,
tua dor se esvai, fumaça de almas ,
ninhadas de voragens e filhotesde
escuridão chorando. Nenhuma
terra sabe falar das ruínas , por
se guardar nelas. Nenhuma mãe
ousa gravar na lápide este crime ,
que o sepulcro de cinzas não resume.
E o que restou do homem ?
(Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001)
LEMILY
DICKINSON NA RIXA
COM DEUS PELA
PERDA
DE CHARLES WADSWORTH
Para
Ivan Teixeira .
(Poema 1260)
Abro a mão do que me cabe
e até a eternidade,
trocaria por amar-te,
ralhando ou não, sem idade.
Cedo morremos, quem parte
não fica rastro suspenso.
Importa termos vivido
e no viver está o tempo,
o paraíso e os sentidos
onde nós nos descobrimos.
E se Deus é tão ciumento,
palavras não serão limo.
Abro a mão desta existência
com teu rosto restituído,
é presunção, talvez ciência.
Tudo me vem distraído.
E o que me foi confiscado,
como esqueceste da vida,
eu na minha, desvalida ,
também me tenho deixado.
Senhor, minha rixa é contigo.
Quando achaste de levá-lo,
achaste que era um cavalo
sobre o teu vale de trigo.
Era todo o bem que eu tinha,
era o que, suave, me dava
esta parreira e eu , escrava
a consumir-me na vinha.
Se não me ouves, me leva !
Que conversarei , sentada
com meu amado na treva,
entre tumbas, madrugada.
E se a Deus nada é impossível,
pode ao meu amigo dar-me ,
por retirá-lo da morte,
sendo carne de minha carne.
E se assim fizer, sou grata.
Porque amor não tem alarme.
E o outro mundo não tem data.
E que o amado possa amar-me.
( de nova edição de OS VIVENTES)
IORA
PRO NOBIS
Não há tempo
mais sombrio
que o adormecido.
Nem os submersos
navios, ou aves
no absconso abrigo.
E se te amei demais,
tive grilos, soluços
contidos. Árvore
de gemidos, onde
me vi postado.
E o terror só sabe
rir, matando. Não
tem lado. E não
consegue o escárnio
de marear sozinho.
Nem amor conhece
mais do que ama.
E confiantes, os mortos
não julgam, nem sequer
investigam a farsa ,
em que foram metidos.
O que talvez as gaivotas
saibam. Talvez nem isso.
RONDÓ
DAS CRIANÇAS VELHAS
Em vez de brincarem ,
as crianças falam
sobre negociatas
e as operações da bolsa.
E envelhecem, tomam
a seriedade dos seus pais
e avós : industriais ,
advogados, banqueiros.
Tomam as rugas do reverente
comércio, com a febre
de sucumbir antes da idade.
Ou a nívea responsabilidade
que a manhã desconhece.
As crianças são tão grandes,
que os adultos ficam tacanhos,
desprezíveis. Voltam a brincar,
que a meninice mudou o estágio.
Entanto não mudou a Lei da Gravidade,
nem a Estrela Polar. Só os homens
mudam mudam mudam .
E todos são respeitáveis,
arrogantes com os créditos
e o enriquecimento
mais apto da morte .
CANTIELEGIA
DO IMPOSSÍVEL
O possível me foi tantas vezes
negado, que no impossível acredito.
Não por lance de Estado ,
mas por precipício. E nenhuma
república é igual a este espaço,
salvo a da infância ,
cujo decreto eu baixo
aos animais e aos pássaros .
E se à história recomeço:
o balão não tem mais lastro.
E até o medo é perempto.
Nenhum epitáfio suplanta
o azul terror da garganta.
Nem lágrimas pesam
por certo na balança.
Se não somos humanos,
somos nefastos.
SANTIELEGIA
DISTRAÍDA
Não posso mudar
de olhos. Nem de ouvidos.
O terror é apenas percebido
no desfecho. Quem paga,
desconhece o preço
e paga por excesso.
A história já perdeu
o seu costume
de esquecer.
No volume,
o tempo é recobrado.
Todas as antigas
imagens foram vistas.
E todas num olhar
ficam caladas .
Ou em vontade
distraídas.
Só é capaz
de ser a morte:
a vida .
EANTIELEGIA
ETÉREA
Na medida em que caem
os frutos, caem os homens,
caem as folhas, o sol cai
para o alto com as estrelas.
E eu, como um tronco
envelhecendo, vou ficando
oco por dentro e começo
a ser ocupado pelos passarinhos.
Começo a ser passarinho
no tronco. Até que o musgo
no céu me torne eterno.
ÀANTIELEGIA
DA PERDA
Tudo o que o amor viveu ,
se chora num só dia.
E choramos o mundo
que não chora ,
não sabe mais chorar.
E se chorasse ao menos,
poderia consolar-se.
Não, não há disfarce
sequer para a alegria.
E nem ela consegue
preservar-se. O que
o amor viveu , basta
um instante , para todo
ruir e sem vôo
de ave , é vacilante
o sol, rompe-se o céu.
Não há terror como
o que já se deu ,
antes de acontecer.
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