Poemas de Carlos Nejar

 

 

  CRÔNICA DE UM DESASTRE

  

A uma tempestade não se afaga

quando se vai por dentro.

Como se o século todo se incendiasse

e os gritos ficassem roendo

outros gritos subindo, descendo.

E ensurdecesse de dor a América,

mãe atrás dos filhos, mãe parindo

a eternidade de escombros, chuva

e areia. Mãe sozinha à beira de um rio

e do mundo. Todos os gemidos vêm

do fundo de teu poço, mãe ! As chamas
não têm pátria , como as patas

deste animal no homem que , sem data,

é o ódio, o ódio, gafanhotos, vômito.

De um momento a outro, milhares

de almas se aninham, pombas na morte

sem pombal e a morte é doida

que caminha errante e não sabe onde

pousar sua cabeça. A hecatombe

come em tua mesa de ossos. E o ódio

não tem mais natureza, nem de semente

nasce. Vem das baionetas, das pilhagens

do sol , antes do meio-dia. Aviões

não são olhos, nem ouvidos

e batem , morcegos acendidos

nos corpos e destroços. Mãe-humanidade,

por que as bestas à tona vêm do homem,

quando podem tornar para as cavernas ,

ou meter-se nas gavetas das estrelas

e sumir ? Nenhuma falta fazem à vida,

cestas de água e nada . Mãe-humanidade,

tua dor se esvai, fumaça de almas ,

ninhadas de voragens e filhotes
de escuridão chorando. Nenhuma

terra sabe falar das ruínas , por

se guardar nelas. Nenhuma mãe

ousa gravar na lápide este crime ,

que o sepulcro de cinzas não resume.

E o que restou do homem ?

(Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001)

 

   LEMILY DICKINSON NA RIXA
COM DEUS PELA PERDA
DE CHARLES WADSWORTH

   Para Ivan Teixeira .
(Poema 1260)

Abro a mão do que me cabe
e até a eternidade,
trocaria por amar-te,
ralhando ou não, sem idade.

Cedo morremos, quem parte
não fica rastro suspenso.
Importa termos vivido
e no viver está o tempo,

o paraíso e os sentidos
onde nós nos descobrimos.
E se Deus é tão ciumento,
palavras não serão limo.

Abro a mão desta existência
com teu rosto restituído,
é presunção, talvez ciência.
Tudo me vem distraído.

E o que me foi confiscado,
como esqueceste da vida,
eu na minha, desvalida ,
também me tenho deixado.

Senhor, minha rixa é contigo.
Quando achaste de levá-lo,
achaste que era um cavalo
sobre o teu vale de trigo.

Era todo o bem que eu tinha,
era o que, suave, me dava
esta parreira e eu , escrava
a consumir-me na vinha.

Se não me ouves, me leva !
Que conversarei , sentada
com meu amado na treva,
entre tumbas, madrugada.

E se a Deus nada é impossível,
pode ao meu amigo dar-me ,
por retirá-lo da morte,
sendo carne de minha carne.

E se assim fizer, sou grata.
Porque amor não tem alarme.
E o outro mundo não tem data.
E que o amado possa amar-me.

( de nova edição de OS VIVENTES)


   
 
 
 
   I
ORA PRO NOBIS

  
Não há tempo

mais sombrio

que o adormecido.

Nem os submersos

navios, ou aves

no absconso abrigo.

E se te amei demais,

tive grilos, soluços

contidos. Árvore

de gemidos, onde

me vi postado.

E o terror só sabe

rir, matando. Não

tem lado. E não

consegue o escárnio

de marear sozinho.

Nem amor conhece

mais do que ama.

E confiantes, os mortos

não julgam, nem sequer

investigam a farsa ,

em que foram metidos.

O que talvez as gaivotas

saibam. Talvez nem isso.


 
    
   

   RONDÓ DAS CRIANÇAS VELHAS

  
Em vez de brincarem ,

as crianças falam

sobre negociatas

e as operações da bolsa.

E envelhecem, tomam

a seriedade dos seus pais

e avós : industriais ,

advogados, banqueiros.

Tomam as rugas do reverente

comércio, com a febre

de sucumbir antes da idade.

Ou a nívea responsabilidade

que a manhã desconhece.

As crianças são tão grandes,

que os adultos ficam tacanhos,

desprezíveis. Voltam a brincar,

que a meninice mudou o estágio.

Entanto não mudou a Lei da Gravidade,

nem a Estrela Polar. Só os homens

mudam mudam mudam .

E todos são respeitáveis,

arrogantes com os créditos

e o enriquecimento

mais apto da morte .


 
     


 
 
  C
ANTIELEGIA DO IMPOSSÍVEL

  
O possível me foi tantas vezes

negado, que no impossível acredito.

Não por lance de Estado ,

mas por precipício. E nenhuma

república é igual a este espaço,

salvo a da infância ,

cujo decreto eu baixo

aos animais e aos pássaros .

E se à história recomeço:

o balão não tem mais lastro.

E até o medo é perempto.

Nenhum epitáfio suplanta

o azul terror da garganta.

Nem lágrimas pesam

por certo na balança.

Se não somos humanos,

somos nefastos.


 
    
 

  SANTIELEGIA DISTRAÍDA

  
Não posso mudar

de olhos. Nem de ouvidos.

O terror é apenas percebido

no desfecho. Quem paga,

desconhece o preço

e paga por excesso.

A história já perdeu

o seu costume

de esquecer.

No volume,

o tempo é recobrado.

Todas as antigas

imagens foram vistas.

E todas num olhar

ficam caladas .

Ou em vontade

distraídas.

Só é capaz

de ser a morte:

a vida .

 
    


 
 
  E
ANTIELEGIA ETÉREA

 
Na medida em que caem

os frutos, caem os homens,

caem as folhas, o sol cai

para o alto com as estrelas.

E eu, como um tronco

envelhecendo, vou ficando

oco por dentro e começo

a ser ocupado pelos passarinhos.

Começo a ser passarinho

no tronco. Até que o musgo

no céu me torne eterno.


 
   
 
 

  ÀANTIELEGIA DA PERDA

 
Tudo o que o amor viveu ,

se chora num só dia.

E choramos o mundo

que não chora ,

não sabe mais chorar.

E se chorasse ao menos,

poderia consolar-se.

Não, não há disfarce

sequer para a alegria.

E nem ela consegue

preservar-se. O que

o amor viveu , basta

um instante , para todo

ruir e sem vôo

de ave , é vacilante

o sol, rompe-se o céu.

Não há terror como

o que já se deu ,

antes de acontecer.