O Agente Infiltrado

 


     Acabo de ler pela segunda vez O Agente Infiltrado, de Jorge Wanderley. Magnífico. Tive vontade de roubar diversos poemas da coletânea. Por exemplo, o soneto que começa assim: Sou cruzado, mas esqueci meu rei, / Da nave em que cheguei mal vou lembrando. Ou o soneto Rosar, cheio de ressonâncias camonianas: Amor, que ouço outra vez, há muito habita / a mesma história, a sempre renovada, / a que se imaginava já finita / e ora retorna fresca e não pensada. Não é do balacobaco?
 
     Pois é. Aliás, este último soneto é uma espécie de resumo conceitual do lirismo. Trocando em miúdos, suponho que a poesia lírica tenha uma face histórica, exposta aos encantos e corrosões do tempo presente, e uma face meta-histórica, espécie de jardim suspenso à margem do tempo, onde pairam os mesmos fragmentos de não-saber, com escamas de voar, / e asas de peixes e jornais do futuro, como diz  Jorge em seu idioma poético. Parece papo de esotérico, mas não é. A poesia lírica, em sua face meta-histórica, é um discurso único, desde Anacreonte até E.E.Cummings e Vinicius de Moraes, todos fazendo parte dessa  mesma história que, a cada novo puro-sangue do lirismo, regressa como nova história. Como se fosse o Eterno Retorno, de F.Nietszche: o mesmo regressando sob a forma de outro. Ou, como diria o filósofo Chubby Checker: Camões, let’s twist again. 
     A poesia de JW é visivelmente comprometida com esse discurso meta-histórico do lirismo. Explica-se. JW é dos mais prolíficos e brilhantes tradutores de certo país pitoresco e extravagante, cujo nome começa com a letra b, de bye-bye. Traduziu integralmente os sonetos de Shakespeare, a lírica de Dante e agora empreende a tradução integral da Divina Comédia. Não admira que sua poesia extraia seus temas principalmente do repertório clássico: a perplexidade diante do mundo ( Como se eu fosse algum descobridor / Me vi aqui a procurar o incerto ), a fugacidade do tempo ( Conto o presente sem os candelabros / que longe vi...), a metáfora da rosa ( cf. o belíssimo poema Rosar ). Entre seus versos, escutamos ecos e até mesmo citações episódicas de grandes líricos. Às vezes, o poeta chega  a vestir a máscara de seus heróis favoritos, como Jorge Luís Borges: Alguma vez nasceu de ser tocado/ por mão inconsciente (a nossa) um cravo azul, / um hemisfério ao sul do mais azul, / algum antigo mito renovado.
     Embora tendo esse pé solidamente plantado no discurso atemporal da poesia lírica, JW é um poeta de seu tempo, estabelecendo, em relação a suas matrizes, certas diferenças essenciais. A despeito de cultivar os modelos clássicos, JW como que os esvazia de solenidade. Para fazê-lo, seus dois instrumentos são o humor (cf. o poema Poesia), capaz de temperar as confissões líricas sob o signo da auto-derrisão, e a pessoalidade, capaz de desestruturar qualquer relâmpago da grandiloqüência. Sem Grandes Palavras. Não me venha de borzeguins ao leito! 
     Por detrás dos ecos temáticos e formais da tradição, a receita de JW é rigorosamente contemporânea. Nos versos d’O Agente infiltrado, há grandeza, mas não há pompa. Coisa rara. No Brasil, costuma-se confundir densidade poética com plumagens barrocas e hermetismo deliberado. É raro o poeta culto, como é o caso de JW, não se pavonear com os parangolés da própria erudição. Em outra palavras, a poesia de JW é pura eros-dicção. Não há, em O Agente Infiltrado, qualquer concessão às cifras da literatice, ao abuso supostamente pós-moderno das citações, à linguagem metida a besta de certos aiatolás do ocultismo poético ou ao preciosismo vocabular do neoparsianismo made in Brazil. Em suma, o Ministério da Saúde adverte: O Agente Infiltrado tem altos teores de poesia. 

                                                                           Geraldo Carneiro