Jorgina breve ou Pacto com a serpente - Carlos Lima 

 


                                                                                           "Poemas são presentes -
                                                                                            presentes para atentos"
                                                                                                                    Paul Cean

Esta não é uma leitura isenta. Não acredito que possa existir. E depois não tem sentido escrever sem tomar partido. Isto deve funcionar como o aviso de Dante na porta do Inferno, mas também significa que a entrada é proibida para os vermes triunfantes. As cobras podem e devem entrar, pois Jorge era um cobra, anti-órfico em tempo integral. Ofídico sempre, serpeava o seu sarcasmo e o veneno da sua maturidade em versos que nos seduzem pela sua maestria, como ele mesmo talvez dissesse, de diabo velho. Do Órfico e do Ofídico, Jorge nos deu algumas atribuições: "O primeiro morre de haraquiri; o segundo morre de rir. Órfico quer púlpito. Ofídico quer mingau. Ao primeiro, uma catedral, ao segundo, um barzinho. Órfico veste santo. Ofídico cospe. Órfico se leva a sério e na medida. Ofídico também. Mas na mordida".1 Jorge era a metáfora viva de seus poemas, trabalhava no osso do poema armado de uma poderosa máquina de perversão lírica, projetando um tensão poética em tudo que o cercava, investido da verdade obsessiva da força natural do verbo. E mantinha uma relação amorosa com as palavras, seduzindo-as numa espécie de libertinagem do espírito. Jorge era todo um jardim de caminhos que se bifurcavam: poeta, tradutor, professor, enxadrista e ensaísta; mas acima de tudo um mestre de vida, vida que ia da paixão quase religiosa aos cachimbos e aos bares, nos quais ele descobria um fantasma que os tornava freqüentáveis; onde exibia fulgurante a sua divisa: "não prenda ninguém, não dê conselhos, pague a sua conta".

Todo poeta canta o amor e a morte, mas no seu último livro O Agente Infiltrado2, este último tema torna-se constante e toma quase todo o livro, por exemplo, em ir:

                " Ah, quem tanto pudesse que fartasse
                de voz e de palavra esta partida." (…)

                em Cartas Passadas:
                "Se eu morrer amanhã, há de ter sido
                ainda desta vez, só por aquele,
                o movedor dos astros," (…)
                em Estive meio esquisito hoje:
                "Quem me chamou nesta floresta verde
                e foi num sonho e não me lembro mais?
                Era mulher vestida de menina
                encontro do que eu quis e posso agora,
                 (…)
                Ainda agora está me olhando e alguma
                Coisa nela se espanta que eu não vá.
                Está a um passo de partir sozinha
                e de repente penso que é a morte.

                Não vou continuar neste poema
                Que é menor que o sombrio da Mulher-
                Menina-Morte que olha para mim.
                (…)
                Um passo que ela dê, será meu fim,
                Talvez, que sei que agora a minha espera
                É novo adiamento e não demora."

                em Canção para Leopardi:
                "Tarda-me a morte: e ela outrora mostrou-se
                Disposta e pronta a me encerrar o dia!" (…)

                em Por um quadro de Reinaldo Fonseca,
                na casa de Jorge Martins Filho, Recife:
                "Existe uma menina que é a morte.
                Com o pé no estribo, me olha do triciclo,
                diretamente. É como um dardo, o amor
                fatal que há no seu olho e na certeza
                (…)
                É bom saber que a morte é uma menina.
"

É a morte o verdadeiro agente infiltrado no livro, vemos que a raiz da sua melancolia era uma serpe severa, daí o pacto que resulta no livro; e tentamos imaginar qual o daimon de beleza e tristeza o fez lapidar esse cristal da linguagem que é a sua poesia.

Jorge nos dá o exemplo do que seria uma bildungsdichtung para o refinamento do estilo dos poetas. O trabalho da forma impecável e o domínio da cesura do verso nos lembram Manuel Bandeira, um dos poetas que ele mais admirava. A sua voz lírica é todo um extremo reino do rigor, mas o seu verso prolonga um borgiano jogo de espelhos e labirintos onde mesmo angustiado ele se desvela e se diverte consigo mesmo. Como ele mesmo escreveu, "há infinitudes, aqui". Exemplo disso, o poema Orelha:

                " Ouve que não estou contra a música,
                irmã da memória e da comoção,
                (…)
                nem contra a metáfora, ainda que alguns
                se obstinem em antagonizá-la,
                esquecendo, talvez, que ela é a mãe da
                    linguagem
                (…)
                nem contra o adjetivo, que pode, como em
                    Jorge Luis Borges,
                adornar sem enfraquecer, luzir sem banalizar;

                nem contra a expressão lírica e seu espelho
                    narciso
                nem contra o coração, sempre melhor que as
                    tripas,
                animador de Dante e Lorca e Verlaine
                e que existe como a alma dos pátios secretos,

                nem contra a própria anatomia do concreto
                ou formas fragmentárias do corpóreo

                e do sensível; nem contra a forma fixa

                que em tudo a força está ou não está
                e isto somente importa, estar a força,
                (…)
"

O que vemos aqui é que voz e verbo criam no poema um campo de luta, um campo de forças que atuam como uma luta da linguagem com a linguagem (lexismaquia). É este o conflito gerador de negação e superação que numa perversa cumplicidade dialética origina a palavra fatal que incendeia o poema e cria uma potência, um plus ultra da linguagem, ao qual Jorge nomeia Poesia:

                " Nem sempre está disponível
                (agora mesmo não está)
                mas às vezes diante de muita provocação,
                fica: é preciso
                estar com a cabeça boa
                e cabeça também nem sempre está disponível,
                como agora.

                É preciso ter bom fígado
                bons amigos - ou pelo menos um -
                mulheres para lembrar ou praticar
                decentemente. Nem sempre estão,
                nem sempre. Como agora.
                Versos que ecoam, alheios e próprios,
                ajudam. Certa nervura que aparece
                depois de arranhada, vergão
                na pele da asa.

                Asa é preciso.
                Mesmo quando pesa chumbada
                ao chão, mortiça e torpe.
                Algumas propiciam, do peso, o sopro.

                Sopro é preciso.
                Quase sempre vem de fora.
                E às vezes não vem ou vem do inferno
                como agora.
"

Jorge Wanderley, como um grande mestre da forma poética, sabia que o poema é o lugar da linguagem e a linguagem toma forma no corpo do poema, ou seja, ela se torna propriamente linguagem no poema. A poesia é ou busca se constituir sempre como uma utopia da linguagem. O poema funda todo um complexo da subjetividade do ser através do sistema léxico, conjugando o som, o ritmo e o silêncio das palavras, procurando criar uma festa dos possíveis da língua que ainda não-é; e que apenas no ser do poema torna-se possível. O olho vigilante do poeta na voragem de uma poética incisiva ressuma em O Jaguar:

                " Há no meu quarto um jaguar
                que olha minha cama.
                Já não sei se há debaixo dele um armário
                ou outro móvel qualquer
                porque só ele é real:
                o demais é sonho.

                Não durmo, olho o jaguar
                que me olha imóvel.
                Não respiro, olho em seu olho
                a luz que esqueceu de onde veio.
                Não vivo, até que amanheça,
                esperando que o dia mude tudo.

                Com esperança diversa,
                no alto,
                ele segue me olhando.
"

É esta linguagem permanentemente tensionada que estrutura o corpo dos poemas na poesia de Jorge Wanderley como ele próprio escreveu: "As palavras têm passaporte direto para o poético ou delas não se cogita, no poema".

Por tudo isso Jorge faz e fará falta; préstite nas discussões sobre poesia, porque era um poeta armado de inteligência poética invejável e fina sagacidade crítica para enfrentar a milícia dos inimigos da poesia. Pois sabia que era preciso sempre tomar o pulso do contrato poético, senão as musas (se por acaso existirem) implacavelmente nos demitirão, por justa causa, do jogo com a poesia. Jorge como Baudelaire tinha consciência de que o poeta tem que ser soberanamente inteligente, e que só assim a poesia consegue, como queria Aristóteles, escapar à idiotia e a banalidade  (exallatousa to idiôtikon) de um tempo miserável como o nosso. Jorge não exercitava a parcimônia medíocre do jogo do poder. Ele gastava-se no seu ser, extraordinário perdulário do dom da dádiva e um inesgotável professor de lirismo sofisticado.

 Notas:

1 - Wanderley, Jorge. "Orfismo & Ofidismo: Conceitos Operacionais para se Ler o Poema em Boa Paz", in "Arquivo/Ensaio", Edusp, São Paulo, 1994.

2 - ______________. "O Agente Infiltrado e outros poemas", ed. Bertrand, Rio de janeiro, 1999. 

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* Originalmente publicado em "Logos -12", Faculdade de Comunicação Social, Uerj, 2000.