Prosa poética e / ou crônicas  - Amélia Alves

 

 

 

                                                                                       

 

          Dicendi

Tenho medo deste seu gesto contido em mãos constantemente caídas, desta sua acontecência parada e até, de vez em quando, me apavoro diante de seus desejos de sugerir alguma coisa e ficar estático, à espera de que eu saque inteligentemente tudo que passeia de forma distraída e distante em suas artérias, de onde ainda não senti mais que pequenos lampejos de movimento, como contorções de uma dormideira, por exemplo. Dorme em você qualquer parecença com a flor-do-baile. Vivo tentando descobrir a hora em que acorda para não violar nada que possa existir de pureza em seu sono, para não espantar qualquer intenção de flor residente em sua dormência. 

      Há horas em que penso ser uma deslavada mentira este seu jeito de falar só de olhos e parar me escutando aberrações e extravagâncias, mas logo então, me arrependo de não saber ainda prever intermináveis silêncios, porque também tenho medo de criar imagens diversificadas e acabar (me) perdendo de você as verdadeiras essências. 

     Foi deste pavor ao seu silêncio e a todos os silêncios que se façam de não-ser e mistério, que me brotou um certo instinto de grito que me faz presente a mim-mesma, a todo esse espaço vazio onde se delineiam figuras de um dia virem a ser paisagem. Só que da sua paisagem não escuto senão longínqüas substâncias de campos verdes, porém desérticos, só porque a impaciência de escutar o sem-som de um espraiar vagaroso e interrompido, é minha inevitável noção de silêncio. Por isto e com isto, vou desenhando caricaturas de sua existência ( e tantas outras que me houverem de esboço) com indiferentes e desconhecidos lápis de falar do indizível contraste que é sua presença mais sua não-presença. Aí começam de novo a se apagarem possíveis aparições míticas que posam explicar de seu modo plácido de se dar e acontecer. 

       E de repente, eis-me querendo explicitar  caminhos a quem não sei entender de endereços, entregando trancas de meus possíveis oceanos, mesmo sabendo de probabilidades de afogamentos repentinos. Nisso vou lançando um pouco de minhas impossibilidades também, de não saber velar sonhos, secar e agasalhar contínuas reações, e com isto, estar só agora percebendo de fraquezas conjuntas e covardia, de não termos nos reconhecido, de não nos despojarmos de tantas couraças, vestidos que somos até o topo de ruídos e silêncios. 

       Porque hoje seja talvez mais um dia de me voltar a essas paragens, mais de voltas que de partidas, vou abrir casa toda e deixar porta aberta, embora tendo medo de seu medo de tropeçar na entrada.

 

O UNIVERSO não é uma idéia minha.A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.

Fernando Pessoa

 

               

 

                                 

 

 

 

 

 

 

Aurora boreal  

 

De noitinha, me visto de sol e durmo, brincando de me esconder do tempo, transmutando o que reconheço de mentira, desdobrando o que me vem de verdade. 

Com diáfanas mãos, balanceio o equilíbrio normal do que eu não sei, aperto o seio dos sonhos, me agarro aos cabelos desorientados de um pé-de-vento qual fosse eu borboleta ansiosa. 

Bebo, a falta das horas, o líquido que fabrico com mel de abelha e saudade, engulo o tempo em que me fiz e nem descubro, criança, as tramas do sol que vira, serpenteia, desnuda. 

Encontro um raio que guardei com meus dedos longos que ninguém sabe, com minha esperança latente que nem pensei existisse ainda.

Minha capa de ouro desdobra uma bainha de arco-íris, espalhando sentido nas dimensões maiores, encorpando um segredo em meio a cochichos ocultos, solilóquios que me saem sem fala. 

Lá fora ficaram os ecos, as fumaças.

Saboreio gotas geladas, ice-cream, e me enveneno de ser feliz aqui dentro.

  

 

 

 

 

 

 

Torrente

 

De repente te descubro, Paraíba, arrastando-te lânguido, espraiando-te de amor com a terra que te serve de leito aqui. 

Aqui te encontro amante de cais e cidade toda lavando-se a seus pés, recebendo-te porque és água, assim como sou ruído,riso, rio e calma presença plena de turbulências interiores e movimentos de onda sem mar nem porque. 

Porque te vejo (escuto) vivo de direções, carregado de alma, corpo e espaço, e também, sou cidade buscando berço e sobrevivo magicamente em similaridade contigo, que és coisa que pede, provoca, incita à permanência de te beber com olhos e até me leva a agradecer, banhada em humildade, o beijo que plantas, dia e noite, margem a margem, porque és água, e como água que és, entendo-te como dádiva, e te amo. 

Te amo, tensa, diante de tua realidade-água. 

Líquida de horizontes, sem navios, nem pranchas, nem barco, nem lanchas, embarco  num pé-de-vento. Sou vento vendendo-se em porções ilimitadas de ares, parado ante a claridade, morto de medo da morte maior, que é a falta de esvair-me nessa fluidez primitiva que me põe rio. 

E rio, diante da lentidão turbulenta das águas, eu fio, mas fiapo de existência, porque me dei mais simplesmente a ser cidade e quase me esquecia de quando planície e carinho, como também, da amplidão dos claros selvagens campos de cana de onde brotei fluido. Mas ainda lanço corpo, levo águas, me lavo de invenções de vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Via crucis

( da evolução de cada um)  

 

Em verdade vos digo do cristo ao qual nos damos apenas como cordeiros semi-mortos, diante de violentações tantas ao deus-maior de nós mesmos, em autêntico ato de imolação, e sangue.

Desse mesmo ato de sangue que nos lava o caminho, brotamos purificados no cristo, em cristo, pelo  cristo que nasce-morre-ressuscita minuto a minuto, pois, cada páscoa nada mais é que várias.

Porque qualquer tempo se concretiza em decepções ou crenças, ressurreições após mortes gradativas, suscitadas por desgastes e corrosões repentinas.

Toda morte não é uma morte, porém, espécie de transcendência que se desenrola por caminhos cruzados, com perspectiva de retorno sem dia certo, mas definitivo.

Decerto uma encruzilhada se diversifica em continuações a serem devastadas com mãos vazias, condizentes com puros propósitos de entrega e rosto doado ao beijo traiçoeiro do judas.

Por simples atos de amor, caminhamos carregados de cruzes, despreparados da força do cristo que nascerá ao certo, para morrer e renascer depois pleno de essências, sem chance de queda, porém, caído pela multidão de distâncias entre alturas diversas.

Sabemos, então, de cruzes, senão da cruz maior que é ser a própria existência, e nos crucificamos quando não nos crucificam, na certeza de que, por certas noções de ressurreição ainda caminham as gentes, pouco e pouco, em meio a passos de fé, e cada rastro é vitória sobre as mortes, mesmo porque existimos íntegros, purificados, braços abertos ante a vida.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jauá

 

 

No espaço aberto desse sol, tracei meu mapa de coqueiros e assoviei com o vento cantigas de ninar o dia.

Uma eternidade,hora de abrir revistas ou espraiar com dedos perdidos n'areia e cabeça banhada de sombras, corpo todo lançado em tamanho de alma e mistério.

Pertenço ao tempo como acidente geográfico re-encontrado, fumaça de vida em busca da elasticidade do sono morno, dos que se conquistam a duras penas, depois da canseira final.

Nesse meu encontro de coqueiro-praia-e-areia, insinuam-se casebres que denunciam a presença pacífica do elemento homem. Em cada telhado, roçam folhas que se doam em constantes posições de carinho.

Bebo tudo isso em goles largos e esparsos.

De início, a água é branca, mas, aos poucos se azula, tinta de contaminações do céu.

E eis o contato eterno temporário com o almejado quinhão de felicidade, que é o dia se embalando em ondas, pescador bordando areia de peixes prateados e redes amantes de sol.

Aqui até as pedras, sem querer, formam um quebra-mar, e acolhem os cantos da festa de volta, abraçando gotas de sol testemunhas do batismo da pura essência pelo mais simples.

E quando o dia, menino, adormece, surgem mãos de estrelas velando a escuridão.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

         Domingações 
                                             

Pretendo conservar as mãos longe dos sangues as manchetes que o primeiro jornal me apresenta em bandejas, como pão-pra-toda-mesa, prato que sou pra esse dia que não conheço.
Devo estar alerta, humildemente pronta pro sinal de ancorar, mas, entre o domingo e eu há um certo gosto duvidoso de segundas-feiras e outras feiras quaisquer que existirem por aí, porque não sei se domingo aqui ou lá fora, se mais uma vez errei de hora de chegar ( e é preciso calar a boca diante das convenções) ou se falhou o dia envolto em ausência.
Domingarei em algum jardim zoológico
talvez crianças e feras me entendam, por instinto de pureza. Estenderei redes em verdes áreas humanizadas, enquanto me levo lavada de concessões, premente de doações e gestos livres de toda a vida.
Por onde sigo domingante, não percebo recompensas. Aqui neste estado central de coisas, o mar escapuliu do tempo e desfez-se em forças de manhã crescente e ruídos inaudíveis; sonoridade de água mole em pedra.
E vou me alimentando de estranhas circunstâncias novas, com essas intenções de fuga a que me sinto lançada por questão de car6encias, por flores que só olhos semeiam. Eu tenho as chaves de abrir o dia.

 

 

 

Depois ... 


      Daqui a algum tempo, já não haverá  resquícios de coisa alguma, embora as paredes teimem  sempre  em preservar mudas histórias que se passam  atrás de  portas  trancadas.
     
Em tranqüilos biombos da casa dormente e vazia não haverá mais quem  mate as poeiras e marcas de fatos acontecidos, de frases perdidas em  clandestinos encontros de que  ninguém desconfia. E cálidos sorrisos de sol  esquentarão mortas presenças de nada , enquanto  um  silêncio  antigo  contará  lendas de sono e  redenção.
      
Pelas frestas das janelas, penetrarão sons de vida lá de fora e , aos poucos, casa inteira irá se acostumando à solidão de estar assim desencontrada de si  mesma, de seus habitantes antigos, das gerações  que lhe dobraram as tábuas  do assoalho em  loucas correrias e alvoroço constante, dos tempos de  avós , tios, sobrinhos, apadrinhados e arroz doce comido de tarde com café de  rapadura e brincadeiras de pique pelo quintal.
      
Decerto, irão ficar lembranças de mortes, herdeiros e família separada  por questões de somenos importância, medo de assombrações, espectros  de  árvores que em noites tão longas abrigavam serenatas e namoros escondidos.
      
Não mais se  ouvirão maçanetas girando, dizendo de chegadas  diversas , de filhos pródigos em busca de apoio, de mães carinhosas e mãos se doando. Cada espera será ameaça de gargalhadas repentinas sugeridas por  escuridão  e  silêncio.
     
Pelo jardim, alguém descobrirá somente lições de abandono, como se  tentassem reconstituir, entre escombros, as bases de um relacionamento há  muito arruinado. E alguma torneira esquecida irá, então, pingar  intermitentemente , chorando perdas e danos .

 

 

 

 

Heurística

 

Ah, sim, eu estou viva. Ou será que não estou?

O que é isto que todos teimam em chamar de vida? 

Já sei, é assim: um ser vivo fala, anda, gesticula, ama, se entrega, integra ... 

E eu, onde estou nisso tudo para lhe declarar com tanta veemência algo tão sério, tão superior, tão simples... ? 

Quantas vezes terei eu vivido para lhe dizer isso?  

Eu- pobre assassina de pequenas coisas ... Eu milhões de vezes assassinada. 

Houve um tempo em que abria uma janela e sentia apenas o vento, o sol, qualquer promessa latente no espaço, e era tão limpa que não sabia que ali mesmo, embaixo da minha janela, os homens se entendiam aos socos e pontapés. Ou melhor, sabia sim, só que não acreditava. 

Um dia, eles foram chegando sem que eu pressentisse: invadiram meu jardim, quebraram minhas vidraças, enlamearam minha varanda, e descobri bem cedo que as balas de um revólver não  eram doces, que facas não serviam só pra repartir o pão-nosso-de-cada-dia, que se mata com qualquer coisa palavra perdida, gesto desencontrado, mata até sem querer matar. E enxerguei muitos mortos, quantas mortes ... E morrer me foi tão simples quanto nascer. 

A vida foi vindo em pedaços, numa sucessão de suicídios e matanças, e eu continuei desfiando tudo com incrível paciência: 

quantas vezes se morre pra poder viver?

de quantos mundos recebi esse terrível direito de arriscar minhas tantas vidas em casos de morte? 

quantas mortes povoei com meus sentidos de vida?

não estarei eu lhe propondo uma morte qualquer?

Ou uma nova vida?

 

 

 

 

 

 

Retrato falado  

                     

 

   Do (s) crime (s) ? Ninguém sabe, ninguém viu. Restou a medalinha de ouro, a mochila de couro, a mini-saia de  brim  indigo  blue e a cabeleira vasta estendida no chão, enraizada no mato como capim morto por  intensas  e  sucessivas pisadas. E a carteira de identidade, o  corpo  sujo e roto , a alma penada   rondando  mistério, as pegadas perdidas no verde e cinza  da  cidade grande eram de quem: De Selma, de Vânia, de Joana, Isadora ou  simplesmente Maria? Os sonhos , com certeza, os mesmos. A vida, de verdade, outra.
      A moto parou perto, em vôo rasante, e ela nem sequer olhou. Diziam que era bonita e que isso bastava – a  beleza se fazia evidência aos olhos, nem sempre tão abertos, mas plenos de muita luz. O  sucesso era  coisa  que  ia acontecer um dia, não importava como, nem  com que  ou quem. Podia vir pela mão do  príncipe , do malfadado amante ou do benfeitor . Não tinha cara  de quem resistisse  a tanto –  um  out-door aqui , outro  ali , uma  take  de biquine ou jeans , de  preferência , incluindo nudez, despojamento ou coisa que o valha.
      
Era  mestiça – mulata, morena, parda, garota  nacional, lourinha   bombril . Torceu  pela seleção canarinho à beira  do  Ibirapuera e , então , tudo já era . Camiseta da moda , brinco de personagem de novela na orelha direita. Na esquerda, um pierce qualquer. Levava jeito . Bem que podia ter  sido  eleita a morena  do   tchan . No Domingão do Faustão  tinha  gente muito mais feia do que ela. Olhar no espelho inútil e indevassável , sozinha  em  eternos solilóquios, trazia inexoráveis dúvidas, questões  indefinidas e infindas, que só encontravam resposta em  suave e fria mudez.
     
Quando ele parou  na avenida e sussurrou ao pé do ouvido doces elogios, a promessa já estava traçada – a carreira fulminante, as fotos nos jornais, a casa com   piscina  e  tudo. Bem que a vizinha avisou  do  sumiço das moças  e  ela achou graça. ( De gente invejosa, estava cheia! )
   
Foram duas, foram cinco, foram sete, foram nove, foram tantas que a gente se perde nas contas e há quem nem sequer se dê  conta , enquanto revisita sua vida – o dorso nu, calcinhas e sutiãs à vista, enquadrada pelas telas da TV.

     
A morena de  cabelo comprido encaracolado enroscou-se no sonho. Não mais fará  fotos nua pra nenhuma revista. Não mais remexerá  as cadeiras, revirando os olhos esverdeados, fazendo pose para uma foto qualquer. Ela ficará ali destroçada em sua eterna juventude, despenteada pelo mesmo vento que sacolejou a sua vida. Do rosto desfigurado não se saberá além das ilusões perdidas na boca do lobo.