Poemas de Antonio Barreto

POÊMIOS  

 

Os poêmios bebem a noite inteira
   
e eruditos sobre a mesa
       
arrotam odes a Herodes
           
e nênias a Homero e Nero  

Quando já cansados de lero-lero
     e exaustos de tangar boleros
       
e sonâmbulos de sambar requebros
           
os poêmios se recolhem pelos
               
escuros becos alexandrinos  

E assim se vão como bons meninos
    
a poemar
        
os prêmios
            
de seus destinos
                
até que a noite tire do bolso o dia  

E a poemada toda em algaravia
    
pára no caminho pra comer bombom
        
onde justamente outro poêmio dorme
            
como a pedra enorme
                
de Drummond

 

   



 
 

PRA GENTE PASSAR DE ANO

Tudo que fala em ti  
por mim nunca foi dito  
Por esse modo de arfar  
palavras de ar no ar  
tão ínfimo

E embora, tímido,  
me revele  
por não me relevar  
escrito
 

E de amar-te  
não existo
Me consola, porém,
o fato
de querendo
te existir em mim  
não fico  

Mais de uma vez  
e outra  
inscrítico  
nessa iminência de cristal  
de ofício:  
fico pó, na tua pele,  
e só assim  
me abrigo  

Por percorrer-te  
quando quero  
imaginar-te em mim  
em meu calvário e cruz  
se fixo  

Mas antes, esse vazio,  
esse infinito  

Até que um dia teus olhos  
quem sabe  
me levem por levar  
esse renascer de mim  
tão tarde  
amando  
por não saber que modos,  
mais cedo, imaginar-te.  

(O  
que agora sabe-se  
é o que não se sabe)  

Verdade: a gente nunca aprende  
o que é paixão, o que é amar:  
só pelos livros  
esses que nos quais  
pelos quais  
nos enganamos  

E por amor a eles
nos deixamos  
em prateleiras  
de abandono  
E por amor a eles  
folheamos  
os calendários  
de desanos  

E assim pintamos  
e ficamos loucos  
e deixamos  
que a vida pace.  

E assim nos ensinamos:  
Paixão: é química, física, geografia e língua  
Amor: é biologia, é história, é matemática  

Quero então, de amor,  
subverter  
tuas gramáticas.  
E te levar pro limbo  

Te abraçar e te cobrir de beijos
Até que a boca se silente  
e cie  
Até que a língua se sacie  

Até te ensinar as línguas  
que o mundo colocou no mundo  
pra que a gente se encontrasse  
no final  
de um provisório sono  

(E essa absurda  
e delicada trama  
de Psiquê e Eros)  

Eu quero é mais, de amar-te, então um boletim  
cheio de zeros  

E levar, contigo, bomba  
no final do ano

 

 


   

ROAR (I)

   
leiam
barbas
:
alquém do céu
soletra o sol
quando

peomas pintas
leiam o mel
a mil
belhas á 
zum zim zom 
quando será
o elétrico? o hipo 
tétrico milótrico 
agre ugre ogre ?

uma coisa farta
alco 
está erado: 
o turbium
o mesclium

joguem latas
no atlas
lá já fui e fi
quem sabe si

tirem de mi
o ré o ror o
si a marxa a mó'r
a mó do modess

dissouvem o oivo
oiçam ouvidros
alá! há! há! rá!

 suspirem alderedor
 em venda plúbica
 e mais: diguem quem são
 cuais as gorjas
 quem xeremos essa história

ientão? 
ventem argora
aspas e aspargos
entre aspas
e aspargos
sob o reptil til ~

dispois
vent rem
o re p t ~
il
a memória

e aí?
hajam assim
antes que o pop
acampe
quem xabe
antes que o papa
pape
e
acabe
em papiacabes
&
paranapiacabes
auraite?

[ BH - 24/6/00 ]

 

 

 

 

ROTAMATOR

pequeno ensaio sobre poética educacional de trânsito     entre mesas de bar

 

primeira segunda terceira  
à beira do abismo estrada  
cadeira musa na guia  
cerveja poste raifai  
cubalibre meifii  
de vódica trombada vídeo  
lógica porrada tarzã  
de caneta tira a colo  
um cacete na calada  
da noite uma ova  
essa cova da poesia bossanova
ditacura lua nova ressaca de cigarro chá-de-bardo/sal-de-frita  
desovais de presunto  
escovais de mussarela  
enxovais de azeitona  
provolone velho barreiro  
tira-gosto de sol posto  
tira-posto de sal grosso  
na  
quarta quinta nos quintos  
dos infernos sextas sábados  
domingos no rumo dos zin  
vermes de fogo vermelho  
no copo buzina os meninos
mulher freidimão fome in  
testinos dois dias didiesel  
+ pão com salame e K chaça
em cruz ilhadas ilíadas todas  
as marchas direita esquerda  
odisséia volver em frente re
vólver finalmente a ré em di  
reção à beira do abismo da mesa  
a musa  
nas pernas do Y psi lone a lonal  
one em cruz K chassis contra  
as mãos da estrada hemato
motor tornassol paralona  
primeira segunda terceira  
e última fotogravia em V  
positivo câmbio desligo em  
frente direitcha esquerdcha  
monotonia do inferno demente
a mente da amante dormente de a pé até o ter  
remoto controle buzuai-ai  
onde judas perdeu a razão  
sem tirar as meias da dor  
freada na fé transeunte + 1  
no sinal da esquina ativar cantoria  
na oficina de loucos cantina de roucos  
 
mulheres malemalucas  
de lá vem pra cá meu bem  
rodadura navalha fechadura  
na estrada frescura maleta  
parachoque fié-duma-eva  
bateu sem tirar a dor das  
botas dos pés des a céu acel  
erado desastre de pedra é mato hema  
tomotor  
omotoromoto 
hematomassolasol  
é
dó-re-mi-fá-sol-lá-si-alcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoólalcoól