Antonio Barreto - prosa I
Estaciono. Aciono o botão do vidro elétrico. Boto a
trava na direção. Saio do carro, fecho a porta, ligo o alarme e fico
pensando que segurança é artigo de primeira necessidade.
- Quer scruples,
doutor?
É um rapaz meio gordo, suado, barrigudinho, barba por
fazer e com um boné do Lakers virado de banda, na cabeça. Me oferece uma
caixa de algo parecido com granadas
em miniatura. Ou serão apenas frutinhas cascudas, com DNA alterado? Ou
trufas? A diferença é que essa “coisa” se mexe dentro da caixa de
papelão, infla, incha. Está viva. E exala um perfume suspeito. Digo não
ao rapaz, mas ele é renitente:
- Faço 3 por 1 real! Se o senhor levar a caixa, que
tem 15, só paga 4. Lá no supermercado é 5, e o senhor vai ter que
entrar na fila, morou?
Digo não novamente. Subo a rampa do supermercado, pego
o carrinho e começo a passear entre gôndolas e prateleiras. Puxo do
bolso a lista de compras da via crucis. Inicio pelos frios: manteiga,
mussarela, iogurte, presunto fatiado, pão-de-queijo... (Não sei por que,
penso na República de Juiz de Fora). Passo para os secos: arroz, feijão,
açúcar, café, farinha de trigo, espaguete, parafuso...Parafuso? (Penso
nos malucos do Governo e seus planos mirabolantes para salvar o insalvável,
a realeza do irreal). Enlatados: molho de tomate, ervilha, óleo vegetal,
sardinha... (Já começo a me sentir uma sardinha no meio do molho do
empurra-empurra). De repente, a fila! - Que fila é essa? - pergunto.
- Para comprar scruples,
o senhor não sabe?
- Scruples? E
o que é scruples?
- O senhor não sabe? É uma delícia, uma gostosura! Tá na moda, tá na mídia. E ninguém
mais consegue viver sem scruples,
hoje em dia. - um fala. E outro completa: “Principalmente depois que o
FHC entregou de graça o Brasil aos gringos. É o melhor remédio contra a
mola inflacionária, contra o bicho que vai pegar...” E uma velhinha
arremata: “A gente bem que merece, pelo menos, uma caixa de scruples por dia, o senhor não acha?”
Me sinto agora um símio desinformado. Que diabos! Logo
eu que me considerava um verdadeiro arquivo ambulante de informações úteis
e inúteis para a sobrevivência na selva. Assinante de 3 jornais e 2
revistas, devorador de livros, rato de biblioteca, capitão-de-fragata nos
mares da Internet... e não saber o que é scruples?
- Esse aí furou a fila! - ouço.
De repente, a chuva de impropérios pra cima de mim:
“Safado! Um sete um! Furador de fila!”. E um segurança me segura pelo
braço:
- Aí, malandragem! Dando uma de engraçadinho, hein?
Isso aqui não é fila de INSS não! Tá tudo organizado, entendeu? Se
quiser scruples tem que ir pro
final da fila, ou então vai ficar lambendo o dedo, só na vontade! - e a
velhinha: “Já vi que o senhor não merece ter scruples em casa, sujeitinho de uma figa!”
O segurança me leva (eu e meu carrinho de compras pela
metade) para o final da fila. Abobalhado, apatetado, aparvalhado,
atoleimado e apalermado, mergulho meus olhos incrédulos em profundidade
de periscópio, dois metros acima das cabeças que se movem em desespero,
na direção do imenso cartaz:
PROMOÇÃO:
SCRUPLES
|
R$
5,00 A CAIXA
|
(Só
até acabar |
Decido ir embora, com as compras pela metade. No estacionamento
vejo o gordinho de boné do Lakers. Boto dois dedos debaixo da língua e
assobio com força, como na infância. Um gesto e um som que não fazia há
muito. Me alegro comigo mesmo. E, mais brasileiro do que nunca,
adolescentemente, planejo a vingança. Feliz, penso estar passando todo
mundo para trás: “As bestas quadradas se engalfinhando lá dentro por
causa do scruples, e eu aqui, na
boa, comprando scruples mais
baratos, na mão do camelô...”. E nem pechincho:
- Me dá uma caixa de scruples,
companheiro!
Em casa, assoviando Gardel, ofereço a novidade à
patroa, que é bamba no inglês. Ela leva um susto: “Escrúpulos? Que
escrúpulos? Está com febre? Ficou maluco?”
Só então percebo que estou de mãos vazias. Descubro
que acabei comprando alguma coisa inefável, inexistente, invisível. Algo
muito além do sonho de consumo de um tempo que já não volta mais. E a
patroa: “Por que você não trouxe o leite, os legumes e as verduras?”
- O dinheiro não deu. - minto. E engulo de uma vez,
escondido atrás da porta, minha imaginária caixa de scruples.
Cronista é bicho cabotino.
Canta de galo no terreiro, mas não passa de frango d’água em dia de
avestruz. Pra não fugir à regra, hoje, peço licença ao editor e aos
leitores para um comercial de pavão em tempo de vacas esquálidas.
Seguinte: três Marias acabam de fazer um livro (Transversais
do Mundo – Leituras de um tempo) sobre as “pílulas” que aqui,
homeopaticamente, administro há mais de dois anos e todos os domingos,
conforme o gosto do freguês e os índices do vox populi. São elas: Maria
Ângela Paulino, Maria Rozário Starling e Maria das Graças Sette,
professoras. O trabalho é dirigido ao ensino médio, cursinhos,
faculdades e leitores em geral. Motivo: muitas dessas crônicas já vinham
sendo estudadas em sala de aula, fato também comprovado pela
Reparaco-Papaco-Paco (nossa rede particular de papagaios, arapongas,
compadres e comadres). Objetivo: o prazer de ler, de construir e
reconstruir o próprio texto a partir da crônica enfocada em cada capítulo.
E os capítulos falam de consumismo, egoísmo, desamor, esperança,
fraternidade, solidariedade, cidadania e alegria de viver: coisas de que a
crônica se alimenta o tempo todo, todo dia, mas que quase nunca saem de
sua condição de palavra, no noticiário.
Conforme tergiversei na
apresentação do volume: antigamente, quando não havia jornal, rádio ou
TV (nem telégrafo, telefone, satélite e Internet); os cronistas
reinavam. Por esse ofício ganhavam títulos de nobreza, terras, leitoas
assadas, servos e até mulheres. Bem se diga, naquele tempo, cronistas
eram homens. Um reino, por assim dizer, dos machos, porque deviam estar
sempre prontos a zarpar, e aptos a receber picada de inseto, cobra,
mordida de jacaré, ataque de leão, flechada de índio e ser imunes a
doenças do mar, da terra e do ar. Em suma: super-homens.
Por isso, amealhavam rios de
dinheiro (incluindo os pacotes de viagem) para relatar as conquistas e os
feitos heróicos do Rei. Muita coisa era mentira, é bem verdade. Mas
sempre foi assim. Ontem como hoje, mentira e verdade dependem de quem
fala, do que se fala, como se fala, e de quem ouve. Há gente que jura,
por exemplo, que a Carta de Caminha não passa de uma história da
“carochinha”. E olha que o Caminha era um cronista bem apetrechado,
pelo menos no peso...
Aí o tempo foi passando, todo
mundo ficou sabendo de tudo (e muito rápido) e o cronista virou isso: um
cara que ganha uns poucos sovados, sem realeza alguma, para narrar,
refletir, poetar, comentar, fazer graça ou dar um malho na notícia que
todo mundo vai esquecer nos próximos 20 segundos. Hoje, os títulos que
recebe são de protesto; as terras não existem mais; os servos exigem
carteira assinada e 120% de encargos sociais; as picadas têm um custo
operacional muito grande - e são uma droga! -; as mordidas são
patrocinadas pelo Imposto de Renda; os ataques, pelo coração. E as
flechadas (ah, sim, as flechadas!) são desferidas pelas mulheres. E são
fatais! (Não estou reclamando: acho que tudo que vem das mulheres é bom,
inclusive o veneno). Mas o fato é que, nesse quadro de benesses crônicas,
nem as leitoas assadas sobraram.
Garanto a vocês, no entanto,
que o ofício compensa. Compensa o retorno, a opinião dos leitores sobre
o que você disse (ou não disse). Compensa o trabalho que o professor faz
sobre seu texto, na sala de aula, com os alunos. Compensa a carta que
chega de longe, pelo Correio. Compensa o telefonema do amigo que você não
vê há anos. Compensa o e-mail que viaja pelo mundo e se abre de repente,
num susto, na tela de seu computador. Compensa o comentário do vizinho na
porta do prédio. Compensa a abordagem do desconhecido que te reconhece na
rua e pergunta sobre o sentido da última metáfora...
Metáforas! São elas que nos
socorrem na hora da cirurgia verbal. E não querendo ser pessimista: todo
jornal já é uma espécie de hospital, de pronto-socorro sem socorro. Uma
vitrine de UTI, de necrotério. Por outro lado, notícias são doentes
terminais, sem esperança de salvação. E os jornalistas não podem ser médicos:
não curam os fatos. Apenas mostram-nos a nós, para que, como cidadãos,
tomemos alguma providência.
Puxando a brasa pra minha
sardinha, acho que a crônica - no espaço hospitalar do jornal - é uma
espécie de maternidade, de berçário. Através dela, a notícia pode
nascer e renascer, criar vida própria, crescer e até mudar o mundo: o de
dentro e o de fora. Mesmo quando o cidadão esteja apenas embrulhando, com
ela, um par de sapatos. Ou protegendo o piso contra os respingos do
pintor, ou forrando as prateleiras de um armário. Tem gente que só lê
nessas horas. E aí, se transforma...
Essas três Marias me ensinaram
também outra coisa: a crônica é um eficiente remédio contra as mazelas
da alma (e dos direitos autorais). Tanto que a maioria dos nossos
escritores (e malucos em geral), hoje em dia, é cronista ou curandeiro. A
crônica faz bem pro efêmero, pro passageiro, e até pro eterno. E não
tem efeito transitório!
B... no Brasil ainda é
palavrão, mas poupança não. Nem padaria, assento, traseiro, bozó,
caneco, holofote, lorto, popa, rabiosque ou tralalá. Poupança também já
não é mais aquela parte carnosa do corpo formada pelas nádegas e eleita
por 9 entre 10 brasileiros como nossa principal devoção na hora do rala
e rola. A poupança já ultrapassou essa condição de fetiche, de objeto,
de ícone da pós-modernidade: virou doença nacional. Uma doença
transmitida todo dia, de sul a norte, pela Rede Poupa-Ganha de Televisão.
Quando não, pelo Vagabundae calipigius poupiis, um vírus redondo e fornido que vai
espalhando mais amor nos morros, mais doçura nos lares, mais vibração
nas ruas e mais preguiça nas repartições públicas.
Enquanto a poupança passa (e aumenta), a vida canta e
assovia, faz graça e passa a mão... Os ânimos se reacendem, a esperança
reina, os homens que trabalham trabalham mais e melhor, as mulheres
sorriem e os filhos até ganham presentes sem saber por quê. Há beijos
nas praças e nos jardins, a alma está em paz, os problemas desaparecem e
a felicidade saltita aos olhos dos que estão olhando porque uma poupança
está passando... e aumentando. Sim, porque sem essa doença altamente
contagiosa o brasileiro fica triste, frustrado, humilhado e abatido. Na
verdade, antigamente éramos todos assim: um povo comedido com a poupança
na moita... Alegria de brasileiro era alegria de português, de bispo, de
filósofo, de santo, de pecador, de culpado. Alegria de abismo, de
saudade, de cavaquinho, de fado, de “coisa dilacerada” – como dizia
Nelson Rodrigues. Alegria de tábua de passar roupa. Alegria reta: sem
curvas de Tiazinha, essa nossa nova noivinha, nossa namoradinha, nossa Vênus
Calipígia! Evoé, Tiazinha!
Falar nela, sou até capaz de
propor uma saída para a crise: entregar Tiazinha (atualmente, nossa
melhor poupança) aos banqueiros internacionais em troca do perdão de
nossas dívidas. Tiazinha já declarou que adora abobrinhas verdes,
bufunfa, dólar, venha de quem vier. Ademais, a poupança é um produto
nacional de altíssima qualidade, sem competidores no mercado. Assim,
quando Tiazinha enjoar dos velhinhos banqueiros, a gente manda a
Feiticeira do “H”. E depois as que já estão no banco da regra-três:
Carla Perez, Scheila-1, Scheila-2, Gretchen, Rita Cadillac, ex-chacretes,
bolinetes, guguletes, ratinetes, coelhinhas, pomponetes, agazetes, dançarinas
de buate, de pagode, de roda-de-samba e madrinhas de bateria com borogodó
e tudo. Aposto que em uma semana já estamos com nosso dinheirinho de
volta, com juros e correção monetária. Que tal?
Há 500 anos, quando todo mundo
éramos índios por aqui - despudoradamente índios, diga-se -, não tínhamos
bundonor algum. Porque índio não ligava pra poupança. Nada de nada.
Nalgas! Foi preciso que o europeu a mostrasse pro índio, pra que ele
tomasse consciência da relatividade das coisas: principalmente de que a
Terra é redonda, como nossa poupança. Mas aí o tiro saiu pela culatra.
Por natureza própria inocentemente desbundado (e o cacique ainda não lia
Freud), o índio descobriu que a poupança era também uma questão de
culinária: um filé minhão muito mais palatável que os quartos da anta
ou os testículos do porco-do-mato. Fizeram então, com o Bispo Sardinha,
nossa primeira Semana de Arte Moderna, nosso primeiro Manifesto Antropofágico,
consumindo literalmente com as poupanças do bispo. E com elas comeram
também os seus pertences: o que mais tarde viria a ser a gloriosa
feijoada.
De lá pra cá começamos a amar
a poupança. E amar a poupança foi o mesmo que estabelecer fronteiras em
mundo globalizado, ou seja, ficar sem geografia. Assim, viramos um país
de poupadores sem-rumo, perdidos, carentes, querendo ser queridos. E
criamos a poupançocracia que
é o governo da poupança, pela poupança e para a poupança. Tanto isso
é verdade que nossos governantes o estão praticando com uma maestria sem
par: assentam as poupanças em suas cadeiras e ficam esperando... É ou não
é?
Sinceramente, acho que o povo
está ficando cada vez mais despoupado. E povo sem poupança é um perigo.
É sinal de magreza física e intelectual, de osso por roer, de miséria,
de fome. E a qualquer hora podemos ficar, também, sem saco de farinha pra
agüentar tanta poupança sentada em cima. Uma curiosidade: já repararam
que - historicamente - nunca encaramos nossos problemas de frente? É
sempre pelas costas, ou de viés, ou de lado, atravessado. Do jeitinho que
fazemos quando a poupança vai passando. Aí, então, nos locupletamos.
Gritamos, uivamos, aplaudimos, assoviamos. E comemos com os olhos.
Por isso, governantes, um
lembrete: pode faltar arroz, feijão, macarrão, mas poupança não!
Enquanto houver poupança há um restinho de esperança... Ora, nádegas!
Ora, padarias!
h¬h
De
início o assunto pareceu-me já batido, malhado e surrado pelos 10 mil
cronistas do Brasil. Mas, quando me contaram os detalhes, não deixei de
reputar ao Barbosinha certa criatividade no modo como venceu sua última
guerra. E é isso o que passo a vocês, sem tirar nem pôr, tintim por
tintim, na mesma dose. Foi assim:
Uma
semana antes das férias começarem, ele já estava no maior canguiço.
Primeiro foi a zoeira de Natal. Guerra no trânsito. Confronto nas filas
de banco. Luta no chópin para conjugar bem o verbo “comprar”. Peleja
para armar a árvore de Natal. Conflito na ceia e depois da ceia, com
parentes e meio-parentes. Convulsão no estômago pós-comilança-fumaça-e-bebeléu.
E, por fim, um exército de contas a pagar: caiu no cheque especial.
Mas o
Barbosinha conseguiu sobreviver. E veio o Ano Novo: novas batalhas a céu
aberto e a céu fechado. Tudo para tentar comprar a mesa do clube onde ele
e família, unidos, passariam o reveião... Aos tapas, conseguiu 5 lugares
com 2 champanhas. E pum! Pularam, jogaram confetes, serpentinas, se
fingiram de marinheiros, sultões, bailarinas e odaliscas felizes.
Beberam, comeram, suaram, sorriram, choraram, se abraçaram e depois...
Bem, depois
veio o 3o.Reich do Barbosinha: conseguiu alugar uma casa na
praia, pra passarem as férias. Viu fotografias maravilhosas numa agência.
Fez o cheque, pagou, revisou a Veraneio, comprou barraca, lanterna, lampião,
frescobol, maiôs, biquínis, sungas, bonés, cadeiras de desmontar, pára-sol,
protetores solares, hidratantes, chinelos, carvão, caixas de cerveja,
isopor, picanha maturada, asinhas de frango, pão-de-queijo, barras de
gelo, churrasqueira, repelentes de insetos, filmes, CD’s, som portátil,
polaroid e até um baralho novo. As camisinhas (para os 3 filhos
adolescentes), deixou por conta da patroa, que era mais jeitosa nesses
assuntos de relações exteriores.
E veio a
viagem. Destino: Guarapari (ES), a Meca dos sem-praia. E a travessia.
Primeiro: a multa por excesso de bagagem, logo na entrada da Br-262.
Depois: pneu estourado em João Monlevade. Em seguida: o piriri da
Paulinha em Rio Casca, por causa de um pastel velho comido no posto. E
pela ordem: flatulências do Gustavo, resultado de uma lingüiça devorada
em Realeza. Borborigmos da Carolina, pelo excesso de iogurte com requeijão
cremoso e coca-cola, em Venda Nova dos Imigrantes. E por último os
enjoamentos da Cida, a patroa, que viajou no chocolate na descida da
serra, em Domingos Martins: “Quando é que você vai parar pra gente
poder aliviar, Barbosa? Isso aqui tá parecendo um botijão de gás
prestes a explodir!”
Mas eis que
finalmente o mar, o mar de Guarapari. Ah! O mar... o alívio das retinas e
das costelas exaustas de um mineiro Executivo-Executado-Classe-Média!
Troféu do exemplar Cidadão Silencioso das Montanhas Azuis! Prêmio do
justo pagador-de-impostos e outros dízimos-dos-quintos-dos-infernos.
“Oh! O mar! O mar das ondas alterosas...”- já poetava Barbosinha.
E lá estava
a casa: o 4o.Reich! Ou melhor: a Guerra do Golfo!
Não havia água,
nem luz elétrica, nem armários, nem geladeira, nem fogão, nem cama de
casal: só dois beliches duplos com três colchões mofados. E nuvens de
pernilongos disputando o sangue doce dos neófitos com esquadrilhas de
borrachudos da Luftwafle capixaba. Pulgas e percevejos kamikases caíam de
pára-quedas sobre o alvo. Vez em quando, uma força-tarefa de baratas
mariners invadia os flancos da cozinha, enquanto uma brigada ligeira de
ratazanas gurgas cercava os ocupantes no quintal.
Porém,
invencível, obstinado, Barbosinha se fez de bombeiro, eletricista,
dedetizador, faxineiro e etcépteros. E conseguiu vencer mais outra
batalha. Reforçou a linha de suprimentos básicos da tropa, elaborou
regulamentos e horários rígidos, estabeleceu prioridades e distribuiu as
ordens como um comandante digno de figurar entre os heróis da famigerada
Guerra do Paraguai. Quando foi necessário, bradou: “Avante, soldados,
para trás!”. E ao final de 30 dias, o tempo previsto para aquela
exploração marítima, o saldo: Paulinha com conjuntivite, Gustavo com
diarréia, Carol com um bicho geográfico na barriga, e Cida, a patroa,
engolfada por ataque repentino de uma onda nervosa, dessas que ultrapassam
o quebra-mar sem aviso prévio. Mas quase aprendeu a nadar, a Cida. E como
todos dormiam na volta, nem viram o Barbosinha levar mais uma multa por
causa do Novo Código de Trânsito: excesso de velocidade na aflição de
chegar. Mas chegou.
Dia seguinte,
meninos na escola, patroa no trabalho e ele sozinho em casa. Ainda
dispunha de 24 horas, antes de voltar pro batente. Nem pestanejou. Livre e
solto como um passarinho, de cuecas, desligou toda a parafernália eletrônica
e sentou-se à frente da geladeira. Calmamente, pegou a primeira latinha
de cerveja, puxou o pino da granada e deixou com que ela explodisse em sua
garganta, num misto de gozo, alegria e prazer. Depois, já humildemente
gelado, solitário iceberg se liqüefazendo em levas e levas de pródigas
latinhas, murmurou:
- Ah! O
mar... ainda não mereço o mar! - E bebeu até o fim das férias.
h|h
(SUS
PSIQUIÁTRICA)
Quando
Sandrinha enlouqueceu o bairro inteiro ficou sabendo. Pouco mais de 20
anos, começou a quebrar louças e aparelhos domésticos. Entre
gargalhadas, subia e descia as escadas do velho sobrado de Santa Tereza.
De madrugada, arrebentava a porta da sala e saía pra rua atrás de
bebida, drogas e rapazes. Por volta das seis da manhã, voltava. Ia pra
cozinha e comia a geladeira. Fazia café: bebia a garrafa térmica de uma
vezada só. Acendia cigarros atrás de cigarros. E enquanto a mãe
chorava, Sandrinha vomitava tudo no banheiro. Depois, tomava
alternadamente banhos frios e quentes “para se limpar da sujeira do
mundo”- grunhindo, com voz de homem. À tardinha, encerrava o ritual
diadiário se pintando com rímel e batom. Aí, então, cismava de sair
pra rua outra vez. Detalhe: apenas de calcinha e sutiã. Sandrinha tinha
sido “miss”, dois anos antes de enlouquecer. Era linda. E isso,
talvez, a incomodasse.
O
pai de Sandrinha, no desespero, tentou os primeiros corretivos à moda
antiga. Mas, na terceira surra, seu coração já estava aos pedaços.
Teve um princípio de enfarte. A moça se desvencilhara dele com força
descomunal. E tentara matá-lo com a faca de pão. A vizinhança acudiu.
Conseguiram segurá-la, e a amarraram na cama. Todo mundo aos prantos. Com
a fera presa, chamaram Delgado, o farmacêutico. Delgado aplicou injeção
pra dormir. E Sandrinha, finalmente, dormiu.
Nos
dias que se seguiram, a mãe apelou para os santos de sua devoção.
Acendeu velas, fez promessas e novenas para às almas do Purgatório.
Chamou benzedeiras, curandeiros, mães-de-santo e até um pastor da Igreja
Universal do Reino de Deus. O pastor comeu, bebeu, recebeu “doações”,
mas não conseguiu exorcizar Sandrinha.
- O poblema - disse o pastor -
é que o demônio está preguiçoso, não quer sair do encosto. Mas em dez
prestações eu expulso ele, irmã. Aleluia! - E, satisfeito, saiu
contando as notas porta afora, enquanto Sandrinha, amarrada à cama,
urrava e cuspia.
Muitos
anos se passaram.
Conseguiram internar a moça num sanatório do Estado, pelo antigo INPS.
Mas nunca souberam o diagnóstico: esquizofrenia, PMD, possessão? Alguns
juravam que era droga pesada. Sandrinha tivera um namoro suspeito: um
sujeito com pinta e fama de traficante, que se escafedeu.
Delgado, porém, jurava que era deficiência de uma substância no cérebro,
a serotonina. E ele tinha remédio pra isso: 100 reais a caixa.
O certo é
que, sem saber o que fazer, com vontade de morrer, os pais de Sandrinha
envelheceram precocemente. Conversavam sozinhos, e um acusava o outro de
culpado, quando visitavam a filha aos domingos, no sanatório. Os outros
irmãos se mudaram do bairro, e depois da cidade. Ficou apenas Magali, a
caçula, de 14 anos.
Mas os velhos
conseguiram, não se sabe como, ir tocando a vida com dignidade, e na
corda bamba. Até o dia em que chegou a carta do SUS, antigo INPS:
Sandrinha teria que voltar ao “convívio” familiar. O governo fecharia
os hospitais psiquiátricos, porque essa era a nova e moderna diretriz do
Ministério da Saúde. E ponto final.
Sem dinheiro
para pagar hospital particular, o pai viu chegar a proximidade do fim.
Hipotecou o velho sobrado de Santa Tereza, vendeu o fusquinha e meteu a mão
no que restara da poupança. E, em 12 meses, com 140 quilos, Sandrinha
consumiu tudo: as economias e os nervos.
Hoje, Magali
também já sobe e desce as escadas, fumando maconha, às gargalhadas. E
quer ser “miss”. O papagaio, por nome Cristossalva, sofre de insônia
e tem pavor do cachorro. O cachorro, no entanto, parece ser o único
membro feliz da família. Chama-se Caim, come capim e brinca com as
borboletas, depois que estraçalhou o papagaio.
De
vez em quando, na monotonia da tarde, solitário e tantã, Caim relincha
para os pardais esquizofrênicos que ainda sobrevoam o bairro de Santa
Tereza. E, por conseguinte, sus psi,
todos os pardais esquizofrênicos que ainda sobrevoam a cidade de Belo
Horizonte.