Sobre a obra de Affonso Romano de Sant'Anna

                                                                                                

 

 

  

LINHAGENS POÉTICAS

                             Wilson Martins* 

       Iniciada por Gonçalves Dias, a dinastia real da poesia brasileira continuou com Castro Alves, Olavo Bilac, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, cada um deles marcando o respectivo período com o selo pessoal do seu temperamento na sucessão das “escolas” que representaram, mas todos relacionados pelo fundo comum de sensibilidades que os identifica como poetas brasileiros.Gregório de Matos e Tomás Antônio Gonzaga foram posteriormente incorporados, na reconstrução histórica, como fundadores da tradição que afinal veio a se constituir numa entidade ao mesmo tempo inconfundível e variada, confirmada, de momento a momento, pela constelação de poetas que deles recebiam luz e calor. 
      De grande poeta para grande poeta, a continuidade não só parecia, mas era, de fato, evidente, de forma que, em teoria, alguém  deveria “ suceder” a Carlos Drummond de Andrade, assim como ele” sucedeu” a Bandeira, e Bandeira  a Bilac, e Bilac a Castro Alves, e Castro Alves a Gonçalves Dias. Houve, contudo, e por inesperado, a ruptura provocada por João Cabral de Melo Neto, que se reconhecia estranho e inassimilável à essa tradição: “A  poesia brasileira é uma poesia essencialmente lírica, e por isso me situo na linha dos poetas marginais, porque sou profundamente antilírico”. 
      Era um cerebral no mundo poético dos emocionais, escrevendo, dizia ele, como o operário que pedra a pedra constrói uma casa.Drummond assegurou ,para além de João Cabral e ao lado dele (numa convivência sem afinidades) a tradição poética brasileira, retomada, em paralelo, duas gerações mais tarde, por Affonso Romano de Sant’Anna, que “ saltou” sobre a Geração 45 e o concretismo para restabelecer a linhagem dinástica interrompida nos anos 40 ( Textamentos, Rio, Rocco: 1999). Seus mestres, diria num poema irônico e sentimental, eram Mário, Bandeira,Drummond, Murilo, Cecília, Jorge e Vinícius – galeria de retratos de que João Cabral está conspicuamente ausente. 
      Como acontece com os da mesma família espiritual, observei a propósito de A poesia possível (1987), “os sucessores não são epígonos dos anteriores, mas, ao contrário, acrescentam-lhes alguma coisa, expandem o campo de visão, enriquecem a herança, alargam os horizontes mentais, afirmam, em uma palavra, a própria personalidade sem desligar-se  de sua posição relativa  na série de uma tradição criadora:” Assim, Affonso Romano de Sant’Anna está além de Carlos Drummond de Andrade, “não por meio de marcos materialmente cronológicos, nem em termos de qualidade, pois, o raciocínio só tem  sentido se admitirmos que, quanto a este último requisito, todos se equivalem e situam-se lado a lado no mesmo plano ou no mesmo nível estético”. 
      Com Affonso Romano de Sant’Anna, recoloca-se a poesia brasileira na grande criação intelectual, fruto da cultura literária, vivência pessoal, integração profunda  no fluxo da civilização. O valor catalítico dessa poesia, como de toda grande poesia, é o Tempo, com maiúscula, ou seja, a percepção contraditória da permanência e da efemeridade, o sentimento de urgência que a domina, a temática da Morte ( que é o outro nome do Tempo), cada vez mais insistente, cada vez mais real. 
      Assim, num dos mais belos poemas da língua (“O Pai”), a evocação familiar é também uma grave meditação sobre o passado irrecuperável, para sempre proustianamente perdido, e sobre o remorso de termos deixado escapar a vida quando a vivíamos.Mas, é também a integração no Universo, metaforicamente representado pelas catedrais seculares, civilizações  extintas, línguas mortas, antecipação  do futuro, pelo “ silêncio eterno dos espaços infinitos": em face das misérias corriqueiras do cotidiano, o Pai leva-o à contemplação dos astros,”Júpiter, a enorme estrela”- “peixes, ursas maiores e menores/ tudo a brilhar em mim/ estrelas que com ele eu distinguia/ e desde aquela noite/ nunca mais pude encontrar.” 
      Os camonianos desencontros do mundo conduzem também à ironia e ao sarcasmo vingativo, como na espécie de paráfrase do conto em que Machado de Assis resumiu a história da humanidade:” No primeiro dia/ o Demônio criou o universo e tudo o que nele há/ e viu que era bom” colocando implacáveis marcos quilométricos no trajeto do poeta:”Sou um homem de 47 anos / andando na 5a. avenida de Nova York / e vivo num mundo onde todos se devoram”. 
      Há o amor, claro está, que move o sol e outras estrelas, e há o grotesco e o ridículo de tudo, ou quase tudo, em particular na vida literária- a vida literária que, por inércia mental, ainda não reconheceu em Affonso Romano de Sant’Anna o poeta dos poetas em nossa literatura contemporânea.

Gazeta do Povo, Curitiba – 17/01/2000 
O Globo, Rio de Janeiro – 22/01/2000

 

     * Wilson Martins é  crítico literário  dos mais importantes na cena intelectual brasileira , com trabalhos publicados  nos maiores jornais do país.

 




 

VERSÃO EM ESPANHOL  

         La dinastia real de la poesia brasileña que comenzó con Gonçalves Dias, continuó con Castro Alves, Olavo Bilac, Manuel Bandeira y Carlos Drummond de Andrade , cada uno de ellos marcó el respectivo período con el sello personal de su temperam ento en la sucesión de las escuelas que representó, pero todos se relacionan por el fondo común de sensibilidades que los  identifica como poetas brasileños.Posteriormente fueron incorporados Gregorio de Matos y Tomás Antonio Gonzaga (en un  a reconstrucción historica} como fundadores de la tradiciõn que acabó  por constituirse como una entidad . Al mismo tiempo inconfundible y variada, confirmada constantemente  por la constelación de poetas que de ellos recebian luz y calor.
      De un gran poeta a otro, la continuidad no solo parecia sino era evidente, de modo tal que, en teoria, alguien debia suceder a Carlos Drummond de Andrade, así como él sucedió a Bandeira, Bandeira a Bilac, Bilac a Castro Alves, y Castro Alves a Gonçalves Dias. Hubo, sin embargo, e inesperadamente, una ruptura provocada por João Cabral  de Melo Neto, que se reconocia ajeno e inasimilable a esa tradición: La Poesia brasileña es una poesia esencialmente lírica y por eso me ubico en la línia de los poetas marginales, porque soy profundamente antilírico.
      Era un cerebral en el mundo poético de los emocionales escribiendo, como él decia, com o un obrero que construye una casa piedra por piedra. Drummond aseguró, más allá de João Cabral  y a su lado (en una convivencia sin afinidades) la tradición poética brasileña retomada dos generaciones más tarde por Affonso Romano de Sant׳Anna que saltó sobre la generación del 45 y el concretismo para restablecer el linaje dinástico interrumpido en los años 40 (Textamentos, Rio, Rocco; 1999) .Sus maestros, diría en un poema irónico y sentimental, eran Mario, Bandeira, Drummond, Cecilia, Jorge y Vinicius – galeria de retratos en que Cabral está llamativamente ausente.
     Como sucede con los de la misma familia espiritual, observó a propósito de Poesía Posible (1987); los sucesores no son epigonos de los anteriores sino, al contrario, les agregan algo, expanden el campo de visión, multiplican la herencia, ensanchan horizontes mentales. En una palabra: afirman la propria personalidad sin apatarse de la posición relativa en la serie de una tradición creadora. De esta forma, Affonso Romano de Sant'Anna está más allá de Carlos Drummond de Andrade, no por el encuadre cronológico ni en lo que respecta a la calidad, pues el razonamiento sólo tiene sentido si se admite que, en lo que a ésta se refiere, todo se equiparan y se situán lado a lado en el mismo plano o en el mismo nivel estético.
    Con  Affonso Romano de Sant'Anna, la Poesía brasileña se reinstala en la gran creación intelectual, fruto de la cultura literaria, vivencia personal, integración profunda en el flujo de la civilización. El valor catalítico de esa Poesía, como el de toda gran Poesía, es el Tiempo con mayúscula, o sea, la percepción contradictoria de la permanencia y la caducidad, el sentimiento de urgencia que la domina, la temática de la Muerte (que es el otro nombre del tiempo), cada vez más insistente, cada vez más real. 
     Así, en uno de los más bellos poemas de la lengua ( El Padre), la evocación familiar és también una grave meditación sobre el pasado irrecuperable, para siempre y proustianamente perdido, sobre el remordimiento de haber dejado escapar la vida cuando vivíamos. Pero es también la integración en el Universo, metafóricamente representado por las catedrales seculares, civilizaciones extinguidas, lenguas muertas, anticipación del futuro, por el silencio eterno de los espacios infinitos frente a las miserias prosaicas del mundo cotidiano. El Padre lo lleva a la contemplación de los astros,  "Jupiter, la enorme estrella peces, osas mayores y menores / todo brillando en mi/ estrellas que con él yo disinguía/ y desde aquella noche nunca más pude encontrar ".
      Los camonianos desencantos del mundo conducen también a la ironía y al sarcasmo vengativo, como en la especie de paráfrasis del cuento en que Machado de assis resumió la historia de la humanidad: " En el primer día / el demonio recorrió el universo y todo lo que en él hay / y vio que era bueno" colocando implacables marcos kilométricos en el trayecto del poeta :" soy un hombre de 47 años / caminando en la 5ta. Avenida de Nueva York / y vivo en un mundo en donde todos se devoran".
     Está también el amor, claro, que mueve el sol y otras estrellas, y estan lo grotesco y lo ridículo de todo , o casi todo, particularmente en la vida literaria, la vida literaria que por inercia mental no ha reconocido aún en Affonso Romano de Sant'Anna al poeta de los poetas en la literatura contemporânea.

                                                                                                     Wilson Martins
                                                              ( Gazeta do Povo, Curitiba, 17 – Jan – 2000 )
                                                               ( O  GLOBO, Rio 22 – Jan – 2000 )

 

 






        TEXTAMENTOS, O LIVRO DOS VIVOS 

                                                                         João Domingues Maia* 
 

      Os antigos egípcios depositavam nos sarcófagos um Livro dos mortos, contendo fórmulas mágicas, hinos e orações para guiar e proteger a alma (Ka) durante a sua viagem à região dos mortos (Amenti). Affonso Romano de Sant’Anna, ao contrário, publica um guia (ou textamento) para os vivos, ainda que tenha a morte como um dos principais pólos das suas dicotomias. A perspectiva da morte, torna o poeta mais contemplativo, reflexivo e retrospectivo e o tempo dá-lhe um olhar menos ansioso para cada acontecimento e uma visão mais sincera e franca da vida. 
      Muitos são os poetas que costumam pôr no papel uma espécie de preparação para a morte, como Manuel Bandeira. Outros lidam com o ocaso transbordando paixões, liberando o amor belamente despudorado, num hino à vida, como Carlos Drummond de Andrade. Affonso Romano de Sant’Anna coloca-se no meio termo, entre Eros e Tanatos: “Amadureço na morte alheia a minha morte // buscando flores e perfumes no que enterrei. 
      Neste sentido, o poema “Meu cão” é emblemático, símbolo e síntese do livro: Meu cão ouve comigo / o adágio da 6a. Sinfonia de Beethoven. / Gosta de música meu cão. // Deitado no tapete / ele respira o ritmo sonoro da orquestra / apascenta-se e chega a dormir ao som dos violinos. // O adágio continua. / Agora / foi uma borboleta que veio ouvir Beethoven / pousando na vidraça. // O cão, a borboleta e eu, / enquanto ao longe, na montanha, uma nuvem / se desfaz / com a imponderável melodia. Nele estão as referências recorrentes em Textamentos: o adágio, o cão e a borboleta. Se na juventude predomina o “allegro”, o“adagio”, segundo movimento da sonata, é lento e, por isso mesmo, o mais lírico, sugerindo e provocando a contemplação e o encantamento: “Toda vez que soa esse adágio do concerto para oboé de Mozart / paro tudo / ponho os pés sobre a mesa, como agora, / olho a lagoa em frente, cruzo os braços / e começo a levitar" (Música nas cinzas). É este o fundo musical do livro e um dos legados deixados nos Textamentos , o de como contemplar e incorporar à existência outros legados, sobretudo os descritos no Intermezzo italiano, parte da obra em que o poeta capta a poesia que nos espreita / pela fresta dos dias, ao nos guiar em visitas a museus, monumentos e ruínas. 
      Nestes caminhos, o cão, personagem de oito poemas, apresenta-se na sua primeira função mítica, a de psicopompo, isto é, guia do homem na noite da morte, após ter sido seu companheiro no dia da vida: “É já  ia envelhecendo / quando aprendi a me comunicar com os cães, escreve no poema que dá título ao livro. Em harmonia com o adágio, o cão do poeta também está “adagiato”, isto é  acomodado, recostado  como dizem os italianos. Este  adagiamento , ato de pousar, de reclinar-se, de colocar-se em posição cômoda para ficar à vontade (s’adagio sul canape) identifica o poeta e o cão: “Já urinei em várias partes do mundo: // nas ruínas gregas do palácio de Agamenon, / na  ilha Comacima lá em Como, // em Machu Pichu./ Urinava como um cão / marcando o território. // as vezes, não urinava, escrevia. / Escrevia, não em árvores e pedras / como ostensivo turista. / Escrevia / como um cão / marcando na história alheia /    meu imponderável território.  (Cão poeta ). Marcando territórios, Affonso, como todo poeta, busca deixar a sua marca entre os vivos, a certeza da imortalidade, como aquela dos construtores das pirâmides, edifícios, catedrais, cúpulas e piazzas dos seus poemas, um cão guiando o caminho dos vivos, um poeta-cão guiando o caminho dos vivos. E, como o amor é o elemento mais importante da vida, ou a própria vida, voa nas páginas dos Textamentos a borboleta, (também disfarçada de mariposa), um emblema da mulher em algumas culturas, como a japonesa, com a qual o poeta dança um balé erótico, um “pas -de- deux” ao som de adágios. Essa identificação fica clara em “Lindinha”, onde o poeta descreve-a como uma mulher, Cinderela, noiva, rainha. Mas a borboleta é  sobretudo aspecto simbólico da metamorfose e da ressurreição: a crisálida é o ovo que contém a potencialidade do ser, a saída do casulo é a saída do túmulo, e, na Antigüidade greco-romana, a própria alma deixa o corpo dos mortos em forma de borboleta. Essa idéia de que se pode envelhecer renascendo eroticamente, mantendo o equilíbrio entre a vida e a morte está belissimamente estampada nos versos :"Estou vivendo a glória de meu sexo / a dois passos do crepúsculo. // Deus na se escandaliza com isto. // O júbilo maduro da carne / me enternece. / Envelheço sim. E / (ocultamente) / resplandeço. 
     Tendo nascido porque o seu destino burlou a morte prematura (“Minha mãe  teve dúvidas / se eu deveria nascer ou não. / Pensou em me abortar." ), o poeta resplandece, sendo interessante observar que o penúltimo verso citado vem escrito entre parênteses – “– (ocultamente) – ”   como a simbolizar o casulo da borboleta, do qual os poetas constantemente renascem esplendorosamente, como o Affonso deste livro candidato a muitos prêmios literários. 

 


 

   *João Domingues Maia é Doutor em Letras. Poeta, publicou Mesa Posta, O caderno turquesa e A mulher escrita. É autor de vários  livros didáticos. 

 



 

  





 

                 A GRANDE POESIA

                                                               Renato Sampaio*

       Ao terminar a leitura do último livro de Affonso Romano de Sant’Anna, “Textamentos”(Editora Rocco, 174 páginas),  guardei comigo uma dúvida que, por insolúvel, e agradável, haverá de permanecer como uma dessas que melhor mesmo será não ter como solucioná-la: terá sido este o último grande livro de poesia do século XX ou o primeiro que, entre nós, inaugura o século XXI que mal acaba de chegar?
      
Borges, não é novidade, gostava de dizer, citando Emerson, que as bibliotecas são laboratórios mágicos que abrigam muitos espíritos encantados. Na minha, pequena mas essencial, os livros de Affonso, sem exceção, há muito ocupam  o lugar que é deles. Foi em “Canto e Palavra” de 1965- ao tempo em que o poeta estudava em Belo Horizonte -, que muitos de minha geração  sentiram-se impactados diante do primeiro  e grande marco que anunciava o tom de   sua obra inaugural: “ No principio era o verde/ e uma amplidão de esperas/no desejo secular de ser-se vida./Era o verde só/ e a cruz lá em cima/ até que o verde se vincou na cruz da terra/ e  os raros pássaros nos galhos se indagaram/ se já seria hora do cantar e da alvorada”.
     
Nos anos seguintes, apaziguado, ao que parece, em sua lírica, pôde o poeta dedicar-se com profundidade a um texto de análise literária , surpreendendo os seus leitores , em 1972, por  ocasião do centenário  do Modernismo, com um estudo pioneiro sobre a obra de uma das mais altas vozes da poesia desse século:Carlos Drummond de Andrade. “Drummond: o gauche no tempo” era o título de tal livro. Na etapa seguinte, “Canto e Palavra” daria lugar a “ Poesia sobre Poesia”, congregando este último poemas então recentes e outros que provinham da fase que o poeta viveu nos Estados Unidos. Isso lá pelos idos de uma  época em que a militância e o protesto dos não-delicados contrapunham-se  ao jogo de vida e morte imposto em nosso meio por aqueles que haviam tomado conta do poder. (Quase três décadas depois não há como esquecer o impacto que àquela  altura nos causava a leitura do estribilho de textos como o do “Poema para Medgar Evers”, líder negro dos EUA assassinado à bala quando entrava em sua casa:...”Sound /Our/ Soul- bell. /Em algum ponto do mundo é noite / e um homem negro tomba morto. Ku/Klux/Klan-Alabama. Ku/Klux/Klan- Aleluia”.
     
  E Affonso Romano de Sant’Anna, desde então, tem sido o poeta em quem aos cantares do corpo e da palavra, da vida e da morte, das vigílias e do amor- do próprio  tempo, enfim, que é a matéria  de que são feitos os sonhos; para relembrar José Paulo Paes- a tais cantares, pois, nos quais tem sido ele mestre admirável, soma-se em sua obra aquele  outro  determinado pela condição que   orienta a conduta, dos seres que sabem em si: a política.Política, sim, pois que  para o homem de cultura, o ato de pensar e de escrever encerra a essência de cada uma e de todas as ações que lhe dizem respeito ou não: instrumento de denúncia, de diálogo e de compreensão, a palavra, em tal acepção, transposta à categoria superior de obra de arte, transmuda-se, por assim dizer, em sentinela a serviço dos homens, guarda de suas causas,  luz, enfim, de suas luzes.
     
Como deixar de rememorar em Affonso Romano de Sant’Anna o intróito de uma das maiores mentiras que aqueles do Riocentro quiseram um dia nos pregar?: “Mentiram-me. Mentiram-me ontem/. e hoje mentem novamente./ Mentem de corpo e alma, completamente./E mentem de maneira tão pungente/ que acho que mentem sinceramente”.
     
No entanto, a par da presença tantas vezes visível desse   homo bellicus   em sua obra, outros cosmos, que nunca deixaram de visitá-lo, cuidariam de revigorar com assiduidade a sua lírica, assegurando-lhe a mais ampla e  abrangente diversificação. Em 1978, por exemplo, surge “ A Grande Fala do Índio Guarani”:, acompanhada, dois anos depois, por “ Que país é este?”, o qual, por sua vez, precede “A Morte da Baleia”, de 1981. Tais livros, por si só, seja pela sua configuração estético-formal, pelo seu próprio conteúdo ou até mesmo pela extensão incomum de alguns de seus poemas, bastariam a um só grande poeta. Surpreendentemente, no entanto, em 1985, com a mestria que os anos só fizeram aprimorar- e após publicar em um mesmo volume um conjunto de crônicas e de poemas que receberam o tiutlo de “Política e Paixão”-, o poeta, superando-se a si mesmo, contemplaria seus  leitores com uma  verdadeira obra-prima cujo fôlego e vitalidade preenchem, para os que  a souberam ler, boa parte da última quadra do século anterior:”A Catedral de Colônia”. 
  
   Agregando-se aos seus não poucos volumes de crônicas, de ensaios e de estudos de literatura em geral,- com destaque , por menos divulgado, para um trabalho exemplar sobre a pintura de Emeric Marcier-, em 1992 Affonso publicaria finalmente “O Lado Esquerdo do Meu Peito”, que ganhou o subtítulo de “Aprendizagens”.Aprendizagens, claro está só que soerguidas e cimentadas de modo tal que, a cada leitura, aprendizes ou não, nelas não há um só traço a acrescentar ou reduzir.

      
Tais os livros, tal a sua sucessão: a grande poesia, a que neles se contém. Livros que viriam lhe assegurar a condição de poeta maior proclamada, entre outros, por críticos da importância de Wilson  Martins, cuja obra monumental há muito o credencia como uma das vozes mais prestigiosas da crítica brasileira do século XX.(condição esta, a de poeta maior, consolidando-se livro a livro para ocupar o lugar que é o dele nesses tempos de tão alta fecundidade para a poesia brasileira. Tempo, por assim dizer, que ab range  todo um fim-início de milênio marcado pelas despedidas de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto, mas que também assistiram, não poucas vezes, ao desencadear de vozes do porte de Gerardo Mello Mourão(“Invenção do mar”), Bruno Tolentino (“As Horas de Katharina”) e Ferreira Gullar( “Poema Sujo”).
       Foi, pois, em dezembro, esse dezembro que encerrou uma década, o próprio século e, como querem alguns, até mesmo o milênio, que Affonso Romano de Sant’Anna publicou os seus “Textamentos”. Livro que honra o idioma em que foi escrito, nele mais e mais a sua poesia se apura, se adensa e se projeta para alçar-se ao plano superior que é o destino dos que têm encontro marcado com a perenidade. Livro, percebe-se fácil, em que a maturidade, chegada a hora, se proclama e se revela sem deslizes.
      
Livro em que o tema da morte, ainda que desenvolvido algumas vezes em publicações anteriores, insiste em ganhar relevo, em reproduzir-se, em anunciar-se:”Estou jogando água nas plantas/ com o olhar no azul do mar/ e minha vizinha está morta./Sozinho em casa, improviso um almoço/ e a morta vizinha já não come./Comprei jornais/ que a morta vizinha já não lê./A morta vizinha/ a morte vizinha/ a minha morte que se avizinha”.
      
  Livro, mesmo assim, em que a idéia do amor, irradiante, e por contrária à própria morte, alcança o mais das  vezes a plenitude dos instantes que se querem eternos: “ Diz um crítico/ que desde o tem po de Alexandre Pope/ as ninfas partiram/ sem deixar endereço./Se assim é/ como explicar que junto àquela fonte/ por trás daquele ramo, ao meu encontro/ vem sorrindo a mulher que amo?”
      
Livro, para finalizar, marcado também por um certo figurativismo poético oriundo de viagens e impressões que os olhos do poeta, ao modo deles, souberam captar  para transmudá-los, no tempo certo, em sentimentos, percepções ou simples miragens, por assim dizer: aquelas miragens, que, por únicas e indecifráveis,fazem de cada  viajante o viajeiro do seu próprio ser.

                                                                       (Estado de Minas-5.2.2000)

 

 

Renato Sampaio é escritor e economista, autor de “Inimá:Uma biografia”. In “Estado de Minas” suplemento “Pensar”,5.2.2000, Belo Horizonte.

 

 

 

 

              

 

 

 

              POESIA DA MATURIDADE

                               Miguel Sanches Neto

 Nova coletânea poética de Affonso Romano de Sant'Anna coloca a lírica brasileira dentro de uma tradição de universalidade.

       A percepção que um escritor jovem tem do espaço é totalmente diferente da que tem o artista maduro. O jovem vive um presente impermeável, cabendo-lhe apenas o olhar sobre as coisas imediatas, que se lhes afiguram sempre como uma superfície chapada.  Há uma energia que os impulsiona para frente, na cavalgada célere dos que buscam com urgência aquilo que lhes está reservado nos longes do horizonte. Assim, o espaço torna-se portador de uma natureza inaugural, pois eles reencenam o princípio, o gênese. Tudo começa neles, nasce num agora que abole o antes, sendo o mundo conjugado no presente. Sem amarras, movimentam-se na urgência de seus sonhos de conquistas. Vêm-se sempre como únicos, mesmo quando repetem velhos papéis.
      Para o artista maduro, o espaço é repleto de frestas, de rachaduras, de poros, por entre os quais ele se deixa escorrer, não na trajetória retilínea dos adolescentes, mas ao ritmo dos recuos próprios de quem vive a experiência do crepúsculo. O espaço, para esta categoria, se encontra atravessado pelo tempo, tendo sido a ação deste a responsável pelas fissuras.
      Se em livros de poemas anteriores Affonso Romano de Sant`Anna vivia na fronteira destas duas formas de percepção do espaço,
produzindo uma poesia da paixão, exercitada nos domínios urgentes do presente e, portanto, afeita às utopias, tantos as sociais quantos as amorosas, em Textamentos (Rocco, 1999) ele cruzou o limite rumo a esta espacialidade porosa, propensa ao retorno. Do ponto de vista da subjetividade, rehabitar o passado é uma forma de se proteger contra o abismo incontornável . Este estágio é superado quando entendemos que tal retorno opera um religamento (no sentido religioso do termo) com as gerações anteriores, com os quais a juventude rompera.
     
Nestes trabalhos de maturidade, Affonso Romano de Sant`Anna revela-se numa forma mais serena, aproximando-se de um lirismo memorialístico ricamente encorpado com o material caudaloso dos dias vividos.  
     
O trocadilho do título sugere que o seu legado será composto pelos textos, isto é, pela memória vertida para um veículo que aspira à permanência. Daí o livro abrir com a imagem de uma estatueta, datada de 2.375 A.C., que representa um escriba sentado, mote do poema "O escriba Duker Dirite", com o qual o poeta tropical se identifica mediante a imemorial e anônima arte da escrita:

 Nem sequer sei o que escrevia
mas seu gesto me é tão familiar 
que por sua mão há  4.399 anos escrevo
um texto que não vai nunca terminar.
(p.141)

     A atual coletânea dá  a ver um poeta que se pensa na confluência milenar de um ofício, o que faz com que, ao falar das diferenças entre ele e um seu amigo ("O pós-amigo"), que se quer pós-moderno, Affonso se defina como pré-antigo.
     Dividido em duas partes, o volume guarda uma coerência estrutural. O primeiro conjunto pode ser lido como uma espécie de celebração
biográfica da tarde: "A tarde tem sortilégios. / Estou maduro para ela"(p.43), na qual o poeta se entrega a um contido pensar sobre a morte. Não há desespero nem melancolia, porque, como fica dito em "Velhice erótica", o crepúsculo é ainda um momento de esplendor:

 Envelheço, sim. E
(ocultamente)
resplandeço
. (p.20)

    Dissecando o tempo presente, repleto de mortes, o poeta luta para fazer durar o passado, e assim manter vivos aqueles que se foram.
    A maturidade, portanto, é um estado alcançado quando no tornamos sensíveis para as perdas e assumimos, diante delas, uma função restauradora: aos poucos, com o alongar dos anos, tornamo-nos responsáveis pelos que ficaram para trás. O passado vira uma pátria e o eu passa a ser visto como legião, arquivo vivo de uma história:

 No meu corpo está presente
tudo que me trespassou.
(p.33)

     Se para Affonso Romano a vida é um ritual de sepultamento ("Todo dia há alguma coisa para enterrar", 40) É certo também que ao poeta cabe um papel de conservação, que o leva a habitar no presente camadas perdidas tempo.
    
Se nesta primeira parte o convívio com a morte aparece como uma forma de salvamento dos que morreram, sendo a maturidade uma responsabilidade para com a nossa história particular, na segunda, o autor expande esta vivência de experiências alheias, produzindo uma poesia que se abre para locais e períodos distantes da história. Há uma passagem do poeta do eu (um eu, como vimos, que figura como legião) para o poeta da civilização. Em "Intermezzo italiano", ele percorre espaços carregados de historicidade, buscando arqueologicamente os legados da humanidade. Se no primeiro momento preponderava o espaço da sensibilidade pessoal, no segundo o que sobressaía é o espaço da cultura. Affonso Romano procura coabitar, em outra espacialidade, um tempo que está além do seu. Assim, o movimento de êer, experimentado na própria pele, gera um alargamento de perspectivas, que lhe permite operar uma poesia cívica, mais de um civismo supranacional, cujo objeto é o homem no tempo.
     Entendida desta forma, a coletânea Textamentos  é muito mais do que a obra em que o autor torna públicas algumas palavras íntimas
(ensinamento do primeiro poema do livro), mas um verdadeiro canto contra as visões ditatoriais de um presente concebido como caminho reto para o progresso. O alvo não é uma idéia de futuro e sim as formas de experiência temporal. … preciso, no entanto, não confundir este posicionamento como exílio no passado, isto seria abominável por pressupor uma recusa do presente. O que se esboça neste estágio da poética de Affonso Romano é uma vivência responsável do presente, sem recusar nenhum dos pólos antagônicos das coisas:

Estou maduro, pois tenho essas coisas banais:
o não e o sim,
o claro e o escuro,
a origem e o fim.
(p.158)

      Longe de ser uma poesia da intransigência, a sua prima pela aceitação do outro, incorporando tempos e espaços, histórias de vidas e olhares. Tudo isso num estilo límpido e sem afetação, numa língua traduzível universalmente e, portanto, voltada para compreensão  , num gesto de respeito ao outro, de aceitação dele.
    Recusando-se à idéia do poeta como um ser único, com um estilo impenetrável porque rigorosamente pessoal, Affonso Romano concebe-se como elo de uma grande cadeia, cuja qualidade está em um verbo sensível às questões humanas e não no culto cego de um estilo ou de uma forma, que no fundo é o culto de um ego inflado.
    
Em "Golpe literário", há o estabelecimento de um paralelo entre os valores poéticos do concretismo (a nossa eterna vanguarda) e a ditadura militar típica dos trópicos. Contra esta centralização de poder, seja na figura de alguns poetas seja num conceito horizontal de tempo (sempre avante!), Affonso faz a apologia da temporalidade vertical e de um estilo que não chama atenção sobre si - um estilo cortado pelo figurino da compreensibilidade. 
                                       ( Gazeta de Curitiba, 27 de Dezembro de 1999 )

 


 

 

Miguel Sanches Neto é escritor, jornalista e correspondente de PALAVRARTE no Paraná. Lançou recentemente o romance Chove sobre minha infância, na 46ª Feira do Livro de Porto Alegre.