Poemas de Artur Gomes

 

       

 

                                                                                         

Sobre


Poema par um olhar Dali

dentro do arame farpado
este poema deve ter entrado
para nunca mais sair
não vale o papel que o detêm

 

 

 

 

Couro Cru & Carne Viva

Terra de santa cruz, ao batizarem-te deram-te o nome
posto que a tua profissão é abrir-te em camas
dar-te em ferro ouro prata rios minas mata
deixar que os abutres devorem-te na carne
o derradeiro verme

salve-lindo pendão que balança
entre as pernas abertas da paz
tua nobre sifilítica herança dos rendevouz
de impérios atrás

meu coração é tão hipócrita que não janta
e mais imbecil que ainda canta:
ouviram no Ipiranga às margens plácidas
uma bandeira arriada 
num país que não levanta.

fosse o brazil mulher das amazonas
caminhasse passo a passo disputasse mano a mano
guardasse a fauna e a flora da fome dos tropicanos
ouvisse o lamentos dos peixes jandaias araras e tucanos
não estaríamos assim condicionados
aos restos do sub-humano

só desfraldando a bandeira tropicalha
é que a gente avacalha com as chaves dos mistérios
desta terra tão serviu: tirania sacanagem safadeza
tudo rima uma beleza com a pátria mãe que nos pariu

bem no centro do universo te mando um beijo ó amada
enquanto arranco uma espada do meu peito varonil
espanto todas as estrelas dos berços do eternamente
pra que acorde toda esta gente deste vasto céu de anil
pois enquanto dorme o gigante esplêndido sono profundo
não vê que do outro mundo robôs te enrrabam ó mãe gentil

o poeta estraçalha a bandeira raia o sol marginal Quinta feira
na geléia geral brazileira o céu de abril não é de anil
nem general é my brazil
minha ver/amarela esperança portugal já vendeu para a frança
é o coração latino balança
entre o mar de dólar do norte e o chão dos cruzeiros do sul

o poeta esfrangalha a bandeira
raia o sol marginal Sexta feira
nesta zorra estrangeira e azul
que a muito índio dizia:

meu coração marçal tupã sangra tupi & rock in roll
meu sangue tupiniquim em corpo tupinambá

samba jongo maculelê maracatu boi bumbá

a veia de curumim é coca cola e guaraná

o sonho rola no parque o sangue ralo no tanque
nada a ver com tipo dark muito menos com punk
meu vício letal é baiafro com ódio mortal de yank

ó baby a coisa por aqui não mudou nada
embora sejam outras siglas no emblema 
espada continua a ser espada poema continua a ser poema
 

   

 

 

 

PÁTRIA(R)MADA

só me queira assim caçado 
mestiço vadio latino
leão feroz cão danado 
perturbando o seu destino

e só me queira encapetado 
profanando àqueles hinos
malandro, moleque, safado 
depravando os seus meninos

só me queira enfeitiçado 
 veloz, macio, felino
em pêlo nu depravado 
em sua cama sol a pino

e só me queira desalmado 
cão algoz e assassino
duplamente descarado 

quando escrevo e não assino

 

 

       

         

 

        antLírica

eu não sou zen
muito menos zhô
nem tão pouco
zapa
nem ando na contra capa
do teu disquinho
digital
não alinho pela esquerda
nem à direita do fonema
vôo no centro/viagem
olho rasante/miragem
veia pulsante/poema

 

 

 

Lady Gumes African's Baby

meto meus dedos cínicos
no teu corpo em fossa
proclamando o que ainda possa
vir a ser surpresa
porque amor não tem essa
de cumer na mesa

é caçador e caça
mastigando na floresta
todo tesão que resta
desta pátria indefesa

ponho meus dedos cínicos
sobre tuas costas
vou lambendo bostas
destas botas NeoBurguesas

porque meu amor não tem essa
de vir a ser surpresa
é língua suja grossa
        visceral ilesa
pra lamber tudo que possa
           vomitar na mesa
e me livrar da míngua
dessa língua portuguesa.

 

 



sousAndrática   

leve
ave pena
leve
arara amazônica
breve sobrevoa
rara lâmpada
límpida

azul de zinco
impávida  oceânica
cérebro vivo

ofusca
a serra
 wall street
cega
bela city desumana

anti passarada
morte
que me roa
ave pena
leve
sousândrade  

 

 

 

      


      SampleAndo  

 o poema pode ser um beijo em tua boca
carne de maçã em maio
um tiro oculto sob o céu aberto
estrelas de neon em vênus
 refletindo pregos no meu peito em cruz
 

na paulista consolação da na água branca barra funda
metal de prata desta lua que me inunda
num beijo sujo como a estação da luz 

nos vídeosfilmes de TV eu quero um clip
em tuas coxas japa 
uma cilada nos teus seios quentes
como uma flecha em tuas costas índia
 ninja, gueixa eu quero a rota teu país ou mapa
teu território devastar inteiro 
como uma vela ao mar de fevereiro
molhar teu cio e me esquecer na lapa

 

 

 

      

 

    Arte


transparências no papel                   a seda            grafismo em  carne minha  cor  nos dedos
recortes visuais no olho
vazados como um cão em marte 

fissura de espada em riste
aponto minha língua em cortes
a flama do meu sangue em chamas
imagens regrafando imagens 

a sombra do objeto em prismas
o dedo no gatilho oculto
atiro contra o tédio infame
pedaços do meu corpo em prumo 

poemas refazendo em transe
retalhos de um tecido em partes
seguindo por segundo a trilha
na etérea construção da     arte  

 

 

                    


veredas pois...
 

o vácuo                      na palavra
espaço   entre o tempo  e  o oco
do tempo                       as letras
uma a uma     não dizendo nada
poema            inconcluso
onde uso             a cardioGrafia
das pedras            como espelho
                                     
d’água 

as paredes             das palavras
as muralhas           dos poemas
as cordilheiras       das letras 

a criação das coisas
a que damos nome 

anna katarina do itanhandu 

a pele de sol na carne da lua
o sangue das estátuas
a escritura das veias 

junto a isso leio os passos
da noite e as curvas do trem
na estação  

da  janela  a montanha nos olhos
contraste entre o solar e os edifícios
escuto teu silêncio incauto
e ladro como um cão vencido 

a lua me persegue em signos
na boca de um dragão noturno
a coisa que percebo é vasta
letreiros urbanizando íntimos
a pedra do meu sonho é gêmea 

irmã dos teus segredos ínfimos 

 

 

 

       

 

       PunçãoPoÉtica

                  INs Piração
onde se cata
lixo intacto 
 remoVendo escombros 
de letras por letras corroendo
o vírus letal da veia
                                clara da gema
              como  prova
lamparina não  clareia
a palavra NÃO poema
               
Ovo
Ova

 

       



    Foto

    caranguejos explodem

mangues em pólvora
Ovo de Colombo quebrado
areia branca inferno livre
Rimbaud áfrica virgem
carne na cruz dos escombros
trapos balançam varais
telhados bóiam nas ondas
tijolos afundando náufragos
último suspiro da bomba
na boca incerta da barra
esgoto fétido do mundo
grafando lentes na marra
imagens daqui saqueadas
jerusalém pagã visitada
atafona.pontal.grussaí

:
as crianças são testemunhas
jesus cristo não passou por aqui
 

 

 

 



 

Terra

Tecidos sobre a pele:  

terra: antes que alguém morra 
escrevo prevendo a morte arriscando a vida 
antes que seja tarde e que a língua  da minha boca
não cubra mais tua ferida 

entre/aberto em teus ofícios 
é que  meu peito de poeta sangra ao corte das navalhas
 minha veia mais aberta é mais um rio que se espalha
amada de muitos sonhos e pouco sexo
 deposito a minha língua no teu cio 
e uma semente fértil nos teus seios como um rio 

o que me dói é ter-te devorada por estranhos olhos
e  deter impulsos por fidelidade 

ó terra incestuosa de prazer e gestos
não me prendo ao laço dos teus comandantes 
só me enterro a fundo nos teus vagabundos
com um prazer de fera &  um punhal de amante. 

minha terra é de senzalas tantas
enterra em ti milhões de outras esperanças
só/terra em teus grilhões a voz que tenta avança
plantada em ti como canavial que a foice corta
mas cravado em ti me ponho à luta

mesmo sabendo o vão estreito em cada porta

 

 

    



       Pontal.foto.grafia

Aqui,
        redes em pânico
pescam esqueletos no mar
esquadras - descobrimento
espinhas de peixe
                    convento
cabrálias     esperas
                    relento
escamas secas no prato
e
um cheiro podre no
                                AR

 

 

      



        Gomes&Gumes  

 

todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes
se um corta com palavras a outra com corte mesmo
se um é produto da fala a outra do ódio a esmo 

todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes
e um amor cego nas asas brilhante de vagalumes
se em um a linguagem é sacana
na outra o corte é estrume
todo poema tem dois gomes toda faca tem dois gumes 

se em um peixe é  palavra na outra o brilho é cardume
é fio estrela na lavra mal cheiro vício costume
de um eu não digo os nomes da outra não mostro os lumes 

se em um a coisa é sagrada ofício provindo das vísceras
na outra a fé é lacrada hóstia servida nas missas
se em um é  cebola cortada aroma palavra carniça
na outra o ferro, é tempero fé cega - fome amolada

poema é  desespero

 

 




          Poema dois

 

a tarde morre
quando estou
de frente 
ao cais
 

quando estou
de frente
ao cais
a tarde não morre
a noite
faz