Poemas de Brasigóis Felício

 

 

                                               

 

       

A ÉPOCA DOS TRISTES 

“Os homem morrem
e não são felizes”
          ( Sartre )

Sem mais aquela
as pessoas
ficaram tristes
como se nunca
tivessem
sido felizes.

 Na usura de negarem
o outro em si
já não sabem
dar e receber amor.

São como frutos pecos
que secaram nos caules.
jamais conheceram
a vertigem de Ícaro
na coragem de Prometeu
ao roubar aos deuses
o fogo imortal do Ser.

Tudo porque
em seus corpos avaros
jaz, esquecida,
a memória da carícia.

 II

O tempo está sujeito
a chuvas ácidas
e um céu de chumbo
desaba sobre o mundo.

Os rios ficaram azedos
com o vômito dos bêbados:
as aves migraram
para longe
do paraíso destruído.
Já fomos
anjos um dia,
antes da Queda do Homem. 

Porque somos hoje
filhos do povo da noite,
só deciframos
a canção da Vida
se os alaúdes gemem
na destruição do mundo.

  III 

Não demora e pedirão
que abramos nossas tumbas
depois de carregar
nossos esquifes. 

Pensar que fomos um dia
da raça de Sísifo e Prometeu.
Hoje somos apenas
Raimundos perdidos no mundo
: só rima pobre, sem solução
ou soluço de esperança. 

Quem, de nós,
não foi tão louco
que matou por amor
sua Annabel Lee?
O tempo todo
o corvo crocita,
negreja e diz:
nunca mais! Nunca mais! 

Há milênios
fazemos parte
das hordas de bárbaros.
somos os nossos coveiros
nas pompas do suplício
vamos cantando litanias
de morte e destruição.
 

“Por isto louvei a alegria,
visto não haver nada
melhor para o homem”.

( Eclesiastes )

 

 

 

A FÊNIX DE CADA UM    

Renasci do incêndio
dos dias mortos
quando não senti
ódio ao vivo:
tudo o que
é humano
me era estranho. 

Senti-me vivo
pela primeira vez
na pátina dos dias 

Quando brincava
entre crianças
era leve e alegre. 

Em meio à inocência
era sereno e humilde,
como os que
perderam tudo
e os que nunca
se encontraram. 

Então senti
que tudo vibra
e tudo é UM
nas estrelas
como nos vermes,
em tudo ínfimo
como na ordem
das esferas celestes. 

Uma vez que vi
a Fênix do Ser
renascer
dos escombros de mim
nunca mais
fui infeliz
no esplendor do mundo.

 

 

 

A NUDEZ DOS FALOCRATAS  

O homem freudiano
respira mal:
tem o peito
trancado a sete chaves
de angústia, e tem na alma
muralhas de medo. 

Nas masmorras dos nervos
trancou o cerne do Ser.
o falocrata coloca o pênis
em um altar, e adora
como a um Deus
o eu vê como domínio
muito longe do prazer. 

No esforço egolátrico
de dar a entender
aos varões assinalados
que é atleta sexual,
perdeu a emoção
da autenticidade.
não sabe sentar
e conversar,
quanto mais
amar o mar. 

Só tem palavras
para vangloriar-se
de efêmeras façanhas
feito flatos
com que inflaciona
a desordem do mundo. 

II 

A quem a fala
Ficou no falo,
falácia de quem
se compraz
em ser mendaz
Mefisto-félico,
a pretexto de ser
animal político,
criatura
aristotélica
cartesianamente
correta
em só crer
no que vê: 

O mistério de quem
faz do falo
arma de fogo
é não ter
mistério algum
para mostrar
ou esconder 

Fica na fraude
de quem faz pipi
nas fraldas do Ser
em seu negar-se
a aprender
que a fonte
da juventude
é a mulher.

 

 

 

 

  A QUEDA PARA O ALTO

Se este avião caísse
eu me faria em pedaços
mas sobrariam soluços,
abraços devassos, laços
que prendem o corpo
ao triste planeta terráqueo. 

Assombraria os legistas
se corpo sobrasse
após a queda abissal:
“Mas como pode ser feliz
o que não viveu
porque não quis?”.
“Mas como pode Ter nexo
o que não soube o sexo? 

Nunca amou, ou foi amado
o corpo que jaz, dilacerado.
não soube exercer o direito
de viver e ser,
no vaso mundo. Anjo
exilado do reino,
desafinou
no coro dos contentes
mas não reclamou
ao frágil corpo
a sua cota de gozo.
E por ter sido
um rapaz bem posto,
foi bem aceito
entre os mortos vivos
na paz de cemitério
da cidade absurda.
 

II 

Em mim, que amo e desejo,
agora vibra
a antiga sede e voragem
por devassar estradas.
Vou sereno,
a caminho do “Outro”,
agora que me foi revelado
que sou o corpo
que me foi destinado.
 

Para mim mesmo
viajo, na leveza
de ser irmão do vento.
Não mais navio sem porto
no mar de gritos
dos afogados no seco.
 

Eis que fiquei pronto
para o sal do milagre
na dança tântrica do corpo
enfim sabido.
 

Roubador do fogo,
poeta e mago
liberto do medo,
navego a deriva
na chama flamejante
do esplendor do Ser.
Ave, maravilha
foi hoje que nasci!
 

III 

Eu aqui me sinto Ícaro,
não mais bêbado bugre.
Ulisses do mundo
vário do corpo,
desde sempre a navegar
sem sair do lugar.
 

Se este avião caísse
antes do baque eu veria
o milagre do Ser,
que há de vir. 

Encontraria no corpo
a sua hora de gozo,
na raiz do sufoco
vibrando em tudo
que não jaz,
morto de parto.
 

Passageiro da agonia,
bardo bêbado a bordo,
bebo conhaque,
como e fosse
cair de borco, no mundo.
 

Enquanto dormem, os demais,
instalo o pânico,
entre os tripulantes da nave
com meu olhar estrangeiro
de louco lúcido. 

Se este avião caísse
cairia com ele
um certo jeito de viver
sem amar e se entregar.

 

 

 

 

          A SOLIDÃO DO POETA

O Poeta proclama
a solidão de estar vivo
 e ter que morrer um dia.

No imenso desamparo
de estar sempre só, 
em meio à multidão,                                
em seu coração                                     
maior que o mundo
 
o poeta morre
ao mudar-se em multidão.

Vate é quem  
vaticina, canta,
dança e proclama
 
a  sinfonia da Vida.

Viaja em águas
de nirvana e poesia
a pessoa que ama. 

 O poeta chora,
 
ri, rejubila
 
e se extasia.

No muro dos nervos,
na pátina dos dias
 
escreve a sangue                                  
para que outros                                     
riam, chorem  
a alegria ou a dor                                  
que sente, ou finge.                              

Aos vivos dirige                                      
suas palavras de fogo                          
para que fiquem                                   
 
jubilosos e em                                         
êxtase, como ele fica,

quando vê e sente

 
a alegria cantante

de tudo o que vive.
 

A solidão do poeta
é ter a humanidade                            
inteira, no seu peito.                               
Sobre o berço de seu filho
                   
chora a inocência

que o novo ser perderá
- a inocência primordial  
que perdemos, ao ingressar  
na noite escura da alma  
do mundo dos adultos.

O coração do poeta
Abre as portas para tudo.

    II 

O poeta se debate no conflito              
entre o desejo e a palavra.
Renunciaria ao corpo,
ou, desesperado de esperança,
com lascívia e furor abraçaria
a memória do prazer?

 
A quem mais
 
Daria voz?
À textura essencial da pele,

ou ao texto mudo
da fala gaga e impotente?

 A quem mais amaria?
 
as velhas palavras de sempre,
 
ou a selvagem vertigem da carne?

                                                          
Nikos Kazantzakis
precisava viajar
e certa manhã
ao fazer a barba
diante de uma prostituta                                               
pústulas surgiram-lhe no rosto.            
Seriam presságios dos deuses?          
Cobrança antecipada 

Do carma e do destino?

Nikos deixou o corpo
à espera de seu corpo
e em busca de seu rosto                      
inicial, seu primeiro
rosto, dentre todos,
escalou o monte Athos.

Teria o poeta                                            
perdido, ou encontrado
o supremo esplendor,

no fulgor cantante  
de tudo vivo,
ao se despedir
das solidões do corpo?

Como o Rabi
diante da carne amorosa,
viu florescer na água
rosa murcha de Jericó,
e ao ver o sal do milagre,

enfim compreendeu:
a carne é santa,
e o amor não é pecado

Na busca aflita
da alegria
o poeta busca,
sedento de Ser, 
a fonte da juventude,
nunca encontrou 
nos círios apagados  
do passado, que não
 
iluminam
 
as esquinas do futuro.                       

 No cume do monte Athos,
 
na Solidão Essencial
 
de saber 
que tudo é nada
e nada é tudo,
na memória do corpo

um anjo bêbado
ao rosto lívido
 
do poeta revelou:
“A fonte da juventude
 é a mulher”. ( 1 )  

 À solidão do poeta
 foi revelada
a suprema compreensão:
Tudo canta!
Tudo dança!
Tudo ama!

( 1 ) Nikos Kazantzakis, em “A última tentação de Cristo”.

 

 

 

 

ALMA ATLÂNTICA   
    
      

Em algum lugar da vida                        
na moenda dos dias

erguemos muros de medo

m volta de nós mesmos. 

Em algum lugar
de noite e terror
do matadouro do dia
ao desenhar,
na lousa da infância
arabescos de não ser feliz,
inscrevi para sempre
na memória do mundo
e nas masmorras do tempo
tornei-me absurdo. 

Nunca mais
pude ouvir ou proclamar
a voz profunda
do ser antigo
e sereno,
que fui e sou
totalidade de ser
fragmentada,
perdida na escuridão
do labirinto do tempo
- o torvelinho de nervos
do vasto mundo
dos homens ignóbeis. 

A angústia de Não Ser
é estar sempre dentro
da curvatura do tempo:
na solidão das
horas e dos números
somos seres acossados
por tudo efêmero,
tudo perempto. 

A alma atlântica do mundo
só pode ser alcançada
pela raça dos malditos
roubadores do fogo.
 

Sísifo não
carrega inutilmente
a pedra do destino,
pois cria músculos
e manda cartas
ao futuro.  

 


 

BATEAU IVRE   

Náufrago de todas as tormentas,
afogado no seco
na memória da morte
da raça de Caim,
desesperado de esperar,

estive em cada porto, em cada rosto
em que despedi-me para sempre
do amor que tenho
                                 
porque o  perdi

Nunca sentei a beleza no colo,
nunca a beleza se afastou de mim.,

Cristo no Gólgota,
estive no gemido moribundo
de cada um que sucumbiu
no hospital do medo.

Em mantos de ternura,
entre os rios da ira
e tonéis de angustura
fui tão covarde
como o que a si mesmo
por medo a dia,
nunca sonhei,
como Rimbaud,
“o anjo em chamas”,
conquistar esplêndidas cidades,
à luz de luminosas auroras.

Também nunca fui Quixote
para travar combates
com moinhos de vento,
não sonhei
inventar “fraternura”,
como a que via
o mago Rosa,
artesão do Ser
e do grande sertão
das veredas sem porteira.

Em dias antigos
com meu ódio cristão
quis incendiar
o princípio da vida.
Prisioneiro do medo,
vendia a vida
que não tinha,
e só profanava
o templo sagrado do corpo.

E no entanto, herói não sou.
apenas um que
por enquanto escapou
do matadouro do dia. 

            II

Nada é sagrado,
Tudo é misterioso.
Tudo é trágico,
tudo é cômico,
no ato misterioso
de chegar ao ministério
doloroso ou gozoso.

Há milênios navegamos,
no mar desespero.
e dói saber
que somos nascidos
para morrer um dia.

Desesperado
Cantor da esperança,
a tudo me entrego.

Em tudo canto,
em tudo danço,
em tudo amo.
tudo me
entristece e alegra.
Tudo me comove,
tudo me alivia.

Ser consciência
da Presença que sou,
é a luz que ilumina
o meu velho desespero.

As horas mais
arco do triunfo
da minha vida
são como as horas
mais derrotadas
de meus dias. 

          III

Habitante do que sinto,
morro no que vivo.
na solidão acompanhada
em que me acho,
estarei sempre só,
na multidão
nauseado das palavras,
“vazio como um odre
cheio de vento
e de palavras vulgares”.

Depois que habitei
o obsceno esplendor do Ser,
nunca mais não vi
na face-espelho
do animal humano
o meu rosto coletivo de Caim.

Fiz do meu corpo
lembrança sangrenta
de exilado aqui.
estou desterrado
nos lençóis da minha cama. 

Na América esquartejada
do Tiradentes inconfidente
que fui e serei,
cortado em postas,
fincado nos altos
postes de Minas,
até que o tempo devore
o que sobrou de mim.

As horas mais derrotadas
de meus dias
são como as horas
mais arco do triunfo
da minha vida.

 

 

 

 

CORTEJO DE MUTILADOS    

No inferno verde
da hiléia brasileira
há um cortejo
de crianças mutiladas. 

Em Ariquemes, as serras
ceifam vidas infantes
e a esperança tomba
no esplendor do mundo.  

A esperança ceifada
apaga a luz do futuro
e torne obsceno
o “salve lindo”
pendão da bonança. 

 São crianças sem alma
( nunca foram amadas) 
são crianças só palmadas
nunca foram mimadas.  

Em Ariquemes
as serras serram ao meio
as vidas surgentes. 

As gerações futuras
vão esperar em vão
o sol desta grandeza.  

Se o presente
ceifa o amanhã,
a vida é assassinada
em deserto desenvolvido
pela frieza das almas. 

 

 

                 MORANGOS DO MAL

                                             (Para Caio Fernando Abreu)

O poeta outsider
não teve culpa, vergonha ou medo
quando leu naquele teste:"soro positivo”.  
Na terceira noite após
a decretação da perda
por auto-proteção, enlouqueceu.

A vida o habitava. Tantas vezes, 
dentro da noite, gritou seu nome.

A dor – toda garrida – 
em traje de passeio completo
visitou seu corpo
noites e  dias. Em seu leito de agonia                    
 o poeta contemplava 
o muro do cemitério
onde se lia: 
“O que importa é a Vida
coberta de ouro e prata
e musgo do tempo”.

O poeta lutou contra a morte.
Em sua última epístola
     
a Hilarion, anjo da cura,

apelou a Prometeu,
e se fez Sísifo, a erguer contra o mundo  
a rocha do destino.

No cortejo dos mortos vivos
gritava, e ninguém o ouvia:
“os vivos, Senhor! Os vivos”.

E como ninguém o escutou,
só o corvo de Poe
na escura noite da alma negrejou:
Nunca mais! Nunca mais!
- O amanhã não existe:
eis o absurdo!

Aqui jaz , cegado de luz
pela louca lucidez 
de ser ele mesmo,
um anjo decaído
nascido para ser feliz  
no perigo de viver.
Poeta foi, 
“sonhou e amou na vida”,
no esplendor de Ser.

Quando nasceu
um anjo bêbado
ao vê-lo pálido,
desesperado
com a vertigem abissal
e o absurdo do mundo
disse: Vai, Caio, 
ser mais um gauche na vida!

Foi mais um anjo
de asas quebradas
que, “não sabendo domar
a ternura, ergueu ao espaço
os olhos ateus
e sem lisura desferiu infâmias
diante das dúbias faces de Deus”. (*) 

Na coragem do medo
e no medo da coragem
não quis morrer
antes da morte,
nem aceitou mofar
como os morangos do mal
no câncer coletivo
do medo de viver.  

Preferiu a vertigem 
a apodrecer no pântano.
Entre o Ser e o Nada
o poeta gritou, em êxtase e pavor,
antes de ser vencido.

Em sua queda de Ícaro 
o poeta pediu morangos silvestres
ao despencar no abismo.  

           
           
( * ) Tagore Biram

 

 

 

 

AS TORRES DO CORPO  

Se a casa do fígado
é a morada da bile
e as veias são rios,
estradas reais do sangue,
o corpo é morada do Ser.

No corpo a vida
vibra com ruído e furor,
e na memória da pele
navegam
sussurros de Eros.
Nada é real
fora do corpo.

“Nas altas torres do corpo
o desejo resplandecia”.
Tudo ali era deserto e oceano,
silêncio e sinfonia.
“Porque há um desejo
em mim, tudo é cintilância”.   (1)       

Que rio dos sentidos
ligará ao céu
e ao inferno que somos
esta usina de energia?
mutações alquímicas
explicarão, em equações
matemágicas,
o sal do milagre
no esplendor do absurdo? 

Para que servem
as cordas da voz,
se a palavra “amor”
estanca na garganta
e só é escrita
nas celas do furor
por seres monstruosos?

Para que serve a pele,
se, a flor da pele
não comunica
a memória da carícia?
 

Para que serve o corpo,
se o corpo ( morto)
não faz da dança dos sentidos
o templo do gozo
e a casa do nirvana? 

Depois que me vi, liberto
das solidões de Tânatos, sinto:
viver é não trair
a canção dos gestos,
e ver, no milagre dos sentidos
o pensamento divino.

II

Não hei negado
o corpo ao corpo.
“Eu quero o corpo,
tenho pressa de viver”.

minha pele guarda a memória
dos gestos que adiei. 

Fauno e Sísifo,
fui buscar
em abissais labirintos
o minotauro que sou. 

E se minto, quando sofro,
é que só amo
o que não sinto.
Agora aceito
que somos feitos
de amar o mar
de carne osso,
que nos coube
mar de magma
e de lágrimas amargas,
mar de náufragos
afogados no seco

Dia virá 
em que Deus
vai retirar de nosso rosto
o sinal sagrado dos monstros. 

III 

Para mover meu verso
qualquer paixão aproveito.
a paixão que sinto,
a paixão que minto,
a paixão que tomo de empréstimo. 

Para sair de mim, e do que sou
de louco lúcido,
eu só careço
de um copo de absinto,
e da lembrança
de quando amava.

Para mover meu verso
eu só preciso que me amem,
ou que eu ame alguém.
e para não dizerem que amo pouco,
só posso amar
como amam
os monstros e os loucos.

(1) Hilda Hilst

 

 

   

 

O ROSTO COLETIVO 
 

E porque jamais olhamos
com olhos de ver
os lírios dos campos,
nunca sentimos
que os humildes
são simples como eles. 

E porque jamais olhamos
para nós mesmos,
nunca mais nos sentimos
- e não sabendo
sentir o corpo que somos,
jamais poderemos
sentir o corpo do Outro. 

Pensar que poderíamos
ter sido felizes, quando
não havia o medo.
Saber que fomos
tão felizes um dia,
e nem soubemos disto. 

Viver não tem sentido
se vivemos como gado
pronto a ser abatido
no matadouro do dia. 

Viver só é milagre
se no devir dos dias
a rosa do Ser se abre
e se faz mistério
claro como o dia. 

E porque nunca soubemos
os lírios que somos,
nunca pudemos
fitar, sem medo,
o rosto coletivo de Deus.