Arcanjos vão às águas
do Jordão
buscar pedras
perdidas no seu leito,
enquanto o cão ao
olho leva a mão
e seus filhotes
cantam: "Oh, bem feito".
Se as águas brilham
fortes no verão,
imagens nelas surgem
flutuando
nos espelhos das
ondas, deslizando,
até que a noite venha
a luz cegar.
Só, acordada, a mente
vai pensando
no sonho que mais
tarde irá sonhar.
Papiro, pergaminho,
papelão,
eis o que fica no
lodo da terra,
trazido ao dia qual
aluvião
se cava a mão e logo
os desenterra.
Iluminado arcanjo que
se encerra
no leve curso d’água
fugidia,
salta desnudo pela
margem fria,
alma ou fantasma,
dádiva do mundo,
desfigurada e rápida
alquimia,
dos que não chegam
mais além do fundo.
Desembestado o húmus
temporão,
incontinenti, avança
e não emperra
diante dos olhares
dos que vão
cedo ao combate da
planície à serra,
a paz ferindo, loas
dando à guerra.
Não pára o tempo e a
pedra o pó gerando,
o micro gene ao vento
joga e ferra
a semente na sombra,
a germinar
nas horas quentes,
vidas transformando,
milhões de vozes na
torre a falar.
As correntes do rio,
qual trovão,
nas cachoeiras vão
trombeteando,
milhões de ícones a
verberar
o som das eras, voz
anunciando,
final estrondo, que o
bit vai dar.
Do mundo dos mortais
ou só dos anjos?
Quero a resposta já
para que a dúvida
nunca prospere; mas
se o entendimento
turba-se e vejo seres
sem razão,
que pensar do meu
corpo e de minh’alma,
se dela um sai e logo
outro diz: entra?
Se sobrevive a alma
que bem entra
no descuidado corpo,
leves anjos
verberam no que é,
fazendo que a alma
exista, enquanto se
levanta a dúvida
no mundo,
deformando-se a razão,
perdendo-se também o
entendimento.
Se não é absoluto o
entendimento,
mesmo que aprenda
dele o que só entra
na matéria,
restaura-se a razão.
Quem a desconhecer
não verá anjos,
nem precisa chamar a
si a dúvida
para chegar a ter
outra boa alma.
Como mortal não vi
jamais um’alma.
Logo, não vou perder
o entendimento.
Com ele não
conviveria a dúvida,
que, num relance, em
nossos corpos entra.
Se de repente dele
expulso os anjos,
que fazer do saber e
da razão?
Se algum dia eu ficar
sem a razão,
não sei se perderei
toda minh’alma
e viverei no limbo
com os anjos,
tendo tudo mas sem
entendimento,
e até a certeza que
em mim já não entra,
muito fará crescer a
minha dúvida.
Já que está sempre a
porta aberta à dúvida,
entrando a fé ou
fugindo a razão,
nada entrará em ti
sem o aviso: "entra"!
Se ninguém poderá
viver sem alma,
mesmo quando lhe
falte o entendimento,
não olvides que em
nós habitam anjos.
-- Se você viu anjos,
não resta dúvida,
tem entendimento e
também razão.
-- Ali vem um’alma e
agora em mim entra!
A José Bonifácio Câmara
I
Por que gostamos
tanto do passado?
A interrogante leva-me a pensar
no
segredo que fica em si guardado,
que não sei se algum dia
vou achar.
Perdido na palavra ou termo
dado,
sempre o presente vive a deslizar
em busca do
impossível já pensado
ou do que não se pode
desvendar:
os três instantes num sopro da
vida,
que poderia até vê-la esquecida,
no que será ou
já foi existente.
O melhor é não mais perder o
tempo,
ainda que eu resuma num momento
o passado e o
futuro no presente.
II
Quanto mistério tem a
flor guardado,
pois, desde sempre, desafia a mente
dos que desejam descobrir o dado
oculto no desvão
duma semente.
E como o pólen nela está
cravado,
dele o áspide mau tira somente
o venenoso,
enquanto o mel levado
por uma abelha logo se
pressente.
Quem tudo sabe pouco talvez veja.
Quem
nada sabe afronta sua verdade
ou seu direito de bem
percebê-la.
Que o mistério segredo sempre
seja
para que nunca o mal vença a bondade,
impondo a
morte à vida sem querê-la.
III
Algo há nas
flores que acalentam feras,
chamando abelhas vivas do
sereno
para as tocarem, há perdidas eras,
nunca
alterando forma nem aceno.
É preciso viver as
primaveras
para sentir o gestual e ameno,
esforço feito, sol florindo esperas,
elaborando o
bom mel e o veneno.
Há nelas algo que esconde o
mistério,
fazendo com que a abelha encontre o mel
no
mesmo pólen que o áspide tira
o veneno letal, momento
sério,
grito de morte, do holocausto ao fel,
que cega
os olhos, apagando a pira.
A Miguel Elías Sánchez Sánchez
Eu não conheço o sol,
clarão
que humilha e me faz manso.
Só o conheço na sombra
que
também mata e inocenta.
No lago interior, alma afogada,
afundei a matéria abismal do choro,
facho imenso
entre o dia e a noite.
Oh, escuridão eterna,
quando
serei raio
partindo do útero da terra?
Eu não
conheço a luz temporal
que anda por
sendeiros,
buscando as pisadas das estrelas,
gerando
um som que me emudece.
Ainda que o meu tamanho se
agigante,
não vejo nada além do infinito.
Talvez me
ensine mais o sonho
que me alimenta e logo me
destrói:
rotor preciso da imensidão,
refrão nefasto
da pequenez humana.
A Audifax Rios
Iracemar - viver bem
deslumbrado,
rindo na praia que Deus nos criou
além da
inocência e do bom pecado,
com fogo, sal e sol
devorador,
e todos votos do carnal
amor.
Mercadoria fazes tuas mágoas,
América! Alencar
te recriou,
além-mar, mar-além daquelas
águas,
luzes banhadas pelo sol dos dias,
egressas
de contados movimentos,
nascentes das canções de nossa
gente,
cantadas em desoras maresias:
areal-pó,
levado pelos ventos,
romance-aurora, madrigal silente.