Edimilson de Almeida Pereira - Literatura infanto-juvenil

 

 

 

Do livro: CADA BICHO EM SEU CANTO


PLUMA

Onde está o gato.

O rastro preso na sombra,
seu corpo um susto espesso.
O risco das unhas no vidro.
O gato anoitece.

Onde o resto do gato.



NOTAS

Aranha grande,
aranha pequena.

Subindo e descendo
a teia renda.

Quantas vezes sobe?
Quantas vezes?

Tantas idas e vindas
até a aranha esquece.



NOIVADO

Um dia escuro
as nuvens todas chorando.
O caracol desperta
com seu terno de veludo.

Entre as árvores
passam caminhos de musgo.
O caracol tranqüilo,
dentro dele vai o sol.

A tarde se alonga,
mas só agora saiu de casa
a noiva do caracol.


TELEGRAMA

Olhos atentos

o antílope.

O vento,
porta-voz do perigo,
anuncia as garras.

O tigre.

O seco arde
em galopes.

Os antílopes.

A fuga.

Cada um leva
seu medo.

A coragem
na garupa.

 

 

Do livro: O PRIMEIRO MENINO (fragmento)

1

O PRIMEIRO
menino escreve na ravina. Sua escrita muda como
as estações. De uma notícia de chuvas para um
retrato com flores. O vento, seu melhor leitor, apaga
os pontos finais. Prefere as reticências para alongar
os pensamentos. Depois, com sua mala sem trincos
voa pelo mundo levando as perguntas que fazem
o coração da gente mover-se com rumor.

Por que uma laranja
se abre como um livro?

Por que o chifre do boi
não faz uma lua inteira?

Quantas blusas
veste um besouro?

Por que o girassol não gira
como as bicicletas?


2

QUANDO
as respostas são perguntas, o menino se entrega aos
enigmas. Então descansa de escrever para escutar
as conversas da boca do rio. O vento, leitor voraz
de mil letras, se inquieta. Venta ciclone, se despen-
teia. Venta sereno esperando fábulas e frins. Mas,
dizem, outras mãos podem escrever na ravina, en-
quanto o menino toma lições com as águas. Aí estão
as pedras-lápis, acesas. Que palavras se pode gravar
com elas...
...............................................................
...............................................................?

...............................................................
...............................................................?

...............................................................
...............................................................?



   
 

   

  Do livro: O MENINO DE CARACÓIS NA CABEÇA (fragmento)


No tempo em que os bichos falavam, o Menino de Caracóis na Cabeça teve um sonho: viu que as árvores mudavam de lugar e as águas corriam para trás. O Menino não podia conversar com as pessoas porque elas diziam coisas belas, mas ele não as compreendia.
Eram coisas de tirar a respiração do dia, assim como a conversa de dois homens sentados na porta de suas casas. Um dizia:
"Os meus pensamentos ensurdeciam lunávidos."
O outro comentava:
"Palavras verdes passeavam nos meus dedos."
E, por fim, dizia o primeiro homem:
"É verdade, é verdade. Flores amarelas trazem boas idéias."
O Menino de Caracóis na Cabeça despertou curioso. Mais curioso do que na outra noite, quando sonhou ter visitado as terras do Rei Mendonça-Pé-de-Porco-e-Mão-de-Onça. Afinal, era preciso saber porque as árvores mudavam de lugar, as águas corriam para trás e as pessoas falavam coisas belas que não se podia entender.
O Menino segurou o queixo com as mãos e fechou os olhos como fazem os homens grandes na hora de pensar. De repente, sentiu uma idéia chegando. Era preciso perguntar ao Velho das Barbas o que significava aquele sonho. O Velho vivia desde o começo de tudo. Ele saberia a resposta para a curiosidade do Menino. (...)

 

      
   

  

Do livro: OS COMEDORES DE PALAVRAS (fragmento)


No distante País das Árvores que Falam vivia um contador de histórias, que viajava acompanhado de seu filho. Juntos atravessavam rios e montanhas.
Por onde passavam, o contador tocava o seu tambor e logo as histórias nasciam em sua boca. Eram vivas como a serpente do arco-íris.
Ao final das histórias, o contador desafiava os ouvintes:

"Vim de muito longe
para as terras do senhor rei.
Venci o bicho silêncio
e minhas histórias contei."

Todos aplaudiam, oferecendo presentes para o contador e seu filho. Um dia, porém, o Monstro Engolidor de Gentes levou o contador de histórias. O menino ficou triste, tão triste que seu cabelo se esqueceu do sol e da chuva.
O menino estava decepcionado por não saber histórias como o seu pai. Até o tambor tinha adormecido. A tristeza era tão grande que o menino resolveu morar no país dos Bichos Comedores de Palavras. Lá, ninguém lhe pediria para contar histórias e ele não sentiria vergonha por não sabê-las.
Depois de muito caminhar, chegou a uma casa cercada de árvores com olhos. Ali morava a Senhora-que-viu-tudo-neste-mundo. Ela perguntou-lhe:
"O que você faz tão longe de sua terra?" (...)

 

       

 

COLEÇÃO BILBELI (fragmento)
Em co-autoria com Prisca Agustoni


TIBOR, O GATO

O gato tibor dorme.
Mas tem os olhos atentos.
Quando desperta é lento.
Os dentes fazem tique-taque
esperando o leite.
Tibor sobe as escadas de leve
e esconde um segredo
debaixo do tapete.
Será um novelo de linha?
Ou uma bola de gude?
De noite, salta de um salto
para cima das telhas
e demora olhando a lua.
Debaixo do tapete um segredo.
Será um dado? Será um disco?
Em cima do telhado
Tibor se distrai contando as estrelas.


ROCO, O CARANGUEJO

Roco é um caranguejo ligeiro.
Fica na janela de areia
para olhar a beira do mar.
O que faz o caranguejo
enquanto não come?
Conversa com os caracóis.
Depois o caranguejo se esconde.
Onde? Onde? Onde?
Quem sabe de Roco,
o caranguejo ligeiro,
são as ondas, ondas, ondas.

CARLITO, O ELEFANTE

Carlito um passo atrás e dois para diante.
Levanta a cabeça, mexe as orelhas
na dança do elefante comendo amendoim.
Perigo se cai um cisco no umbigo do Carlito.
Ele sacode a pança, o circo inteiro balança.
Dá um grito, acorda o palhaço Pirlimpimpim.
No dia de festa, o elefante flutua
doce como algodão doce.
Como pode o elefante ser tão leve assim?
Carlito faz essas coisas e mais.
Dá um passo à frente, outro para o lado.
Coça o pêlo, enrola o rabo.
Encosta na lona do circo e dorme.