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Fragmentos II
Nasci vingativo,
negando
o que deveria perdoar,
omitindo
o que deveria mencionar,
exagerando para soar falso
que de verdade sinto.
Falsifiquei-me para que fosses
próximo do real.
Ao escapar de tua figura
me tornei igual.
Tudo está perdido, então
tudo é necessário.
Sou a barca que fica
afiando as águas.
..................
Desembaraça-me
do excesso
de estar
onde não sou.
O pão dura apenas
um dia em nossa mesa.
O pão fica acordado apenas
um dia em nossa fome.
O pão e o fogo
são do mesmo trigo.
Volta ao pampa, pai.
A sombra está presa
ao pescoço.
O sangue anoitece.
Anoitece
debaixo da pele
para amanhecer
os músculos da terra.
....................
A palavra é falível
posta em outra boca:
o horizonte deitou
o fuzil dos pássaros.
Volta, pai, que a fundura
não está nos passos,
a tapera dispersa
a caça e o paradeiro
das pegadas.
A queda atalha a subida,
o homem permanece
uma pronúncia inacabada.
....................
Os mortos sofrem com a umidade;
os vivos, da unidade.
Não perturbes a paz
dos que se odeiam.
Exata, perene, a cortesia
de apontar os defeitos
pontualmente.
Nas pedras de tuas córneas,
o pomo lateja o sumo.
A resistência em germinar.
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Terno de
feltro
- do artista alemão Josef Beuys
(1921-1986)
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