O autor fala de sua  obra
(
apresentação de  A TORRE DE BABEL ,  antologia poética que reúne a obra de Gabriel Nascente)

 

A inscrição do íntimo 

     NA VERDADE, nunca escrevi um poema pensando em salvar a humanidade. Para vencer a morte, talvez. Questão de arcano, eis a tônica: poesia para salvar a poesia. Tanto que jamais criei uma imagem traindo os preceitos divinais da emoção. Só entendo poesia como sendo o fruto miraculoso desta matéria, que rege o luminoso alento da criação dos homens, no reino do intelecto. E tem mais: nunca saltei à frente do engenho poético para puxar a linha do primeiro verso. Ao contrário: sempre foi o primeiro verso que me arrastou aos embates com a palavra. Poesia e poema são a mesma coisa: ventos excitáveis da alma.

     O poema pensado não é poema, é máquina, objeto montado com os artifícios do raciocínio — parte cerebral da arte do fazer, intelectualmente falando.

     Sou poeta no escuro, redator da comoção. Incendem no meu instrumento de trabalho a sensibilidade, a paixão, o sonho. Dessa matéria, repito, eu chego à tona da vida, elucidando caos e montando mistérios para dar alma à poesia. É como se eu fosse tangido pelo toque de um condão dos deuses e rapidamente me transferisse com a bagagem da vida para dentro da poesia: a residência da minha alma. Noutras palavras: é como se eu me sentisse como um homem que foi fabulosamente tragado pelas correntezas da poesia: meu ciclope de guerra, meu cisne.  

     Não poderia ser de outro modo, porque não sou senão poeta. Tanto que, quando me falta a palavra (peça-luz do texto), durante a angústia da criação, escalavro-me todo por dentro, fico emburrado, carrancudo, nervoso, de mal com a vida - e vacilo e urro e mordo os dedos, a gola da camisa, os extremos do limite, como se algo inopinadamente houvesse estancado a usina da minha luz - o lume-fôlego da poesia. Daí porque ressurjo à tona da estúpida mesmice para, novamente, imiscuir-me à rudeza da vida e seu nevoeiro de spleens. Por exemplo, não sei o que estou escrevendo agora, sei apenas que algo melhor do que eu, além de mim, me conduz nesta jornada: a de ser poeta, entre os infortúnios do homem e a lágrima de suas coisas.  

     Eu, um itinerante cantor da esperança, a serviço desta obra do infinito, invento estético da alma:  

— Anda comigo, chama  
miraculosa do meu ser!  
Em cada palavra,  
acendo-te um archote:  
a luz que Prometeu  
roubou de Zeus,  
ficou no cérebro  
 
da humanidade.  
(Luz que, da obscura  
seringa da emoção,  
me conduz à medula
de novos mistérios,  
(onde a baleia e o cisne  
são os caminhos da metáfora,
pelas águas da imaginação).
 

     Este depoimento - inscrição do íntimo - eu o faço como quem sangra na carne o amor de viver, pedindo socorro aos patronos da eternidade.  

  II

     A história da comunicação entre os homens nasceu com o verso. Primeiro foi o som, depois o verso. Do sânscrito (no Oriente) até Homero (no Ocidente), em culturas milenares diferentes, as manifestações dos hinos religiosos fizeram-se estrutura escrita no verso. Então, à luz espiritual da humanidade, deduz-se que primeiro foram mesmo os sons balbuciados pelo exercício dos lábios: a boca dava som às palavras que, aos poucos, foram se harmonizando no ritmo cadenciado dos hinos e das canções, em versos.  

     Havia Agni e Zeus naquilo tudo.  

     A linguagem dos homens materializou-se no verso. Tanto que os dramaturgos, poetas e filósofos gregos utilizavam-se do verso para expor o ideário de suas inspirações: a forma longa do hexâmetro, empregado nas epopéias. No Oriente, a remotíssima forma cultural dos Vedas, com a magia dos seus hinos filosóficos, privilégio dos brâmanes e dos letrados hindus.  

     “O hindu védico é o poeta integral, o homem natural da humanidade”, afirmava Brunhofer. Para Kaegi, no entanto, “os Vedas são o testemunho de tempos desaparecidos há milênios, a primeira manifestação da nossa raça, em berço”. E o Rigveda, a prova mais contundente dos hinos, que davam lugar a criação do Mito e sua inumerável galharia de deuses. “E mythos é palavra grega, sinônima de fábula, termo latino, ambos com o significado de narrativa”.  

     Havia Agni e Zeus naquilo tudo. Agora não, é Deus e nada mais. Os homens estão vazios, perderam o caminho de volta ao Paraíso. Frederico Nietzsche excomungou o trono teológico, criou Zaratrustra, o anti-Cristo, e morreu louco, irritado pela falta da fé.  

     “A humanidade gosta mais de ver gestos do que ouvir razões...”  

III  

Detonei, no verso,
     a emoção.  
Detonei, na palavra,  
     o espírito,  
Detonei, na imagem,  
      a luz.
 

     Aprendi com os gregos o que Cristo ensinava a seu bando de homens: a enfrentar os desafios. Renunciei a toneladas de auroras para sulcar os primeiros alicerces desta Torre de babel. Atirei-me às torrentes deste duelo, lendo e escrevendo, desesperadamente. Abri o desejo de me fazer poeta vinte e cinco horas por dia, de uma vez por todas. Assim o fiz, há anos e anos a fio. Desde meu primeiro verso, datado da pré-adolescência, lá nos primórdios da década de 60 que travo, verdadeiramente, uma briga com a vida. Rixa esta que me soprou para dentro da poesia, ou melhor, para a casa das quimeras de Orfeu, onde o plectro feria o sonho. Dessa forma, meus primeiros livros foram escritos sob o jorro da mais absoluta brutalidade verbal, onde, inconscientemente, eu abolia o verso intelectual. Quero dizer: nunca dei bola para esse negócio de estético-formal dentro da estruturação poética. Sempre fui adepto da intuição emotiva. Daquela carga de beleza que me vinha (vem) da eternidade de cada instante. Do coração para a palavra. E do sonho para a obra.  

     Quando vi digitadas as primeiras provas deste tijolaço, loucamente assimétrico, levei um susto e quase chorei, para não dizer que me lembrei de Sócrates filosofando sobre a questão da maturidade do intelecto. Ele afirmava que o homem chegava ao apogeu da sua maturidade intelectual aos 49 anos. E eu, que na virada deste milênio cheguei às grimpas dos meus cinquent’anos, proustianamente prossigo o rio de Heráclito, atento ao tempo, de cujo psiquismo me afloram o passado e o presente oriundos das ondulações sem fim do pensamento. O que foi é pó, abdico-me disto. “Só perduram no tempo as coisas / que não foram do tempo” — asseverava Jorge Luís Borges, o tigre cego de Buenos Aires. Então me indago: sou obra do pensamento, falácia? “As palavras são pára-quedas que se abrem em pleno vôo”, e eu, aviador do caos? O espaço que ocupo é poesia. Morre o homem, sai a vida, fica a luz: “o universo / fala melhor do que o homem”.  

     A poesia que se esparrama ao longo das páginas desta Torre de babel, seria fruto de uma convulsão cerebral, em permanente estado de choque ou da força mediúnica do intelecto? Nem uma coisa, nem outra: ambas dizem a mesma coisa, a poesia não se explica, é filha do caos, gestação da beleza e mãe da humanidade, concernente ao prodígio de suas obras. As centenas de poemas reunidos neste volume foram, numa primeira versão, escritos sob o impacto impulsivo da inspiração hemorrágica. Depois, com os anos, fui relendo-os e reescrevendo-os, alguns, dentro do processo assim dividido pelo labor da minha explosão de alma: 1) o mundo das formas; e 2) o mundo do sentimento - mandando princípios e preceitos de tudo quanto existe na escolástica tecnicista-formal-estética às favas! Por isto, tentei fazer uma poesia de homem para a vida e vice versa: da vida para o homem.  

IV  

     Percorri, durante multidão de amanheceres as mais solitárias e percucientes obras da genialidade humana — refiro-me ao fortunoso acervo literário dos clássicos da antigüidade greco-latina —, à procura de emoções filosóficas até então jamais elucidadas por mim, embriagado de utopia, em digressões desse quilate.  

     Tudo, enfim, para evitar o uso repentino e trágico da máscara mortuária. Oxalá eu tenha evocado a mais trêmula voz dessas celebridades greco-latinas, como Ésquilo e Virgílio, Sócrates e Cícero, Homero e Dante, Sófocles e Ovídio, Plutarco e Petrarca, Lucrécio e Horácio para, através delas, subir aos céus da poesia. Sim, beber um pouco da divina loucura desses ourives do intelecto, na elaboração do testemunho artístico, psicológico e humano que ultrapassou a fronteira dos milênios pela obscuridade dos tempos.  

     Meu olho virou luz. Vim do invisível. Ao iniciar as escavações para erguer as torres desta babel da minha vida, atirei-me como Ícaro às alturas do abismo. E não criei (ou recriei) para ser aplaudido ou vaiado; fi-lo para, principalmente, dar vazão ao tumulto do meu íntimo, existencialmente conturbado pelo destino dos homens. E aqui eu abro parênteses: o século XX ainda fede na carniça de seus morticínios. Agarrei-me então à metafísica, para safar-me do vazio.  

     O mito deu a palavra. Eu dei a vida.  

     Espalhei a chama do meu espírito por cada verso desta obra, proclamando “a vinda de uma Humanidade / Matemática e perfeita!”. A luz e suas faces comigo, navegante. Para nada e para tudo, vim ao mundo, emprenhar de sonhos a matéria.  

     Borgianamente, adoro a palavra confusão. Assim me fiz poeta no discurso deste caos. Quem seria eu pois para alcançar o que Charles Baudelaire - o demônio da lucidez - alcançou, no seu estado de pureza significativa, onde “tudo é encanto, música, sensualidade abstrata e poderosa... Luxo, forma e volúpia”. Mesmo porque “nos melhores versos de Baudelaire há uma combinação de carne e de espírito, uma mistura de solenidade, de calor e de amargura, de eternidade e de intimidade”. Nas maravilhas do detalhe, o seu encanto é contínuo, diabólico, vital e etéreo.  

     Por outro lado (ó petulância minha!), semelhante aos vigorosos métodos de trabalho intelectual do magnânime poeta Victor Marie Hugo - Victor Hugo - criador de A lenda dos séculos, A corda de bronze, Deus, O fim de Satã etc., que produzia das cinco da manhã ao meio-dia, sistematicamente, ao longo de décadas, num verdadeiro mergulho às estalactites da palavra, adotei também este processo, pelo qual fui fincando as pilastras desta alvenaria “na construção do imaginário e do fantástico”, zarpando da mais tosca praia de chão insípido e rochoso, até onde Zeus se esfumou nas alturas do empíreo, e “Thor não era o deus do trovão, era o trovão e o deus”.  

V  

     Uma coisa é a emoção (semântica do sopro criador); a outra é a técnica, pela qual se chega ao significado daquilo que se pretende dizer, no conteúdo do texto. “Se pois me interrogam - questionou Paul Valéry - se inquietam (como acontece, e às vezes muito vivamente) acerca do que eu quis dizer em tal poema, respondo que eu não quis dizer, mas quis fazer, e que foi a intenção de fazer que quis o que eu disse...” Ora, da emoção à abstração? Não. Para mim o poema é um fantasma e me excita. Um fascinante enleio que da alma chega às pulsações da palavra e desta, à vida. Assim é comigo, quando respiro poesia atrelado à sensibilidade deste ofício, que também é o pão do meu espírito.  

     Sucessivas modificações, cortes, substituições, retoques e até mesmo expurgos de versos ou de estrofes inteiras, foram métodos que utilizei, à procura do enxugamento e da concisão poética, guiado pela mão do garbo e do simples.  

     Ademais, em cada poema desta Torre está um monólogo do meu sangue, que ecoa e voa, do corpo da imaginação. Asas do intelecto debatendo-se nas trevas.  

     Poesia para se comer como um manjar, entre homens e deuses, purgada das ilusões.

 IV

     Na sôfrega tentativa de contribuir com as obras do espírito, que há bilênios e bilênios labutam para o aprimoramento intelectual do homem - enquanto hóspede do pó em sua frágil transição terráquea - me atirei à escuridão do desafio, separando-me do homem-Gabriel para fixar-me apaixonadamente no poeta-Gabriel. E, com ambos — um dentro do outro — conceber a luz dentro do Verbo. Sim: eu que sou de carne e osso e não tolero o hermetismo. Fui, exaustivamente, lapidando, com esmero e paciência, linha por linha, estrofe por estrofe, verso por verso, o fluxo das imagens e seus excessos de repetições exclamativas. O emocional na linguagem é um veículo de difícil controle daquilo que era ocluso nos recônditos da alma. Mantendo a musicalidade do ritmo, a harmonia dos temas, os paradoxos, a elegância das hipérboles, o polimento... para se chegar aos extremos da perfeição é preciso ser simples. Foi o que tentei, com mais esta renitência literária na galáxia dos meus sonhos.  

     A arte imita a vida. A poesia imita o rio das emoções. Também, e finalmente, acredito na hipótese de que a poesia possa ser a fábula do espírito (sopro intelectivo do ser alado), onde a inspiração e a técnica se harmonizam neste himeneu artístico. Fruto florente, luz que canta, entre o lobo e o cordeiro, pelos vales da solidão.  

     Ó, força vital do meu breve! Breve é a laranja. Breve é a faca. Breve é a estrela. Eu sou poeta, poetador, deste chapéu cheio de êxtases.  

     Canta, Jean Richepin, a sua Torre de babel:  

Mais alto! ainda mais alto! estes altos pilares  
Ergamos! Torres sobre torres! Nos espaços,  
Terraços colossais sobre vastos terraços  
Percam de vista, em cima e ao longe, a terra e os mares!  

Toquemos com a mão os constelados paços!  
Mais arcarias! mais paredes aos milhares!  
Subamos sempre! até que lá no azul dos ares  
Deixemos o sinal firme dos nossos passos...  

Mas em vão nosso orgulho, armado de paciência,  
A torre de Babel em construir persiste,  
Criando a Religião, a Arte, a Indústria, a Ciência...  

Em vão! porque essa torre, instável como a bruma,  
Não passa de ilusão que só na mente existe,  
E o céu nos foge... o céu se afasta... o céu se esfuma...
 

(Sala Albert Camus, Goiânia, 18 de Fevereiro de 2000)  

                                                  Gabriel Nascente