Poemas de Gabriel Nascente
|
|
À cidade de Goiânia, meu berço.
Aqui
é a terra de costas para o mar,
das alvas e vermelhas casuarinas
debruçadas sobre os muros.
Aqui é Goiânia:
levante dos Ludovico
& dos Caiado.
Flor-menina
da América,
noiva do porvir.
Aqui é Goiânia:
cidade-brinco dos postais,
poema-sonho dos gerais.
O verde é o seu tesouro.
O crepúsculo, o seu ouro.
O sol se despetala
o ano inteiro.
A primavera é o glamour
de suas auroras.
Terremoto de exóticas belezas
nas esquinas e nos shoppings
Em cada praça, um rastro de perfume
enlouquece os ares.
A paisagem é bêbada de verão.
(Chuva é valsa de lumes
nas pálpebras da terra).
Goiânia, meu chapéu de bronze
dos cerrados,
odisséia das enxadas,
filha das carabinas
e do boi.
Galante estrela do Oeste,
eu te saúdo
das fraldas do meu leito:
aboios da minha terra.
Um
passarinho almoça
no meu ombro.
I
Voragem de vagas
nos olhos: o mar
batendo.
Frêmito de ondas,
bátega de águas.
Chicote de salinas
no casco dos veleiros.
(Do tumulto dessas águas
já fui velho passageiro!)
II
Pela montanha (escarpa acima),
espíritos ruminam, indigestos.
Cheiro de formol nas narinas,
o mar batendo: tanque de monstros,
fantasmas de alumínio!
III
Sacudi as ancas na areia,
fui ao cinema com uns versos de
Petrarca na língua.
e a musa Nereida
dos arrecifes,
legislava (inobre e
sonora)
a fuga
das gaivotas.
Eu
me ia, eu me ia,
por uma incerta via,
longe de mim, não me via:
cinerado de tudo, eu me ardia,
até da luz que me batia
em tão forte truz de agonia!
Às duas em ponto, eu decidia,
ardendo em agras lembranças,
à luz estúpida da tarde, eu
me ia,
com licor de demônio nos lábios,
a garrafa de arrepios me entupia.
O sol tinha rubor.
eu tinha pudor.
e ali mesmo,
na masmorra do meu íntimo,
havia um deus que me agredia:
- Sai da merda deste álcool
que te agoniza!
ele dizia: "Gloriar, glória!"
Caída página, eu me ia,
assim pálido,
assim torpe,
por uma incerta via.
A luz não era de todos, eu
gritava, eu gritava,
no plectro de Hesíodo:
ao sol dos trópicos,
em pânico, eu me ardia.
E bêbado de luz
eu me ia, assim lucífogo,
assim solífugo,
com meus malogros
às praias do espírito:
eu me ia,
cônscio de meus ocos
em nada eu me valia.
De meus ossos fiz-me
vácuo deste oco: o dia
era o meu fosso.
eu morria
na luz que me fugia.
Que seria do amor sem espírito,
Eminência?
A ceia dos Cadeais - Júlio Dantas
À
tona, me desconverso.
O pêndulo da vida é meu verso.
O dia é uma tremenda confusão.
E Deus é um caro extremamente legal.
No ferro velho, chamei-o para um sorvete.
E Ele me disse: "Tudo bem! Aos fantasmas, a
minha bengala. Estou cansado de abrir portas
para defuntos. A humanidade foi meu equívoco,
eu devia estar enfermo, fora do meu siso..."
E saímos pelo bulevar, jogando bolinhas de gude
com as crianças - anjos sujos da rua.
Lá em cima estava a casa d'Ele,
enorme como a mão das águas. E cá embaixo,
a casa dos homens, tão encardida e cheia de
bulhas
-É, - retorquiu Ele - errei de novo o endereço.
O paraíso não era este
É
breve a pomba no bico da torre.
é breve a nuvem - o breve choro da
guitarra.
A paz
do conchoso rio,
de orlas cor de estanho.
É breve este sol nos juncos.
É breve a sombra atrás da casa,
no dorso das formigas.
a pálida flor,
carcomida.
A hora (de tão lenta),
também despenca.
Aqui
coloco minha pedra: sou breve.
E venho das turbas periféricas,
cheio de vascas e de mágoas,
à flor dos logos.
Reticência...
eu grifo os fados do mal fado. Oro,
e não me orno.
As donzelas eram breves.
Eram breves as goiabas.
Os dedos da natureza, a tarde,
nos fugines do breve - fúlmen
Pai, afastai de nós
a mão do sicário.
Luz
de quadribilhões
de anos/watts,
multiplicai o pão do nosso prato.
Marx, a mão do
povo
é dadivosa.
Cristo, a humanidade
está sozinha.
Donde vem essa falange
de erínias,
tão iníquas
no alpendre?
Multidão de espinhos
sangrando a testa.
Dor que sufoca
até a goela: algia.
Pai, Senhor dos
áridos desertos,
chiado de balanço
ameniza corações?
O céu entrou pelos
seus bofes: e tu sorris?
Vou indo, vou indo.
II
Tão espúmeo era o mar nas
rugas da sua ressaca!
Quem é mais belo, o
relãmpago ou a cinza?
quem me arranca desse
arquejo de metáforas?
sou perfil de poema
mais forte
que véu de tristeza?
solidão
de chinela.
Nada me sobra do azul.
eu amo a água.
a terra é meu tugúrio.
Exasperados seios de mulher:
misericórdia,
dê um réquiem à castidade!
Regresso ao teu tempo, Davi.
Como tu, tenho harpa e tenho Deus.
Que
faço eu, Senhor,
para consolidar a obra do
vosso sonho?
Engendrar montanhas
num grão de arroz?
Deter a vida numa vírgula?
Atirar pedras aos molossos que
sequestram o mundo?
Não. Eu só preciso
da bênção de uma flor
para inserir-me em tua obra.
Seria
eu cárcere
da matéria,
resíduo de fantasmas
formidolosos,
estilha de faróis
do maremoto,
casca de pão
selvagem,
luva de noiva
defunta,
açafrão
das trevas,
sapato teológico
e solidéu,
negra dor
das rupturas,
veneno, cova de
búfalos,
eu que resisto na
álgebra desta matéria,
(em mim debalde):
? é ?
auscultando
ecos,
ecos,
onde estou
?
onde estou
?
Tsila de
Caim!
I
O
poema saiu do ovo da minha alma.
II
Na rija escuridão
um grilo
faz cri-cri!
O mundo está
disforme.
III
Cheiro de escampado
depois do aguaceiro,
ranger de porta nas
sombras,
essência de treva.
IV
A estação do ano
leva o ouro,
traz o lodo.
O trigo é doce.
V
Água insone
que pinga love.
a torneira te
molha.
A potestade
aloca o céu.
descartada luz do ontem,
entre pedras - na fronte.
VI
ah, fuzilaria de granizos
nas samambaias,
as águas verdes já se
atracaram no universo!
Límpido assoalho de seixos, chora:
as fontes estão de luto.
VII
Range, cordas de sapo,
seus alaúdes na lama.
O céu está esgarço, giz
de luz que se esvoaça.
Gélidas janelas
tiranizam o coração.
VIII
Ímpios de litígio,
cachos de rútilos:
amor, solenizas
teu fim.
(O espírito de minha mãe
usava cetro, lá pelas outroras
de Filipe da Macedônia).
IX
Na engenharia das abelhas
o mel é fruto.
X
Eis o que é infame: uma porrada
no coração.