Os dardos poéticos de Iracema Macedo

                                                                          Marcus Vinicius  

     O título, com seu jogo de palavras, e a epígrafe da qual ele é paródia são uma falsa pista : a obra não é mallarmaica. Isto não invalida o achado do título, e a leitura dos vinte e cinco poemas de que se compõem o livro vai confirmar que os versos são mesmo dardos, não dados.
     
Nesta edição, a autora reúne ainda três outras obras (publicadas anteriormente ao lado dos poemas de Eli Celso e André Vesne): “Vale Feliz”(1991), “A Casa”( 1995) e “Brincantes do Reisado”(1998).
     Lírica em todos os poemas, Iracema parece se desprender da influência inicial de Adélia Prado, e , se tivéssemos que lembrar outra voz feminina, preferiríamos pensar em Clarice Lispector. Para quem se espantar, recomendamos o ensaio de Roberto Corrêa dos Santos em que ele lê os poemas desentranhados nos romances de Clarice. Certas imagens-pensamento bem poderiam ter sido ditas por ela, como “o amor a tristeza e a aventura de ser carne em meio a tantas pedras” ou “e aprendesse a dormir com as tempestades”. Há ainda em sua obra referências a Drummond e Bandeira, que soam mais como admiração do que como influência. A propósito, a poeta tem uma dicção bastante pessoal. Neste último livro, o lirismo cotidiano parece dar vez a um lirismo incômodo, não reconciliado. Estrategicamente, o sujeito se faz objeto e se oferece sem idealizações e “happy ends” românticos. Vejamos alguns versos: “e ofereço meu corpo para os lobos”, “Não conhecia o esplendor da queda/ nem a violência dos abismos”, “Parece que saí...de algum lugar inóspito...”, “o pássaro assim tão desmedido/poderá espatifar-se no rochedo”, “uma face...para oferecer.../ a todo tipo de amor que atravessar a vidraça e vier me ferir com seus dardos.”
     Boa parte dos poemas tem a mesma proposta estética: lida alegoricamente com um tema (normalmente o amoroso) e desdobra-se em imagens metafóricas. A poeta, a partir de uma seleção semântica, intensifica as relações das palavras no plano conotativo. Desta forma, temos a imagística do jogo de cartas em  Jogo em Florença, a do mar em  Poema do lobo-do-mar e em Canção da mulher que virou barco, só para citarmos alguns exemplos. Já no belo Arthur Bispo do Rosário, ela diz “Bordo delírios em panos...sou apenas/ um arquiteto de miragens” como se falasse por ele. Sua obra não tem a quantidade delirante de Bispo, mas podemos dizer que Iracema é também uma arquiteta de imagens, pois seus poemas se dão sempre no plano metafórico, mas com uma linguagem mais enxuta e inquietante.  
    
Todo texto é um dardo certeiro no leitor que se vê obrigado a pensar-sentir os versos lidos – estas “tempestades onde atracar”. Lírica, erótica, delicada, incisiva, ou questionadora, a poesia de Iracema Macedo se faz com a palavra-idéia, dentro da linhagem dos poetas que têm algo dizer e, ao mesmo tempo, ela desdiz as expectativas, poéticas ou existenciais, do mundo. Seus poemas, cuja qualidade não oscila em momento algum do livro, sempre nos surpreendem e nos fustigam, pois trazem a armadilha de “um coração cheio de vespas.” 

Jornal Panorama da Palavra n.11, Rio de Janeiro, junho/julho de 2000. 

 Marcus Vinicius é professor de literatura e poeta.

 

 


 

Brincos de vagalume para a orelha do livro de Iracema Macedo: Lance de dardos

                                                            Tereza Cristina Cunha

      Seja qual for o seu credo, leitor, lance o primeiro dardo no poema “Bilhetinho”, prece singular, onde nada se pede ou agradece. Celebra-se, aí, uma tristeza luxuosa: tristeza de um ser já feliz. Diz, assim, o pequeno bilhete: Quando eu morrer/ mesmo em tristeza devastada/ morrerei da alegria de terem sido possíveis/ o amor a tristeza e a aventura de ser carne / em meio a tantas pedras. Feliz porque foi possível, e não necessário, surgir entre minério e mato, muito depois das lavas terem sido domesticadas em rocha. Luxuosamente infeliz, por desprezar o sossego e aspirar mais do que o calor das fogueiras e a fartura da caça. É que Iracema Macedo sabe que “a aventura da carne” não vai longe, não chega ao belo, se o barco repousar por inteiro. Uma parte dela dá vela ao vento, enquanto a outra ressona, atracada no cais: E velejar também velejarei/ Quando tudo estiver quieto neste porto/ é que o restante do meu  barco/ já partiu e ousa (Velas).  
    
Iracema sabe que poesia e desejo têm um destino comum: são dardos lançados rumo à experiência do obscuro e do ausente, muito mais arremessados pela louca aspiração ao invisível do que impulsionados pelo medo, pela fome, pela nostalgia. No entanto, não é uma ousadia sem temor que lança Iracema em sua aventura, nem lhe falta o respeito pelos obstáculos. Seus dardos também ensinam fugas e “um modo impecável de se abrigar da chuva”: Como se fossem de mármore/ os dardos duram dentro de mim/ perfeitos/ E aprendi com eles a lançar-me/ e aprendi com eles a ter medo/ a me esconder dos nomes/ fugir das luzes fortes/ e da insensatez dos automóveis”( Lance de dardos). Aprender com os dardos, para Iracema, é deter-se espantada, diante do familiar, sem penetrá-lo; não é aprender a devassar penumbras nem a perfurar sombras. Diante das coisas mais óbvias/ estanco/ como se fossem abismos/ Não aprendi a dar os passos decisivos/ Tenho desejado corredores longos na penumbra/ como nos antigos colégios ( A menina fantasma do internato). A impressão que nos dão estes corredores de Iracema é a de que eles não estavam lá, disponíveis para a aventura da carne. É mais provável que eles tenham sido concebidos pela paixão dos dardos que moldam, ao mesmo tempo, o existente que avança e o espaço que ele percorre, como o menino que, ao empurrar um pneu ladeira abaixo(“Happy Dale”), molda margens para o fluxo imperioso de uma alegria sagrada. A alegria é sagrada, diz Iracema, Tu não vês o rito de alegria na planta e mesmo na ferida, tu não vês um rito de alegria nessa ferida com bordas sagradas em tua perna?(“Happy Dale”). Não há dúvida que a tristeza luxuosa plasmada pelos dardos de Iracema é a alegria daqueles que sabem “afiar seus breus”, “aprontar seus escuros”, para “essa fina luz que dança”. Um vagalume? A carne, em meio a tantas pedras?

                          Rio de janeiro - RJ Abril, 2000.

Tereza Cristina Cunha  é  Doutoranda em Ciência da Literatura pela UFRJ. 

 

 

                                              Lance de Dardos: poesia e paixão  

                                                                        Nei Leandro de Castro

       Os três livros anteriores de Iracema Macedo, todos de parceria com Eli Celso e André Vesne, já apontavam para a dimensão de sua poesia, para a beleza e a ousadia dos seus versos, com temas e palavras fortes, pouco usuais na poesia feminina que se escreve no país e, principalmente, na província. É provável que poemas como “Desencanto”, “Mêntruos”, “Clito” e  “Arremedo” tenham melindrado leitores mais sensíveis ou os eternos moralistas de plantão. Mas o talento demonstrado por Iracema Macedo, desde Vale feliz (1991), está  bem acima dessas susceptibilidades. Ela, antes de tudo, é uma guardiã que vela a paixão e a poesia como vela “as coisas da noite”, iluminada de sonho. Iracema ousa e alcança o que ousa, desde os seus vôos iniciais: “Ousarei com a vela ao vento/ e uma outra vela acesa dentro de mim.”
        Na série que dá título ao livro surge com mais vigor e nitidez o arrebatamento amoroso que sempre esteve presente na poesia de Iracema. Nesses poemas parece ter havido uma sublimação do amor fati ( já lembrado por Nonato Gurgel na orelha do livro), ou seja, “o amor que diz sim e que faz de qualquer resultado dos dados uma possibilidade de vida mais bela e mais criadora”. Não por acaso, o amor fati é o tema da dissertação de mestrado que Iracema Macedo fez sobre Nietzsche.  
  
     Em Lance de dardos, esse amor vai ao encontro de um Saturno destronado e lançado à terra dos homens; depois se aproxima de Mercúrio, o alcoviteiro dos deuses, para apaziguar suas dores, ao experimentar o “esplendor da queda e a violência dos abismos.” Saturno se traveste de lobo-do-mar, de anjo, de lobo, e vem vindo, não adianta fugir ou se esconder. A bela poesia de Iracema registra: “Saturno me estende a mão e um cálice/ e é como se a vida chegasse/ silenciosa e indolor como os milagres.” Mais adiante, a poeta volta aos ritos saturnais, confessa que transgride tantas leis que já nem sente, para depois reafirmar o seu doce desvario amoroso: “Ah, Saturno, tu me brindas e me usas como queres nesta noite em que o terror está tão próximo do prazer e a beleza travestiu-se tanto de loucura”.  

        
Saturno também pode ser um anjo decaído, um arcanjo louco, que aprendeu a incendiar os sentidos da poeta, que adivinha  todos os seus desejos sob portas e vestidos. Por isso, só resta pedir “que me faças assim/ ínfima e sagrada/ muito mais pornográfica do que lírica/ muito mais profana do que tântrica/ muito mais vadia do que tua”.  
  
       O amor se esvai? O coração da poeta se cobre de nuvens sombrias, fica cheio de vespas e ela canta: “Um oceano inteiro não basta para calar no meu peito este murmúrio de tantas formas de ardor/ tantas formas de estar banida e só”. Segundo Oscar Wilde, condenado à prisão e à morte pelo amor, os corações foram feitos para ser despedaçados. Talvez valha acrescentar que os pedaços do coração se recompõem como as estrelas-do-mar. Depois de Saturno e seus sortilégios, depois de Mercúrio, que “acende espelhos e inventa silêncios”, o amor fati de Iracema Macedo se volta para o cotidiano dos mortais e sublima o amor imperfeito, num dos mais belos poemas do livro. A paixão está apaziguada, o corpo e a alma suportaram a “ventania dos diabos”, o desenlace vira enlace, o amor se veste de outras vestes. A poesia  é a grande vitoriosa: “Quero o nosso amor a salvo mesmo que sejam vorazes os deuses que ousam matá-lo/ Quero nosso amor humano mesmo que eu tenha medo mesmo que seja frágil nosso amor de porcelana”. Na atual poesia brasileira não há registro de um equilíbrio tão perfeito entre paixão e expressão poética, construção de versos e reconstrução da alma sob aquele antigo e recorrente “fogo que arde sem doer”.

                            Tribuna do Norte, Natal -RN, 05 de Maio de 2000  

Nei Leandro de Castro é escritor e publicitário.

 

 



                                      Dardos que despertam o abismo

                                                                     Pablo Capistrano

     Nunca levei muito a sério esse papo poesia de gênero. Não encontrava motivos razoáveis para acreditar que o sexo interferia na linguagem. Teria de haver algo de orgânico, de palpável, que pudesse alterar a poesia: hormônios, enzimas, formação do cérebro etc. Shakeaspeare nunca me pareceu mais feminino ou masculino que Safo. Aliás masculino e feminino eram adjetivos que eu não conseguia adequar à poesia.  
    
Eis que começo a mudar de opinião, forçado por fatos como, por exemplo, o livro Lance de dardos (Ed. Estúdio 53) de Iracema Macedo. Já conhecia o trabalho de Iracema de dois de seus livros anteriores, feitos em coletivo com Eli Celso e André Vesne, o Vale Feliz de 1991 e Gravuras de 1995. Nesses dois livros, a linguagem de Iracema já existia em potência, para ser bem aristotélico. De 1998 para cá parece que a potência ganhou forma numa linguagem poética madura e incisiva.  
     
Quando estava lendo os poemas referentes ao período de 1999 e 2000, lembrei que Iracema já estava na altura dos vinte e nove anos, em pleno retorno de Saturno ( movimento astrológico que produz grandes alterações na personalidade e na vida das pessoas). Isso me fez pensar num dia em que discutíamos astrologia e que acabei falando para Iracema sobre esse tal retorno de Saturno, passamos boa parte da conversa especulando sobre o tipo de transformação pessoal que esse trânsito poderia causar na vida dela.  
     
Saturno na astrologia representa o aprendizado, muitas vezes doloroso, que o tempo nos impõe. Saturno transformou a linguagem de Iracema, tornou-a  madura, firme, cortante como a foice que Cronos carrega. Foi caminhando por essa maturidade poética que eu compreendi o que as pessoas querem dizer com “poesia feminina”.  
     
Não tem a ver com o lirismo em si, mas com um tipo especificado de lirismo. Geralmente se diz: a Lírica é para mulheres ou homens apaixonados (que não deixam de ser terrivelmente femininos), o épico é para os homens, assim como a filosofia e todos os tipos de formalismo que privilegiam a frieza racional em detrimento do calor das sensações uterinas. Na verdade, acredito que exista um lirismo tipicamente masculino, cheirando a Vinícius e Tomás Antônio Gonzaga e um lirismo tipicamente feminino, anômalo, estranho e assustador, que desconstrói o universo bem ordenado de nossa prosa cotidiana.  
      
Guardadas as devidas ressalvas estilísticas essa  lírica me faz pensar em Ana C. e Hilda Hilst. São tempestades passadas a conta gotas. Criando expectativa e ansiedade. Após cada verso e cada linha a ansiedade da surpresa produz medo e às vezes um risinho nervoso de alívio. É assim que li Iracema. Com um pouco de medo.  
      
Na ansiedade de entender as mulheres nós, homens, construímos imagens as mais díspares: desde a da santa piedosa dos cristãos até a portadora do julgamento severo e implacável dos judeus, que sempre aponta para o nosso interior. Graças a Freud, desistimos de entender esses abismos femininos, cheios de tempestades e represas explodindo, plenos de uma força cinética que desconstrói o mais poderoso fundamento lógico.  
    
Iracema joga nesse time e a força de sua linguagem reside justamente em incomodar nossos abismos com esses dardos estéticos que são seus poemas.Se realmente existir uma lírica feminina, a de Iracema é a do wild side. Aquele lado onde a mulher se mostra completamente nua, com seu universo inquietante, líquido e profundo, como só as filhas de Eva e Lilith sabem ter.  
    
Para aqueles que não acreditam em mim e acham bobagem misturar cromossomos, hormônios e enzimas com literatura, leiam a seguir e prestem atenção no modo como Saturno é desmascarado no auge de seu retorno:  

Saturno veio colher as romãs  
brasas no pomar  
Vivo nua pela casa  
leio cartas, fecho as portas  
Saturno me espia pelas frestas  
me sussurra nomes feios  
vivo cheia de varais  
lampiões e pássaros acesos  
Parece que estou esticada entre dois abismos  
entre dois homens  
entre dois vendavais  
Abro a janela  
encaro o deus 
me vejo nos seus olhos  
me vejo dentro dele  
Quando é que esses olhos irão me acordar?  
Quando é que irão me levar?  
Quieto no seu canto  
Saturno me estende a mão e um cálice  
e é como se a vida chegasse  
silenciosa e indolor  
como os milagres  
    

                          Jornal de Hoje, Natal -RN, 9 de junho de 2000

Pablo Capistrano é poeta e professor de filosofia.

 

 


                                                O discurso do corpo 

                ( Anotações à margem de “Lance de dardos”, de Iracema Macedo)

                                                                 Nelson Patriota

                             “O perigo é nascer, parir, carregar óvulos, útero. ser anônima, inquieta,
                              
inatingível.  
                               arder.  
                            depois murchar, repleta de memória e céu.”
Marize Castro

      Se o corpo é um interlocutor privilegiado da poesia feminina, como ressaltou a poetisa Maria Lúcia Dal Farra ( ver “Seis mulheres em verso”, in Galo n. 6 – julho, 2000) a poesia de Iracema Macedo é, de certo modo, a confirmação da primazia desse discurso, como se nele se cristalizasse a essência do feminino, ou sua possibilidade de explicação.  
    
Os poemas de Lance de dardos, reunião até agora da poesia de Iracema, são pródigos em discursos a partir da consciência do corpo feminino, com suas implicações, desde as mais ricas em sugestões eróticas, até aquelas que parecem só ratificá-las. É verdade que a própria natureza da sexualidade feminina, com seus ciclos exatos, sugerem uma riqueza de elementos que não têm equivalentes no mundo masculino, de sexualidade linear, retilínea, direta, como regra. É compreensível que quando o homem assuma o discurso do corpo, trate-o como um móvel, um meio previamente reconhecido, e não encontre, assim, motivos para interlocuções demoradas, preferindo interrogar o mundo objetivo à sua volta.  
      
Contrastando com essa ‘simplicidade’ de motivos, o universo feminino ostenta uma riqueza de fenômenos de natureza psicossomática de grande força e respondem por boa parte do “segredo feminino”, dos seus motivos inconfessáveis, como o observou o Freud da maturidade. São temas-tabus. Não se prestam à poesia, facilmente. Sua presença, em certos momentos de Lance de dardos, é inconfundível, consignados que são por um caráter de extrema singularidade. É como se Iracema invocasse para si a isenção de Mozart ( para aproveitar uma imagem cunhada por Clarice Lispector em Água viva). A presença desses poemas corporais, descuidadamente disseminados no corpus de Lance de dardos, causa o paradoxal efeito desestabilizador  de um arcaísmo num texto modernista. Ou vice-versa. Mas sendo não um livro, mas um conjunto de livros produzidos ao longo de uma década de poesia, Lance de dardos é um livro pródigo de surpresas e de uma extraordinária riqueza de temas.  

    
Um desses temas é o corpo enquanto móvel de prazer auto-suficiente, narcísico. Como se lê nos poemas “Clito” e “Mênstruos”, por exemplo. No primeiro, Iracema escolhe como designativo de clitóris um ícone que o contradiz: uma abelhinha. Reza o poema: “o corpo sem essa abelhinha ia ser “meio sem gosto/que coisa boa esta carne/ com esta abelhinha dentro/que me leva pelos ares.” O mesmo tom percorre “Mênstruos”, desde seu primeiro verso: “Os lençóis  estão limpos apesar dos meus mênstruos”(...) até o último: “apesar da cólica e do sangue que me molha.”

      
A exposição pública desses temas – a consciência plena da feminilidade- conferem a esses dois temas um lugar à parte na poesia feminina norte-riograndense contemporânea, a despeito das ousadias que animam a poesia de Marize Castro e Carmen Vasconcelos, por exemplo. Mas são ousadias de outra ordem, já assimiladas pelas novas normas da leitura. Não transgridem para além do que a norma sanciona.
      
Onde Iracema parece se compor com o normativo é na poesia amorosa. Mas um elemento de dissonância perturba a ordem habitual do poema. Em “Idílio”, uma hipérbole eleva a temperatura do poema ao paroxismo:

IDÍLIO

Entre notícias antigas e muralhas  
construí com você  
um amor feito alucinadamente de palavras  
Meus versos seduzem os seus  
seus versos aliciam os meus  
Coloquei nossos livros juntos na estante

para que se toquem  
e se amem clandestinamente  
durante as madrugadas  

     O princípio da realidade( e da temporalidade humana) que percorre certos desvãos da poesia de Iracema Macedo cria outro elemento de estranhamento em sua obra. Nas cinco linhas de “Bilhetinho”, isto fica explícito desde o começo.  

BILHETINHO

Quando eu morrer
mesmo em tristeza devastada  
morrerei da alegria de terem sido possíveis:  
o amor a tristeza e a aventura de ser carne  
em meio a tantas pedras
 

     Essa certeza perturbadora da vida como passagem  é reforçada no poema seguinte, sustando a respiração da poetisa, como se lê:

SE OS OUTROS ENVELHECEM

Se os outros envelhecem  
como dizer que não perdi a juventude?  
Tardes como essas houve muitas  
e um vivo fervor de bicicletas e borboletas  
Quem sou eu para ousar essa juventude  
através de um tempo que cansa o rosto do meu pai?  
Quem sou eu para ousar a flor e usá-la nos cabelos?  
Que mulher eu sou?  
O tempo só cria devorando  
e não posso ousar contra as dores do parto
Entre o tempo e o nada  
onde espichar o leite dos meus versos?  

    A consciência de ser um ser- para-a-morte assume um tom de desvario nas obsessivas perguntas de “Carpe diem”, que se lê a seguir:  

CARPE DIEM

Quanto tempo ainda  
entre imbus verdosos  
batatas fritas, coca-cola?  
Quanto tempo entre retalhos, cacos  
detalhes de higiene  
pastas, papel, escovas?  
Quanto tempo entre raízes  
entre livros umbigos figos importados?  
Quanto tempo ainda  
entre tetos paredes assoalhos  
entre taipas palha chão de barro?  
Quanto tempo  
entre passos laços aço?  
Quanto tempo entre silêncio e desperdício  
entre fome e ódio?  
Quanto tempo ainda entre corpos e afagos?  
Quanto tempo  
antes do nunca, antes do mármore  
antes da cinza?  

       Estes temas, porém não esgotam o elenco de motivos que enformam esse extraordinário livro de Iracema Macedo. Um apetite para a paródia e para o diálogo com a grande poesia – Manuel Bandeira, Carlos Drummond, Mallarmé, Clarice Lispector e Rainer Maria Rilke são apenas algumas referências iluminadoras de Lance de dardos – tornam esse livro um momento de extrema modernidade da nossa poesia. É, por essas razões, um livro incontornável. 

                                          Jornal O Galo, Natal- RN . Ano XII- n.10- outubro, 2000.

 

Nelson Patriota é jornalista e editor do Jornal “O Galo”.

 

 

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Um pouco de poesia

                             Affonso Romano de Sant'Anna

                                                     Há poemas montados como ladrilhos  
                                                                        sem  vida e há aqueles que fluem

     Posto que o nome deste suplemento é Prosa e Verso, hoje é dia mais de poesia do que de prosa. E gostaria que vocês lessem simplesmente alguns poemas sem qualquer comentário. Mas para que nos acostumemos aos poucos, e de novo, com a poesia assim exposta, introdutoriamente direi duas ou três coisas.  
      Outro dia recebi um livro de uma poeta de Natal, Iracema Macedo. Não quis ler a orelha. Livro, às vezes, é melhor assim, sobretudo o de poesia, você abre logo lá dentro e  sente num único verso, num único poema, se a criatura tem poesia na veia ou se aprendeu a fazer poesia, ou nem isso. Então, eu nem sabia que Iracema, que tem lá uns trinta anos, era moça letradíssima, tinha até feito a dissertação de mestrado – “Idealismo e amor fati na estética de Nietzsche.” E levei um baque logo no primeiro poema:  

AS VESTES

“Enfrentei furacões com meus vestidos claros  
Quem me vê por aí com esses vestidos  
estampados  
não imagina as grades, os muros  
o chão de cimento que eles tornaram leves  
Não se imagina a escuridão  
que esses vestidos cobrem  
e dentro da escuridão os incêndios que retornam  
cada vez que me dispo  
cada vez que a nudez me liberta dos seus laços ”

        Há poemas, há poetas nos quais a gente sente que estão trabalhando com ladrilhos. Vão colando palavras dificultosamente, numa montagem inteligente, apurada, ao final da qual a gente diz: “É, está bem feito, mas falta vida”. Tanto Mário de Andrade quanto Nelson Rodrigues já diziam que a “inteligência” tem estragado a obra de muitos autores. O próprio Mário, às vezes, foi vítima disto.  
       
Diferentemente, há poemas, há poetas que não guaguejam, mas cujo texto flui e nos conduz. É que nesses casos a poesia está soprando do imponderável. E, às vezes, a coisa pode ser tocantemente simples como nos versos de Iracema:  

DANDARA

“Eu só acreditava em Drummond:  
‘o amor chega tarde’  
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso  
esse que se sabe proibido  
o amor que já se sabe perdido desde o início  
Eu não acreditava no impossível  
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas   
não conhecia o esplendor da queda  
nem a violência dos abismos”  

   Anotem. Não estou fazendo crítica literária. Estou lendo poemas com vocês. Estou lendo socialmente alguns poemas de uma poeta que ninguém conhece, a não ser a tribo dos potiguaras, lá no Rio Grande do Norte. E ao publicá-la aqui estou erguendo um monumento ao poeta desconhecido. Seu livro “Lance de dardos”, que reúne quatro opúsculos publicados desde 1991, vocês não o vão achar em livraria, porque o sistema, quer dizer, não é sistema, sistema é outra coisa, melhor dizer o esquema literário é perverso e nem sempre premia os melhores. Mas não é por isto que não vou citar essa Iracema, que nem conheço e que adoçou meus lábios com poesia.  
      
Outro dia Nei Leandro de Castro, um dos caciques da tribo poética dos potiguaras mandou-me seu bom “Diário íntimo da palavra”. Ele que, entre outras publicações, tem um insólito livro de poesia erótica( “Era uma vez Eros”), enviou-me livros de outros bons poetas lá de Natal. Lembrei-me de outra colônia de bons poetas, lá em Aracaju, que Alberto de Carvalho apresentou-me no CD “A voz, o poema”.  

      
Não, não vou citar nomes de poetas marginalizados. Isto já seria outra crônica.  

      
Outro dia adverti numa entrevista, quando me perguntaram sobre essas três antologias de cem poemas/poetas do século XX, que se deveria fazer uma quarta antologia com o nome de muitos como Iracema. Seria o obelisco ao bom poeta desconhecido.  
       
Não sei se ela vai desenvolver o projeto de uma obra poética. Estou apenas pinçando a poesia que sobrenada nesse arquipélago cultural cheio de ilhas de si mesmas exiladas. Poesia que dá prazer de ler.  

          
E, para terminar, fiquemos de novo com a poesia de Iracema:  

           
 POEMA DO LOBO DO MAR

“Como proteger-me desse lobo que vem vindo  
Em que ilhas poderei me ocultar  
em que barcos ousarei fugir  
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?  

Reúno roupas negras  faca  escudo  
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito  
se ele me despe do jeito que ele quer?  

Como proteger-me dessas ondas  
de prazer que ele traz em suas brisas  
De que vale feri-lo com meus versos  
De que vale me lançar ao mar  

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo  
da vontade que tenho de ficar?”

                   Jornal O Globo. Prosa e Verso, 14 de abril de 2001