Jaime Vaz Brasil nasceu em Bagé, Rio Grande do Sul, perto da fronteira com o Uruguai, em 30 de dezembro de 1962. É médico, psiquiatra e psicoterapeuta, escritor e autor de diversas letras de canções. Dirige o Instituto Fernando Pessoa, onde também atua como Docente Titular do Curso de formação em Psicoterapia, além de ser Consultor e Assessor Psiquiátrico das Faculdades e Escola São Judas Tadeu, em Porto Alegre, RS. Tem vários artigos e ensaios publicadas em antologias, revistas e jornais, além de mais 130 letras de músicas já gravadas. Vencedor de 17 festivais de música, como letrista, e em parceria com diversos compositores. Além desses prêmios, obteve outras 60 premiações secundárias.
Obras publicadas
Clique aqui e ouça poemas de Jaime Vaz Brasi musicados
Caderno
dos espelhos, 1a. ed., Porto Alegre; Editora Tchê,
1993.
Punhais do minuano, 2a. ed., Porto AIegre: WS
Editor, 1998.
Os olhos de Borges, 2a. ed., Porto AIegre: WS
Editor, 1999. Indicado para o Prêmio Açorianos de Literatura, gênero
poesia, em 1997.
Livro dos amores. Porto Alegre: WS Editor, 1999.[Veja
em Lançamentos.]
Gravações (CDs)
Os
olhos de Borges, com apoio do Fumproarte, da Secretaria
Municipal da Cultura de Porto Alegre, 1999. Os poemas do livro homônimo
foram musicados e interpretados por artistas como Felipe EIizalde, FIávio
Vaz Brasil, Hique Gomes, Ivo Fraga, Jerônimo Jardim, Kleiton Ramil,
Leopoldo Rassier, Lúcia Helena, Mário Barbará, Pery Souza, Vinícius Brum e Vitor Ramil, ou declamados por
Armindo Trevisan, Dilan Camargo, José Édil de Lima Alves, Maria
Carpi, Luiz Coronel e Jaime Vaz Brasil.
Milonga do Pendular Encontro [autor das letras], com músicas
de Pery Souza e participações especiais de Kleiton e Kledir e Vitor
Ramil.
IVO FRAGA interpreta Jaime Vaz Brasil - composições
participantes de festivais, na voz de Ivo Fraga, "intérprete
oficial". Muitas parcerias com Ricardo Freire.
Algumas Premiações:
Prêmio
Açorianos,
na categoria Música Especialmente Composta para Teatro-Dança.
Parceria com Flávio Vaz Brasil, para o espetáculo O tempo das pátrias bêbadas, com o Grupo Errantes, em 1995.
Indicado para o Prêmio Açorianos de Literatura, categoria
Livro de Poesia, em 1997, com o livro Os olhos de Borges.
Prêmio Nacional Paulo Sérgio Gusmão,
no gênero Poesia, em 1998, com o poema O amor intestino, integrante
do Livro dos amores.
Clique aqui para ouvir
faixa do cd Os olhos de Borges, Milonga de sombras,
poema musicado por Vitor Ramil.
Interpretação ética da poesia de Jaime Vaz Brasil
Eduardo Jablonski
Graduado em Letras/Inglês (Unilasalle), pós-graduado (especialista) em Inglês (Unilasalle), pós-graduado (especialista) em Ética (Unilasalle), mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), professor na Faculdade Cenecista Nossa Senhora do Anjos (Facensa), de Gravataí e Faculdade Cenecista de Osório (Facos).
Se pensarmos no conceito de poesia de Ezra Pound e de filosofia de Aristóteles, concluiríamos ser impossível a aproximação de ambas. Poesia é palavra rica em significação, disse o ensaísta norte-americano, ou seja, é o mínimo de palavras com o máximo de significado, é a síntese. Já filosofia é a busca de conceituação para, a partir daí, utilizar o resultado na argumentação. Ou seja, apresenta o objetivo contrário da poesia, pois expande as explicações para que apreendamos o conceito.
Apesar disso, acreditamos que Jaime Vaz Brasil, pelo menos em dois livros, Os olhos de Borges e Inventário de Cronos, alcança uma dimensão que talvez poucos na literatura mundial tenham conseguido. Explora as imagens e a entrelinha, despertando na mente do leitor ou solicitando sua contribuição para preencher o não-dito com interpretações de caráter filosófico e ético. Conforme Aristóteles, ética se aproxima da moral. Enquanto esta significa o costume, nossa maneira de pensar e agir, aquela seria a crítica ao costume. Quando criticamos o que fazemos, o que pensamos, o que dizemos, segundo Aristóteles, estamos fazendo ética.
Mas a interpretação, conforme ensinou Hans-George Gadamer, será feita individualmente. Cada pessoa, dependendo de sua experiência de vida ou de leitura, terá, em certo momento da vida, uma visão acerca de uma obra de arte. Para Gadamer, as visões mudam de pessoa para pessoa. Não é provavel nem possível duas pessoas fazerem a mesma leitura interpretativa da mesma obra de arte.
O livro Inventário de Cronos, publicado em 2002, apresenta figuras de linguagem que abordam, refletem, sugerem pensamentos sobre a vida do ser humano partindo de um ponto de apoio: o tempo. A partir dele, ou tendo-o como base, o eu-poético perscruta a vida do homem contemporâneo, investiga seus medos, aspirações, desejos, reivindicações, frustrações.
Em "os disfarces se dissipam / ao sopro das horas / em queda livre" (Brasil, 2002, p. 19), pode-se imaginar que o eu-poético lamenta as máscaras, os papéis exercidos pelas pessoas em situações sociais diferentes. Sabe que o homem é múltiplo, é um na família, outro no trabalho perante os colegas, diferente ainda ante o chefe ou quando está com o amante ou a amante, com a esposa ou marido, com os filhos ou com os vizinhos. É raro sermos naturais, espontâneos, honestos com nossos princípios. Somos artistas e desempenhamos papéis diversos em situações diferentes, mas o tempo trata de retirar a máscara e mostrar o que se esconde por trás. Nesse momento, os mundos desmoronam "em queda livre".
Os homens pensam dominar o mundo, o tempo, a vida e seus mistérios. "Senhor das horas, do mundo / a leste do Éden / cordiano à esquerda / do que é humano"(p. 19). Talvez por isso alguns, arrogantes, acreditem dominar o tempo e as horas. Esse tipo de gente não percebe viver além ou aquém do suposto paraíso e à esquerda do humano. Aliás, não percebem, não sabem que não existem. O tempo domina a tudo e a todos. Ninguém se livra. "Até o planeta / sucumbe ao tempo" (p. 19).
Fernando Pessoa disse que o significado da vida é a própria vida. Há pessoas que se esquecem de aproveitá-la, de construir um porquê moral (dentro do que a nossa civilização concorda sobre isso). Há os que ultrapassam os limites do humano, se entendemos por humano o conjunto de valores morais. São os mesmos que acreditam dominar o tempo, as horas, os dias, as coisas. Não temem o futuro, pois lhes pertence. Desafiam o tempo, cientes de que vencerão. A verdade é que ninguém vence: "um dia hão de dormir / na rede do sempre" (p. 20).
"Quando tudo começou, / ele estava lá" (p. 21). Enfim, não se pode vencer o tempo, domá-lo, contorná-lo, sobrepujá-lo. Esse é um dos motivos por que não há sentido na arrogância. Por que homens se sentem superiores, se todos serão vencidos pelo tempo? Por a fraternidade está tão distante de ser colocada em prática nesse mundo individualista? O tempo é mais velho que tudo. Já existia "na inauguração do mundo, / no discurso implacável do silêncio" (p. 21). Mesmo quando não era, ele era, já tinha corpo, espírito e vencia.
Por tudo isso, o homem deveria entender sua situação e mudar a maneira de ver o mundo. Não há vencedores entre os humanos. Não há perfeitos. "O imperfeito / é normal / no escuro / da linguagem" (p. 21). Até mesmo a linguagem é imperfeita. Aliás, tudo que se origina do homem o é. Por isso não se entende o porquê de os homens não se darem as mãos ao longo do caminho.
Há homens que não mantêm a espinha ereta nas esquinas da vida. O tempo não tem pudor, medo, vergonha. Não se importa com nada, e nada o derrota. "O tempo rasteja / com majestade" (p. 22). Em certos momentos, principalmente para quem consegue vê-lo, ele ensina. Enquanto isso, o homem vive ou suporta a vida fora do seu habitat, que é a própria vida, ou melhor, a correria contemporânea. É por isso que, ironicamente, "o homem [é] / um peixe / entregue ao sol: / as escamas ressecam / ao carinho das horas" (p. 22).
O tempo às vezes parece meio sádico: ou brinca com as pessoas ou simplesmente não as vê, não as conhece, se mostra indiferente. Mesmo assim, "nos acomoda e aprisiona / entre rugas, silêncios e tremores" (p. 23). Ou pratica o mal sem sabê-lo, ou é o próprio homem quem se deixa diminuir, por não se adaptar. Se inteligentes, saberiam descobrir alternativas. Mas quantos têm consciência? Quantos descobrem? Quantos entendem a linguagem?
Especialistas em ecologia afirmam que não basta preservar a vida de uma espécie. É necessário o esforço para manter todos os ecossistemas em bom funcionamento. Só assim se manteria a vida. Afinal, "um homem / é tão importante / quanto um vegetal" (p. 25).
Estamos num mundo de iguais. Apenas o igual é permitido e aceito. Não se abre espaço ao outro, ao diferente. Não se permitem gostos esquisitos. Não se abre espaço ao estranho. As pessoas estendem a mão a quem pensa com as mesmas cores, sabores, sentidos. É por isso que "há um olho torto / no homem que sonha" (p. 25). Todos são esquerdos se não agem e não pensam como a maioria.
Em cada humano vive a possibilidade da ousadia, da viagem, da busca. Embora muitos não tentem, pois preferem não arriscar, poderiam encontrar e fabricar destinos nos caminhos. As trilhas dormem no mais íntimo do ser. Basta encontrá-la: "em cada asa / um céu implícito" (p. 26).
Muitos filósofos são pessimistas quanto ao ser humano. Arthur Schoppenhauer dizia que a saída mais inteligente e sensata seria a de se afastar do homem, da civilização, talvez apenas cercado pelas pessoas que ama e admira. Segundo Michel Montagne, filósofos antigos afirmavam que não é suficiente o desprezo pelo ser humano. Já Thomas Hobbes garantia ser o homem o lobo do homem. Esses são apenas alguns exemplos. Há outros no mesmo sentido. Se analisarmos a História da humanidade, veremos racismo, discriminação, injustiça, mortes, desrespeito, tortura, humilhação em todas as civilizações, em todas as épocas. Ninguém se salva. Como dizia a personagem Shifrah Puah, do livro Inimigos: uma história de amor, do Nobel Isaac Singer, todos somos nazistas. Raros são as irmãs Paulina e Dulce, Gandhi, Cristo, Buda. O normal é a morte, o levar vantagem, a sacanagem, a desonestidade. Por isso temos que nos proteger e aos nossos, pois "o homem reza, / corpo de pedra / que rola morro acima / eternamente" (p. 29). Nossa essência do humano está sempre em queda e talvez nunca se recupere. Obviamente essa é a síntese de uma reflexão neoschopenhauereana.
Abordando a morte, o eu lírico ressalta o amanhã, com a melopéia construída com a aliteração em “s” que “sempre será silêncio” (p. 30). Enfim, as pessoas não costumam cultivar a memória. O amor de ontem, os heróis de ontem, o bondoso de ontem não significam nada hoje, muito menos amanhã. Alguém ou alguma instituição que praticou o bem a certa pessoa por anos pode despertar até a incontrolável raiva se não atender às expectativas apenas uma vez do sempre beneficiado. Não existe gratidão nem memória, ou , quando muito, são artigos raros.
Uma história verídica pode ilustrar. No início de 1990, em cidade do interior do Uruguai, um senhor aposentado de classe média, sem parentes, dediciu abrigar em sua casa todas as crianças de rua da região. Ao contrário do que acontece no Brasil, eram apenas cinco. Ele deu casa, comida, roupas, estudo durante anos. Viviam felizes, até que sumiu um canivete de estimação do senhor, que disse: “-Vocês podem ficar com tudo o que tenho, menos com esse canivete: é a coisa de que mais gosto”. Um dos meninos, ofendido, o matou com o canivete.
Para o eu lírico, “viver é estar cadáver / em estado de adição” (p. 30). A vida pode ser uma luta quase infinda em busca da felicidade, quase sempre nunca encontrada. Mario Quintana lembrou das vezes em que o mataram. A morte em vida é ininterrupta. Os amigos e amantes traem. A vida é injusta em todos os quadrantes. A inveja, a mesquinharia, o interesse decapitam o sabor da luz. Por tudo isso, “viver é estar cadáver / em estado de adição”, porque acumulamos derrotas e mortes dia a dia. E o tempo, irônico, “sorri com os ombros” (p. 30). ele sabe que, no fim, vencerá os pequenos seres na sua eterna disputa para ver quem conseguirá praticar mais mal.
Segundo o eu lírico, “construímos patrimônios / mas não o suficiente / para as pirâmides do além” (p. 37), até porque os bens terrestres não serão usados numa vida futura, se é que existe. Se há outra dimensão, talvez existam outros valores. O senso comum garante que esses valores são a bondade, a amizade, a fraternidade, jóias raras entre os humanos. Mas como não sei da existência do além, apesar das pessoas cheias de certezas, agüentamos e suportamos o aquém.
“Onde / começa outro mundo?” (p. 38), o eu lírico indaga, talvez porque parecemos viver num mundo único, com apenas uma verdade. Não existe o mundo do outro. Tratamos o outro como igual a nós com os mesmos gostos e necessidades. Quem sabe por isso não nos importamos em ouvir música em som elevadíssimo. Afinal, o outro tem os mesmos gostos que eu. Não há outros mundos e outros gostos. Portanto, não se respeita o diferente, porque ele não existe. Todos devem ser brancos, altos, atléticos, bem-vestidos, heterossexuais, ricos, bem-educados, cultos, com nível de escolaridade superior. Qualquer situação diversa não encontra lugar na sociedade do preconceito, ou seja, a nossa.
Para a maioria, “a vida é uma sala de espera” (p. 39). As secretarias municipais de assistência social confirmam isso. Há pessoas - em quantidade impressionantemente grande - que esperam quase tudo do poder público: creche, emprego, roupa, casa, móveis e comida. Muitas vezes, as prefeituras atendem a essas expectativas. Para citar apenas uma exemplo, o PT distribuiu casas populares, comida e dinheiro por intermédio de vários projetos, a necessitados de várias cidades. Os jornais às vezes divulgam essas ações em pequenas notas. Mas quando o executivo municipal deixa de cumprir as doações, muitos se revoltam, pois acham que a responsabilidade sobre suas vidas não é delas, mas do governo. Enfim, para esse tipo de gente, a vida é uma sala de espera.
Segundo o eu lírico, “o tempo / esconde seu bumerangue” (p. 46). A grande maioria não se importa com o tempo. Hoje, talvez vivamos numa era dionisíaca, como diria Nietzsche, pois se dá valor às festas, ao sexo promíscuo, às drogas, à beberragem, ao lazer em excesso. As pessoas não pensam em se precaver, em se proteger. Quando se dão conta, o tempo produtivo se foi rápido, pois o mercado considera velhos os trabalhadores de mais de 40 anos. Assim, o aproveitador da vida se vê desempregado, sem muita experiência, sem dinheiro, sem bens que o protejam na velhice e sai a reclamar da vida e da sorte. O tempo se vinga com seu bumerangue.
O eu lírico diz que “com a mão no bolso / (o tempo) passeia e contempla / as pressas humanas” (p. 50). Parece ironizar, até porque não há motivo para a pressa ou para o estresse: o tempo correrá.
“A surdez do homem / e a surdez do tempo / cantam em coro” (p. 52). Na mesma proporção que o tempo não ouve e segue indefinidamente, o homem não ouve e segue praticando maldades contra o outro e contra si. É por isso que Schopenhauer disse que os sábios precisam repetir as mesmas idéias de tempos em tempos. Talvez alguém entre milhões se ilumine.
O eu lírico enfatiza: “O mármore / não grita” (p. 52) Se não reclama, podemos fazer qualquer coisa com ele. O oposto seria o ser humano, que se queixa. Portanto, não deveríamos fazer o que desejássemos com ele, mas, sim, respeitá-lo como indivíduo. O ser humano, porém, não respeita o outro. Por isso, rouba, mata, engana, sacaneia, violenta, estupra, agride.
Se “estar vivo / é acaso” (p. 62), ter nascido também o é? A vida é acaso? Tudo isso pouco importa. O relevante é que as pessoas não deveriam confiar os problemas apenas em Deus, até porque ele talvez nem exista. Talvez tudo seja fruto do acaso. As pessoas devem enfrentar e resolver as dificuldades ou desviar delas, como queria Aristóteles.
“O mundo: / palavra humana / para o que sabemos” (p. 63). Muito não sabemos, principalmente sobre o outro. Talvez por isso não haja respeito pelo semelhante. As pessoas ofendem umas às outras. Invadem os espaços, destroem os sonhos uns dos outros, humilham-se. É o desrespeito.
Segundo o eu lírico, “os engenhos do tempo / sangram a pedra dos séculos” (p. 69). Ou seja, o tempo, a prática, a experiência, a dedicação, formam a pessoa. Se não é perito numa função, pode sê-lo com os anos de exercício. Quanto mais tempo alguém se dedicar a algo, conforme Emerson, tanto melhor será. Esse é o motivo principal porque os orientais, no entender de Confúcio, devem respeitar os mais velhos por causa da autoridade da experiência. E também por isso não se compreende o porquê de os brasileiros concluírem que homens e mulheres acima de 40 anos não servem mais para o trabalho, não interessam a experiência nem a qualificação deles.
“Caminhante / emigra de um ponto a outro / tonto” (p. 71). Talvez o sentir-se bem esteja dentro de cada um, não fora. É mais importante estar bem consigo do que adaptar-se a uma região. Mas quantos têm essa condição?
No entender do eu lírico, “tudo o que pulsa ou respira / é apenas / ciclo” (p. 71). São os ciclos, como tudo na vida do homem e da natureza, que nascem, amadurecem, se desenvolvem, decaem e morrem. Tudo a que nos dedicamos terá o mesmo fim. Também por isso não é inteligente nem numanitário agir como agimos. Às vezes, a pessoa que humilhamos ou desprezamos hoje pode ser superior a nós. O deslize cometido por alguém pode ser o mesmo que praticamos anos depois.
Para o eu lírico, “no tempo / o passado se desfoca” (p. 75). Portanto, a pessoa não precisa punir-se a vida toda pelos erros do passado. Se a pessoa se arrependeu e se regenerou, os equívocos de ontem pouco importam, até porque a maioria dos familiares e amigos talvez nem se lembrem. Autoperdoar-se resolve muitos problemas.
Ética em Os olhos de Borges
O eu lírico ressalta “o olho visto de fora, / olho em si, uma elipse” (Brasil, 1996, p. 17). Se é visto de fora, só se vê a aparência, não a alma, a essência. No relacionamento pessoal, também se dá importância às aparências. Julga-se pelo calçado, a roupa, o visual do esposo ou da esposa, o carro. Poucos percebem que não se é melhor ou pior por se vestir bem ou mal, ganhar bem ou mal, ter bom ou mal emprego. A qualidade pessoal vai muito além disso.
Se “o mundo: / forma nenhuma”, isso pode significar que a vida apresenta infinitos tipos de desafios. O ser humano deve estar preparado não só para ultrapassar os obstáculos, como também para se adaptar. Apenas os mais adaptáveis sobrevivem.
O eu lírico enfatiza que “o planeta é virgem” (p. 20), mas com certeza não apenas geograficamente. O ser humano viaja em todas as experiências, no percurso de uma amizade ou de relacionamento amoroso, na compreensão de uma filosofia ou de novo idioma, na aprendizagem de um ofício ou de um esporte. Enfim, o mundo é aventura.
“Quando a um toque a palavra / sai do estado de coisa?” (p.23) Se composta por grande poeta - Jorge Luis Borges ou Jaime Vaz Brasil - a palavra se transforma. O livro não é mais obra em versos, mas espaço por meio do qual ingressamos em outro mundo não específico, mas variado. Afinal, cada um interpreta conforme sua expriência de vida, disse Gadamer.
Quando o eu lírico lamenta “por que a folha não chora / a sua alvura perdida” (p. 25), parece ironizar. Abre margem à possível reflexão de confecção literária. Muitos escritores não têm responsabilidade para com o enriquecimento da arte literária. Não estudam técnicas e recursos estilísticos, não lêem os melhores, não praticam à exaustão, não reescrevem. Por tudo isso, a folha realmente deveria lamentar a alvura perdia.
“Esconder-se é um dos modos / de se mostrar, sem alarde” (p. 35). Talvez por causa de elevada quantidade de palestras motivacionais, quando os entendidos ressaltam a importância de se fazer marketing pessoal, muitos se preocupam por mostrar o trabalho e marcar o nome. Mas, às vezes, essas atitudes não são bem-recebidas: as pessoas parecem não gostar de quem se expõe. Preferem o humilde, o reservado.
“Noite a noite, / o mundo desbota” (p. 38), pelo acúmulo de maldades, feitas pelo homem para o homem. Embora haja evolução tecno-científica, o ser humano é o mesmo desde épocas imemoriais e está sempre contribuindo para a destruição do outro.
O eu lírico lembra a coleção de vazios (p. 41). Afinal, a vida é feita de derrotas. Em todas as áreas, em todos os momentos, o homem sofre, perde, é humilhado. Luta com desespero para conseguir avançar alguns passos. Na maioria das vezes, retrocede.
Segundo o eu lírico, “as sombras que me rodeiam / virão um dia cegar-me” (p. 42). Talvez todos cultivem sombras, medos, angústias. Se não souberem como lidar com essas dificuldades, e só o tempo ensina, elas podem tornar insuportável a existência, e geralmente vencem porque são poucos os que conseguem se defender.
“Quantas cores / pulsarão mais vivas / no olhar dos cegos?” (p. 47) É certo que o ser humano dá valor ao que não possui. Criticando essa atitude, Montaigne disse que, para sermos felizes, basta mudar a maneira de ver o mundo. Devemos, portanto, valorizar nossas conquistas, nossa situação, nossas qualidades.
O eu lírico enfatiza “um sol assassinado” (p. 52). Na vida, a inveja é tão forte e anda tão presente, que sempre alguém tenta derrubar o destaque, assassinar o Sol. Quem não sente inveja e tem qualidades acima da média precisa defender-se de todos, até dos amigos. Schopenhauer alertou que devemos esconder nossas qualidades até dos grandes amigos.
Há pessoas que mergulham em palavras, falam bem mais do que devem e por isso dizem bobagem. Não aprenderam com a sabedoria oriental (Confúcio), para quem as pessoas precisam cultivar atos exemplares e não falar em excesso. O eu lírico alerta para o “beber em água-palavra / o seu mais denso afogar-se”.
A cada manhã, temos a oportunidade de enfrentar o mundo e suas misérias. São mais 24h para o sofrimento, o trabalho árduo, o cansaço, a insatisfação de não alcançar os objetivos, as desilusões, a inveja alheia. Além de tudo isso, envelhecemos. Por isso, “cada manhã é um beijo / dum abutre vagaroso” (p. 62), que parece desejar nossa angústria.
Apenas 25% das pessoas entendem o que lêem, dizem as pesquisas. Imagina entenderem a entrelinha, o não-dito. Poucos devem se dar conta dos subentendidos, dos mal-intencionados. A vida parece feita de ingenuidade. “Quem veria / a curva das entrelinhas (?)” (p. 69).
“Que mão oculta / gira o globo em busca de frestas” (p. 74), a de ambiciosos, que estuda e procura a forma de ingressar no mundo, de descobrir espaços. Há pessoas inconformadas e ambiciosas que estudam as possibilidades de vitória. Também há os acomodados que apenas desejam viver em paz.
“Uma faca é mais que aço” (p. 81) representa o espírito morto quando em vias de matar. Simboliza a nunca diminuída maldade humana, a inveja, a vingança, o preconceito. Enfim, o homem nunca se livrará da faca do homem. Estamos à mercê do ódio do outro. Sucumbiremos ao nos destruir mutuamente.
O eu lírico lamenta que “o pouco é mais que motivo / no mundo desses viventes” (p. 81). Mata-se por nada, por motivo fútil. Odeia-se por falta de cumprimento, por um olhar. Demite-se por atraso de minutos, por falta de simpatia. Trai-se por prazeres efêmeros.
“Definitovo perigo: / existir” (p. 101). O eu lírico está de acordo com inúmeros filósofos, segundo os quais devemos nos proteger principalmente dos semelhantes.
Enfim, Jaime Vaz Brasil, além de perito conhecedor do fazer poético, pode contribuir para a reflexão da filosofia ética em nossa sociedade. O leitor, se também poeta, conseguirá viajar pela vida que cada um desses versos carrega.
Referências literárias
ARISTÓTELES. Ética. São Paulo: Ediouro, s/d.
BRASIL, Jaime Vaz. Inventário de Cronos. Porto Alegre: WS, 2002.
___. Os olhos de Borges. Porto Alegre: WS, 1996.
CONFÚCIO. Analectos. São Paulo: Martins Fontes, 2000.
EMERSON, Ralph Waldo. A conduta para a vida. São Paulo: Martin Claret, 2003.
GADAMER, Hans-George. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1987.
MONTAIGNE, Michel. Ensaios I. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
___. Ensaios II. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
NIETZSCHE. São Paulo: Nova Cultural, 1996.
POUND, Ezra. ABC da literatura. 9. ed.São Paulo: Cultrix, 1990.
___. A arte da poesia. 10. ed.São Paulo: Cultrix, 1995.
QUINTANA, Mario. Antologia poética. Porto Alegre: L&PM, 1997.
SCHOPENHAUER, Arthur. Aforismos sobre filosofia de vida. Rio de Janeiro: Ediouro, 1991.
SINGER, Isaac. Inimigos: uma história de amor. Porto Alegre, L&PM, 2001.
Mais informações sobre Jaime Vaz Brasil em http://www.jaimevazbrasil.art.br. .
Instituto Fernando Pessoa: http://www.institutofernandopessoa.com.br .
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