|
TERMO
DE POSSE
Enche
a boca, ó mortal
e grita:
Essa
terra é minha!
Toma
a si um punhado
mãos
em concha
e
denuncia o poder de algum registro.
A
vista se estende ampla
dos
arames alinhados.
Moirão
trama trama trama...
Os
olhos plenos
de verde
ganham
a extensão do território.
Abre
mais os olhos, mortal!
Ó
mortal onipotente!
Ao
caíres em si quebrarás por certo
o
nariz erguido.
Ó
vetusto equivocado!
Vais
morrer em pouco
e
só isso é verdade.
Ela
ficará
solene,
eterna, impassível.
A
terra ficará. Só a terra ficará.
Limpa
as orelhas, mortal
que
o tempo há muito já disse:
É
a terra, e não o homem
quem
assina o termo de posse.
MOTIM
À BORDO
Ó
silêncio dos naufrágios,
vê se troca de porto.
Ó
gesto comedido e pacato
armaduras de dentro
juntem
as tralhas e os entraves.
(Soube
que vão
catapultá-los para lon ge).
Ó
olhar sem expressão alguma: foral!
Dualidades
de abismo
execráveis martírios
banidos
serão para todo sempre amém.
Eis
que me reinvento
dia
a dia
o
mesmo homem há milhões de anos.
Despejados
serão os receios
submersos.
Quero
sair à rua
e parar o trânsito aos gritos:
Motim
à bordo! Motim à bordo!

ESCRITOS
NO MURO FLUTUANTE
Um
vento leve em meu corpo
ergueu-me um pouco do piso.
(O
real do imaginário
coração, já não diviso).
A
mentira e a verdade
são
vizinhas e distantes
erguendo
suas pandorgas
sobre
um muro flutuante.
(Alaridos
de guerrilha,
mansidões de peregrino,
cada
verso tem o peso
de um planador sem destino
voltando
aos poucos à pista
que
talvez ainda exista).
Do
concreto ao intangível
o
poema vai ao muro
pleno
de pampa e de mundo,
solto
às linhas do futuro.
A
caminho da fronteira
o
silêncio se conjuga
enquanto
cerra ou transpassa
as portas de cada fuga.
(Olhos
fechados, me escuto
e ouço por dentro um menino
dizendo
que em cada verso
há
um planador sem destino
Voltando
aos poucos à pista
que
talvez ainda exista).
A
ESQUINA DOS DIAS
Ao
tempo, não cabem sobras
Em
seu giro dissipante.
lambe
a sombra indescritível
que
seu curso impõe, distante.
(Haverá
quem nos relógios
assista
- e talvez aplauda -
ponteiros
correndo em círculo,
a
morder a própria cauda.)
E
brota aos poucos o traço
de
um fio que avança e costuma
levar
os raios do tempo
ao
centro de parte nenhuma.
Cada
segundo que surge
cai
no somar-se da horas.
(O
tempo é só uma hipótese
que
nos alcança e devora.)
Os
calendários humanos
no
constante desfolhar-se
emprestam
sempre um futuro
que
o corpo não nos ressarce.
O
tempo outorga poderes
e
os retira, a seu contento.
(Modela
o barro das horas
à
mão aflita dos ventos).
A
ele, não cabem sobras.
É
o todo e cada fatia.
das
horas que sempre fogem
dobrando
a esquina dos dias.

DEITO
MEU CANTO VENCIDO
Deito
meu canto vencido
à
constância do silêncio
aos
rebanhos pastejantes
e
à mesa rosa do povo.
Ao
barco preso às areias
aos
mapas do que é secreto
ao
concreto dos olhares
e
ao riso ondulante das flautas.
Deito
meu canto vencido
ao
cansaço das estátuas
ao
sol contido nos pólos
e
ao gelo interno dos homens.
Ao
sono duro da morte
aos
sapatos do abandono
e
ao caderno dos espelhos
aberto
frente a meu rosto.
Deito
meu canto vencido
à
voz áspera dos mares
ao
trigo morto de sede
e
ao sangue aberto aos porões.
Ao
louco de cada porto
à
implosão dos conceitos
aos
ratos, aos vírus e a tudo
meu
canto vencido e mudo.
OS
GALOPES INSEREM TAMBORES
O
cavalo que dispara
na terra quase não pisa
e manobras flutuantes
por instantes realiza.
Se
propaga pelo campo
o grave som que desfere:
enquanto corre nos pastos
tambores amplos insere.
E
o solo corre por baixo
em seu contrário sentido
enquanto abre seus poros
a esponjar os ruídos.
A
distância pelo tempo
quando se prende nas patas
compele as fibras em bloco
à conjunção mais exata.
O
cavalo que dispara
cria ligeiros compassos:
quatro tempos num só tempo
se combinam em seus passos.
A
DUPLA FACE DO SILÊNCIO
a Marcelo Blaya
A
dupla face do silêncio
com olhos mudos embala
a leve rede que enleva
as impressões de quem cala.
Quem
adormece por ela
torna seus verbos tão nulos
que em si mesmo descobre
ganas de eterno casulo.
À
dupla face do silêncio
ao mesmo tempo condensa
o mais vazio dos momentos
e a asserções de quem pensa.
E
se percebe no espelho
de um constante esquivar-se
em cada face, mais duas
a refletir seus disfarces.
A
dupla face do silêncio
é dúbia forma que aceita
um viajar-se por dentro
ou uma fuga perfeita.
E
no instante que surge
com mãos ocultas, reata
o encistar-se que impede
a tradução mais exata.
CERCANIAS
DE JUNHO
A Paulo Knapp
Como
quem chega do fundo
das tempestades do mundo
Como
quem chega do gelo
e nos impõe conhecê-lo
O
inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.
Com
a fronte enrijecida
com sua febre invertida
Curvado
ao peso dos anos
e com seu jeito aragano
O
inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.
O
novo tempo das cheias
se espraia livre nas veias
Desse
velho caminhante
de olhar frio e distante
E
vai constrito em seu posto
ao corpo grave de agosto.
É
maneira condizente
enfrentá-lo a mate quente.
Com
seu poncho largo e denso
com passos duros e extensos
Deita
geada nos pastos
de seus caminhos tão gastos.
O
inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.
Mas
quem desenha o contorno
de seu eterno retorno?
Traz
Minuanos de escolta
a ares de quem sempre volta.
E
por seu lento pealo
nos cabe sempre abraçá-lo
depois
que chega do fundo
das tempestades do mundo.
O
inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.

O
TEMPO DAS PÁTRIAS BÊBADAS
Pelas
esquinas um encontro súbito
encontro logo um destino concreto.
Se vê nos muros um silêncio límpido
gritar socorro por seu modo quieto.
E nos porões o batalhão dos sádicos
repassa um filme de dez mil reprises,
reinventando os artefatos sórdidos
para que a dor melhor se realize.
Esporas
negras sobre um lombo atômico
marcam nas almas suas faces duras.
Quem mais enxerga nesse tempo áspero
possui nos olhos uma venda escura.
Sobre
o país cai a miséria crítica
e se derrama longe dos tiranos.
Vão pelo espaço pássaros metálicos
a vomitar rebeldes no oceano.
Dentro dos lares dessa gente esquálida
televisores cegos-surdos-mudos
mostram um mundo colorido e lépido,
ganham dinheiro e força atrás do escudo.
E
proliferam pelas pátrias bêbadas
um turbilhão de mórbidas clausuras.
Quem mais enxerga nesse tempo bárbaro
possui nos olhos uma venda escura.
Homens
de pedra inventando pélagos
a espalhar sementes de vazio
fazem canteiros das esperas túrbidas
onde a verdade cresce por desvios.
Os ditadores com poderes mágicos
criam sumiços num simples contato,
e da cartolas tiram coelhos cáusticos
roendo o rosto do povo pacato.
Vai
o espelho das espadas múltiplas
a refletir a sombra das torturas.
Quem mais enxerga nesse tempo ácido
possui nos olhos uma venda escura.
Muitos
viventes num estranho cálice
bebendo lentos goles de agonia
sorvem as normas no aço da lâmina
que nas gargantas forjam afasias.
E nas paredes, por manobras gélidas,
vão se calando vozes insurgentes.
Depois dos tiros desce um turbo cálido
que uma elegia escreve mansamente.

OS
VERSEJANTES
Eles
navegam sobre o silêncio,
se auto-escutam em seus exílios.
(modelam verbos e temas
nas argilas do poema).
Os
versejantes
hibernam antes
do nascimento
de seus rebentos
e quando acordam, aflitos,
nos acenam seus escritos.
Enquanto
criam, perdem maneiras.
Cerram as portas de seus redutos.
(E a folha só não descreve
o seu regresso mais leve).
Os
versejantes
-itinerantes-
com almas nuas
saem às ruas
e recolhem nas retinas
timbre de cada esquina.
Quando
refazem seu recolher-se
explodem mitos, abrem porteira.
(E às perguntas nem feitas
querem respostas perfeitas).
os
versejantes
são diletantes
que amam sedentos
o seu intento
de buscar, horas a fio,
a textura do vazio.
|