Jaime Vaz Brasil - poemas I

 

 

 

    

TERMO DE POSSE

Enche a boca, ó mortal
e grita:  
Essa terra é minha!  

Toma a si um punhado  
mãos em concha  
e denuncia o poder de algum registro.

A vista se estende ampla  
dos arames alinhados.  

Moirão trama trama trama...  

Os olhos plenos
de verde  
ganham a extensão do território.  

Abre mais os olhos, mortal!  
Ó mortal onipotente!  
Ao caíres em si quebrarás por certo  
o nariz erguido.  

Ó vetusto equivocado!  
Vais morrer em pouco  
e só isso é verdade.  

Ela ficará  
solene, eterna, impassível.  

A terra ficará. Só a terra ficará.

Limpa as orelhas, mortal  
que o tempo há muito já disse:  

É a terra, e não o homem  
quem assina o termo de posse.  

 

 

 

MOTIM À BORDO  

Ó silêncio dos naufrágios, 
vê se troca de porto.  

Ó gesto comedido e pacato
armaduras de dentro  
juntem as tralhas e os entraves.  

(Soube que vão 
catapultá-los para lon        ge).  

Ó olhar sem expressão alguma: foral!  

Dualidades de abismo  
execráveis martírios  
banidos serão para todo sempre amém.  

Eis que me reinvento  
dia a dia  
o mesmo homem há milhões de anos.  

Despejados serão os receios
submersos.  

Quero sair à rua
e parar o trânsito aos gritos:  

Motim à bordo! Motim à bordo!  

 

 

 


ESCRITOS NO MURO FLUTUANTE  


Um vento leve em meu corpo
 ergueu-me um pouco do piso.

(O real do imaginário
coração, já não diviso).  

A mentira e a verdade  
são vizinhas e distantes  

erguendo suas pandorgas  
sobre um muro flutuante.  

(Alaridos de guerrilha,
mansidões de peregrino,

cada verso tem o peso 
de um planador sem destino  

voltando aos poucos à pista  
que talvez ainda exista).  

Do concreto ao intangível  
o poema vai ao muro  

pleno de pampa e de mundo,  
solto às linhas do futuro.  

A caminho da fronteira  
o silêncio se conjuga  

enquanto cerra ou transpassa 
as portas de cada fuga.  

(Olhos fechados, me escuto
e ouço por dentro um menino  

dizendo que em cada verso  
há um planador sem destino  

Voltando aos poucos à pista  
que talvez ainda exista).  

 

 

 

A ESQUINA DOS DIAS

Ao tempo, não cabem sobras  
Em seu giro dissipante.  

lambe a sombra indescritível  
que seu curso impõe, distante.  

(Haverá quem nos relógios
 assista - e talvez aplauda -  

ponteiros correndo em círculo,  
a morder a própria cauda.)  

E brota aos poucos o traço  
de um fio que avança e costuma  

levar os raios do tempo  
ao centro de parte nenhuma.  

Cada segundo que surge
cai no somar-se da horas.  

(O tempo é só uma hipótese  
que nos alcança e devora.)  

Os calendários humanos  
no constante desfolhar-se  

emprestam sempre um futuro  
que o corpo não nos ressarce.  

O tempo outorga poderes  
e os retira, a seu contento.  

(Modela o barro das horas  
à mão aflita dos ventos).  

A ele, não cabem sobras.  
É o todo e cada fatia.  

das horas que sempre fogem  
dobrando a esquina dos dias.  

 

 

 


DEITO MEU CANTO VENCIDO  

 

Deito meu canto vencido  
à constância do silêncio  

aos rebanhos pastejantes  
e à mesa rosa do povo.  

Ao barco preso às areias  
aos mapas do que é secreto

ao concreto dos olhares  
e ao riso ondulante das flautas.  

Deito meu canto vencido  
ao cansaço das estátuas  

ao sol contido nos pólos
e ao gelo interno dos homens.  

Ao sono duro da morte  
aos sapatos do abandono  

e ao caderno dos espelhos  
aberto frente a meu rosto.  

Deito meu canto vencido  
à voz áspera dos mares  

ao trigo morto de sede  
e ao sangue aberto aos porões.  

Ao louco de cada porto  
à implosão dos conceitos  

aos ratos, aos vírus e a tudo  
meu canto vencido e mudo.

 

   

 

OS GALOPES INSEREM TAMBORES

 

O cavalo que dispara
na terra quase não pisa
e manobras flutuantes
por instantes realiza.

Se propaga pelo campo
o grave som que desfere:
enquanto corre nos pastos 
tambores amplos insere.

E o solo corre por baixo
em seu contrário sentido
enquanto abre seus poros
a esponjar os ruídos.

A distância pelo tempo
quando se prende nas patas
compele as fibras em bloco
à conjunção mais exata.

O cavalo que dispara
cria ligeiros compassos:
quatro tempos num só tempo
se combinam em seus passos.

 

 

 

 

A DUPLA FACE DO SILÊNCIO
                        
a Marcelo Blaya

 

A dupla face do silêncio
com olhos mudos embala
a leve rede que enleva

as impressões de quem cala.

Quem adormece por ela
torna seus verbos tão nulos
que em si mesmo descobre
ganas de eterno casulo.

À dupla face do silêncio
ao mesmo tempo condensa
o mais vazio dos momentos 
e a asserções de quem pensa.

E se percebe no espelho
de um constante esquivar-se 
em cada face, mais duas
a refletir seus disfarces.

A dupla face do silêncio
é dúbia forma que aceita
um viajar-se por dentro
ou uma fuga perfeita.

E no instante que surge
com mãos ocultas, reata
o encistar-se que impede
a tradução mais exata.

 

 

 

CERCANIAS DE JUNHO
               
A Paulo Knapp

 

Como quem chega do fundo
das tempestades do mundo

Como quem chega do gelo
e nos impõe conhecê-lo

O inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.

Com a fronte enrijecida
com sua febre invertida

Curvado ao peso dos anos
e com seu jeito aragano

O inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.

O novo tempo das cheias
se espraia livre nas veias

Desse velho caminhante
de olhar frio e distante

E vai constrito em seu posto
ao corpo grave de agosto.

É maneira condizente
enfrentá-lo a mate quente.

Com seu poncho largo e denso
com passos duros e extensos

Deita geada nos pastos
de seus caminhos tão gastos.

O inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.

Mas quem desenha o contorno 
de seu eterno retorno?

Traz Minuanos de escolta
a ares de quem sempre volta.

E por seu lento pealo
nos cabe sempre abraçá-lo

depois que chega do fundo
das tempestades do mundo.

O inverno ergue o punho
nas cercanias de junho.

 

 


O TEMPO DAS PÁTRIAS BÊBADAS

Pelas esquinas um encontro súbito
encontro logo um destino concreto.
Se vê nos muros um silêncio límpido
gritar socorro por seu modo quieto.
E nos porões o batalhão dos sádicos
repassa um filme de dez mil reprises,
reinventando os artefatos sórdidos
para que a dor melhor se realize.

Esporas negras sobre um lombo atômico
marcam nas almas suas faces duras.
Quem mais enxerga nesse tempo áspero
possui nos olhos uma venda escura.

Sobre o país cai a miséria crítica
e se derrama longe dos tiranos.
Vão pelo espaço pássaros metálicos
a vomitar rebeldes no oceano.
Dentro dos lares dessa gente esquálida
televisores cegos-surdos-mudos
mostram um mundo colorido e lépido,
ganham dinheiro e força atrás do escudo.

E proliferam pelas pátrias bêbadas
um turbilhão de mórbidas clausuras.
Quem mais enxerga nesse tempo bárbaro
possui nos olhos uma venda escura.

Homens de pedra inventando pélagos
a espalhar sementes de vazio
fazem canteiros das esperas túrbidas
onde a verdade cresce por desvios.
Os ditadores com poderes mágicos
criam sumiços num simples contato,
e da cartolas tiram coelhos cáusticos
roendo o rosto do povo pacato.

Vai o espelho das espadas múltiplas
a refletir a sombra das torturas.
Quem mais enxerga nesse tempo ácido
possui nos olhos uma venda escura.

Muitos viventes num estranho cálice
bebendo lentos goles de agonia
sorvem as normas no aço da lâmina
que nas gargantas forjam afasias.
E nas paredes, por manobras gélidas,
vão se calando vozes insurgentes.
Depois dos tiros desce um turbo cálido
que uma elegia escreve mansamente.

 

 


OS VERSEJANTES

 

Eles navegam sobre o silêncio,
se auto-escutam em seus exílios.
(modelam verbos e temas 
nas argilas do poema).

Os versejantes
hibernam antes 
do nascimento 
de seus rebentos
e quando acordam, aflitos,
nos acenam seus escritos.

Enquanto criam, perdem maneiras.
Cerram as portas de seus redutos.
(E a folha só não descreve 
o seu regresso mais leve).

Os versejantes
-itinerantes-
com almas nuas
saem às ruas
e recolhem nas retinas
timbre de cada esquina.

Quando refazem seu recolher-se 
explodem mitos, abrem porteira.
(E às perguntas nem feitas 
querem respostas perfeitas).

os versejantes
são diletantes 
que amam sedentos
o seu intento
de buscar, horas a fio, 
a textura do vazio.