Jaime Vaz Brasil - poemas II

 

           

 

    

DE HOMERO A BORGES

I.  

A paralela dos olhos
amarra o fio
do poema.  

Desliga o tempo
e costura
as paredes do silêncio.  

(Quando, a um toque, a palavra
 sai do estado de coisa)  

II.  

De Homero a Borges, a verve
 arma pontes e assombros  

na alma líquida e pétrea
 dos livros, lidos ou não.  

(Margem de rio ou página
 dorme na foz do poema?)  

III.  

Densa,
a queda ao sol do silêncio 
dissolve em sangue a corrente  

por onde as veias do verbo
 morridas em pedras, vivem.  

(Por que a folha não chora
 a sua alvura perdida?)  

IV.

Cada idéia que se move
 é uma ave abatida  

que vai ao chão dos retângulos
na funda espera das folhas.  

(Como cantá-las ao dia 
que teima em olhos abertos?)  

V.

Os dois, a seu modo e hora
escancaram suas vistas  
enquanto a boca del viento 
morde as pálpebras da noite.  

(Quem disse que dentro deles
 as manhãs não amanhecem?)  

VI.

De Homem a Borges, a verve
por si desinventa a morte  

e, a termo, sopra outro corpo
às cavidades do sono.  

(Onde o parto dos escritos
não nascido pelos olhos?)  

VII. 

Preso ao cofre das amêndoas
 o poema pede um corpo  

que enflore o estado de planta
ou ganhe alturas de pássaro.  

(Por que uma chave apenas
 pode abrir tantos viveiros?)  

VIII.  

Semicerrados, os olhos
plasmam o verso, en su casa.  

O poema é um tropeço
nos móveis da sala escura.  

(Em que degrau se revezam
as escadas do ciclone?)  

IX.  

Os dois, a seu modo e hora
beijam a insônia do mundo  

feridos de luz y espanto
nas latitudes da sombra.  

(Onde os porões anoitecem
ao temporal das metáforas?)  

X.  

De Homero a Borges, a verve
põe febre en la mano aflita.  

que escava o ar e em seguida
abre a caixa dos relâmpagos.  

 

 

 

O DUPLO  

I.

O espelho de duplo fundo
devolve outro ser à casa.  

(Não a imagem, inerte;
mas outro, vivo de carnes).  

Se o dobro de si mesmo
- espelho, sombra, semblante -

reduz ao meio os temores
ou, sem querer, os duplica?  

Quando o dia acende um palco
nos telhados do imprevisto  

a queda é sentida em dobro
ou a metade amortece?  

(Mas qual dos dois é
composto às tintas de personagem?)  

II.

A casa de cada frase
alberga o duplo, ao porão.  

(Ele, à margem das palavras
afirma, ao tempo que nega).  

O acontecer a um deles 
toca ao outro, de algum modo.  

Repelem, a quatro mãos
o imobilismo possível.  

Desenham passos de estátua
sobre a quietude aparente.  

(Esconder-se é um dos modos
de se mostrar, sem alardes).  

Como se argilam as formas
de um corpo que não existe?  

III.  

Ao retrato da parede
o tempo morre, amarelo.  

A sombra repete o gesto
e o passo compõe um novo.  

Criá-lo assim, tão igual,
apruma o melhor disfarce:  

ao refugiar-se no outro
ele, em si, sai em retiro.  

E anda, em seu corpo alheio
nascido de sono e sombra.  

preso à mão de um norte exausto,
atravessado de mapas.  

Quem deles escreve o morte
que inventa o verbo indormido?  

IV.  

Ao outro ele, as coisas
se sucedem, repetidas.  

E coibi-las não cabe
nem é desejo de ambos.  

O corpo, em imitação
entrega o que lhe confere.  

a sombra que, num segundo
devolve o gestos ao primeiro.  

(E assim se perpetua
o ciclo do ser-no-outro

como quem, seu papel,
ao próprio eu mimetiza).  

Mas qual dos dois se despede
quando a morte faz a cama?  

 

 

 

MILONGA DE SOMBRAS  

(As Graduais Sombras
 em Jorge Luiz Borges)  

As sombras que me rodeiam
virão um dia cegar-me.

 Seus vultos lentos e escuros
 incitam mudos alarmes.  

O vidro das ampulhetas
espelha as sombras que sinto.  

na luz que os poucos se afasta
perdida em meus labirintos.  

A mão que empunha o destino
e entre as sombras passeia  

derrama sobre meus olhos
negros punhados de areia.  

Um tigre manso e selvagem
nas cores forja o oposto  

enquanto garras de sombra
insere contra meu rosto.  

A noite áspera e longa
põe vendas em minhas vistas  

e em suas sombras perenes
me aflige e me conquista.  

A mão que empunha o destino
punhais de sombra me entrega;  

e me reflito, impassível,
em suas lâminas cegas.  

 

 

 

OLHOS DE ABISMO NA QUEDA DE CADA BUSCA  


Olhos do tempo
no ciclo dos ventres.  

Olhos do absurdo
no braço do existir.  

Olhos de adeus
na plástica das chegadas.  

Olhos de semente
na sedução dos frutos.  

Olhos de ventania
no rosto das horas.  

Olhos de chumbo
nas plumas do silêncio.  

Olhos de Judas
na bolsa dos cúmplices.  

Olhos de dúvida
na ante-sala dos enganos.  

Olhos de náufrago
no barco das mentiras.  

Olhos de vinho
nos alçapões da língua.  

Olhos de abismo
na queda de cada busca.  

Olhos de rebeldia
nos pratos da fome.  

Olhos de medo
às portas do novo.  

Olhos de clava
nos que rolam a história.  

Olhos de pedra
na face da sentença.  

Olhos de retorno
no bumerangue da mira.  

Olhos de escravo
na esfera das rotinas.  

Olhos de nuvem
na contramão do riso.  

Olhos de gula
na caixa dos acúmulos.  

Olhos de aviso
nos desarranjos do corpo.  

Olhos do tempo
na mão que despede o gesto.  

 

 

 

A PALAVRA  NO ESCURO OU OS DIALETOS DO POÇO  

1.O escuro plasma a palavra.
O mundo cabe
na palma da interrogação.

A palavra no escuro
plasma seu corpo
em quietude.  

A voz que nasce
não chora
não exclama nem ilude  

o ser que, por ser
pensante,
mais desse mundo não sabe:  

quanto mais dele
pergunta
menos resposta lhe cabe.  

II. A palavra desfunda
a parede da solidão
e abre o contorno do círculo.

Mas quem tropeça no corpo
da palavra
mais escura  

e desce
com fita métrica
para escutar-lhe a fundura?  

Contra as paredes redondas
a solidão
se adivinha  

enquanto o círculo
explode
o que nele se continha.  

III. O escuro lança a viagem
que traz em retorno
um afogado de si.

Aos dialetos do poço
não se arremessam
limites  

e ele, ao lançar a frase,
devora
o próprio palpite.

Quem vai a ele em viagem
sabe que vai
sem disfarces

beber em água-palavra
o seu mais denso
afogar-se.  

IV.A palavra chora e dança
ao corpo do silêncio.
A saída é um olho vazado.

O verbo assim concebido
é um andarilho
em conflito  

a dançar
enquanto chora 
no corredor dos não ditos.  

Quem se busca
preso à corda
na dor que range a descida  

quebra o metal 
da roldana.  

Tranca
o olho da saída.  

 

 

 

O AMOR À SOMBRA DA FUGA

Filmar o amor em fuga
- enquanto assim se apresenta-

é anoitecer um brilhante: 
só mesmo em câmera lenta.

Não da máquina, mas dele
no breve instante em que some

contra algum muro de vento
e perde o rosto e o nome.

Lentificá-lo em palavras
seria, talvez, um jeito

de tomar-lhe bem o pulso
ou mesmo sondar-lhe o peito?

As razões de cada escape
às vezes correm às vistas

mais escoladas na história
de ler motivos, em lista.

Quando há medo, mesmo ao pássaro
é falso o vôo liberto.

(É fuga em busca de água
rumo à boca do deserto.)

O pensá-lo  mais concreto
esgota a água e a sede.

(É a colher gasta em silêncio
no arranhar da parede).

O amor à sombra de fuga
atravessa o vão do muro

e enquanto foge de si,
engole o próprio futuro.

Por isso, leva-se aos ombros
em sina longa e estranha:

é sombra pulsando aos passos
que ao corpo sempre acompanha.

E assim por onde adormeça -
carrega nele o dilema

de, mesmo ao dizer-se livre,
 expor as suas algemas.

 

 

 

 

O AMOR ÀS PORTAS DO MEDO


Nas portas de minha alma 
outra vez estão batendo.

Tenho as portas laceradas,
 minha alma tem remendos.

Abri-las, sei que não devo. 
Mas trancá-las não consigo.

A quem bate minhas portas, 
entreabo meu postigo.

Nas portas de minha alma 
quero instalar um cadeado.

Quero grades e barreiras 
e meus caminhos fechados.

Minha alma quer silêncios, 
teve tormento recentes.

Imponho esponjas e espumas
contra essas mãos estridentes.

Nas portas de minha alma
 outra vez estão batendo.

Contra a insônia desses punhos
às vezes quase me rendo:

em seu dorso incandescido,
tenho a alma fraca e tonta.

Se minhas portas se abrem,
ela entra. E toma conta.

 

 

 

 

 

O AMOR NAS MÃOS DE PANDORA

E se nas mãos de Pandora
dormissem os conteúdos 

que da caixa se soltaram
e nos prenderam a tudo

tudo o que possa ser visto,
sentido ou imaginado

na cor dos males do mundo,
na corrente dos pecados?  

O que seria de todos
nós, pecadores, agora  

e na hora da colheita
das flores do ir embora  

se no colo de outra virgem
nascesse um novo messias  

pregando em  nome do Pai
perversões e rebeldias

e que do céu derramasse
um girassol, um sinal

e nos fizesse viver
sem ter juízo, afinal?

O que seria de todos
nós, livres de culpa e dolo

sem confissões nem martírios,
seitas, ritos e consolo?

No coração dos humanos  
- eu em verdade, vos digo -  

só um problema haveria,
qual um supremo castigo:  

se o próprio Deus nos mandasse
alguém falar em seu nome  

autorizando o pecado,  
o amor morria de fonte.  

 

 

 



INVENTÁRIO DO DESAMOR


Deixo contigo meu sangue
meus livros e minhas horas.

E a dor cansada na insônia
contra o lençol das demoras.

Deixo a paz que eu encontrei
e me fugiu entre os dedos

E a chave surda, sem uso
da gaveta dos meus medos.

Deixo perdido um poema,
e não por esquecimento:

mas pra que um dia eu te encontre
na leve pauta dos ventos.

Deixo contigo meu ventre
meus olhos, minhas entranhas.

mas profetizo, em silêncio:
perde mais quem hoje ganha.