A palavra tece pela cidade
sua ébria caminhada
Sóbrios são os sonhos
nos quais tropeço meus passos
A noite, é imensa frase
de amor a escrever-se
nos becos e bocas
do meu coração cheio de luas.

2

Subverter-me.
No avesso de mim
a ternura.
E de tanto existir
encontrar um caminho
no meio das pedras.
 

3

A boca da noite
tem sabor de café expresso
onde adoço meus versos
e os sorrisos
que eu não tinha
por dentro... 

4

As ruas correm
largas e frescas
dentro de mim.
Rompe-se a crisálida
do dia.
O céu cresce em meu peito
gigantesca borboleta
pelo amor desenhada.
A vida torna-se bonita
como uma mulher
que se descobre no espelho

 

 

 

 

MEU HOMEM 

 

Meu homem de cabeleira de velocino de ouro
De pensamentos de explosões de supernovas
De silhueta de renda
Meu homem de silhueta de boto rosa em lua cheia
Meu homem de boca de bouquet de abismos de edelweisses
De dentes de desmanchar laço e galáxias
De língua de magenta e de morangos maduros
Meu homem de língua de estilete e sabor de baunilha
De língua de sete idiomas de sete anjos
De língua de benaventuranças
Meu homem de cílios de impressão de nanquim da China
De sobrancelhas de tabaco de Havana
Meu homem de têmporas de vibrações de oboé
E pulsar de canário
Meu homem de ombros de arca sagrada
E de centímetros traçados com régua e esquadro
Meu homem de punhos de desconstrução do poema
Meu homem de dedos de secos e molhados e confeitarias
De perder e achar signos
Meu homem de axilas de penas de águia e onix
De dourado de asa de borboleta
De outono e de folhas as margens do Sena
De braços de raízes de figueira e vagalumes
E de carrocel que gira auroras
Meu homem de pernas de rimar ruas
De movimento de pianista e verso livre
Meu homem de barriga da perna de casulo de bicho da seda
Meu homem de pés de amuleto Inka
De pés de papiros de secretos monges
Meu homem de pescoço de papoulas arcoirizadas
Meu homem de garganta de bola de cristal da Boêmia
De fotossíntese de avencas
De peito de citaras
Meu homem de peito de dirigível em chamas
Meu homem de peito de camélias brancas
De peito de talagarça bordado com neon
Meu homem de ventre de incenso de jasmim
De ventre de vitrais policrômicos
Meu homem de costas de lírios pintados em veludo negro
De costas de azul de um dia de abril
De costas de leque de lâminas argênteas
De nuca de essências de mitos
E de campos elíseos  
Meu homem de quadris  de cerâmica
De quadris de ambrosia e de louça
E de cinzel de esculpir deuses
De fúrias de moinhos
Meu homem de nádegas de damasco  e hortências
Meu homem de nádegas de acrobacias de aeroplano
Meu homem de nádegas de revoluções e bandeiras
De sexo de sortilégios
Meu homem de sexo de tato de lamparina
Meu homem de sexo de ondas de rádio e  parabólicas
Meu homem de sexo de impressionismo francês
Meu homem de olhos de vôo de beija-flor
De olhos de domingos perdidos em corais
Meu homem de olhos de ardências de Lilith
Meu homem de olhos de gotas de óleo de amêndoas
Meu homem de olhos de inseminar luas no céu
De olhos de sol  entrando pela fresta da palavra.

 

 

 

O GESTO DE PARTIR

 

O gesto de partir nada tem de mágico.
Os mares que percorro são profundos
e as noites que miro são escuras.
O barco que me leva, busca um porto
onde eu possa germinar silenciosa.
Os faróis mal iluminam os recifes
e vez por outra um tranco me sacode.
As garrafas de gim estão vazias
e a lucidez me espreita nas balsas
que procuram náufragos e bêbados.
A manhã vem rompendo macia
na boca e nos beijos de uma mulher
saindo das conchas dos sonhos.
O gesto de partir nada tem de mágico.
E ancorado nuns braços
em meio a tormenta, fico.
O gesto de ficar é mais fascínio.
Ah! Quanta ventura em jogar a âncora
e ir ficando, no teu corpo, ir ficando...

 

 

 

A CEIA DA LUA NEGRA


imenso campo de trigo
promessa do eterno saciar
da fome lunar que meu corpo abriga.
Ocultas na paisagem mística
de um ser que se estende
da fome lunar que meu corpo abriga.
Ocultas na paisagem mística
de um ser que se estende
ao sol de todas as sementes
silenciosas se formam
pequenas conchas de ópio
impregnando minha língua
de futuras papoulas, tantas cores
delírios hipnóticos, prismáticos.
Cheiro e pão assando nas brasas do desejo
me desabrocham em róseas
púrpuras, descaradas flores.
Cresço noturna em calores, imagens dionisíacas
vinho, taça invisível me oferece o fauno.
Ouço sua flauta a chamar para o banquete
todas as minhas fomes mais sinceras.
E minhas narinas de loba percorrem o caminho
de pele fragrâncias e óleos, Lilith
a procriar seus pequenos demônios
ninhadas de quereres urgentes
Tudo é tragado, trigo e papoulas
na mesma massa misturados
e servidos ao ponto de êxtase
com direito a dentes, unhas e salmos.
A lua cheia, grávida de inconsciência
dispensa Jorge e seu dragão
que isso não são horas de visitas
e apenas a alma da hora presente
pode habitar este círculo mágico
no ritual à saciedade.
Depois, o universo se condensa por um segundo
um anjo, daqueles bem antigos
recupera o som de sua trombeta
anunciando a passagem da carruagem de fogo.
Vai minguando a angústia da procura
e o cavalo de Jorge pasta mansamente
nas pontas dos dedos pousados nos seios da noite.
E numa rede pendurada nas paredes do nada
em mim Lilith por algum tempo
sossega sua lua nova nos braços de Adão.
O vento sopra trigais e papoulas ao amanhecer.

 

 

 

 

 

CANÇÃO DO RETORNO

 

Atravesso os arcos do passado
entrelaçados em pedra e mistério.
O caos brinca estrelas entre as coxas azuis
de uma constelação.
Gaia, terra desvir­ginada,
mãe de tantos filhos 
brotando das entranhas do silêncio.
Bendita seja a dor dos teus hemisférios
resplandecendo em atônitos primatas
mirando o infinito.
Sobre teu solo toda guerra e toda paz 
são passageiras.
És perfeita. 
Na alma do Homem vive ainda um Ciclope,
teimando em desfigurar tua face. 
Gaia, mãe-terra de todas as ninfas, graças e faunos.
Onde estão os que te cantam? 
Clamam os deuses justiça.
Caronte desolado em sua barca de morte
continua a levar, através das trevas, seus passageiros.
Atravesso os arcos do passado. 
Senhora Terra, teu pobre Ícaro retorna 
aos teus braços vegetais para,
se não salvar-te da fúria do progresso,
pelo menos cantar teus olhos de algas,
teu corpo arado por mãos de esperança,
plantar em ti ainda uma semente, que seja forte,
que seja fértil. E no vôo louco do absurdo, 
abalar tua órbita, 
recriando em meio à devastação uma nova luz
que derrame sobre ti o renascer

 

 

 

INICIAÇÃO

 

Preparo-te o ninho
ave solitária sobre a colina.
Apronto-me para vigiar
teu primeiro vôo
e recolher o sangue
da tua primeira queda. 

Preparo-te o dissipar
das sombras e parir da luz.
Apronto-me para apagar
teu rasto na areia
e os cães do medo
jamais te alcançarão. 

Preparo-te os perigos
que o amor traz em ritual.
Beberás do meu seio
negarás meus desígnios
fugirás aos anseios
mas me seguiras. 

Sou delírio que te acompanha
destino à revelia
maldição ou profecia.
Tu me cumprirás por ironia.
Sou tua amante, tua vida
simplesmente a Poesia. 

 

 

 

 

HEREGE

 

Tochas acesas, palha ansiosa
aos pés deposita o carrasco.
Estou aqui entre inquisidores
que satirizam minhas hasteadas,
incômodas e torturantes bandeiras.
Tochas crepitam vulgares
fogo ateado aos mastros
machados perdem o fio
e não se partem os brasões.
Indefesos matadores de ideais!
Conformai-vos, diante da minha
tão inconveniente imortalidade.
Depressa, a tocha.
Quero ser cinza
impregnando pulmões, turvando olhos.  
A cinza é livre. Serei cinza.
Ainda tremula invisível bandeira. 

E meu coração aprendi a manter
ileso, como o de Joana D’Arc
depois de apagada a fogueira.