Luiz Alberto Machado- Literatura Infantil

 

 

 

QUANDO EU ERA UM MENINO SOLTO DA BEIRA DO RIO

Luiz Alberto Machado*

Tudo começou quando, ainda estudante de colegial, lá por volta dos meus dezesseis ou dezessete anos, o meu amigo e então diretor do Colégio Diocesano, José Duran y Duran, me convidou para formar um coral infantil naquele educandário. Fiquei meio lá, meio cá, pensei e aceitei. Como eu havia acabado de efetuar leituras em diversos livros do Câmara Cascudo, por sugestão dos amigos Gilberto e Maurícinho Mélo, bem como haver adquirido uma coleção de folclore musical do Wagner Ribeiro, peguei meu violão, convoquei Sérgio David ao piano e o meu primo, Marquinhos Cabral que já era crooner de algumas bandas musicais, e caímos na empreitada. Foi tudo muito lindo.

Quando vi aquelas crianças cantando temas tanto do folclore, como clássicos da música popular brasileira, ficava revisitando minha infância de menino peralta na beira do rio Una, coisa que foi me perseguindo, vez que eu, por esse tempo, já era pai de uma linda garotinha que hoje é uma adulta maravilhosa.

Pouco depois disso, veio a iniciativa das Edições Bagaço, onde eu participei na condição de membro-fundador e, por voltar os primeiros títulos ao publico infantil, adaptei os livros "Valente Galozé" e "Cumade Fulôzinha", da Elita Afonso Ferreira, para o teatro infantil. Ao mesmo tempo que escrevia e até atuava como "Professor Aloprado", nas iniciativas domingueiras do saudoso Givanilton Mendes.

Apesar de nessa época eu estar saindo da adolescência, pai precoce para a maturidade, mais eu revisitava às rienações de menino sapeca, revivendo todo universo fantástico que me contemplara nos primeiros anos de vida. Então, eu e meus filhos, éramos todos crianças a brincar dentro de casa.

Até que a Bagaço me interpelou por um livro infantil. Relutei. Confesso que não me encontrava habilitado para tal empreitada, embora, por aí eu já tivesse publicado alguns livros de poesias.

Os anos se passaram e a Bagaço cobrando. Eu, cada vez mais, desconfiado e mergulhando no universo da minha infância.

Nesse mergulho, como sempre fui mentiroso descarado, lembrei-me de uma história que eu havia inventado menino ainda, só para aparecer entre os que me rodeavam. Daí nasceu a história do "Reino encantado de todas as coisas" que, até então, era só a história do pontinho.

Depois desse, as lembranças da infância nos engenhos e sítios da minha terra natal, levaram a escrever "Falange, falanginha, falangeta", que musiquei e transformei em recreação paradidática, contando a história, acompanhado do meu violão e dos meus trejeitos teatrais.

Daí foi um pulo para, com o Nascente, então um tablóide impresso, lançar o Prêmio Nascente de Arte Infantil-Juvenil, destinado aos alunos do ensino fundamental das escolas públicas e privadas do país, lançando, assim, duas edições da antologia Brincarte, reunindo trabalhos da garotada, e, ao mesmo tempo, publicar, nesse meio termo, o "Lobizomem Zonzo", outra das minhas invencionices infantis.

Disso pro "O Cravo e a Rosa", foi o mesmo que pegar embalagem na mesma viagem.

O tempo foi se passando e eu nem me dava conta que, apesar de adulto, eu retornava a ser menino traquino de vez. Foi com isso que escrevi o "Alvoradinha" e depois foi criado o site dele para que todos pudessem conhecê-lo.

Por causa disso, mais me enfiava no universo infantil que até hoje ainda me sinto mergulhado.

O que sei é que hoje deixo viver livremente a criança peraltíssima que existe dentro de mim. E olhe que ela está mais pronunciada, deixando-me viver como um adulto de paz que sempre, apesar da idade, permaneceu criança. E é por isso que a placidez da vida me contempla, porque cheguei a conclusão de que nunca deixei de ser menino, apenas segui a vida, menino sempre.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

* Texto publicado originalmente na coluna Brincarte: http://www.vaniadiniz.pro.br/brincarte_luiz_alberto_machado.htm

 

 

MENININHONITO QUER SER SUPER-HERÓI

Luiz Alberto Machado

Vejam só que coisa mais estranha: o Meninininhonito parece que anda meio que com um parafuso solto na cabeça. Coisa de maluco mesmo. O curioso é que ele fez um pedido de Natal. Vejam só. Ele chegou e deixou um bilhete por todo lugar que passou: "Papai Noel eu quero ser super-herói! Assinado: Meninininhonito!". E por onde se passava qualquer ser vivente veria logo este pedido. Estava nos postes da cidade, nos murais, nas placas dos canteiros das praças, nos muros, nas árvores, nas portas dos banheiros públicos, afinal, por todo canto se via aquela solicitação.

Pai Lula intrigou-se e chamou tia Conça do lado:
- Você já viu o pedido desse menino?
- Vi, Pai Lula.
- Coisa estranha, hem?
- Pois é, Pai Lula, esse menino tem mania de grandeza.
Depois de conversarem, Pai Lula procurou por Menininhonito encontrando-o todo alvoroçado.
- Por que você quer ser super-herói?
- Porque é bom.
- Sim, mas me conte isso.
- É o seguinte, Pai Lula: eu quero ser um jogador de futebol que nem Pelé. Quero ser artista daqueles famosos da televisão, como se diz, um galã de telenovela, um astro daqueles bem conhecido e paparicado...
- Sim, que mais?
- Quero ser forte, poderoso, andar em cima das águas, avoar pelos ares que nem passarinho, atravessar parede, fazer buraco no chão de sair no Japão...
- Sim, que mais?
- Quero pregar a justiça entre os homens e defender os pobres e oprimidos...
- Sim... você está bem, meu filho?
- Estou, Pai Lula, e quero mais...
- Mais o que?
- Quero ser manchete de jornal, revista, televisão, tudo!
- Que mais?
- Que todos tenham inveja de mim, que eu seja o número um de tudo...
- É? Que mais?
- Quero ser o tampa de crush como se diz por aí, Pai Lula.
- E você acha que vai conseguir, meu filho?
- Ah! Se vou conseguiu, num sei; mas que quero, eu quero.
- Por que, meu filho?
- Porque eu quero chamar a atenção da Ciganinha, Pai Lula.
- Ôxe! E para chamar atenção da Ciganinha precisa isso tudo?
- Claro, pai Lula, olhe só: ela só namora com o Alvoradinha porque ele é famoso, vive nas paradas e está no mundo todo, até falado em outras línguas....
- E o que tem isso, meu filho?
- Eu quero ser maior que ele, Pai Lula.
- Maior que o Alvoradinha?
- Não, maior que todo mundo! Assim a Ciganinha olha pra mim e eu posso me amostrar bem muito para todo mundo.
- É mesmo?
- Oxe, Pai Lula! Pelo que eu sei as pessoas só olham para quem é famoso.
- E como você vai ser o super-herói?
- Eita! ela gosta de ler, num é?
- É.
- Então vou escrever: O dia em que o Meninininhonito virou super-herói!!!
- É?
- Vou fazer a minha própria história, Pai Lula!
- É?
- E quando eu terminar, eu vou dar para a Ciganinha ler e todo mundo vai querer ler e me achar o maior super-herói de todos!!!!
- É, então, mãos à obra. Vá e aproveite. Quando estiver pronta, eu também quero ler.
- Já já estará pronta, Pai Lula. Chego já.
- Essas crianças têm cada idéia, hem?

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

* Texto publicado originalmente no blog Brincarte: http://brincarte.blig.ig.com.br

 

     

 

  ALVORADINHA APRONTANDO DAS SUAS


Luiz Alberto Machado*

Hoje, quando menos espero, Alvoradinha chega pronto para aprontar das suas.
- Olá, Alvoradinha, como vai? -, perguntei
- Hum...
- Alvoradinha, bom dia!!! -, insisti...
- Hum....
Parece que ele estava ocupado com alguma coisa.
- Alvoradinha, não seja maleducado, responda!!! -, falei com ar de repreensão.
- Hum...
- Alvoradinha!!!! -, aí eu já estava mais que invocado.
- Qui foi? -, era ele com a cara mais lisa.
- Por que não me respondeu?
- Tava matutando...
- Matutando o quê, Alvoradinha?
- Matutando... matutando...
- Vai ficar enrolando, Alvoradinha?
- Não. Você conhece isso? -, disse e começou a cantarolar...

Brinquedo de criança
Que eu vou brincar
Contigo nesta noite
Eu quero me embalar
Coisas de infância
Que eu vou sonhar
Com novas brincadeiras
Que eu vou inventar
Brincando de cantiga
Que eu vou cantar
Cantando a minha vida
Que vai começar
Pular amarelinha
Ou estudar toda lição
São coisas que a gente
Vai guardar no coração
Pular academia
Ou faz a roda ou garrafão
Jogando bola o tempo todo
Prá alegrar nossa canção
Capelinha de melão
É de São João
É de cravo, é de rosa
É de manjericão
Pula corda direitinho
Pula fora não
Se pular a corda fora
Leva um beliscão
O seu rei mandou dizer
Prá cantar outra canção
Que a cantiga já tá feita
Não tem outra não**

Esse Alvoradinha é danado mesmo. E o pior: ele está cantando essa música desde ontem como disco enganchado.
- Arranhou, foi? -, perguntei.... e ele:
- Lalarilarilará!...
Esse Alvoradinha é fogo na roupa mesmo!!! Faz tudo para sair na foto!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

* Texto publicado originalmente no sítio do autor http://www.abarata.com.br/sites/luizalbertomachado

 

          

  

PAI LULA

Luiz Alberto Machado*

Agora vou apresentar mais um personagem da trupe do Alvoradinha. Vou falar de Pai Lula. Vocês vão adorar.

Pois bem, Pai Lula é uma dessas pessoas que todo mundo queria ter por avô: desengonçado, engraçado, malabanhado e com uma solução na hora para tudo. Uma figura! Nunca fez nem faz questão por nada e todo dia, para ele, é dia de sol, que chova ou que perca a hora.

Todos os dias lá vem ele sempre com seu capacete de obra, camiseta desengomada - e maior que ele tres vezes no tamanho, dizem que o defunto era maior que ele -, um bermudão nas canelas, um tênis desencadarçado, três relógios para cada uma das utilidades que ele exije no dia a dia, óculos de motoqueiro na testa, jaqueta de brim surrada, e um sorriso largo saudando e bulindo com todo mundo.

Piadista do bom, nem parecia ser aquele grande homem que conhece de tudo: do começo dos tempos ao futuro do universo. Verdade! Ele já navegou todo o fundo do mar. Dizem até que já foi na lua. Na lua só não, conhece até outras galáxias. Sabe tudo! Conhece a razão e o sentido de todas as coisas. Mas é assim mesmo, meio amalucado.

Nossa! De vez em quando lá vinha ele de patins - ele adora esportes radicais, pode? -, cabelos desgrenhados e longos, riso solto, língua afiada, descolado, despojado, maior mangação. Não tinha um que ele não bulisse e sempre com uma piada na hora. Acho até que os meninos parecem que puxaram a ele.

Quando não é isso, lá vem ele dirigindo seu Lulamóvel, um carro inventado por ele, parecendo mais um calhambeque daqueles do tempo do ronca, que anda na terra, na água e no ar. Ele até quer fazer um teste nele e um dia andar até no fogo para ver no que dá. Até agora não conseguiu essa façanha. Já chegou tão perto do Sol de quase morrer torrado. Mas vai tentar de novo qualquer dia desses, vocês não tardam por esperar.

Ah! também é comum vê-lo tocando sua rabeca inseparável. É, rabequeiro nato! E tira cada música bonita nela, nossa!

Gosta também de puxar embolada, glosar num coco, enfrentar desafios de dupla, bater num pandeiro, saculejar no triângulo e bufe bufe na zabumba. É, no maior xote-pé-de-serra! Sai com cada tirada de repentista chega dar gosto de ver! Tudo no improviso.

Quando está de folga gosta de ler cordel, é cada história! Quando não tem o que contar, conta as dele tudo inventada mas jura que é de não sei quem dos grudes de não sei de onde. Invencionices puras. Vocês conhecerão algumas delas.

O que ele gosta mesmo é de se deleitar com a garotada, nossa! Parece uma criança no meio delas! Igualzinho, dando língua e se rindo da peraltice desenfreada dos trelosos. Sendo ele o mais reinador de todos e dando corda pros meninos aprontarem mesmo!

Pois bem, Pai Lula é o guru de tia Conça, a professorinha dos meninos.

Esse pai Lula, hem? Ainda vai dar no que falar!

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

* Texto originalmente publicado no sítio do Alvoradinha: www.alvoradinha.art.br

 

       

 

TIA CONÇA


Luiz Alberto Machado

Tia Conça é uma onda. Ela é muito legal. Falante, brincalhona, meia lelé da cuca. Isso mesmo: bem doidinha. É conhecida como a professora motoqueira, avalie.

Com sua moto, ela faz todo tipo de estripulia. Chega toda apressada com seu casaco, luvas e capacete e um montão de coisas que não dá para identificar. Muito elétrica, ora se é. Anda aos trupicões de tanta carreira. Mas é gente muito boa, muito boa praça, daquelas que a gente gosta tanto de chega doer no coração.

Na bolsinha que carrega tem de tudo: ela chama de alforje das coisas. Tem tudo, mas tudo mesmo, dentro: de globo terrestre, passando por réguas, transferidores, compassos, lupas, telescópios, livros, até confeitos e bombons.

Certa vez ela tirou até um quintal com muitas árvores e frutas e passarinhos de dentro de sua pequenina bolsinha. O que se imaginar tem ali dentro. É só pedir que ela vasculha dentro e traz na hora.

Todo mundo gosta muito da tia Conça. Ela é muito dedicada, nunca se atrasou um só segundo. E quando chega na sala de aula, nossa, tudo muda num passe de mágica. Por isso dizem que ela é feiticeira, a maga da escolinha.

Dizem que ela já viajou todo espaço sideral, conhece os quatro cantos do mundo, sabe toda história desde o começo da humanidade, soluciona todos os problemas e ainda, de quebra, brinca com todas as crianças que encontra. Ela é a comandante da trupe da pesada. Conhece um a um dos seus alunos e trata todos com muito carinho e afetividade.

Não me lembro de vê-la sequer um dia triste. É sempre prá cima. Toda risonha, espevitada, engraçadíssima, de muito bom humor e arrasta todo mundo com suas histórias. É muito agradável a sua presença. Se tiver chovendo, ela faz com o que o sol apareça e tudo se transforma.

Essa é a tia Conça, a adorada do Pontinho, do Alvoradinha, do Mindinho, do Seu-Vizinho, do Maior-de-todos, do Fura-bolos, do Cata-Piolho, da Ciganinha, do Cravo, da Rosa, do Bichim, do Gordim, do Jeguim, do Maluquim e do Lobizonzo.

Tia Conça é danada.

© Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

* Texto publicado originalmente na coluna Brincarte: http://www.vaniadiniz.pro.br/brincarte_luiz_alberto_machado.htm