Luís Sérgio dos Santos - contos
Aqui estou há muitas horas, aliás não poderia falar
sobre o tempo, os instrumentos de controle foram paralisados por motivos
não óbvios ao meu entendimento, e após não
sei por quantas idéias adormeci.
A nave ao meu lado, pousou tão decidida, perfeita e plena, que escolheu
não se mover novamente.
Fui um selecionado, entre milhares, o
início do meu descobrimento veio
daqueles potenciais, que desde cedo obtive para a física, matemática,
e muitas outras ciências, sem falar do raciocínio lógico,
rápido e numa excelente forma de saúde. E posso acrescentar,
não bebo nem fumo, pura convicção.
Lembro perfeitamente como era antes de partir, tanta briga por pequenos
metros quadrados de chão próprio, e aqui que possuo um mundo,
eu poderia até lutar para obter, um metro quadrado cheio de pessoas,
que neste momento, nem precisavam trocar uma palavra comigo, bastava que
estivessem presentes, que pudessem ser vistas, sim, saber alguém
próximo.
E vem o paradoxo: No céu,
encontro o sentimento do inverso, de um
possível céu. Na Terra com o tempo me esquecerão,
mas o essencial seria se eu conseguisse, por momentos me esquecer.
Tenho algo com a paz e a guerra. O silêncio real que não é
o das bocas caladas ou das máquinas sem sílabas, e antes
o silêncio do silêncio. E esta eterna hora de se esperar.
Precisava agora dos acontecimentos mínimos, como ser possível
ver o mar, ou colocar tocando um disco e dizer por exemplo: Está
música não te lembra alguém?
Existe em torno ao meu corpo, a mais prolongada liberdade, no entanto nunca
estive tão preso. Ir até aonde?
Posso dizer, penso no que antes não me consentiriam nem
pensar. E
o que quero e não posso é não pensar.
Sempre procurei emoções, e é estranho que após
a maior de todas, talvez eu procure a menor delas. Mas, na verdade fui forjado
para não conhecer emoções. Sobre este assunto deveria
me aproximar de um robot.
Antes de vir dar neste estranho planeta sei que estive fora da rota por
alguns dias, e em mim um outro planeta começou a surgir.
Sou um firmamento de procuras tão simples, que parecem impossíveis.
Agora que esgotaram todas as fontes de alimentos, alguns diriam até
que perdi meu controle sobre as piores situações, mas não,
me ensinaram muito na Terra. Afinal não procuravam um homem comum
no treinamento de astronautas. Por isto olhando o infinito, medo não
há. A morte é que deve ter medo de mim.
Neste instante lembro o que disse um grande filósofo:
“- Se Deus não existisse, necessário seria inventá-lo”.
Não, não farei a minha contagem regressiva, principalmente
porque represento o máximo em um exemplar humano.
Começo agora, apenas nesta fome absurda a engolir lentamente pedaços
de cápsula espacial. Aço por dente, e dente por aço.
Realmente como aprendi lá na Terra.
Luís Sérgio dos Santos
( Conto publicado no jornal O Bisturi - junho de 1975 ).