Poemas de Luís Sérgio dos Santos
2- seleção de poemas inéditos em livro 
- parte II

 

Em http://jorgefotos.com , há vários poemas inéditos de Luís Sérgio dos Santos sobre trabalhos  de fotógrafos de diferentes nacionalidades.
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      JORGE LUIS BORGES 

               - “Sim.Quando chegares a minha idade, terás perdido
               
      quase por completo a visão “ 

                                                 
      Jorge Luis Borges em: O outro.                              

       

      Deve ser a cegueira uma das formas
      de ver com outras claridades
      sombras da alma.
      Todas são feitas entre luz e sombras.
      Deve ser o apurar dos sons
      e ouvir que em labirintos passos ecoam.
      Depois o tato um dos nossos dons
      vai substituindo imagens, e se olha
      para Deus de uma forma mais próxima.
      Tateando com o pensamento
      Deus que é invisível pode aparecer. 

      Deus também é certamente
      a claridade.
      E a sombra só existe se há luz. 

      Nas sombras talvez se vença o tigre.
      Na claridade um espelho nos permite
      jogar muita luz nos olhos dos tigres.
      Sempre combateremos. 

      Queria conhecer o mundo
      partindo de um caleidoscópio sonorizado,
      ouviria então Gardel,  Astor Piazzolla
      evocando Buenos Aires
      e depois iria desfolhando a névoa do dia
      abrindo janelas imaginárias
      desafiando máscaras do real. 

      Passageiro de páginas e páginas,
      catador de metáforas seculares.
      Apagador de incêndios tentando
      encontrar algo que tenha escapado das cinzas
      da biblioteca de Alexandria.
      Nada? Então se “nada se cria tudo
      se transforma”. 

      Limpei as cinzas da noite
      e o dia veio trazendo
      ½ dúzia de pássaros.
      Vi jogarem pragas e mistérios nos lagos.
      Vi num dia o desperdício de séculos.

      Vi moedas em que as caras e as coroas
      diziam algo que só escutavam os colecionadores,
      sons do linguajar dos metais.
      As moedas como os sinos falam. 

      Num microscópio há gigantes ocultos.
      Num telescópio os astros
      se aproximam  e assim nossos olhos
      se aliam aos vidros para mudar o mundo. 

      É uma questão de ótica.
      A antiguidade também nos faz ver mais longe
      flui na ampulheta as páginas da memória,
      flui junto a areia e ao rio carregando o tempo
      escorrendo águas entre o arquipélago da memória. 

      Tudo foi feito com parábolas, existir
      pode ser a metáfora de uma parábola não decifrada. 

      No futuro alguns pensamentos
      serão filhos das parabólicas.

      Sei, dizias sobre as coisas:
      Nunca saberão que partimos num momento

      Sei que bem me lembro de ti,
      vives na memória
      hóspede entre vários livros
      e entre eles almas
      a nos espiar das inúmeras estantes de antigos
      calendários. 

      Deve existir em todo mundo
      centenas de Praças 1° de Maio. 

      Todas com mães e suas razões
      e os diferentes tigres. 

      Um dia vi um filme
      em que no Vietnã uma menina corria
      de um tigre de napalm
      e nunca mais esqueci .
      Também vi um pequeno chinês
      na Praça da Paz Celestial
      disposto a enfrentar sozinho
      um tigre de ferro e fogo
      e nunca mais esqueci. 

      Visíveis ou não
      muitos são os tigres
      e se reproduzem como se espelhos
      lhes doassem imagens e semelhanças. 

      São de diferentes
      naturezas os tigres. 

      Vi um tigre de papel
      dobrei, dobrei fiz um aeroplano.
      Vi outro tigre, e mais outro
      fiz um barco, e fiz algo incompreensível. 

      Vários dos tigres que vi foram úteis.
      Claro nem todos. 

      Existem outros tigres mortais
      o zoológico aberto é muito maior
      nele os aviões bombardeiam as Ilhas Malvinas
      e estas feras ao se fechar os livros
      não calam.

      Um livro fechado
      tem várias bocas fechadas. 

      A biblioteca é assim
      algo multifalante
      e nada a doma: Impossível. 

      Li o que escrevestes
      sobre o imperador Che Huang-ti
      que ordenou a construção
      da Muralha da China
      e a queima de todos os livros
      anteriores a ele.
      Fico imaginando livros
      transportados pelos lados dos muros. 

      Vamos elogiar as sombras
      e todos os crepúsculos.
      E dizias em James Joyce:
      Em um dia do homem estão os dias
      do tempo,desde o inconcebível
      dia inicial do tempo
      ...................................
      Dá-me, Senhor, coragem e alegria
      para escalar o cume deste dia

      Antes do mundo ser mundo
      Deus já existia e era dividido
      em Pai, Filho e Espírito Santo. 

      É além dos limites o compreender. 

      E se decifro apenas um tigre como saber
      de onde partirá o combate?
      Para onde a luz se encaminhará
      após as sombras? 

      Mudamos com mudam as sombras.
      A luz nos transforma antes de vir o pó. 

      Os livros também
      podem conter tigres.
      e há vários que rondam
      entram e saem
      da História Universal da Infâmia

      Quando o sol se põe
      a lua entra em cena,
      os astros do céu usam um camarim
      que fica do outro lado do mundo. 

      Talvez todas as tropas
      esperem por reforços
      bem antes e depois do general Lee. 

      A defesa do Homem
      é sempre possível
      do outro lado do mundo. 

      A salvação dizem
      está no outro mundo
      desde que aqui aprendida.
      Na verdade nenhum de nós é daqui:
      Somos todos passageiros. 

      Tudo nada mais é do que um grande treino.
      A eternidade precisa de exercícios.
      Deus sempre foi mágico. 

      Etecétera é uma palavra
      pesada por carregar tantas outras. 

      O universo desta noite contem a vastidão
      do esquecimento e a precisão da febre

      Devemos fazer alguma temperatura
      além desta conhecida,
      e se possível nada esquecer. 

      Alquimista de letras,
      acendedor de metáforas,
      porteiro de frases. 

      A vida resiste e é cheia de espetáculos.
      Os volumes de Borges
      confirmam os ingressos.

       

       

       


       

       

      JOÃO CABRAL DE MELO NETO

       

      Luz de prata. Prato se vazio é repleto de sol,
      claridade repentina.
      Canto de galo, som de manhãs tecidas em redes. 

      Todas as minhas sedes.
      Todas as fomes,
      lamparina
                       
      acesa na palavra que brilha. 

      No sol
      vi uma mulher amadurecendo
      e depois se transformando em menina,
      contrariava o sentido original do tempo
      como um relógio
      rodando ponteiros para a esquerda
      foi ficando mais nova  e aos 18 anos
      tecia, tecia, tecia a rede
      que alucina. 

      Na lua
      luz de prata.
      Luz macia, luz que flutua e balança
      dentro de redes em varandas
      de uma praia nordestina. 

      A menina que tecia é a mesma
      que qual vigia vi habitando
      em dois lugares:
      ela estava em Andaluzia, estava em Recife.
      O mundo tem disso:
      às vezes se junta num livro, tudo perto.
      Às vezes as fronteiras são só riscos
      no papel:
      Dobrar de páginas. 

      O poema pode sobreviver
      no branco  do papel que foi árvore,
      o  sementear de letras vai texturizando
      e diversificando o mundo
      onde se tira sal do mar
      e da água dos rios não sai açúcar.
      O mundo é tão diverso, chuvas
      não fazem um rio mas ajudam,
      são muitas faltas dos rios que fazem a seca.
      No sertão
      os olhos podem conter
      rios ausentes, cachoeiras imaginadas,
      lagos vazios. 

      A geografia da fome, a história da fome,
      a matemática da fome, o desenho da fome.
      Todas as matérias  das fomes
      sempre podem ser mudadas pelo homem. 

      A água pode ir para onde o homem mandar. 

      A água obedece a lei da gravidade,
      o homem nem sempre. 

      Há um tempo insolúvel
      em que o futuro não há.
      Há um tempo que se dissolve
      de outra forma no ar. 

      Há pessoas sendo feitas
      de jerimum, macaxeira, e água
      de se esperar. 

      Há o tempo solúvel e insolúvel. 

      Vai para o lado, vai para cima
      é paisagem da janela do trem
      imaginar um rio. 

      Depois o sertão é silêncio
      onde uma canção pede um rio, vários.
      E rios secam sobem aos céus, evaporam. 

      Às vezes um rio pode chegar e se escuta:
      Piracema, piracema.
      Há rios em que peixes podem ir e voltar. 

      Quem treinou peixes assim? 

      Ilusão e concha.
      Miragens.
      Palavras ao deserto. 

      No sertão se aprende o silêncio.
      Até a hora do vento assobiar.
      A chuva foi escondida dentro dos cactos. 

      Há engenhos que engendram
      a água que se tira do chão.
      Furar poço é isto:
      Lutar contra a sede da terra. 

      A  boca da terra devora.
      Existe terra seca no céu?
      Existe terra seca no inferno? 

      É possível que por dia
      três ou mais Severinos e algumas Marias
      imaginem que a vida melhor exista
      em outro pedaço do país.
      É assim esta vinda para a outra vida
      que muitas vezes é a outra morte. 

      É outra morte nas favelas gerais
      destas cidades tão sem campo
      onde nem se colhe escolhas.
      Cidades que se fazem outras
      sobre montanhas de esperanças
      sem travessia. 

      Num sonho um rio existe no caminho.
      Um rio é uma estrada que pode ser feita
      até para a água da chuva se deitar. 

      Um rio é um destino
      que escolhe por onde andar. 

      Cabe num sonho um rio nascer?
      Cabe num sonho dar um filho
      ao rio São Francisco e deixar este filho
      de rio ir pelo sertão aprendendo a andar? 

      Assim como uma faca
      pode ter o percurso que o homem
      encaminhar, pode á água no chão um novo
      traçado no chão riscar. 

Um rio faz um curso,
um homem faz um discurso,
e da confluência destas águas pode o destino
mudar. 

      Não há lei que diga:
      Fique o rio no seu canto,
      que nada adiante há de se cantar. 

      Um rio risca no chão seu traço
      também pelo que o homem ao rio destinar.
      O homem risca no chão outro rio
      e pode outros filhos dos rios a  um rio dar. 

      Há engenhos que engendram
      a água que se tira do chão.
      Furar poço é isto:
      Lutar conta a sede da terra. 

      A terra seca tem fome. 

      A terra é isto
      se alimenta do homem e do bicho,
      às vezes come raízes
      e bebe água ao goles.
      Se a chuva não der a terra o que beber
      ela racha. 

      A cana guarda o açúcar
      como um relógio o tempo.
      Depois se espreme o suco destas horas
      dentro da cana, e surge o açúcar
      em luz cristalina. 

      Luz nordestina. 

      A trilha que trago é um trevo
      tirado da seca. 

      Vacas magras.
      Sonhos magros. 

      Há pedras.
      A pedra de Drummond, a pedra da cartilha
      de educação pela pedra
      onde vou abecedarizando o canto. 

      Canto escrito em meu país
      nas linhas de silêncio,
      linhas em branco
      onde se escreve o som. 

      Som do ranger das rodas
      do carro-de-boi, som
      do ranger de cordas,
      som de cancelas sendo abertas. 

      Vi o canavial.
      desfazendo a fome, e fazendo a sede,
      ou fazendo a fome, e desfazendo a sede. 

      Vi  o canavial contando ao vento
      do difícil encontro de um engenho

      que desfizesse a fome,
      e a sede de uma só vez. 

      A natureza faz o homem.
      O homem faz a natureza. 

      Difícil algo de uma só vez:
      Desfazer e refazer a vida. 

      Havia um galo  tecendo a manhã
      há mais de trinta anos num dos livros
      que li no ginásio. 

      Sei que este galo agora são múltiplos
      pois daquele canto fez-se a luz balão

      Há muitos cantares engendrados
      contra a queda,
      é um cante para cima,
      em que se há de subir
      cortando contra a fibra

      Algo tecido no vento,
      rede vazada de luz. 

      Algo vai sendo refeito
      o canto se aprende
      e segue guardado
      entre cascas.
      Há o  canto ainda em gemas
      dos galos que vão nascer. 

      Há o canto que se multiplica. 

      O canto ainda aprendizado
      de vários instrumentos
      numa orquestra de uma sinfonia
      nos raios de sol tecendo
      redes ou rios,
      num outro tempo
      tecendo  mais fácil a manhã .