Poemas de Moacyr Félix
Estas amostras de poemas de 16 livros de Moacyr Félix foram todas extraídas da volumosa e tão significativamente louvada antologia feita pelo próprio autor no final de 1998 e, já em 2ª edição, publicada sob o título de Singular Plural pela Editora Record.
a Luiz Paiva de Castro
Às margens deste rio cantarei com alegrias e tristezas
várias faces de todo o ser do homem. De pé, atrás dos ponteiros
onde a vida é desnuda e o sangue não pergunta,
eu tentarei cravar entre os ossos do meu tempo
o pesadíssimo lamento do silêncio dentro das coisas.
Linha dos horizontes, o coração se estende
ao lado dos amantes e colhe o mel das luas
que aclararam o mar de amor entre dois corpos.
Assim surge a promessa e o fundamento de uma utopia
que minhas auroras cavoucam no que ainda não tem fala.
Cisne em rio noturno, se o coração se põe
em marcha e bebe os vinhos deste vento
que sopra o último adeus dos fuzilados
em direção a nós,
os rumos, de tão claros, arrancam choro e sangue
no canto que os celebra.II
Às margens deste rio
cantarei
os pobres e os humildes
e a aurora sempre a mesma
no olhar dos que conduzem
os pobres e os humildes.
E as estradas tão longas
no coração dos velhos
e a navegante mesa
dos ébrios, e o sapato
imóvel dos defuntos,
e o férreo marche-marche
dos trens cruzando as pontes
cantarei como poeta às margens deste rio
que os ricos armadores sombrearam de navios
carregados de urânio e de ouro negro
e de perguntas prisioneiras.III
Inalterável, eu, que atravessei o tempo
com a mensagem triste dos velhos outonos
presa no meu relógio,
eu, védica sandália, Atenas grave e trágica
ou doce fruto de uma dor hebraica,
às margens deste rio
cantarei no que fui como criançaa lenda
de uma princesa adormecida
(tão bela como a vida)
que dormia e dormia
(tão bela como a vida)
até que a despertaramtão bela como a vida.
A Ênio de Silveira,
M. Cavalcanti Proença
Moacir Werneck de Castro e Miguel Arraes de Alencar
A todos os que sonham e trabalham por um mundo melhor, libertado dos obscurantismos e dos dogmas, do apodrecimento da própria existência pela
miséria física e da perda dos valores dos humanismo pela miséria moral.
(I) INICIAÇÃO
- Meu pai, o que é a liberdade?
- É o seu rosto, meu filho,
o seu jeito de indagar
o mundo a pedir guarida
no brilho do seu olhar.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto da vida
que a vida quis desvendar.
É sua irmã numa escada
iniciada há milênios
em direção ao amor,
seu corpo feito de nuvens
carne, sal, desejo, cálcio
e fundamentos de dor.
A liberdade, meu filho,
é o próprio rosto do amor.
- Meu pai, o que é a liberdade?
A mão limpa, o copo dágua
na mesa qual num altar
aberto ao homem que passa
com o vento verde do mar.
É o ato simples de amar
o amigo, o vinho, o silêncio
da mulher olhando a tarde
- laranja cortada ao meio,
tremor de barco que parte,
esto de crina sem freio.- Meu pai, o que é a liberdade?
È um homem morto na cruz
por ele próprio plantada,
é a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
É Cuauhtemoc a criar
sobre o brasileiro que o mata
uma rosa de ouro e prata
para altivez mexicana.
São quatro cavalos brancos
quatro bússolas de sangue
na praça de Vila Rica
e mais Felipe dos Santos
de pé a cuspir nos mantos
do medo que a morte indica.
É a blusa aberta do povo
bandeira branca atirada
jardim de estrelas de sangue
do céu de maio tombadas
dentro da noite goyesca.
É a guilhotina madura
cortando o espanto e o terror
sem cortar a luz e o canto
de uma lágrima de amor.
É a branca barba de Karl
a se misturar com a neve
de Londres fria e sem lã,
seu coração sobre as fábricas
qual gigantesca maçã.
É Van Gogh e sua tortura
de viver num quarto em Arles
com o sol preso em sua pintura.
É o longo verso de Whitman
fornalha descomunal
cozendo o barro da Terra
para o tempo industrial.
É Federico em Granada.
É o homem morto na cruz
por ele próprio plantada
e a luz que sua morte expande
pontuda como uma espada.
- Meu pai, o que é a liberdade?
A liberdade, meu filho,
é coisa que assusta:
visão terrível (que luta!)
da vida contra o destino
traçado de ponta a ponta
como já contada conta
pelo som dos altos sinos.
É o homem amigo da morte
Por querer demais a vida
- a vida nunca podrida.
É sonho findo em desgraça
desta alma que, combalida,
deixou suas penas de graça
na grade em que foi ferida...
a liberdade, meu filho,
é a realidade do fogo
do meu rosto quando eu ardo
na imensa noite a buscar
a luz que pede guarida
nas trevas do meu olhar.
(II) ENREDO
I
Onde se destrói o mundo em que vivo
aí estou.
Onde há destruição, aí se define o meu caminho.
Onde os deuses se desmoronam é que apareço
sem rosto
atrás de suas formas feitas de noite e de medo.
Onde se morre, onde se nasce.
Onde se morre é que eu renasço.
- Stirb und werde!
- Morre e transmuda-te!
Está não é, meu velho Goethe, a verdade das verdades, a ignorada
pelos que apenas
um hóspede triste sobre a escura terra?!
A morte e o fogo e a humilhação e o ódio
em vida e verde devem ser devolvidos.
II
Depois de silenciar o vozerio das cores
nas coisas cinzas que não dizem mais
do olhar humano que as fizera humanas,
a chama desce, e em rodopios tontos
retorna ao calor íntimo da terra,
ao berço rubro, à causa que realiza
este mistério grande de existir
o peixe e a estrela, o movimento e a cor
e o som do homem a se querer de amor.
Medo e humilhação e ódio
Assim alimentados serão devolvidos.
III
Medo e humilhação e ódio
devem ser devolvidos:
infenso ao homem é guardá-los em sua alma
receptáculo de coisas maiores
(como as águas da lua a perlavar a noite
num rosto de criança que dorme
ou numa anca macia de mulher nua).
Porque emudeceu a voz mais alta de minha infância?
Que ternura imunda rouba
A fala do mar dos pés de uma criança?
Que nos faz sobreviver, adultos
somente em medo e humilhação e ódio?
Querer-me novo é querer-me mais que morto
em mim ou nesta existência que me olha.
É querer-me outro que não este em que me instalaram.
É não parar, não querer parar os eixos
desta roda de luz
- plural de eternidades
a dissolver o bronze entre os escombros do que eu era.
Nesta banda podre do tempo
A água não inventa rios
nem ouve os cantos do mar.
Nestas escarpa onde habitam os dourados senhores do sul
ninguém nasce, ninguém agoniza mais de uma vez.
Aqui o sangue se enclausura
numa ordem arrumada como a das geladeiras.
E não sabe mais a ciência do orvalho numa alegria de flor.
Aqui a morte interrompe apenas o esforço de durar.
Aqui
Medo e humilhação e ódio
não devem ser recebidos
Muitas vezes essa é a única forma concreta de amar
aqui.
IV
Quando ensolarada pelas raízes do fogo, a vida
é o coração ligado ao velocíssimo novelo das galáxias
e na fúria de uma lágrima, senhores, e no desejo
de todo amor que se descobre
fogo e movimento e transformação
eu poderia doar-vos o acontecimento ilimitado,
o reinado da ordem e do caos anteriores a todos os deuses.
Porém a treva, a treva deste mundo em que eu escuto
estilhaçar-se a vida em seu cristal escuro,
a treva
só me permite em vossas mãos (e nas minhas)
apenas com esses parcos cacos de mim próprio...
Os vossos mitos são fortes, senhores, muito fortes.
V
Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol em nossos rios.
Nos álbuns de família com brasões, a sepultura ideal
dos que já morreram
tantas vezes
quantas as que se deixaram fotografar
singulares
sobre uma data, uma conquista ou uma verdade
que pensaram imóveis.
Se o camponês não possui maquinas
Fotográficas
Para re-saltar o instante de sua morte como servo,
que família imóvel é essa que se quer sagrada?
Ignora ela a vazia tristeza dos seus domingos,
quando os cupins também a devoram ao lado da Casa Grande?
Nos álbuns de família, qual a vida que está neles?Se em cada página o tempo ri
velho devasso, avô caduco
a negar ajuda e mão
estranha-mente
aos netos acordados pelo dor em fundo chão.Nos álbuns de família quem ganha e perde
és tu, sombra de Heráclito,
a transformar em chuva o sol de nossos rios.
VI
De repartição em repartição a poesia
fugiu, tentou fugir
do engavetado mundo das mesas
alinhadas
como leitos fúnebres
à disposição das
necrófilas orgias de generais e beatas e banqueiros
e exporta-dores.
Ah, o clima de cemitério que reina nos ministérios!
Ah, a essencial recusa da poesia,
suas explosões de sangue naufragando
o destino e a infiníta infância da vida
entre os ruídos do mar e a rouquidão dos homens
agachados.
Agachados
sob o pensamento natimorto dos que divinizam
o Poder, o Estado, e a Política.
Ah, a aurora guardada no tinteiro dos poetas
em que o amor apenas autoriza o dia
na praça
sem o discurso hipócrita
ou na cidade sem bancos e sem forças armadas.
VII
Assim como defende
a perfeição da flor
acabada
e em si mesma fechada,
o poeta não defende
até hoje governo algum:
seu lado é o lado do povo
sempre e sempre roubado
por mil, por cem ou por um.
O pelego se untou
nas banhas do negocista
e engordou engordou
tanto
que a sua barriga tão grande
esmagou
a menina do povo
que vinha com a flor,
que vinha com a flor.O poeta defende
o direito de andar
até o outro lado da vida
em que o homem é o seu avesso
o chão de seu próprio mar
e a verdade a rosa nua
solta na praia e na rua
como um convite a bailar.
O poeta defende
o direito de amar.
VIII
Do princípio e do fim das horas que o dinheiro envilece
foi então que chegaram os matadores de pássaros,
os que invadiram a minha ilimitada gaiola de ossos
e arrastaram de lá o poeta
para os depósitos de preços ou de presos.A roda dos olhos quebrada ou o acanalhamento.
O mundo, ou o interior do exterior, tinha que ser quebrado
alguma coisa, a vida, tinha que ser quebrada
já que os homens inteiros estavam ainda no ventre
dos que reivindicavam uma história nova
nos campos e nas fábricas.
Ou no pensamento daqueles que sabiam escutar, mas
com um punhal na cintura,
o abraço das coisas e dos seres.De re-partição em re-partição a poesia
Comprimiu o poeta no coração de uma bala.
IX
Segregada pelos amiantos do medo nos comutadores
e nos lustres, a luz
despe-se de todo berro e toda flama,
enquanto no morno ritual da sala
a saltar de colarinhos e colares
a palavra do homem assassina o homem: repetição de quando
o sílex, afiado, trazia a morte para as suas carótidas.
Os antigos porém, desconheciam os terríveis cortejos
a enterrar na tarde movida pela fala inglesa
a mudez de um Cristo sempre de madeira
e a histórica possibilidade de liberdade na existência.
E não gelavam o sangue da palavra injustiça
Em fáceis copos de uísque.
Nem mediam também a construção do homem pelo número de suas latrinas
sabiam eles, os antigos, pelo menos a diferença
entre o conforto das jaulas e o fogo aceso no topo das montanhas.
Mais alto do que eles, o coração do povo tem que saber isso!
Mais alto do que eles, o carvão que faz a noite
vestir a chama do silêncio em chamas
escreve
na estupidez moderna destes nossos muros
indicações escritas pelo sol nos mapas do futuro.
X
O homem, os homens
São vitórias da morte a circular as vidas
ou sombras opacas de uma Vida
em que esse anti-salto, a morte
não existe e nem nunca existiu
a não ser em seu não-ser de ser
desvão ao lado de desvão na ponte?Se os câes falassem, ah, como ririam
(em frente ao sol)
dos nossos medrosos altares.
(III) CONCLUSÃO
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas da carne
sob as velocidades da luz e da sombra.
É inútil querer parar o Homem
acolher sempre um pouco de si próprio
no mistério da vida a cavalgar
os cavalos aéreos da semântica
sob uma indeferida eternidade.
É inútil querer parar o Homem
e o impulso que o transforma sempre
na pátria sem fim do ato livre
que arranca a vida e o tempo e as coisas
do espelho imóvel dos conceitos.
Ah, que mistério maior é este
que liga a liberdade e o homem
e une o homem a outros homens
como o curso de um rio ao mar!
(quando a noite é una e indivisível,
nos olhos da mulher que eu amo
acende-se o deus deste segredo
-e uma sombra só nos transporta
ao fundo sem nome da vida.)É inútil querer parar o Homem.
Do que morre fica o gesto alto
a ser o germe de outro gesto
que ainda nem vemos no tempo.
Isto as crianças nos lembram
quando rodam em nossas portas
os ossos do dia que foi nosso
e agora são os eixos do pedalar
nas bicicletas com que os deuses
as vão levando para outros dias
do acaso, do desejo e do fazer
em que não seremos mais, eternamente.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho a dar longas voltas
ou a inventar estradas no cárcere,
o seu sonho mais essencial
a destruir e a enferrujar
metais de qualquer ditadura.
É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho, o mais de flor,
de apagar dos lábios da terra
o ricto do medo que estica
no céu de aço a bomba atômica;
o seu sonho, que é o seu movimento
onde a razão dança mais bela,
de ver no armário dos museus
o manual oco e sem asas
que aprisiona o corpo e o sexo
en desrazões dadas na infância
e os livros de Deve & Haver
dos poderosos de Manhattan
comerciando Deus e o mundo.É inútil querer parar o Homem
e o seu sonho de enterrar
sob o verde passo de uma história livre
os dogmas do stalinismo
grudado como esparadrapo
sobra a boca múltipla da vida
(e a subdesenvolvida farda
dos tiranos que bebem uísque
pago com o sangue de sua pátria).
É inútil querer parar o Homem:
em tudo que de amor cantar
o seu sonho caminhará
a encaminhá-lo na direção dele próprio
inteirado quando históricamente liberto
do econômmico em que ora o algemam.
É inútil querer parar o Homem,
o que transforma a pedra em piso,
o piso em casa e a casa em fonte
de novas músicas de carne.
A andar em formas de palavras
sob os arvoredos da vida
o sonho do Homem caminhará
do pensamento para as mãos
e das mãos para o pensamento,
noite e dia caminhará.
até tornar as mãos em pássaros
livres, inteiramente livres, para amar
o azul ou as várias almas do céu
dentro do Homem que se movimenta
na liberdade, no amor e no desejo
em que a si próprio inventa.
____
* Deste poema, escrito em maio de 1964, o fragmemto inicial foi então publicado no Correio da Manhã. Diagramado com eficiência na seleção intelectual de cada fragmento do seu texto e no uso adequado das ilustrações feitas pelo talento criador de Poty, o célebre gráfico Rubens de Barros Lima, neste mesmo ano, armou também um livro de 84 páginas, no formato de 18x24 cm, e tão graficamente bonito, que à Editora foi concedida, por essa beleza gráfica, a Medalha de Ouro da Câmara Municipal do Livro em São Paulo.
Sendo um dos primeiros livros contra o golpe militar de 1964, a livrariada Civilização Brasileira, em gesto típico de Ênio Silveira, colocou-o no espaço total de suas estantes para a rua e sobre elas estendeu uma longa faixa onde estava escrito A poesia é a arma do povo contra a tirania. O livro esgotou-se rapidamente. (N. do A.)
CRÔNICA DA ESCANDINÁVIA PARA UMA SUECA CHAMADA BIRGITTA
I
Olha, querida, como o céu é simples
atrás das ilhas em que amor fizemos.
A proa dos barcos a recortar as ondas como seios
que se dissolvem, espuma e sonhos marinheiros
para os nossos olhos libertados.
Olha a bússola dos homens, seus desígnios
na ciência em que procuram tanto a vida
entre as escamas do salmão e a luz de Vênus.
Vê
na tarde deste sol os grãos da noite escura,
e vence com sua mais loira fome, a que é do ventre,
a POSSESSIVA SOMBRA desses vários morros
atrás dos quais a morte se sabe nossa dona
e espera.
II
Azeitonados tetos, largos azinhavres, mugidos
cor de bronze
espetados na perfeição letárgica da neve;
torres ogivais, circulatura eslava, sombras
de Absalom e Tor, paradas
no sólido silêncio que governa
das ameias dos castelos
Copenhague, Copenhague de bronze e sangue
com sua cerca de guindastes e seu longo quebra-mar...
O que é partir, o que é chegar
quando a vida se desmancha em pleno mar
e os nossos vários rostos acabados
são um estranho recordar
de urgências nunca realizadas?!
Ah! As gaivotas, o apito de outras barcas,
o cais ficando longe, e já dentro de nós
o tempo, mudo pássaro de vidro, a estilhaçar-se
- Copenhague!
neste irreal terrível que é o ato de lembrar-te
Copenhague, Copenhague de bronze e sangue
com sua cerca de guindastes e seu longo quebra-mar...III
Sim, apenas um homem com o seu frio
há mais de vinte séculos sob a chuva,
sua necessária garrafa de Aalborg, seu olho preso
à falsa cruz dos advérbios, cruz onde sufoca
informe e una a relação dos mundos.
Sim, apenas o homem e seu salgado desencanto
a dissolver-se nas veias de mais um novo encantamento.
Apenas um homem que nasce e morre sempre
dentro da noite como a luz
de um farol que se apaga e que se acende.IV
No vilarejo de Mörlanda
o domingo parava
entre jardins e casas
quadradinhas. Tudo era paz
no vilarejo de Mörlanda.
E o médico dinamarquês dizia
que à noite a consulta era mais cara,
mas que os doentes da noite não queria
pois o imposto, que também subia,
não lhe compensava o esforço, e não valiam.
Tinha um rosto bom, e como um bom sorria
a seus filhos junto aos meus cruzando o dia
com os olhares presos no filme em que o homem é
informaticamente ensinado para ser
cada vez mais sem consciência o lobo de outros homens...
Entre jardins e casas
quadradinhas, tudo era paz
no vilarejo de Mörlanda.Entre jardins e casas quadradinhas
dentro da paz cumprimentou-me a guerra
no vilarejo de Mörlanda.V
Com o coração de pé para colher
a flor azul que percorre
o que só de amor não morre
no quarteto em ré menor
de Ludwig van Beethoven,
eu, a noite e a dor que é minha
te exigimos inteirinhasem vestido e sem calcinha.
Verdade de mulher nua,
teu corpo branco - pureza!
distendeu-se em quatro luas
repletas de treva acesa,
em quatro esferas de seda
onde - animal exato
preso aos fios do seu tato
foi que teci essa tua
manta de orgasmo ou de fúria
saudosa da vida crua.
(No peito minha dor atlântica
repousou como borboleta
na flor azul que percorre
o quarteto em ré menor
de Ludwig van Beethoven.)VI
Sobre a torturada árvore sem folhas
os vidros da janela consentiam ainda
nuvens e aves, e um tremor de sol.
Mais um anoitecer em Ellestad,
mais um lucilar de despedida,
mais uma lâmpada
sem ruídos partida e repartida
pela avessa emoção de um tempo imóvel
se movendo e nos movendo
no difícil mar sem nossos rios
e onde - razão ou dor? - nos conferimos
fragmentos de um sol queimado em tardes.
Em suas molduras douradas os espelhos
mais uma vez
ofereceram seus túmulos sem fundo
- e sepultaram o sol sem grandes pompas.VII
Túmulo, túmulo é a lei que rói
entre meus ossos verdades impossíveis
agora, somente agora.
Amor e morte, aqui me instalo em homem.
Amor, se entendes isto, as mais belas amoras do meu sangue
ofertarei a ti,
aos secos labirintos de tua infância.
E as minhas noites, as nossas noites
no âmago da própria noite
serão canais abertos
a esta sombra viva, a esta sombra clara
do nosso avesso humano subitamente recomposto
pelos nossos jogos abissais de verbo e carne.Karlshamn, 1960