Poemas de Moacyr Félix - III

Estas amostras de poemas de 16 livros de Moacyr Félix foram todas extraídas da volumosa e tão significativamente louvada antologia feita pelo próprio autor no final de 1998 e,  já em 2ª edição, publicada sob o título de Singular Plural pela Editora Record.


MINHA ELEGIA DE ABRIL
(3ª versão)

a Ênio Silveira  e Jorge Zahar

Murcho e roxo, o rei da vida era arcebispal
como o defunto, como todos os defuntos
debruçados em arco nos gradis do tempo.
O sol, no entanto, teimava em ser azul
na janela da vida posta em frente ao mar.
Para que a nuvem, a areia, a onda, o movimento
a conclamar sem fim o carrossel de auroras?
Os homens se aprisionaram aos trancos como ratos
dentro de si mesmos, nos mais fundos córregos
do medo em que se eximem de saber que morrem.
Vamos, vamos, o importante é ir, rodopiar
igual às moscas sobre o queixo preso dos cadáveres.
Geladeira, rádio, televisor, apólices, seguros
quatro ou cinco mesuras para os generais
papéis de identidade, avalistas, cartas e pedidos
para os que roem os ossos de tudo o que era a vida.
Merda, os roedores situam-se sempre em altos postos
- acadêmicos, ministros, governantes, deputados –
a focinhar nas poças do dinheiro como em fezes.

Vamos, vamos, os poetas são leves como o esguicho
que borrifa o gozo aberto nos bidês de luxo.
Vamos falar de revolução? Ah, sim, vamos...
Vamos, vamos, se isto nos dá o risco bem dosado
para alcançar a foto, o emprego fácil, o servilismo
das ternuras que divertem a indecisão das noites
do que durante o dia assassinou a tantos
sorrindo certamente. No claro, o riso é dos patrões.
Na sombra é que vários cortesãos sorriem
a recitar poemas padronizados como os queijos
ou os vinhos tintos em que imitam o sangue
e a carne do que alegram ser caças de aurora:
os patrões apreciam mais os versos diminutos, fáceis
de serem entendidos logo, como um cheque.

Vamos, depressa, que cada um despeje na sombra
dos baldios o rosto pluralmente usado nos comícios
e feche suas janelas, quieto
como um bicho que some atrás das moitas e espreita
com olhos de susto a bota em prontidão dos caçadores.
Vamos, vamos, os camponeses morrem, o suicídio
pousa em meu ombro o peso todo desta noite,
meus filhos dormem, minha amiga dorme
e nenhum deles diz nem poderá dizer onde parou
o pássaro escuro que eu pus neste envelope
que lhes enderecei, que abri ante os seus olhos
(erro meu foi o de ter-me escrito em amanhãs rasgados
pelas unhas do que morre nas minhas chamas exiladas.
Que me desculpem, a culpa é minha e desta fossa
cheia dos gemidos de um sol que eu não curei).

Vamos, vamos para as repartições do Estado
para as horas sem voz em que nos ruminamos
tristemente, tão tristemente porque sem
qualquer ciência da morte já chegada há muito
entre a escuridão da lei e a podridão dos chefes.
Vamos, vamos, vamos tresler os jornais
o linotipo a gravar no branco esses projetos
dos que enviam sob a mesa recado aos vencedores
para dizer-lhe que tudo é amor, é sempre amor,
nos comércios em que também se sentiriam plenos
desde que tivessem algum dinheiro ou algum favor.

Os operários, ah, a magra classe média, os pobres
não vêem que sua dor de modo algum perturba
o andar dos sentimentos ou a graça desses ditos
para os senhores do mundo que os explora?!

Ah, o bem-estar no mundo em que a existência é má
para os que amam nos homens o que no homem está
a exigir-se como o fogo para o ser verdade a chama:
Não, eu pertenço aos vencidos, aos vencidos desde há muito
aos que fazem as coisas com que sempre os assassinam
aos que têm a chave de todas as prisões do mundo
porque é em seus retratos que todos de fato se retratam.
Vencido, e olho meu filho, seu giro reluzente como o brilho
da vida que se explode em plena vida, chafariz de impulsos.
Vencido a desejar-te um bem enorme, mulher.
Vencido porque em coisa alguma eu fui como eu queria
ser no impulso igual ao que de mim ali se projetara.
Vencido agora, com este meu coração veloz a espatifar-me
contra os desencontros em que se faz mortal a treva
quando a beleza de viver se parte como frágil ponte.
Vencido, quase o vencedor: por um fio eu fico
na consciência de que teria sido fácil minha árvore
ser na flor e no fruto a voz de toda esta floresta
se tudo já fosse agora como certamente eu sei
que será no mundo trabalhado pelo tempo
em que a poeira das casas tiver a cor deste meu sangue.
Vencido, mas com o meu ódio intacto como os dentes
que deixei cravados na mão que espalha sob a vida os ódios.

Os conceitos se transformaram no ar em elefantes
de vidro a encerrar, fantásticas gaiolas, o longo dia
em que eu pensara ser inteiro o mundo como a bola
feita para uma criança ser ela mesma no universo
ao lado das estrelas, do urso de pano ou do oceano.
Ou da flor que se ergue acima da linha dos túmulos.
É, não sei mais ouvir o amor dos que me amam.
Nem sei mais se amam, o que sei é a bala
- foi sem querer, não é verdade? foi sem querer –
com que me feriram e ao canto dentro do meu grito
- foi sem querer: nos enterros eles sempre choram –
quando puseram a mão na boca da minha sombra
estirada como a noite entre a mira deles e a grandeza humana.
Perdida a casa, perdida a estrela, perdido o mar
em flamívolas caabas me equilibro entre cálamos que cortam
as esperanças que deixei boiando como pingos de mel por sobre as águas.

Montes de gritos a explodir no ar, eco das agonias do que morre
como um horizonte de mugidos, desesperado, eu, pelo amor da vida
que nunca mais terei, eu, eu esbofeteio toda essa morte em torno
do que plantei de ser entre os espelhos do mundo e a realidade.
Névoa baça, nuvens que não entendo, sofrimento mudo
como dizer agora este silêncio tão amplo como as sombras
de todas as bocas que se curvaram em ponte sobre as mãos e o mito
para historiar o crime, a cópula, o medo, a solidão e o canto?

Perdida a casa, perdida a estrela, perdido o mar
no calendário de minha terra me afundo, gota de chuva ou lágrima
sobre a madeira dos casebres dos lavradores sem Reforma Agrária
e tão anônimos como a dureza de um pão há dias caído no asfalto
ou como a dentadura de uma caveira ao sol no descampado.
Agora que sou tudo e que as avenidas não me guardam, as praças
são diminutas para o giro veloz do que eu pressinto ser
o motor dos desencantos, o ômega, a água e o fogo
da permanência espantada de querer a vida ainda sem a Morte
neste morrer aos poucos distendido, historicamente distendido
entre as esperas de Pedro e o que não posso mais.
Perdida a casa? Perdida a estrela? Perdido o mar?
Não sei, não sei. O que eu sei é que eu estou cheio até os bagos
do amor que não é mais amor, das conversas
em que ninguém mais conversa, da praia que não é mais a praia
do sonho que não é mais o sonho e arrasta
no pano de boca dos sonos uma realidade
espessa de imanência como o compasso dos enterros.
(Atravessar a vida sem ouvir o mundo, sem contar-lhe
porque não come ou porque ninguém agora pode
proclamar-se de fato um inteiro homem,
é ser mais um a conduzir a ausência do verde e todos os desertos
para a solidão que entope em nossas veias a grande voz dos ventos.)
A verdade é que esta noite eu morro, quero viver, mas não consigo
prosseguir com o som dos meus tambores neste bairro tão emudecido
quanto tudo que vejo parecer ser a estruturação do meu jazigo.
E as cantorias dos bardos sectários de nada me consolam.
Adeus, ó tambores que armei com meus pulmões!
Adeus, ó mar de mim sem mim nas praias!
Sem vocês, continuarei? Continuarei? Não sei, não sei.
Sei que eu vejo luzes, varandas, sons de rádio, risos
comprados a preço de suor e sangue
dos outros, dos que não têm casas, dos expulsos
entre estes prédios quadrados, nesta cidade em que vagueio
com três filhos no ombro, um amor, um cachorrinho, uma esperança
duas tartarugas, dois mil livros e um bolso tão lucidamente vazio
como os sonhos que deixei
na última festa em que aprendi não ser este um tempo de festa.

Em abril eu ouço a Roda, os amigos é que a trazem
os inimigos a fizeram, carregaram-na todos sem saber
que é a Roda, a minha Roda, a que tem o meu nome
a que eu toda a vida sempre esperei e temi, a Roda
que somente eu percebo, que ninguém mais escuta
a que tem o meu nome em letras de fogo
a que construí com a obrigação do que não disse
ou não pude dizer nem esquecer
porque era eu definida e indefinidamente eu
Édipo sem olhos, querendo ver mas não podendo
por ser Édipo, o que não mais fugiu do destino.
Quem perde assim se perde uma só vez:
inútil arrepender-se, não há retorno para o que
no tempo ainda não acontecido enxergou
no mundo que lhe doaram o seu coração agora antigo
queimando entre os esqueletos da rua em que nasceu.
E que ajudou a destruir em nome de outras ruas que não a sua.
(Amigos e inimigos, técnicos, doutores, comerciantes,
não saiam das raízes de suas casas para olhar
o Monumento aos Mortos desta Terceira Guerra.
Com sua gigantesca muleta de cálculos
como um coveiro coxo, o final século vinte esculpe
sob o verbo Ter a morte que mora
dentro de cada um desses olhares
com que o homem hoje mede os outros homens
e mesura o deve & haver dos seus dias.)
Pátria, eu sempre fui sozinho nas ruas da tua noite.
Só, porque eu era a tua manhã e porque eu trazia a tua noite
a impedir-me, vivo muro de mim mesmo, chegar a uma verdade
em que, como um fruto tranqüilo, em mim, ó pátria, eu te cumprisse inteira.
Como o azul que nos respira ou a paisagem que nos move
mas que só nos avultam em não ser quando os perdemos
pátria, eu sempre te olhei assim, distante e perto.
Mas agora, ó brasileiras fontes do universo, eu choro:
quando a lua cai, a treva não tem mais meu sangue,
trânsito e promessa da obrigatória aurora em que te explico;
quando a lua cai, a treva se dilata qual estofada morte
e sobre si mesma rodopia, sem futuro, doido tempo sem flor
a escorrer a fria
   circulação de luz que nada cria
dentro de uma história seca como o coração das bombas
ou a rotina dos internatos tristes, das prisões e dos quartéis.
Pátria, agora eu sou a solidão inteira de tuas noites:
tuas manhãs escorregaram das janelas em que existo.
Não as perdi, no entanto; com as mãos enormemente ocas
(O que fazer? Aqui, os roedores da vida sempre ganham)
eu as deixei tombando
espumas de futuro, vôos de certeza
no sapato a ser calçado por um companheiro ou um filho.

Se eu assim morresse hoje, a causa, e mais que a causa, apontaria
em versos tão longos como o curso dos rios ou como a estrada
que conduz através dos vários mundos o homem de minha terra
para o possível encontro que marcou com as amplitudes da vida.
E metade de uma página, não mais, me bastaria.
A bandeira norte-americana ri de mim no vento das indústrias
que são vendidas como os galos mochos de um final de feira.
O trabalhador não volta do trabalho, os professores vão a julgamento
por lembrar o que é lembrado desde o Sermão da Montanha.
"Inglês, meu filho, inglês, esta é a língua do futuro"
(para as almas talhadas como um cofre para o time is money).
No Vietnam meus olhos se rasgaram mais do que eu podia
no Vietnam meu rosto me faz pender com dois buracos
para enterrar o que nunca mais eu sei que enterraria:
a compreensão do ódio como o único fio a que se agarra
o homem, quando a vontade de viver brilha como o fogo
a que treze monges budistas deram essência humana.
A bandeira norte-americana ri de mim no topo desta América
mas o que a noite usa para contar-nos a raiz dessa sua treva
é a súmula de todos esses ventos trazendo-nos o alarido imenso
dos ossos da tarde em que esquartejaram Felipe dos Santos
e a verticalidade de Tiradentes vencendo a altura dos patíbulos
ou Tupac Amaru e Galan em Nova Granada.
A bandeira norte-americana ri de mim no topo desta América
mas o que a noite usa para transformar-se em grito
é o estampido da bala com que se matou Allende.
A bandeira norte-americana ri de mim no topo desta América
mas o que a noite usa como exata vestimenta
é a batina de dom Camilo Torres, colombiano e de Deus.

Abril, Evangelina, é tempo do meu luto e nele
minha maior tristeza tem o brilho de uma espada
afiada nas bordas de tanta morte injusta nesta América.
Em abril o azul lembra tão-somente o céu apodrecendo
em cada aurora detida antes de poder fazer-se em claridade
nas ruas e nas praças, no pensamento e no coração.
Em abril sudários bolivianos fixaram no tempo aquela hora
em que os olhos do Cristo se abriram nos do argentino Che Guevara.
E como se fossem bandeiras hasteadas pelo poema que sangra
na água e na luz de todas as nossas elegias
acima da minha morte eu os levanto aqui e agora
com a mesma mão com que rabisco, dentro da noite, os hinos
que aprendi a ouvir nas ventanias
em que sobrevivem
os sons da liberdade ainda encarcerada
além da mais humana sombra
dos sonhos desta América Latina a alongar-se
nos currais das mortes geradas pela reificação da vida
na irracionalidade tão racionalizada das riquezas
sobre as quais o Primeiro Mundo a explora e regencia.

*Este poema foi publicado pela primeira vez no nº 8 da Revista da Civilização Brasileira, em julho de 1966; nesse mesmo ano saiu no livro (esgotado) Um poeta na cidade e no tempo. Naquela época tínhamos - nós, os intelectuais - a alma cada vez mais dolorosamente distendida pela escala crescente de atentados aos direitos humanos, prenunciadores do cerceamento total das liberdades que logo viria através do Ato Institucional nº 5 (AI-5).

     
 
 

*MOACYR FÉLIX ENTRE OS SONS DA HISTÓRIA QUE NO VERBO TER ENCARCERA A VIDA
 

  A todos os intelectuais que se querem pontes de idéias humanizadoras porque contra as reificações do tempo humano regido pelas dominâncias dos lucros capitalistas de um mercado financeiro a globalizar-se injustamente e a desviar-nos de uma História feita em nome de uma existencialização socialista das essencialidades dos valores necessários a um desenvolvimento verdadeiramente libertário e democrático do Ser do Homem sobre a Terra
 

Estas bandeiras não servem: estão podres, e isto eu sei
e sinto desde estas janelas no meu poema abertas
para ouvir e ver os sons da luz além do mundo
das finanças internacionalmente dominantes
que ora querem comandar leis e idéias e costumes.
Quero cumprir a lucidez de negá-las
nos espelhos tristes desta história
travestida de engrandecer do humano.
E este mundo muda tão depressa
que o discurso proferido ontem
fica de um antigo tão antigo
como a barba de um rei assírio
na astronave que ultrapassa o sol.
Nas telas da TV e nas manchetes
os palradores se atropelam hoje
nos palcos destas estoriações fátuas
como o enterro ora proclamado dos socialismos
que ainda têm muita história pela frente.

Sei que não sou servo da poesia
tal como talvez gostasse
ou mesmo tivesse precisão.
Nem pude acumular em meu silêncio
os instrumentos para tanto e tanto
navegar ou mesmo naufragar
sobre os ilimitados do invisível
que a fala do Cosmo rega em nosso cérebro.
Eu sou apenas mais um detido que dialoga
com os ponteiros da esperança sob o tempo
que encarcera a vida nos porões da história.

Estas bandeiras não servem: estão podres.
Esgotadas, nada mais têm a dizer
ao homem que fura as crostas do que morre
e pesca atrás de tudo um pensamento
que velozmente em liberdade corre
- como se fosse uma criança, ou mesmo um bicho
rumo ao significado do sem fim em que se explica
o porquê do som a transformar-se em dança.
Forçoso, no entanto, é reinventarmos na cidade
novas lutas em nome de outros sistemas de vida
que não a destes gráficos sem outras saídas
que as de uma tecnocracia sem sonho e sem poesia.

Negar, este é o meu ofício maior
negar o que ora existe, negá-lo sempre.
Ah, na magia de cada crepúsculo a negação
surge dentro dos olhos da poesia em que reside
teimosa, a luz inexistente de uma aurora!

No entanto, sei que é preciso conquistar e dominar
as causas do Poder que ora amarra as possibilidades
de uma vida melhor porque não mais aprisionada
nos adoentados brilhos de um calcular deslibertante,
e conhecê-las bem e a tal ponto dominá-las
que então as eliminaríamos desde as suas entranhas
osso por osso, como quem brinca de lavar com o sol
o esqueleto escuro do mais acumulado dos nossos desamores.
E os homens entoariam, então, cantigas de roda em torno
dos planetas ou dos desejos de cada um. E nos museus ficariam
o machado de pedra, o Estado e o tecido institucional dos medos.
Tudo isso seria possível, meu bem, se não fossem as fomes de lucrar
postadas como aranhas na antigüidade cinzenta destes horizontes
em cujas dobras sinto as verdades que os negaram e sempre os negam
malgrado serem diariamente esvaziadas até se tornarem
em dolorosas cascas do que é
o sonhar utópico dos homens.

E assim no meu destino de tristeza me rascunho sob
a minha morte nas profundezas deste tempo
em que coisificam cada vez mais as vivências do homem
e no qual entre as asas das minhas esperanças me rodopio
como se elas fossem de um condor ferido pelas setas
dos crimes e dos erros que desfiguraram o mundo libertário
que de fato se devia ao povo e pouco a pouco ser-lhe-ia
cada vez mais dado como o ser definidor de cada hora sua
se não o tivessem exilado do que o libertaria
nas revoluções que se quiseram rumo ao comunismo.
Isto eu sei e sofro, e sei também que a ânsia de renovações
continuara entre as mais definidoras raízes da vida
a compor as temporalizações do amor e os sons da liberdade
sobre o teclado das emoções que computador algum programa
e do qual, no entanto, surge a melhor música do homem
entre as colunas do sonho a arquitetar-se em história.

Não tenho a blusa amarela de Vladimir
e nem colhi entre os meus versos
a eternidade pisoteada ao longo
das castanholas e das guitarras de Lorca.
Lautréamont, foi com suas explosões que temperei
a primeira rua aprisionada entre os meus dentes.
De maneira rápida, própria dos pássaros caçados,
pulei de um livro para outro
ou de uma cama para outra
até achar-me sem pouso no que aprendi ser a História
no olhar da vida humana sem liberdade hoje.
E ali eu era as suas portas e o seu cárcere.
Retesada no final de horizontes, Cuba
também era assim, pomba e garra, luz e sombra
enquanto Marighella, Allende, Che Guevara e Camilo Torres
em caminhos diversos eram mortos e todos sobre a mesma cruz
em que a ganância dos lucros martela as mãos e os pés
dos bilhões de assalariados de aqui e de alhures.

Ondas sem mar, estes políticos que ouço
não me dizem mais, a mim, o possível que desejo
entre os possíveis que neste fim de século se estorcem
a carregar o futuro do homem entre os umbrais
de um tempo que está e não está aqui.
Vejo-o nos impulsos do ser que se arquiteta na mulher
quando deseja e sabe amar verdadeiramente liberada.
Vejo-o na mente jovem dos universitários que caminham
além da computadorizada falácia programada
em torno das mesas em que o mundo é repartido
entre os poucos que usam talheres de prata e os que
o sofrimento usa em ruas e becos cada vez mais pobres.
Vejo-o tal como a festa ainda a ser gerada
sobre as causas do que aviva a luta e as perguntas certas
na sombra cada vez mais mundial dos sofrimentos na pobreza.

As bandeiras que no passado altearam verdades
nos barcos da História em que a memória assopra
continuam a convidar-nos a recriar novas orientações
mastreadas pelos raios de uma luz plantada
dentro da escuridão dos sonhos soterrados.
Traídas as mãos da Verdade sempre se alevantam
a carregar, no Leste e Oeste, novas revoltas
em cantorias feitas com as cores dos destroços
de todas as estátuas que se quiseram divindades
sob o azul deste céu que cada vez mais sabemos ser
a infinitude que nos é negada e que assim nos cobre enlameados e tristes.
E por sabê-lo assim é que fazemos
no barro agora o céu que desejamos
igual ao céu que se deflagra
(no minuto que precede a morte)
no olhar do homem fuzilado
porque amou o próximo como a ele mesmo.
Novas bandeiras a tremular na frente das continuidades
do significado maior daquelas que se findaram como um enraizar de auroras
nas mãos daqueles que hoje as sabem como necessárias
para orvalhar com suas manhãs libertadoras a imensidão
de novos horizontes para o pensar e o agir dos homens.

Quero-me novo nos modos do meu neto
abrindo outras portas que não estas.
Quero-me novo como o tempo que não teme
o espaço em branco a pedir uma poesia
pescada atrás do espelho em que se mira
o homem de agora nos possíveis do amanhã.
Quero-me novo, porém tão novo como
esta saudade incrível de pisar descalço
na sombra dos deuses que inventei
ao achar-me desnudo em frente do trovão
ou do que a morte não me dizia
como razão final de morrer. Ou de viver.
Eu quero, tenho que querer outras bandeiras
e as raízes da coragem de dizer que as quero.
Quero, sobretudo, não ter medo de queimar
as que sempre mascaram em cores a verdade
deste nosso existir amputados de nós mesmos
e apresentam como se fosse da nossa própria natureza
o fato dele ora ser assim caótico e fragmentado.
Caótico e fragmentado, sim, mas pelos exclusivismos
da globalização de um verbo Ter erguido sobre
os lucros somados nos porões das bolsas de valores
sem quaisquer sons do amor ou da liberdade ou da música
do ser em que humanizadoramente devíamos nos mover
e sermos movidos nos conquistados poderes de avanço
rumo ao que aprendemos a sonhar e a chamar de Utopia.

      *Revisado em 1996.


 
 

O GRANDE SOM
(2ª versão)

A Eduardo Portela
 

O grande som que ninguém ouve mas existe
no som mais leve ainda que o silêncio
na areia fina dos pensamentos que sobraram
após a morte, a morte daqueles que os pensaram.

O grande som, eu o tenho, eu o carrego
flor e fardo em cada segundo que transporto.
Pele de tudo o que percebo, ele me envolve
e a tudo que removo por coragem ou medo.

O que é a coisa, a simples coisa, esta coisa
dependurada por fios invisíveis
na minha retina fotográfica e
nos eixos da gravitação lenta desta tarde?
O que é esta menina e seu pé a conduzi-la
para outros caminhos que a farão distante d
esta casa e de mim por toda a eternidade?

Que faço eu entre tantos sofrimentos vesgos
sob esta árvore cortada que teima em renascer
até tornar-se outra vez mais em tronco endurecido
para outras tampas de caixões ou outras pontes
talvez de luz, talvez de mais indagações ainda
para a obscuridade em que a aura dos corpos bruxuleia?

Que somos nós entre os incêndios destas horas
instantâneas e acesas como a rapidez no vôo
de milenares morcegos dentro de uma gruta
subitamente clara
sob os gritos da noite unhada de relâmpagos?

Por que a palidez, o olho fundo, este tremor de carne
a desfazer-se como coisa velha e triste
no rosto e no corpo da mulher que eu quero eterna?

O grande som que ninguém ouve mas existe,
o que fazer com ele? Como transformá-lo
na pedra fatal para este espelho em que se mira
o homem, este narciso torto da cabeça aos pés?

Armas eu tenho, e muitas, o que me falta é o alvo
para com um tiro só fazer tombar nos sinos
o grande som que ninguém ouve mas existe
porque é nele que os pássaros se inventam e as noites
ressuscitam
a luz que chega aos homens, a luz que move os homens
em direção do amor, berço do mar na mente humana

O grande som que ninguém ouve mas existe
o que fazer com ele? Como arrancá-lo deste poema
ou desta ventania no abismo caído entre as palavras
que me atrelam ao tempo como um condenado Sísifo?

O grande som entre o cachorro e o seu afago
a mostrar que cada episódio tem sua música.
O grande som entre o meu rosto e esta tarde
a apagar-se apagando a carne oral do dia findo.
O grande som, ah, do rastro dos que se foram
e permaneceram em nós doendo sem doer
nessas mágicas da vida que vaga sem achar
contornos, amor vento e fumaça.
O grande som das máquinas, o som do devenir
nesta poltrona acesa em que a minha humanidade morre
longe dos deslumbramentos que hão de vir. Fogueira, eu fico
dependurado no que não serei e tanto me proíbe
falar de auroras neste horizonte escuro e triste.
O grande som, meu filho, é o destas plantas a crescerem
entre os muros, entre as pedras, entre os precipícios
tal como as esperanças no chão do que fazemos.
O grande som é o que sussurra os trabalhos da luz arredondada
como a vida no ventre da mulher que ficou grávida.

O grande som é o das tempestades que bebo em grandes goles
 porque as tardes calmas são exíguas para a sede
 desta revolta que há milhares de anos alimento.
O grande som é o da lágrima do jovem preso que se viu traído
 pelos que fizeram dele uma voz errando em praça pública
O grande som é o da face adultera que se contempla
 em frente ao espelho que a revela como um pássaro
 engaiolado nas entrelinhas de um contrato de compra e venda.
O grande som é o discurso desta angústia e a minha distância
 dos textos em formas suaves para reverenciar a elite
 feita com o sangue de todas as auroras adiadas.
O grande som é o do universo a invadir-me neste porre
 com os farelos da minha história em suas galáxias.
O grande som, meu amigo, é o dessa morte, essa morte rindo
 da inautenticidade em cada gesto que tem preço.
O grande som é o do miado longo de todos os desejos
 que nunca tiveram vez de salto ou mesmo queda
 sobre os telhados da grande solidão humana.
O grande som é o do grito que não dei quando era menino
 e vi os adultos sem máscara numa festa qualquer.
O grande som é ver a beleza de uma folha a cair da árvore
 e não ver a mesma beleza na composição dos passos
 que acompanham os muitos enterros do homem na semana.
O grande som é o do tempo estagnado nas estações
 quando o povo engradado como gado passa
 em trens que não transportam as alavancas
 dos futuros do homem em seu presente.
O grande som é o da revolução tomada no café da manhã
 e burocratizada no meio-dia encarcerado.
O grande som é o das lutas em que se aclara a exigência
 da democracia como o eixo essencial do socialismo.
O grande som é o do novo tempo despercebido ainda sob
 os minicomputadores, a telemática e o videocassete.
O grande som é o da nudez deste verão, taça de sol
 emborcada sobre a Terra e onde
 as imaginações do Homem se debatem presas
 como louva-a-deuses dentro de um copo que os isola
 do azul, do imenso azul, tão perto e inatingível.

O grande som, ah, e o seu estrondo além
deste silêncio da vida podre em cada coisa
em que ora me sepulto e ao meu poema.
O grande som, ah, o som em que se pulveriza
com o seu peso global entre os meus ossos
a brancura melancólica
dos mortos - os meus mortos - silenciosamente me vestindo
com os buracos do não-ser, ainda sem nomes.

O grande som e eu neste momento somos
inexoravelmente uma derrota, uma grande derrota
neste papel em branco, nesta dimensão sem porta.


 
 

O POEMA

Ou se vive por inteiro
ou pela metade
a gente escreve a vida
   que não viveu.
 

E o papel em branco então serve
como serve ao prisioneiro
a parede branca do cárcere.

O que não foi é o ser que é
no poema, esse ato mágico
de uma chama que não se vê
tanto mais quanto ela queima
no ar de uma cela vazia
o homem que é posto em pé
sobre os mortos do seu dia.