Poemas de Moacyr Félix IV
Estas amostras de poemas de 16 livros de Moacyr Félix foram todas extraídas da volumosa e tão significativamente louvada antologia feita pelo próprio autor no final de 1998 e, já em 2ª edição, publicada sob o título de Singular Plural pela Editora Record.
a Magda Frediani
e Maria Amélia Mello
Da minha janela eu ouvia
o final do dia como um deus coxo
a dançar com a noite nos telhados.
Da minha janela eu ouvia
o rumor de uma motocicleta
atravessando o escuro das ruas
e dos esgotos em que o mundo tomba
atropelado pelo que não foi.
Da minha janela eu ouvia
as placentas do Universo
pulsando
como se prestes a parir
a nossa História
nas conchas do silêncio
antecedente ao caos.
Da minha janela eu ouvia
o Afeganistão, eu ouvia
o soldado soviético olhando
como todo jovem olha
a moça longe passando.
Da minha janela eu ouvia
o papel em branco. E nele o
eucalipto
donde viera. Eu ouvia até
as raízes na terra que agora cobre
o lenhador que o cortara.
Da minha janela eu ouvia
os casulos de uma longa treva
amortalhando
os mortos que em mim queriam
viver, simplesmente viver.
Da minha janela eu ouvia
o poema mais triste do dia:
da minha janela eu ouvia
a que morreu sem ter vivido.
Da minha janela eu ouvia
o tempo passado a limpo
nas próprias terras da morte.
(Mesmo ali a grama crescia
e as chuvas não deixavam de regar
o futuro a pendurar a vida
no recado de todas as manhãs.)
QUALQUER
POEMA É POLITICO
(2ª versão)
a Affonso Romano de Sant'Anna
e Marina Colasanti
Qualquer poema é político,
sempre e sempre
mesmo os que irrompem nos escuros do
inconsciente
sem nos dar a chave do que é o
pensar
a essência que esculpe a
existência nos olhos do tempo.
Na pequena história de cada um
dos nossos agoras
está sempre a história maior de
uma totalidade
de que somos parte e que é a soma
de todos os tempos que regem
princípio e fim de cada uma das
possibilidades do mundo-em-nós.
Existe sempre uma coletividade, uma
fábrica ou uma lavoura
em cada fruta que espera a nossa
fome sobre a mesa
e em cada objeto que habita a fala
do nosso espaço vivo.
Amar tem qualquer coisa de chuva
desde que não seja
o mundo pescado pelas sombras da
nossa deformada imagem
na raiz dos olhares do outro usados
como lagos secos
abertos pelo e para o que não
somos.
Amar, não com as grandes
palavras
usadas como se elas fossem dinheiro,
e sim com a humildade dos que se
reconhecem
um porque milhões existiram e
existem.
Amar como quem odeia
aquele que usa a lágrima do povo
como colar para a sua glória.
(Falar de auroras, sim, mas só
depois
de senti-las não realizáveis
dentro de nós por este mundo
injusto
e decifrá-lo, nervo por nervo, em
cada coisa
e em cada hora e em cada fato
como a causa dos cantos morituros).
Amar como quem ama
a beleza de tudo o que é dito
para ser verdade e sêmen
de outra verdade ainda mais bela.
Amar como quem prefere
uma canção de sombras, ou até de
desespero,
a essa falsa cantoria que soa
oca porque toda ela é feita
- como o assovio do caçador a
enganar os pássaros
com aparências de sons que nunca se
ligaram ao vôo
na profundidade sem porto no céu e
nos abismos.
Amar a voz vermelha do desejo que
levanta
a raiz da vida em luas decimbradas
sob o corpo em arco da mulher que
goza.
Amar como quem perde
o morto ou a lembrança do morto
na pergunta em que morremos
toda vez que o amor se vai.
Amar como quem não percebe
o amigo que nos atraiçoa
no instante mesmo em que abraça
o que não vê do que somos.
Amar como quem se parte
em partes que se repartem
em moléculas de vida
inserindo-se de leve
no traçado de outras vidas.
Amar o sabiá e a tarde no limoeiro
dos quintais
ou a manga e o copo de leite dentro
da geladeira.
Amar a pimenta e o coentro e o molho
bem dosados, prontos
para a caldeirada de tucunaré ou a
feijoada ou o vatapá.
Amar o filho, a neta, o cachorro, a
solidão e a árvore
o som do rádio nas manhas e o som
de cada noite
a desfazer as rudes feiras da semana
nas dobras de um lençol sempre
domingo.
Amá-los, e muito, pois deram doces
significados à paisagem
da nossa casa entre os relógios
sempre lembrando o fim das coisas e
nunca nos doando
uma sombra de nós mesmos em tons de
eternidade.
Amar como quem vacila
por saber-se tráfego de coisas
cuidadosas.
Amar como quem se sabe em cada coisa
de valor que compra
ouvindo o pulsar dos milhares de
mãos que as fizeram.
Amar o conhecimento porque é o
salto
para o lado claro da vida,
para o mar nas praias
em que a alma dos naufrágios é
rapidamente arpoada
pelas certeiras gaivotas dos vários
atos de pensar.
Amar a ciência exata porque nela
existe a exatidão do homem
sapiens e faber
a construir-se como a arquitetura de
uma infindável ponte.
Amar a contradição porque nela é
que somos
o salto da natureza a derrotar o
céu e o inferno.
Amar o tempo que chega a espatifar
nossos espelhos,
porque seria terrível desejar o
futuro à imagem e semelhança nossa.
Amar o desamor de fazer da lua uma
exilada jarra
para o que não sabemos ser, para o
que sofremos
sem querer saber que estamos
pensando ou sofrendo.
Amar a embriaguez porque nela o
tempo se desenha em nós
como os gritos e as quedas da noite
aprisionada sob nossa pele e nossa histórias.
Amar a distância quando ela nos nos
leva para atrás
do que não podíamos ver caído
atrás das nossas retinas.
Amar o movimento assim como a quilha
do barco sabe o mar
ou a labareda saúda o vento que lhe
dá existência e várias almas.
Amar o silêncio do quarto, o livro,
o gelo no fundo do copo
simplesmente porque são coisas
com que nos agarramos a nós mesmos
como o náufrago a uma tábua.
Amar a pergunta como quem despe uma
mulher, peça por peça
ou como quem apalpa, sob uma saia
quieta, o eriçado vértice de quatro lábios.
Amar a vida como se fosse a morte
sete vezes pensada e repensada
e vencida a cada instante e sempre
treplicada em sentenças recorríveis.
Amar o busto de Espártaco e a
utopia comunista
nimbados neste final de século,
nesta ponte
a procurar no espaço-tempo longe o
novo modo
de ser, o novo homem, o homem pronto
para o andar entre as estrelas e ser
aquele ser
em cujas mãos o poeta sonha a
história livre
de tudo o que hoje amputa em nós o
ser humano
e nos faz tão contemporâneos ainda
de Espârtaco e de Marx
nas telas de TV e no teclado dos
computadores.
Amar, por isso mesmo, como quem não
teme
ser estilhaçado entre os portais do
tempo
em que a existência é fechada como
os túmulos.
Amar como quem de fato não tem mais
tempo
para divertir-se com a sonoridade
das palavras escolhidas
a partir de dicionários e de medos
que não servem
ao homem preso, à existência
presa, aos amores presos e à história
do aprisionado tempo de todos
aprisionando as horas de cada um.
É necessário, portanto,
como quem na liberdade abre uma
porta
viva
e do tamanho dos mundos ainda não
sabidos
para o sonho da criança que não
deve morrer
e salta
no final de todas as ruas para o
ilimitado
âmago de cada invenção do homem.
1992
QUINTETO NO OUTONO*
(2ª versão)
I
Escrever um poema não é brincar
de ser com palavras e sons
sobre a brancura sem defesa
do papel ou da vida que não foi
vivida.
No fundo dos becos sem saída
é que o poema se encontra
lado a lado com as mortes
inumeráveis e indefinidas
na mão que o escreve.
Morre e transforma-te!
Não há outro caminho:
o poema é sempre uma autópsia.
II
No lixo da praça os ossos do
mundo
brilham como luas doentes.
No lixo da praça o poeta
quer ser apenas um homem
com uma canção nos gatilhos
de uma revolução necessária.
No lixo da praça os ossos do mundo
brilham como luas doentes
à espera da poesia, cadela
feroz e machucada, cadela
que ao poeta se amarra
sobre o represar da vida
mais forte que as voragens
do desejo de matar-se.
No lixo da praça, o poeta e a sua
poesia
perambulam entre os ossos do mundo
a violência do sol aprisionada nas
luas.
III
No fundo do prato havia um rosto.
Eu nunca pude decifrá-lo;
sua velocidade era diferente da
minha,
nessas horas a minha esperança era
um pano velho que nem mais vestia
a fadiga da vida espantada.
No fundo do prato em meu país os
ratos
usavam a cara dos poderosos
e comiam e comiam este rosto.
Um rosto que jamais sumia
diariamente enterrado e recomposto
no rosto de cada morte operária
dentro de cada coisa que eu via.
No fundo do prato havia um rosto
que eu nunca pude decifrar.
Além de mim, no entanto, ele era o
meu rosto, o rosto
em que nem sequer me encontrei
como quem cumpre, de fato, a sua
própria lei.
IV
Quebrei as paredes de vidro que
me cercavam.
Quebrei as paredes de tijolo que me
prendiam.
Quebrei as paredes, todas as
paredes, de pedra e pensamentos.
Quebrei a casca de tudo que me
limitava
e saltei - alma dos mortos - para o
olho do lago
que me olhava do além, muito além
do que me ensinaram ser fisicamente
as rotações da eternidade no
universo infindo.
Foi quando reli a palavra tolice
no atestado de óbito da poesia
natimorta porque nascida longe
das dimensões do vento em que se
move
no ventre do universo a vida
incendiada pelos gritos do que devia
ser do sol
e é soterrado sob a história e sob
o trágico.
E a solidão, ela se toma total e
noturna
quando pulamos a cerca que nos
esconde
da nossa morte nos prometendo aos
cemitérios
e ali nos quedamos, desvario apenas,
sem ouvir
a frágil perfeição das várias
mortes de uma flor
século apôs século a colorir-se,
teimosa e bela
sobre as não-respostas do silêncio
em todos os túmulos.
V
Sim, há sempre um som da morte
dissecado
sob a palavra que nomeia e domestica
os movimentos em que se transforma a
vida humana
entre o ser e o não-ser, entre o
que é e o que não foi.
Morte e transformação: isso eu
persigo
neste mundo em que criar também é
destruir.
Porque não existe outro modo de
andar
no que é poema, que é sempre uma
autópsia
do instante, porta infinitamente
aberta
no papel
pelas chaves do branco a libertar o
indizível
a partir da metáfora que soube
movimentá-lo em nós como um ser
vivo
do infinito em que às vezes nossa
vida é
sentimento e sonho além do som e da
palavra.
* Publicado em 11.7.1987 no Caderno Idéias do Jornal do Brasil, e na Antologia Poética de
1993.
a Reynaldo Jardim
Qual gilete contornada,
ave de vidro e de nada,
ave e chave, chave
mais que ave, prece achada
no tempo de ser lembrança
no pranto de minha filha
a tarde
a tarde entre os edifícios
da cidade que surgia
como um grito cinzelado
no lábio escuro do dia
a tarde
longo trilho circular
fechando-me, noite ou brilho
do pensamento e da carne
picotada entre ladrilhos
a tarde
qual gilete contornada
por dever ou por ternura,
dando ao meu sem mim de volta
o luar feito com os ossos
do Homem sem sepultura
debaixo da Grande Mesa
(onde o medo e os homens ocos
brincam de fazer sombras
em torno da Luz Acesa).
SILÊNCIO
UM O DO UNIVERSO
(2ª versão) - inédita
No silêncio opaco que se
movimenta imóvel
no quadro da parede e nos objetos do
quarto:
no silêncio da luz da lâmpada
sempre a mesma
e neutra nos ladrilhos da cozinha,
no rosto das casas;
na pele do homem a dormir ou do
homem acordado
entre o ser e o teor, a sístole e
a diástole
no Silêncio, no indefinido
silêncio, no silêncio elástico
da formiga que acaba de atravessar
neste tapete
o giro de cem bilhões de estrelas
na via láctea;
neste silêncio, num silêncio
assim, neste silêncio real
que é mais que o nosso silêncio
tão cortado
de palavras, neste silêncio tão
silêncio, neste avesso
da dor que explode ao abrir-se para
a antimatéria
na lâmina da face pronta para o
crime
no ar que envolve a vela acessa e o
morto na calçada
na palidez dos escolhidos pelo
câncer
nas bolas do sol que o menino
aleijado não alcança
na água que fecha eternidades sobre
o corpo do afogado,
neste silêncio, num silêncio
assim, neste silêncio real
do infinito amordaçado sob os
nossos vários medos,
é que estão as vozes, as vozes que
não ouvimos
incapturáveis pela razão dos
nossos código.
(No interior do silêncio que reina
no coração do homem e das coisas
a poesia abriga o que pode ser poema
se o eco das infinitudes neles
encerradas
for ouvido por um Ser humano
através do Amor e da Liberdade
além da nitidez sem asas do que é
a logolatria do conceituável hoje
quase tão somente em nome do que é
economicamente lucro financeiro).
Não sei por quê,
mas tenho
uma vontade mansa de tomar chá
com Thomas Stearns Eliot,
de não dizer nada
de não perguntar nada
e ficar olhando
todas as manchetes e todas as capas
de todos os livros
olhando de olhos vazios
não como os do morto, mas vazios
como o luar que orvalha a tamareira
e o poço.
Uma vez ou outra, ouvirei
a colherinha pousar na porcelana
frágil
e é tudo que eu ouvirei, a
colherinha de prata.
Talvez até lhe dissesse uma
coisa qualquer, uma coisa
só para quebrar o silêncio, só
para isso,
uma coisa sem importância, simples,
como por exemplo:
Você sabe, ó T. S. Eliot, minha
mãe já foi muito bonita...
Paris, 1950
Alguns poucos fragmentos
do poema livro NESTE LENÇOL
10
Neste lençol a vertigem
dionisíaca, a dança
entre as labaredas do fogo
irracional
dos vulcões dormidos sob a
pele
anestesiada ou morta pelos
mitos.
Neste lençol o imaginário era
uma deusa
desamarrando sombras
que de repente se tornavam em
corpos
de touros estuprando luas
em coitos longos como a história.
12
Cibele, Ishtar, Íris, Afrodite,
Fréia
ou mesmo Kali,
eu vos invoco
Com Madalenas e Judites
com Nossa Senhora da Glória
e Iemanjá,
com Marias Bonitas e Bartiras,
vinde, eu vos invoco
Aspásias, Catarinas, Safos e
Virgínias
Isoldas, Joanas e Frinéias
Anitas Garibaldi, Lâmias e Taises,
eu vos invoco, vinde, vinde
para o corpo desta mulher neste
lençol,
mulher nua inteiramente sobre o
linho e nele
a derramar o seu pentelho e os seus
mais úmidos
ecos de efervescência e abelha e
mel no sangue
que é mais que o sangue, e que por
isso é
a fonte
da eternidade a se fazer em tempo
ou em teias de infinitas luzes
sobre
esta cidade, este planeta, este
universo
em que sou pele, tendões,
artérias, cartilagens
em desejos de gozo ou de
explodir-me como granada ou como o
sol
dentro do que pensamos ser
a escuridão da vida.
17
Neste lençol havia a neve, a
melhor neve do Báltico.
Foi ali que as chamas de noturnas
toras na lareira
coloriram a essência e a forma
destes seus cabelos
ou a vocação lunar das suas
quedas, soltas longamente
neste lençol agora em que eu
descubro e toco
em seu pentelho os racimos das
primeiras primaveras
do seu corpo em flor se abrindo sob
as macieiras
ou no estreito beliche dos barcos a
vela ancorados
sob as gaivotas do seu sonho a
perquirir
no mar gelado os peixes do sol para
as suas coxas.
19
Neste lençol luas quebradas em
guindas de mastros
tantas vezes repetidas sobre o Mar
do Norte
ou neste Atlântico em que se
cruzaram
a minha e a sua infância em tempos
completados
- diamantes lapidados por nossas
mãos enegrecidas
de tanto trabalhar o veio da noite
em suas forjas.
Neste lençol seus seios se
estufavam com estrelas pandas
no sangue vertical das veias
parideiras
do infinito a revirar-se no
céu da minha boca
e em cada desejo seu que eu
devorava
como quem devora
os resumos de deus em sua fome
inteira.
27
Neste lençol aquele impulso de
gastar-me todo,
de arrebentar-me, balão de pele e
ossos
e desejos, feixe de neurônios
iludentes
a explodir-me juninamente sobre a
tarde
deitada nua e de bruços
- como você, mulher
na cama em que nasceram todas
a. minhas noites e todas
s minhas perguntas sem resposta.
Saturnálias, carnavais de luas
emborcadas como taças
neste lençol em que você se despe
e revela
todas as almas de sua nudez abrindo
em formas longas de significados
lentos
a própria origem da vida em seus
mistérios.
28
Neste lençol o suave descer de
uma calcinha
prenuncia
o que a palma da mão soletra em
braile
como sendo
a revelação das curvas mais
divinas
entre as curvas que existem sobre a
terra.
Na hora do amor, suas contrações
redondas
não têm a grandeza das vagas, isso
é certo
porém elas convocam e elas
concentram
no ar quadrangular desta cama
o anjo e o demônio dedilhando
harpas de nuvens esticadas
pela sacrílega tesão de derramar
o azul do céu no fogo escuro
em que o barro da vida se cozinha
sob a infinita volúpia de voltar
ao umbigo do Cosmo
no ar quadrangular da cama e
dentro
do homem que as contempla e sabe
senti-las palpitar sob sua pele
quando
todo ele é mão, é dedo, é beijo,
é fúria, é foda.
29
Neste lençol o amor pela vida é
muito grande
sobre os guinchos da morte em
suas dobras.
Neste lençol as unhas eram
sábias e sabiam
acupunturas capazes de sonar
os nervos
guardadores da chuva e do
relâmpago
no seu clitóris e no meu
testículo.
Neste lençol os eleatas rolaram
vencidos nas alturas
em que a edelvais floria no
seu púbis
de fêmea lambida por meu
sopro macho.
E no seu monte de Vênus a minha
língua
escalava
o fogo invisível em que nós dois
ardíamos
UM POETA NA CIDADE E NO TEMPO*
a Rosemary Alves e Rafael Goldkorn, em 1997
I
Equilibrado, equilibrando,
equilibrado
colho o verso amarelo atrás dos
temporais
atônito
como quem vai colhendo o mundo e
suas manhãs
nas malhas de uma vez sempre a
primeira.
E em cada flor acesa leio o fio e o
desafio,
e em cada som que tomba escuto um
cisne tonto,
e em cada tronco, e em cada muro, e
em cada ponte
a marca e a ausência humanas
tudo me contam, e aos bem assim
contados
me decifro e amo.
Depois, eu sou o que fica atrás do
que deixou de ser
equilibrando, descoloridamente
equilibrando
na tarde branca os vários enterros
de mim mesmo
e o escasso entendimento desta sutil
melancolia
me decompondo além do que é a
memória.
E quando a noite desce, eu pairo
sobre os tetos
ao ouvir o motor dos aviões cortar
a treva espessa;
ou subo em várias perguntas
milenárias
para tocar a trívia sombra de um
galo cego sobre a 1ua.
Equilibrando um brando brado o
poeta
cumpre o seu encontro com a tristeza
na cidade e no tempo
em que havia muita fome e os
desamores
eram quedas do que devia ser a
esperança
em escuridões corporificadoras de
finais.
II
O poste seria apenas mais um
poste
com seu halo boêmio de luz,
se também não fosse os homens que
consumiu;
se o resultado vertical de suas
linhas
não me falasse, não me contasse a
verdade
das muitas minas e de um crepúsculo
de ferro e tosse e futuro ruim
grudados
na testa curvada, no dorso curvado,
na esperança curvada
do velho e do jovem que trabalham
nas muitas minas.
Na escura garganta da noite, as
lâmpadas
seriam apenas a indicação de
lebres iluminadas,
se não aclarassem também o
trágico duelo
das veias e das lâminas, do início
e do fim
de um músculo que dia após dia se
apreende
cansado, cansando, cansado
sem perceber firmes indícios de
chegada ou porto.
Equilibrando um brando brado o
silêncio
ergue a hora em que não entendo
mais nada.
É quando as granadas da minha alma
se destravam
no desequilíbrio em que tombo e me
levanto doído
entre o ronco dos coletivos e este
torturado espanto
de saber o mundo assassinado na
distância que separa
em gaiolas de leis o coração e a
vida.
III
O coração de um lado, cada vez
mais
é uma consciente urgência de vida;
e esconderam (cada vez mais) a vida
no ar tão condicionado de uma
vitrina.
Dentro da vitrina havia uma bola
de todas as cores,
havia o jogo das mil possibilidades,
a estrada larga
e os ventos marulhando sóis sobre
as espigas;
havia o menino brincando sob o olhar
tranqüilo dos velhos
e a garrafa de leite ao lado do
campo de tênis,
e o verde de tudo nadando nas
miudezas de ambos;
havia a mesa de jantar e um disco na
vitrola,
a biblioteca,
e mais o berço tão leve, a cozinha
de limpos azulejos;
havia o sangue procurando o encontro
do macho com a fêmea,
havia o Homem
com seu desejo de Homem,
havia a Mulher
com sua nudez a prometer
entrega de estrelas,
havia o amor
e, sobretudo, havia a possibilidade
de ser mantido o amor,
a solene possibilidade do amor
crescer
como cresce a onda no mar,
como cresce o filho no ventre.
IV
O coração de um lado, cada vez
mais
é uma consciente urgência de vida;
e esconderam (cada vez mais) a vida
no ar tão condicionado de uma
vitrina.
Em frente à vitrina, juntei meus
filhos aos filhos
dos homens que fazem ou sabem fazer.
Que fazem estradas - e não
encontram caminhos.
Que fazem escolas - e não sabem
1er.
Que fazem poemas - e vivem sozinhos
a mascar os horários de um nunca
entender
este mundo que os prende, escravos
na roda
que gira, que gira, que gira
como um disco, uma valsa
para uns poucos que dançam
fantasiados
de Good Men's Corporation & Cia
Ltda.
Entre a vitrina e a criança, uma
po1ícia.
Entre a polícia e os homens, o
medo.
Entre o medo e o tempo, a fome
com seu longo cortejo de suor e
violência.
V
Num trecho de mar os ombros da
moça
(nem sei se foi o mar ou a brisa ou
a moça)
suspenderam-me a um páramo de
pássaros
(o que voou mais alto matou-se de
azul,
cumprindo o destino de todas as
solidões
quando se defrontam com uma solidão
infinita).
E eu fiquei dependurado, árvore
invertida
sobre o meu próprio pomar de
solidão,
equilibrado sem mais saber como
equilibrar
na memória o desequilíbrio de um
circo
onde apenas a minha adolescência
triste girava
- como se estivesse brincando de
roda
em torno de um palhaço que não
sabia o quão era triste.
VI
Equilibrado, equilibrando,
equilibrado
também acendi nos candelabros
húngaros
o que tenho de melhor e mais humano
- o direito de reivindicar a vida
além do esquema -
e iluminei, em meio a um grande
sofrimento,
o rosto multifário de Essenin e
Maiakovski,
de Isaac Babel, A. Joszef e
Jasiênski.
Vários se mataram, e muitos foram
mortos
para que o homem surgisse do homem,
para que a vida surgisse da vida,
para que tão-só a verdade marcasse
a realeza da ação.
Não temporizaram. Por isso os
ilumino
ao som das eriçadas avenas
polonesas.
Morreram vitimados; por isso é meu
dever
iluminar sem trégua os erros
poderosos
como algemas
nas mãos do futuro sob a
inteligência poética
a pensar as contradições do drama
natural de haver
mil espelhos refletindo
as mil faces de um mar
sempre fiel a si mesmo e tão
diverso
conforme as praias o desdobrem neste
ou naquele continente humano.
(Enquanto um vento avermelhado
sopra o meu blusão
e os tamborins deságuam sobre a
areia um mar ferido,
as muralhas de cimento, altas
muralhas de cimento
servem de painel aos firmamento que
fabrico
equilibrado, equilibrando,
equilibrado
neste mais que aéreo banco da
Avenida Atlântica.)
VII
Se há um mundo a construir,
outro aí está
e cumpre destruí-lo. Construir, eu
sei, importa mais
para os que lidam com a palavra
clara como o sol,
para os que a colhem além dos
nossos agoras asfixiados.
Mas só constroem os que
sobreviveram
aos atos de atravessar o sal extenso
dos mares congelados
e se redescobriram desmesuradamente
intactos
nas praias onde se alongam
profícuas pontes
entre o peixe cego e a flor dos
montes.
A esses, sábios e santos, somente
enxergo deste exílio
em trevas que partem de mim mesmo e
me consomem
como a um animal de luz a correr em
labirintos.
Hora a rachar-se de alto a baixo,
o ato de criar destrói
no tempo a latir amestrado dos
conceitos
em frente aos portões da noite que
se quer guardada.
E eu destruo. Erguendo o musgo e os
esqueletos
de todas as minhas verdes verdades
naufragadas,
eu destruo, destruo cada vez mais
este vazio opaco
preso em mim como escafandro,
destruo
esta negação da negação em mim
que escrevo
com a mais que dolorosa impaciência
de quem não mais enxerga a imagem
exata
para legar ao tempo um rosto
inteiro,
liso de arestas e de covas.
Sinceramente, amigo, lamento ter
que dizer a coisa pelo avesso
e entregar-lhe apenas este meu
negativo, este olho embaciado,
esta melancolia armada como
a janela dos povos oprimidos.
Que eu possa, ao menos, servir-lhe
como prova ou testemunha
de que existe um mundo a destruir e
força é destruí-lo.
* Este poema foi publicado em 1955, no jornal Para Todos, dirigido por Oscar Niemeyer e Jorge Amado, e cuja página de poesia era de meu encargo. Em livro, saiu pela primeira vez em 1959, em O pão e o vinho. Republico agora com algumas alterações e em versão que considero definitiva por ter sido talvez o primeiro longo poema inserido filosoficamente ao lado dos que há decênios - sempre a favor do socialismo - vêm dialeticamente lutando em nome de mudanças qualitativas a serviço de libertações do ser humano como indivíduo e como ser social. E, portanto, foi um dos textos primeiros do socialismo contra o stalinismo, com longas repercussões e discussões.
Moacyr Félix