Poemas de Moacyr Félix - II


 Estas amostras de poemas de 16 livros de Moacyr Félix foram todas extraídas da volumosa e tão significativamente louvada antologia feita pelo próprio autor no final de 1998 e,  já em 2ª edição, publicada sob o título de Singular Plural pela Editora Record.

 



 
DIALÉTICA

 A Verônica e Pedro Lira

Com uma laranja
com uma laranja na mão
com uma laranja na mão, o negro
do alto do caminhão
saudava o dia

E sorria

No sorriso do homem
negro negro negro
(e ele nem o sabia...)
é que morava a certeza
bela bela bela
do que nele sorria:
do tamanho do mundo
a laranja seria
na sua mão de negro
como o sol um dia

Como o cachorro e o cavalo
que o olhavam, também usados,
como Pedro, o meu filho
em cujo porvir se aclarava
o que sou como sombra
de pé sobre a rua
onde ele o negro, qual flor do meu povo, passava

quase apenas um animal
quase apenas uma criança
quase apenas uma força
natural
numa densidade acuada de esperanças.
Com uma laranja na mão, o negro
saudava o dia, saudava todos os dias.


 
 

E O AMOR SERIA TÃO FÁCIL
 

O amor seria tão fácil, querida,
se a sutil necessidade não fosse este desejo
de escapar, de romper de irromper
além da desvivência que preside os vários medos;  

e se o desejo mais o tédio assim não fossem
a furiosa ânsia
de explodir-me dentro da vida emoldurada
e reinventar a vida
ao reinventar-nos em outra esfera que não é esta.  

O amor, querida, seria tão fácil
se a beleza do corpo não fosse tão difícil
às nossas almas desde crianças exiladas,
se a tua noite não fosso ajoelhada
e caminhasses  

 sobre a noite alta  

quando um rebanho de luas anda pastando em minha sombra
e um morno mistério chove surdamente sobre os nervos
até expurgá-los, e ao homem, de todo medo ou cálculo.

Seria tão fácil o amor
se em teus olhos o pranto fosse o pranto
pelo fato de estarmos esquecidos
de que os pássaros, as crianças e as rosas
desconhecem a morte, esse temor de não durar
que não nos deixa tirar da eternidade
as invenções do orgasmo num tempo que não este.


 
 

ENTÃO, SIM, COMPREENDEMOS

a Samuel Rawet

Quando a noite se cristaliza e é uma coisa,
um silêncio, uma poeira sobre o móvel, uma janela
sem ruídos, um retrato que dói de não doer,
ou, no canto de um quarto, dois quietos sapatinhos de criança.

Quando a noite é totalmente uma coisa
a que não indagamos, fósforo, som de buzina, ou dimensão
coisa reconciliada, coisa
onde não pomos traço ou acidente nosso, a não ser esta calma
tão parecida com o olhar de um bicho ou de um velho sábio.

Quando a noite é deste modo uma coisa
e o tempo, sem adjetivos, rodeia a nossa carne
com uma ágil porção de peixes musicados.

Então, sim, não nos metem mais medo
nem a lua com os seus olhos de chuva,
nem a sombra do tigre sobre os nossos caminhos,
nem a horrível surpresa das tarântulas
que a flauta de sombrios pastores convoca
para os buracos abertos na previsão dos planos.

Então, sim, compreendemos
porque a importância de todos os oceanos não é mais solene
 do que a de uma só gota de água,
porque somos uma parte daquela sombra nos quintais, ou
daqueles
troncos,
porque algo de nós se instala na paz daquele encontro da sombra
com os
troncos,
porque a tempestade dialoga, ao mesmo tempo, com a vidraça
dos berçários e com o pânico dos náufragos,
porque a presença do mistério é tão natural e doce, como

natural e doce é o deslumbramento com a nudez da
mulher amada,

porque a Morte é admiravelmente simples como um fruto que
seca,

porque a Vida é movimento e em todas as coisas se entranha,
incapturável como o risco de uni vôo ou a trajetória de
um gesto.

Então, sim, compreendemos.


 
 

FRAGMENTOS DE UM INVENTÁRIO
(4ª versão)

    A Ivan Junqueira

A luz apagou-se. Neste momento eu sou
uma neblina a espalhar-se leve
no interior dos fatos em que andei
nesta existência que recordo agora
como se não fosse mais a minha.
Neste minuto o outono é um longo caminhão de cargas
a transitar futuros decepados e recordações sem asas
sobre o que outrora fora orgulho de cedro e passarinhos.

A luz apagou-se nesta casa em que estou fora
de suas portas e da porta de todas as respostas.

Nesta cidade que desaparece e logo reaparece
como os convites da morte molhada pela chuva
em que me descubro do lado inexistente das horas.
O telefone crava os dentes na jugular das gratuidades
e traz sempre uma fala que se escorre como gosma
sob os sons do dinheiro regulando os sentimentos todos.
E começo a crer agora, já sem credos, no destino cego
e a confundir fios que não me levam a parte alguma.
Onde as verdades em cujo rastro achei este silêncio
a despencar-me entre desencontros e erros e mentiras?
Mais de meio século de existência e este minuto
solitário como um resto de sol na fronte do profeta
Isaías parado em Congonhas e completamente sem
as conversas no bar ou a luz dançando ao pé da noite
em que tudo se desconversa menos a alegria, a recôndita
alegria de viver, simplesmente viver como quem sabe
o porquê nas plantas cresce a alma viva de todas as cores.

Tenho a minha morte em minhas mãos
e não tenho em mim a vida que levei.
E o que tenho agora? Águas em forma de copo mas sem copo
e a se tornarem, no entanto, o meu real neste irreal
em que nada se animaliza em ser, em que nada tem sentido
a não ser os dias, os meus dias, os dias que nunca existiram.
O que inexiste dói mais que os atos de existir.
Recordar, então, é pior que o desviver:
recomeçar não é possível e o relembrar destrói
se cobra ao homem vencido a força de poder
o que não pode mais, que é o refazer-se
em frente ao que não foi e o que seria
a casa e o pão, talvez o próprio mar na praia aceso
a ensinar os sons do fim à velhice de um casal
que teve três filhos, cinco netos e mergulhos vários
na fundura veloz do tempo inominado.

Pensar a vida não é vivê-la. E as mascaras são muitas
para fingir que é grande o que é tão-só pequeno.
Com dogmas e convenções tiranizamos a vida bestamente
até nos reduzirmos ao oco ser que é a imagem tão-somente
do nosso medo a vestir-nos no olho do outro que nos olha.
Além da resposta marxista no dia se dilata o humano
em cada pergunta sem resposta, em cada passo
da criança que se faz adulta e aprende o imponderável
além de cada porta aberta, além de cada barco solto
para os acasos que nenhum computador programa.
Além do esquema de pensar, meu corpo é o Universo
em cujas teias de nervo, sangue, história e energias
a vida prossegue e clama e dança e salta, solama em noites
sobre a nossa tão condicionada conduta em serventias.

Quando aterrissa no olho o fim da vida ensina
o quanto é parca a vida inteligente apenas.
A literatice é uma farsa e os literatos exibem quinquilharias
como se fossem pérolas no chão da vida suja de medo e de ódio.
Incorrigivelmente romântico, sonho e utopia presos ao que não é
sob as palmeiras que não existem na Rua das Palmeiras onde moro,
penso em árvores, grama, sossego e águas correntes, o sítio
a que chegar em passo igual ao dos elefantes que envelhecem.
Mas de que adiantaria levar tão longe este incêndio
em que me acabo e me prolongo, sarça ardente de bíblia nenhuma?

Sobrou-me esta revolta contra
os poderes aqui constituídos, todos os poderes
que fazem dourado o podre rosto
das elites que medram no Terceiro Mundo.

Esta revolta, minha miséria e minha grandeza.
Esta revolta, minha liberdade e minha prisão.
Sobrou-me esta cidade instalada em mim como se eu fosse
o instante onde todos moram, esta cidade que eu amo
e em cujo milhar de faces deslizo, peixe somado ao mar.
Ah, como eu sou grande quando ando à toa pelas ruas!
Lá fora não há sol e nem chove. Lá fora a alma do meu corpo
é um rio vertical a retornar-me em direção aos ventres do infinito
donde os deuses do acaso a tiraram, loucura azul a devorar-me
como a aranha devora, na hora do amor, o companheiro.
Ou, mais certamente, uma súbita reunião de cromossomos
nas usinas de dois corpos unidos numa certa noite
humana e simples, uma trivial noite de encontro e de desejos
entre pentelhos e colhões e amor e medo e dentes cariados.

Tenho a minha morte em minhas mãos
e não tenho mais em mim a vida que levei.
Nas minhas veias, no entanto, sinto o mundo
caminhar-me caminhando em minha memória
o ser humano em que me distendo em ponte
entre a sombra do dinossauro e as naves além do sol.
Tenho a minha morte em minhas mãos.
E para vocês, meus filhos, um enorme pedido de perdão
que não faço. Que não faço nem posso fazer
porque no final das contas sempre me descubro
onde os suicídios se apagam e o amor levanta
esta feroz aceitação da vida como as chamas
do ser que ainda não fomos e que em sonho nos reinventa
com o impulso de ser além das grades, quaisquer grades.

Tenho a minha morte em minhas mãos.
Nas fímbrias do seu nada, porém, eu bordo, ali eu bordo
a teimosia da vida
bela, limitadamente bela
 porque é sempre um querer
(e um nunca conseguir)
     adiar ou ser
maior que todos os atos de morrer.

     1991


 
 

HOJE, MEU PAI

Aos Meus Irmãos
     

Meu pai, hoje entendo seu rosto
na varanda da casa em Juiz de Fora.
Hoje, caminho lado a lado com o seu eco
neste Rio que foi um ninho de arapucas
ao passo minguado dos seus ganhos.
E você sonhava, pai. E você renunciava
a esses sonhos, porque nós existíamos
com nossos pés descalços a escalar o tempo
que você empurrava como a uma alegoria do bloco
dos Desencantados pela Vida no Jardim dos Oliveiras.
No crepúsculo você ouvia La Paloma
no disco de cera que se perdeu
empoeirado pela destruição das casas
em que já moramos, a sua tristeza e eu.
Poderia ter sido um grande médico
com clientes, consultório e tudo o mais
que você tentara alcançar através de muito estudo
nos bondes entre Copacabana e São Cristóvão.
Em vez disso a farda e o quartel
como destino no Largo do Chafariz, em Goiás Velha,
a garantir-lhe em cada mês uma quantia
que dava o pão e a casa e decepava
cada vez mais o discurso das audácias
em cujo risco pousa real o vôo de quem sonha.
Em vez disso, pai, as trevas acordadas
velaram, que pena, a sua face imóvel
numa janela em que as luas desabavam
enquanto este seu filho não descia
dos trapézios da noite acesa em putarias.
Que ganas tenho de encontrá-lo agora
a você, Saturnino de Oliveira, que hoje entendo
e de quem sempre me desencontrei
nesta soma de erros que não sei
chamar de amor, como pretendo.
Aquém dos retratos de pé sobre a mobília
não aceito, pai, as mortes neste tempo
em que o ser humano finda sem cumprir-se.
Que foi sua vida senão colecionar escadas
para elevar-nos a uma altura maior que suas derrotas?!
E quando isso aconteceu, então quem você era?
Uma solidão envelhecida a palmilhar-se
no labirinto de artérias estragadas, viva sucata a enferrujar-se
em três quartos, duas salas, sons da boda de ouro a aproximar-se
e vozes de mortos cada vez mais altos.
Pai, meu pai, o barulho desta cidade me enlouquece
antes de achar-me na principal resposta, aquela que não sei.
Imateriais, seu rosto e o de minha filha me transportam
além deste céu azul que rasgo como ao pano
do sudário que serve ao espanto dos deuses quando morrem.
Pai, meu pai, estou infinitamente órfão
neste dia trinta, véspera de mais um ano-novo
neste restaurante, nesta cidade, neste mundo
em que cada coisa me diz que tudo é velho
como o olhar do pivete que ora assalta e mata
porque ele próprio é o mais próprio resultado
da fúria dos motores que desde há muito movem
a dor que ponho em meus poemas e a ambição que legifera
sobre o salário, a escola, o hospital e a fábrica.
O doloroso, pai, é que tudo isso não explica e nem apascenta
a singularidade do que foi o seu tempo dentro deste tempo
em que você é agora estrela, chuva, sol, relva e movimento
na rua Polidoro e numa hereditária maneira de espremer-se
o dia no fundo que dá vida ao olho dos seus netos.
Assim como nas atuais fotos de Ouro Preto brilha
e se estampa retocado o casarão em que você nasceu,
você deveria estar agora renascendo no meu rosto.
Eu, no entanto, é que prossigo
morrendo aos poucos no que fora o seu.
E.N.V, 1981