1-Antônio Olinto- O pão e o vinho atira Moacyr Félix além do terreno intermediário: planta-o como poeta que, de agora em diante, passa a ter importância em nossa literatura. Por isso, repito: neste livro, tudo se cumpre. O que se deve dizer em primeiro lugar de O pão e o vinho é que nele Moacyr Félix retoma a diretriz do poeta que busca pelo sentido de ser, as diferenças entre o filósofo e o poeta  são grandes, mas há uma semelhança que os junta, que os torna companheiros de lida.”...  
“Moacyr Félix faz a revolução que todo bom poeta procura empreender, na sua vida e na sua obra. Dois poemas do homem e de sua escolha, A estrela, o deserto e o trigo, Elegia um pouco antes do quebrar do vidro (as paredes da tarde eram de vidro), Rosa de pão, em todos estes poemas a medição do verso segue rotas inesperadas e de absoluta originalidade. É do que melhor temos tido no Brasil nos últimos anos. ”...  
“Os 144  poemas do livro acabam por formar um só poema. Com ele, firma-se Moacyr Félix na posição de poeta que resolve parte da crise em que nossa poesia se perdeu nos últimos 15 anos. E o Ter vencido o aparentemente beco sem saída da literatura de um povo torna seu nome importante, a partir de agora, em nossas letras.”  
(Em O Globo, 31/3/1960 e 24/3/1960)  

 


  

2-Nelson Werneck Sodré- “O traço dessa poesia candente está contido com precisão quando o autor define o poema: ou se vive por inteiro / ou o pela metade a gente/escreve a vida/que não viveu. E o papel em branco então serve/como serve ao prisioneiro/a parede branca do cárcere. Para concluir com grandeza: O que não foi é o ser que é/no poema, esse ato mágico/de uma chama que não se vê/tanto mais quanto ela queima/no ar de uma cela vazia/o homem que é posto em pé/sobre os mortos do seu dia. A poesia de Moacyr Félix permanecerá como a respostas que uma geração sacrificada deu ao seu povo. O poeta foi um dos grandes intérpretes da nossa época. E não há maior qualificação do que isso. Ele falou por todos nós, que a vivemos e sofremos.”  
(trecho do longo artigo sobre M. F. publicado, em parte ou na íntegra em vários jornais e revistas literários nas capitais da vários Estados do Brasil, nos anos de 1995 a 1997.) 
 

 

  

3-IVAN JUNQUEIRA- “Mas o que redime o poeta engajado, por paradoxal que o seja, é justamente a força de seu impulso lírico, essa faísca que lhe galvaniza os versos e lhe transforma a lógica do discurso político em arrebatada e irresistível  linguagem metalógica. E Moacyr Félix, diga-se logo, é mestre consumado dessa insólita e desassombrada alquimia.”....  
“Decorre  daí que a poesia de Moacyr Félix se configura em termos de uma linguagem que não pode (e não deve) ser interpretada apenas em si mesma, mas sim a partir do que nela se afigura como veículo de uma utópica transformação social. Quem a divorciar desse nobre propósito incidirá, como tantos já o fizeram, no equívoco de reduzi-la ao estro retórico que a entranha.”....  
“Não  são poucos os poemas que o atestam, sobretudo os de fôlego elegíaco e que lembram às vezes as grandes odes epigramáticas de Hölderlin, cujas marcas, aliás, são indeléveis na poesia de Moacyr Félix, assim como as de Whitman. É daí, talvez, que  deriva sua predileção pelo verso longo, amiúde quase bíblico, distenso como uma vaga que pretendesse engolfar toda a humanidade.”....  
“É esse voluntarismo cósmico, esse movimento que se opera sempre ‘em nome da vida’, que fazem de Moacyr Félix um poeta único em nossa literatura de participação social e, a rigor, em toda a literatura que aqui se escreveu na segunda metade deste século.”  
(Ensaio no livro O signo e a sibila , de Ivan Junqueira)  

 

 

4- OTTO MARIA CARPEAUX – “Moacyr Félix não é poeta retórico, mas lírico; isto quanto ao valor de sua poesia. Moacyr Félix aparece e reaparece no exato momento histórico; isto quanto ao sentido de sua poesia. Os dois elementos encontram-se reunidos numa poesia como Minha elegia de abril, que é lírica, quer dizer, é elegia quando se refere, em uma das últimas linhas, ao Vietnã; mas que deixa de ser elegia e adquire sentido novo quando o último verso se refere à batina do padre Camilo Torres, e na floresta escura das guerrilhas, na selva escura destes tempos se acende a luz de uma nova poesia.”  
(resenha da primeira versão do poema em Um poeta na cidade e no tempo,  em Revista da Civilização Brasileira, nºs 9-10, set.- out. de 1996)  

 

 

5- ALCEU AMOROSO LIMA- “Os poemas de Moacyr Félix representam um dos pontos mais altos, em nossa poesia moderna, dessa aproximação profunda da poesia com o problema social e revolucionário, que Carlos Drummond por um momento tocou na sua Rosa do povo. São poetas antes de tudo. E portanto homens livres por natureza. São lutadores pelas causas mais dignas da fraternidade humana. No extremo oposto de qualquer sectarismo político ou dogmatismo partidário. E por isso mesmo vítimas também do policialismo e do terrorismo cultural, direta ou indiretamente. Mas sempre e acima de tudo poetas. Moacyr Félix agora se consagra.”  
(Em artigo Promessa Cumprida, sobre o livro  Um poeta na cidade e no tempo, no Jornal do Brasil, 27/1/1967, e no livros Meio século de presença literária, José Olympio,1969.)

 

 

 

6- ANTÔNIO CÂNDIDO- “Um poeta, por conseguinte, que pode reversivelmente se ver no mundo e ver o mundo em si, a cada compasso do seu trabalho. Por isso, ele escolheu as palavras sem preconceito e as dispõe para efeitos de choque; de modo que nos seus poemas o eu, a coisa ou o acontecimento são programados como impactos. E se há nele alguma  parcialidade, é a de elaborar a poesia como arma de inconformismo e portanto de luta, seja o tema pessoal ou político. Como uns versos de juventude de Spender, os seus parecem pedir ao leitor que extraia deles a energia acumulada, para mudar o ser e a sociedade. Moacyr Félix é um poeta que deseja intervir na vida, porque, como sugere um poema do seu livro O pão e o vinho, se os deuses podem abismar-se na meditação, ao homem só é dado agir.”...  
(apresentação do livro Em nome da vida, 1981 
  

 

 

7-ANTÔNIO HOUAISS- “O engajamento deste poema é inequívoco – pois é consciente. É reflexo de uma racionalidade que se abeberou também de todas as emoções e sentimentos. Por isso, seu canto aqui tem auras de rosas aurorais que perpassam pelos versos militantes que a humanidade tem escrito, de Homero, ontem, a Neruda, hoje, passando por todos os que quiseram pôr sua poesia a serviço, sim, da construção da utopia-concreta. Juntando-se a essas linhagens, Moacyr Félix flexa fênix do canto altíssimo, sofrendo-o coletiva e solitariamente – tão solitária e sofridamente. Mas dá a cada um de nós a oportunidade de reconhecermo-nos, de revivermos e ressofrermos os últimos tempos, na esperança de que todos venhamos, juntos, a reinventar uma vida mais humana, mais fraterna, mais amorosa.  
É fundamental que cada um de nós que sinta poesia leia e cante esta Canção do exílio aqui de Moacyr Félix – que Deus guarde e o Rei não cale.  
(orelha de Canção do exílio aqui, 1967)  

 

 

  
8-JOSÉ PAULO NETTO – “Mas novo salto qualitativo ocorreria: em Um Poeta na Cidade e no Tempo e em Introdução a Escombros (inédito do qual só conheço excertos), M.F. alcança o que creio sua definitiva feição- uma poética que, a despeito de ser racional, explora o mito, recria o mundo e funde, numa admirável síntese dialética sem precedente na literatura brasileira, o social e o individual, o objetivo e o subjetivo, o Alter e o Ego.”...  
“Pela sua concepção de mundo, inicialmente indagação, depois afirmação, e, enfim, como necessidade de transformação deste mesmo mundo: pela sua grandeza como criador; pela sua honestidade ao explorar caminhos; pela sua negação aos pseudo soluções esquemáticas e alienantes; pelo seu arraigado humanismo (e é aqui que reside minha admiração por este poeta), consubstanciado numa idéia de homem como uma totalidade nunca completada, que só se faz na e através da ação; pelo seu amor à condição deste homem: pela sua desgraçada luta para transcender àquela condição sem apelar para os falsos e fáceis diálogos com pretensos absolutos; enfim, pela sua teimosa certeza de que o homem só pode redimir-se enquanto homem – por tudo isto, eu considero, e, mais ainda, proclamo, Moacyr Félix como o nosso maior poeta vivo.  
E estou convicto de que o que se pode dizer, em suma, deste Artista, para compreendê-lo em sua grandeza, é afirmar que, muito mais que poeta, ou melhor, justamente em função de sua vivência poética, Moacyr Félix é o exemplo do homo humanus. 
(Jornal Gazeta Comercial, 7/5/1967, Suplemento Dominical 

 


  

9-CÍCERO SANDRONI – “munido de clara consciência do seu estar no mundo, ele reelabora, a cada livro, cada poema, cada verso, uma reflexão crítica sobre o destino do homem. Sua capacidade de penetrar no real e transformá-lo na mensagem poética renovadora, já notável nos primeiros livros, refina-se a partir de Canto para as transformações do homem (1964) e Um poeta na cidade e no tempo (1966); apresenta-se de forma extraordinária em Canção do exílio aqui (1977), mas atinge incomparável expressão pela tecitura literária e a maturidade da reflexão em Neste lençol .”  
(em Jornal do Brasil, 19/11/1977)  

 


  

10- FERREIRA GULLAR- “Gullar disse ainda considerar como os melhores poetas (na sua nova concepção) Carlos Drummond de Andrade e Moacyr Félix. É por que traduzem melhor a sua mensagem social, concluiu.”  
      (Em entrevista a Shopping News, 29/7/1962)  

 


  

11-FAUSTO CUNHA- “(...) A evolução poética de Moacyr Félix é um dos capítulos marcantes desta nova geração. Começando de Lenda e areia, epigonicamente, entrou na sua fase de libertação com Itinerário de uma tarde para completá-la com O pão e o vinho. Ao contrário de  tantos poetas que nasceram glorificados e terminaram como ovelhas do rebanho olímpico, Moacyr Félix procura ascender a uma posição de liderança não em busca de prosélitos, mas sim no cumprimento de um dever poético. Sua posição nesse particular, vai ao encontro (e nunca de encontro) daquela (àquela) que postula uma realização estética de vanguarda para os problemas novos do poeta vivo...  
Este canto lançado agora ilustra bem as preocupações estéticas e vivenciais de um poeta voltado para o encontro autêntico entre a poesia e o homem, acima dos oportunismos e das concessões puramente formalistas.”  
(em Correio da Manhã, 10/10/1964, sobre o livro Canto para as transformações do homem 

 


  

12-ANTÔNIO CARLOS SECCHIN – “A obra de Moacyr Félix costuma ser alvo de restrições, sobretudo por parte de quem nunca a leu. Proveniente talvez, do conhecido ideário político do autor, agregou-se ao poeta o mito de um esquerdismo sectário. Cita-se a coleção, por ele dirigida, dos Violões de rua (1962-1963) como exemplo de má poesia, sem se ressalvar o fato de que, nos três volumes da série, Moacyr compareceu com apenas oito textos, ao lado de nomes como Cassiano Ricardo, Ferreira Gullar, Joaquim Cardoso, e Vinícius de Morais. A recém-lançada Antologia poética, contendo menos de um terço da produção de Félix, fornece uma boa ocasião de se reavaliarem esses juízos. A edição, bem cuidada, incorpora ainda uma substancial fortuna crítica, constituída de 24 estudos e depoimentos.”...  
“Assim, independentemente de datas de origem, os poemas tornam-se contemporâneos entre si, ou, se preferirmos, todos são convocados para a contemporâneidade do poeta. Essa permanente reelaboração vai de encontro ao preconceito de que o verso longo(marca registrada de Félix) seja necessariamente sinônimo de diluição ou falta de rigor.”...  
“Destacam-se, nesse conjunto, os esplêndidos Quinteto no outono e fragmentos de um inventário 
Tenho minha morte em minha mãos/e não tenho mais em mim vida que levei ./ Nas minhas veias, no entanto, sinto o mundo / caminhar- me caminhando em minha memória / o ser humano em que me distendo em ponte / entre a sombra do dinossauro e as naves além do sol.  
(num ensaio do livro Poesia e desordem 

 


  

13- WILSON MARTINS- “Em seleção extraordinariamente feliz, esta Antologia reune os melhores trabalhos de Moacyr Félix, os Engajados, no sentido imediato da palavra(às vezes engajados ao efêmero, aquilo que na vida internacional, o general de Gaulle denominava “peripécias”), e os que simplesmente se engajaram na criação poética e que se contam entre os melhores, e os mais grave e os mais sugestivos da literatura brasileira. Porque Moacyr Félix é um grande poeta.”  
 
(Em Mais que engajamento, os poemas de Moacyr Félix revelam um grande poeta, artigo no Jornal do Brasil de 28/8/1993)  

 


  

14- FERNANDO MENDES VIANA- “Poeta político, Moacyr Félix sempre foi um ferrenho adversário do minimalismo hermético e ralo, nunca escondendo sua maneira enfática de escrever e falar. Enfática e combativa. Nunca deixou, no entanto, secar sua veia lírica. Sublinhada, aliás, por um escritor de nível estético e cultural de Joaquim Cardozo, dramaturgo e poeta notável: alia a umas base segura de pensamento uma das substâncias líricas mais legítimas da moderna poesia brasileira. E tem razão. Num de seus belos livros (Em nome da vida) diz Moacyr Félix, numa fecunda dialética ódio-amor: Sim, o amor é a mais verdadeira das espadas: / na sua lâmina é que brilha a vida/do golpe certeiro e desfechado contra/os poderes que separam/deste chão triste a utopia 
E a utopia felixiana é esta: a luta pela sobrevivência do amor como denominador comum da fórmula do socialismo democrático. No Canto das transformações do homem (hino à liberdade publicado à época do Movimento de 1964, e dedicado a Miguel Arraes), afirma: a liberdade, meu filho/é o próprio rosto do amor. Mesmo em sua poesia erótica (o grandioso Neste lençol), o corpo não é abismo a ódios, mas ponte entre o poeta e o mundo: o tempo, querida, o tempo é nosso corpo / neste lençol: não há ferida do mundo/que não esteja aqui, canteiro rubro/a nos pedir inteiros como / a antigüidade das chuvas/sobre o homem que lavra a terra/ ou faz a Casa. Sempre o sentido holístico! Amor e política sempre estão unidos na sua fervorosa fé poética. Sempre fiel a esse binômio, diz ele no poema Qualquer poema é político: Sim, amar é o ato político por excelência. 
Assim como Castro Alves- poeta cívico, erótico, panteísta, elegíaco e visionário- sintetiza nossos maiores românticos, Moacyr Félix resume, de um certo modo, vários dos caminhos mais fecundos da poesia moderna brasileira.  
(Jornal do Commércio, 5 e 6 de janeiro de 1997, fragmento de um longo ensaio na Revista da Academia Brasileira de Letras, n.º 13, julho de 1993)  

 


  

15- PEDRO LYRA- "Moacyr Félix é o mais típico praticante da poesia engajada no Brasil: antes que venha a reunião de sua Obra completa, esta antologia fixa a imagem do poeta em que melhor se cristaliza, no plano estético, a realidade brasileira contemporânea.”  
(trecho da revista Colóquio / Letras, Lisboa, n.º 140/141, 1996)  

 


  

16- MARCO LUCCHESI- “quero dar as boas-vindas a Singular Plural, deste grande poeta civil que é Moacyr Félix, com o seu legado de inquietação e esperança. Singular Plural, obra poética reunida, guarda profundas e avassaladoras forças de ordem cósmica, de que a revolução é um momento poderoso, de largas repercussões míticas e poéticas, tal como seria para um Ernesto Cardenal, começando pelo Big Bang e terminando na revolução de Nicarágua. A liberdade. As estrelas. Por isso mesmo, injusto seria reduzir a obra de Moacyr a um bem acabado projeto extraliterário, visando a paisagens outras, em benefício de uma instância política redentora. Desleitura maior não se poderia fazer. A tradição literária é central em Moacyr Félix.”  
“Moacyr, bem se vê, não passou ao largo da história. Fez e sofreu história. Com a beleza radiante de sua poesia mediu forças com os poderosos. Tal como ainda hoje faz e sofre história- para retomar uma expressão de Marx –nesses tempos de refluxo das utopias. Donde  a presença de Singular Plural  na mais invejável contra-mão da história ( que muitos julgam terminada).”...  
“Mas o que me comove em Moacyr Félix será talvez sua parte menos clara, menos estudada, uma sentida nostalgia das coisas, que lhe servem como fantasmas. Comove-me o Moacyr das sombras, da morte, lutando para estar vivo, como se fosse tocado pelas tenazes da melancolia, no exílio de agora, exilado de todos, de si mesmo, buscando razões mais fortes, mis densas e mais iluminadas para seguir, sem desesperar das coisas e dos seres. Como Hart Crane e a Ponte. Como Lessiénin e o Hotel Inglaterra 
  (artigo de Marco Lucchesi no Caderno Idéias - Jornal do Brasil –26/9/1998)  

 


  

 

17- CLÁUDIO MURILO LEAL- “Formalmente, Moacyr Félix sempre se revelou um adepto do verso livre, discursivo, cadenciado em largos haustos, grandiloqüente e inflamado. Como se pode inferir dessa postura social e dessa eleição estilística, ele caminha na direção oposta às tendências da moda poética desta década, caracterizada pela alienação política, pelos bizantinismos de linguagem, pelo poema minimalista, contrafação do poema-minuto modernista, mas elaborado, hoje num tom de pedante chinesice artesanal. Década de poetas de chute curto, como disse Drummond da Geração de 45, de poemas anêmicos, de hermetismo oco. ...  
Moacyr Félix se insere na vertente dos poetas que não amputaram o conteúdo de seus poemas mas, ao contrário, se orgulham de possuir uma mensagem a ser transmitida aos homens e ao mundo, assim como Walt Whitman, Pablo Neruda e Allen Ginsberg.”  
  (Artigo de Cláudio Murilo Leal, sobre Introdução a escombros, no caderno Prosa e verso, jornal O Globo, 20/2/1999)

 


 
 

 

18- EDUARDO PORTELLA- “A poesia de Moacyr Félix freqüentemente se transforma no grande colóquio, onde os diferentes interlocutores são ouvidos atentamente. Perpassa o texto o impulso ideológico, não raro explícito. Mas sem se amesquinhar. Antes recusando os regimes de apropriação da vida humana. Persiste, por detrás do seu discurso, o vigor edificante do iluminismo, no seu recorte consagrado pela razão e, no caso, também pela paixão. Daí a veemência com que denuncia a conjugação exorbitante do verbo ‘Ter’, segundo a gramática hegemônica do ocidente moderno.” ...  
“Os poetas primordiais costumam ser habitantes de fronteiras – fronteiras de vida, fronteiras de linguagem. A fronteira é o recinto da eclosão do novo, a geografia da aderência e da fissura, do mal-entendido e da sedimentação. Na fronteira lateja a palavra por vir. E Moacyr Félix a encarna superlativamente. Poeta limítrofe, ele se vê dividido entre o enraizamento e o exílio. O primeiro enfatizando as obrigações cívicas, e o segundo reconstituindo o dilaceramento da errância no jogo cruzado da intersubjetividade. Ele é, por outro lado, poeta limítrofe porque portador do poema social jamais previsto nos comícios: o poema social-vertical, ao mesmo tempo transcendente e transparente. Quase simultaneamente ele se deixa tocar pelo que George Steiner assinalou, em Real presences, como o escândalo radioso da transcendência, e traz, para a luz do sol, a explosão humana e a interlocução da natureza. O poeta social planta a sociedade no fundo da condição humana- verticaliza.”  
  (Trechos do prefácio para o livro Introdução a escombros)