Poemas de Olga Savary - Parte I

                            Parte II


 

Tranqüilidade na tarde

A Liene T. Eiten

Ah, derramar-me líquida sobre o mar
– ser onda indefinidamente –
esperar pela primeira estrela
e dela ser apenas
espelho.

 






 

Quero apenas

Além de mim, quero apenas
essa tranqüilidade de campos de flores
e este gesto impreciso
recompondo a infância.

Além de mim
– e entre mim e meu deserto –
quero apenas silêncio,
cúmplice absoluto do meu verso,
tecendo a teia do vestígio
com cuidado de aranha.

 





 

Água água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta


 

 

Pedido

A Manuel Bandeira

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.


 

 


 


 

Liberdade

A Carlos Scliar

Desligada
O vento morde meus cabelos sem medo:
Tenho todas as idades.
   




 


 

 

Ressaca na curva das amendoeiras

                                          A Clara Ramos

Hoje elas não se dão ao sol
como lagartos:
avançam revolta
gritando espumas
contra o paredão.



 





 

Depois

A Carlos Drummond de Andrade

Depois da confidência
me retirei da tarde.
O céu ficou vazio

vazio

onde era vôo de pássaros
(os pássaros estavam quietos).
Uma febre roía meus ouvidos:
voltei mais velha (exilada)
com um toque de infância entre meus dedos,
reserva de sal dentro dos olhos.



   
 

     

As mãos estendidas

A Carlos Drummond de Andrade

Nessa direção
da janela aberta

vem o Murundu,
o bicho-papão
metendo medo em
quem anda acordado
inda a essas horas.

Em outro lugar
cisma outra criança.
Triste é não poder ter um outro vôo
que não o poético
da imaginação
para a consolar.

E assim ficamos
entre o querer
estendendo as mãos
e deixando-as
                    cair.




 

 


 

Noturno

A Carlos Drummond de Andrade

E como o óleo
sobre a desconsolada cabeça
que não mais o suportasse
quisesse a solidão
que te decifra,
mãos em vôo além
da janela aberta
foram beber no ar
teu sortilégio, retrato
da lua e seu inventor.


 


 

 

Auto-despedida

Há algo nas manhãs que não entendo agora
e a um grito de minhas pernas não atendo.
Ainda depois da noite, noite me espia
e sonho dúvidas enormes e imóveis
como a imobilidade das aranhas.
Tão pouco tempo- e tenho de deixar-me
e queria nunca ter de repartir-me.
Começa a raiva da saudade
que inventei vou ter de mim.


 

 



 

O lago em Caieiras

    A Jack Dubbel

O lago ocultou um corpo livre
em abraço oco
como faca cortando espelhos.
Veio a vontade de ser esse lago
esse lago lago, que se permitia
magoar desejo há muito aprisionado.
Alguma coisa cresceu dentro de mim,
me fez virar o rosto para o outro lado.
Queria ser esse lago lago lago
só isto –
debaixo do céu inutilmente azul
por ninguém se importar com ele
porque essa foi a mais selvagem,
a mais bela coisa que já vi.
 

 




             

Proibido proibido

A Jack Dubbelt

Tempo
horrível tempo
em que um centauro esplêndido me passeia
e acorda em mim azul azul
como o espelho azul dói entre nuvens
nuvens no azul de alguma tarde.
Invento um rio que não pára
dentro do seu sangue
e dentro dele estarei (nem que não queira).
Isso destrói como uma garra
que fecha e abre dentro da fechada carne
mas que fazer senão estar acordada na desordem
quando não se é mais que fera fera fera.

Centauro, há coisas que não se destroem.
És uma destas.


 


 

Belém

Lua sem nome
num céu de ontem
as mãos sem sono
encontram intacta
minha cidade
Belém, antes desamada.

 


 
 

 

Jogo na tarde

    A Carlos Drummond de Andrade

Desafio um deus tardo
que te mostra e te esconde
como jogo de vagas submersas
ao aproximar do som de teus sapatos
pisando cuidado e aéreo ferro
em tua pupila azul doce-feroz
concha aturdida que se anuncia
no último cristal da tarde.

Mariscos que se incrustam no teu flanco
e te ferem sem que alguém os possa ver
são os sinais da violência interna,
a marca do fogo, fera-caramujo
impassível de serena aparência.

Imaginado
eras único ser que se percorre

entre o sal e duas ondas,
então leio teus versos como leio a água
e vejo claro o cristal na tarde
em que te exaures.


 
 

 

Dentro de um vidro

               A Maria Luiza Viterbo Surdi

Flutua, fluida, num líquido quase imaginado
Que é azul, que é verde, não se sabe certo,
essa medusa liberta na prisão de um vidro
movendo o sonho em substância incerta
e a beleza sentida ao vê-la nele
é como esse bocado de medusa
conclusa perda –
no seu colo de nuvem e som nunca desfeito.

 

 


 

 

Balanço

A Carlos Drummond de Andrade

Olho teu rosto como imagem
parada um instante
refletida no profundo fundo
de um poço.
E da memória
não me interessa mais que isto.

 


 
 

 

Fogo

Dar-me toda este verão
urdideiros de rio, é ser
serpente de prata. Verão,
foi feita mais uma vítima

Sou um ser marcado, natureza.
A tarde crava em meu magma
o selo de sua secreta pata.
 

 


 

 

Ar

É da liberdade destes ventos
que me faço.

Pássaro-meu corpo
(máquina de viver),
bebe o mel feroz do ar
nunca o sossego.

 

 


 


 

A água

se enovela pelas pernas
em fio de vigor espiralado
sobre o ventre e o alto das coxas.
O orgasmo é quem mede forças
sem ter ímpeto contra a água.



 
 

   

Terra

em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu
não respire mais.