Tranqüilidade
na tarde
A Liene T. Eiten
Ah, derramar-me
líquida sobre o mar
ser
onda indefinidamente
esperar
pela primeira estrela
e dela ser
apenas
espelho.

Quero
apenas
Além de mim,
quero apenas
essa
tranqüilidade de campos de flores
e este
gesto impreciso
recompondo
a infância.
Além de mim
e
entre mim e meu deserto
quero
apenas silêncio,
cúmplice
absoluto do meu verso,
tecendo a
teia do vestígio
com cuidado
de aranha.

Água
água
Menina sublunar,
afogada,
que voz de
prata te embala
toda
desfolhada?
Tendo como um só
adorno
o anel de
seus vestidos,
ela
própria é quem se encanta
numa
canção de acalanto
presa ainda
na garganta
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver
mais triste
mas triste
de não ter jeito,
quando
atormentados morcegos
um no
cérebro outro no peito
me
apunhalarem de asas
e me
cobrirem de cinza,
vem
ensaiando de leve
leve
linguagem de flores.
Traze-me a
cor arroxeada
daquela
montanha lembra?
que
cantaste num poema.
Traze-me um
pouco de mar
ensaiando-se
em acalanto
na líquida
ternura
que tanto
já me embalou.
Meu velho poeta
canta
um canto
que me adormeça
nem que
seja de mentira.

Liberdade
A Carlos Scliar
Desligada
O vento
morde meus cabelos sem medo:
Tenho todas
as idades.

Ressaca
na curva das amendoeiras
A Clara Ramos
Hoje elas não se
dão ao sol
como
lagartos:
avançam
revolta
gritando
espumas
contra o
paredão.

Depois
A Carlos Drummond de
Andrade
Depois da
confidência
me retirei
da tarde.
O céu
ficou vazio
vazio
onde era vôo de
pássaros
(os
pássaros estavam quietos).
Uma febre
roía meus ouvidos:
voltei mais
velha (exilada)
com um
toque de infância entre meus dedos,
reserva de
sal dentro dos olhos.
As
mãos estendidas
A Carlos Drummond de
Andrade
Nessa direção
da janela aberta
vem o
Murundu,
o
bicho-papão
metendo
medo em
quem anda
acordado
inda a
essas horas.
Em outro lugar
cisma outra
criança.
Triste é
não poder ter um outro vôo
que não o
poético
da
imaginação
para a
consolar.
E assim ficamos
entre o
querer
estendendo
as mãos
e
deixando-as
cair.

Noturno
A Carlos Drummond de
Andrade
E como o óleo
sobre a
desconsolada cabeça
que não
mais o suportasse
quisesse a
solidão
que te
decifra,
mãos em
vôo além
da janela
aberta
foram beber
no ar
teu
sortilégio, retrato
da lua e
seu inventor.

Auto-despedida
Há algo nas
manhãs que não entendo agora
e a um
grito de minhas pernas não atendo.
Ainda
depois da noite, noite me espia
e sonho
dúvidas enormes e imóveis
como a
imobilidade das aranhas.
Tão pouco
tempo- e tenho de deixar-me
e queria
nunca ter de repartir-me.
Começa a
raiva da saudade
que
inventei vou ter de mim.

O
lago
em Caieiras
A Jack Dubbel
O lago ocultou um
corpo livre
em abraço
oco
como faca
cortando espelhos.
Veio a
vontade de ser esse lago
esse lago
lago, que se permitia
magoar
desejo há muito aprisionado.
Alguma
coisa cresceu dentro de mim,
me fez
virar o rosto para o outro lado.
Queria ser
esse lago lago lago
só isto
debaixo do
céu inutilmente azul
por
ninguém se importar com ele
porque essa
foi a mais selvagem,
a mais bela
coisa que já vi.

Proibido
proibido
A
Jack Dubbelt
Tempo
horrível
tempo
em que um
centauro esplêndido me passeia
e acorda em
mim azul azul
como o
espelho azul dói entre nuvens
nuvens no
azul de alguma tarde.
Invento um
rio que não pára
dentro do
seu sangue
e dentro
dele estarei (nem que não queira).
Isso
destrói como uma garra
que fecha e
abre dentro da fechada carne
mas que
fazer senão estar acordada na desordem
quando não
se é mais que fera fera fera.
Centauro, há
coisas que não se destroem.
És uma
destas.

Belém
Lua sem nome
num céu de
ontem
as mãos
sem sono
encontram
intacta
minha
cidade
Belém,
antes desamada.

Jogo na
tarde
A Carlos Drummond de Andrade
Desafio um deus
tardo
que te
mostra e te esconde
como jogo
de vagas submersas
ao
aproximar do som de teus sapatos
pisando
cuidado e aéreo ferro
em tua
pupila azul doce-feroz
concha
aturdida que se anuncia
no último
cristal da tarde.
Mariscos que se
incrustam no teu flanco
e te ferem
sem que alguém os possa ver
são os
sinais da violência interna,
a marca do
fogo, fera-caramujo
impassível
de serena aparência.
Imaginado
eras único ser que se percorre
entre o sal
e duas ondas,
então leio
teus versos como leio a água
e vejo
claro o cristal na tarde
em que te exaures.
Dentro
de um vidro
A Maria Luiza Viterbo
Surdi
Flutua, fluida,
num líquido quase imaginado
Que é
azul, que é verde, não se sabe certo,
essa medusa
liberta na prisão de um vidro
movendo o
sonho em substância incerta
e a beleza
sentida ao vê-la nele
é como
esse bocado de medusa
conclusa
perda
no seu colo
de nuvem e som nunca desfeito.

Balanço
A Carlos
Drummond de Andrade
Olho teu rosto
como imagem
parada um
instante
refletida
no profundo fundo
de um
poço.
E da
memória
não me
interessa mais que isto.

Fogo
Dar-me toda este
verão
urdideiros
de rio, é ser
serpente de
prata. Verão,
foi feita
mais uma vítima
Sou um ser
marcado, natureza.
A tarde
crava em meu magma
o selo de
sua secreta pata.

Ar
É da liberdade
destes ventos
que me
faço.
Pássaro-meu
corpo
(máquina
de viver),
bebe o mel
feroz do ar
nunca o
sossego.

A
água
se enovela pelas
pernas
em fio de
vigor espiralado
sobre o
ventre e o alto das coxas.
O orgasmo
é quem mede forças
sem ter
ímpeto contra a água.
Terra
em golfadas
envolve-me toda,
apagando as
marcas individuais,
devora-me até
que eu
não
respire mais.
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