Poemas de Olga Savary - Parte II

 

 

                             Parte III

 


 

   

Coração subterrâneo

Tempo de terra e de água é este tempo
do corpo que no outro não procura espelho
mas conhecimento ávido, progressivo e lento
pasto de magma alimentando o ventre.
Amando e se tornando amado, o corpo
do outro é de repente nosso corpo
e dentro, coração subterrâneo,
no pequeno mato solta seus cavalos
cadenciadamente.
Como de bilha derrubada, a água fresca
e o mel-salsugem, em pulsações sedentas,
faz no  tear interior do outro corpo
desenho de vida nos que estão morrendo.
O sortilégio de uma palavra
há que ser gritado como o desenfreio
dos cavalos e da bilha derramada.
Porém, calado, o tempo é dos amantes
E, deliqüescidos, eles não dizem nada.

 


 
 

 

 

Vida III

É das uvas roxas que abocanho
em tua boca e em teu fruto exposto
que faço meu vinho, meu sangue,
que para ti como um rio corre,
minha paixão, muso do meu canto
vindo do fundo da terra,
basalto e magma, esperma
de fundas furnas  e de grutas
e das fendas submersas
de onde atocaiado tu me espias,
para ti meu canto, um também roxo canto
uivando das entranhas, mãos, garganta
a me dizer: vida
a ser trazida
entre os dentes
atravessada
tal uma faca.

 


 
 

 

 

Delta

 

Se este corpo é um figo aberto
      (colheita só de frutos roxos)

           ou como vogal aberta.
                 como um A
                    de ave,
                   água,
 

              oro tu piel
               Ah miel!
 

 

 

 

 


 

Em uso

Não acredito em empertigadas metafísicas
mas numa alta sensualidade posta em uso:

que o meu homem sempre esteja em riste
e eu sempre úmida para o meu homem

 


 
 

 

Amandaba *

Biografo-me em teu corpo despindo os cascos
e as crinas de égua a me tornar doce,
Côncava, amêndoa, combustível para os vôos:

mel para as nossas asas, fel para o repouso.

* Do Tupi: Circular.






 

Cantiga de roda para adultos


Anel de fogo para teu dedo sou.

Adivinhem que anel
e qual o dedo.

 




 

Alquimia

A febre incandesce a água,
a água abrasa o fogo
e o fogo, o corpo aceso,

agora tornado ouro.

 




 

 

Resumo

Palavras, antes esquecê-las,
lambendo todo o sal do mar
numa única pedra.
 

    


 
 

 

Linha d ’água

Fonte de vida, a origem
da energia se formando:
linha-d’água.

O desejo, hierarquia
de dual sensualidade:
linha-d’água.

Do papel o outro nome
a imprimir nossas palavras:
linha-d’água.

Leia-se mapa interior
do corpo, casta de magma,
onde se lê linha-d’água.

 



 

Retrato

Mulher de mar,
uma bela fêmea
e um soldado
há uma semana atrás:
“ este homem não me serve”,
hoje o pensar lhe ser difícil
sempre não o ter
geminiano ser
sempre indeciso,
hoje quer, amanhã também,
depois de amanhã não quer mais,
harmonia que quer na corda bamba
equilibrando-se em não sei o quê
assim se move, trapezista,
geminiana alada mas mulher de água
que nem
várzea alta, várzea baixa, várzea alagada.



 
 


 

Liberdade condicional

Que eu toda me torne desterro,
lugar de exílio, exílio em ti;
meu corpo é um edifício erguido
com vista para o mar, ou seja,
como o mar rodeando a ilha,
todo com vista para ti.

Que sejas a tensa corda
do arco só a atirar
único prazer da memória –
setas não para a altura
mas em única direção
abaixo da minha cintura.

E te amo morto ou vivo
com a certeza de quem sabe
do grande fogo das vísceras,
cartas marcadas de risco,
cujo mapa é só abismo,
precipício onde se cai.

de mãos dadas com o perigo
e as sete quedas de vício.




 

 

Destino

ou sei lá que nome tenha,
com vista para o mar? Não, para a vida.
E nenhuma pista, a não ser: poesia.




 

Mulher

Pela noite, pela tarde, pelo dia
ninguém jamais saberá onde estiveste
não dupla, múltipla e una, onde estás

menos real que pressen-
                                       tida.






 

Homem

sem métrica ou rima
um bicho sim é o homem
provido de asas





 

Vida II

É do amor que se diz a verdade toda?
Pois do amor não direi nem a metade
quando é esta a verdade que me cabe.

Vida eu quero é despida de literatura.

 

 

Projeto

de ser: respirar
como uma erva respira,
útil e clara como cartilha da infância.

 

 

 

Pássaro

                A Celso Japiassu

 

A noite não é tua
Mas nos dias
curtos de mais para o vôo –
amadureces como um fruto.
Tuas asas seguem as estações.
É tua a curvatura da terra.

 

 


 
 

 

           

Aula

 

Reconhece-me pelos pés.
Os pés sabem tudo, todos os caminhos
ou quase.

esta máquina (corpo)
se oferece em nova geografia:
a cauda perdeu-se no mar.

Começa então pelos pés.