Coração
subterrâneo
Tempo de terra e de água é este
tempo
do corpo que no outro não
procura espelho
mas conhecimento ávido,
progressivo e lento
pasto de magma alimentando o
ventre.
Amando e se tornando amado, o
corpo
do outro é de repente nosso
corpo
e dentro, coração subterrâneo,
no pequeno mato solta seus
cavalos
cadenciadamente.
Como de bilha derrubada, a água
fresca
e o mel-salsugem, em pulsações
sedentas,
faz no tear interior do
outro corpo
desenho de vida nos que estão
morrendo.
O sortilégio de uma palavra
há que ser gritado como o
desenfreio
dos cavalos e da bilha
derramada.
Porém, calado, o tempo é dos
amantes
E, deliqüescidos, eles não
dizem nada.
Vida
III
É das uvas roxas que abocanho
em tua boca e em teu fruto
exposto
que faço meu vinho, meu
sangue,
que para ti como um rio corre,
minha paixão, muso do meu
canto
vindo do fundo da terra,
basalto e magma, esperma
de fundas furnas e de
grutas
e das fendas submersas
de onde atocaiado tu me
espias,
para ti meu canto, um também
roxo canto
uivando das entranhas, mãos,
garganta
a me dizer: vida
a ser trazida
entre os dentes
atravessada
tal uma faca.
Delta
Se este corpo é um figo
aberto
(colheita só de frutos roxos)
ou como vogal aberta.
como um A
de ave,
água,
oro tu piel
Ah miel!
Em
uso
Não acredito em empertigadas metafísicas
mas numa alta sensualidade
posta em uso:
que o meu homem sempre esteja em
riste
e eu sempre úmida para o meu
homem

Amandaba
*
Biografo-me em teu corpo despindo os
cascos
e as crinas de égua a me
tornar doce,
Côncava, amêndoa, combustível
para os vôos:
mel para as nossas asas, fel para o
repouso.
*
Do
Tupi: Circular.

Cantiga
de roda para adultos
Anel de fogo para teu dedo sou.
Adivinhem que anel
e qual o dedo.

Alquimia
A febre incandesce a água,
a água abrasa o fogo
e o fogo, o corpo aceso,
agora tornado ouro.

Resumo
Palavras, antes
esquecê-las,
lambendo
todo o sal do mar
numa única
pedra.

Linha
d ’água
Fonte de vida, a origem
da energia se formando:
linha-d’água.
O desejo, hierarquia
de dual sensualidade:
linha-d’água.
Do papel o outro nome
a imprimir nossas palavras:
linha-d’água.
Leia-se mapa interior
do corpo, casta de magma,
onde se lê linha-d’água.

Retrato
Mulher de mar,
uma bela fêmea
e um soldado
há uma semana atrás:
“ este homem não me
serve”,
hoje o pensar lhe ser difícil
sempre não o ter
geminiano ser
sempre indeciso,
hoje quer, amanhã também,
depois de amanhã não quer
mais,
harmonia que quer na corda
bamba
equilibrando-se em não sei o
quê
assim se move, trapezista,
geminiana alada mas mulher de
água
que nem
várzea alta, várzea baixa, várzea
alagada.

Liberdade
condicional
Que eu toda me torne desterro,
lugar de exílio, exílio em
ti;
meu corpo é um edifício
erguido
com vista para o mar, ou seja,
como o mar rodeando a ilha,
todo com vista para ti.
Que sejas a tensa corda
do arco só a atirar
– único
prazer da memória –
setas não para a altura
mas em única direção
abaixo da minha cintura.
E te amo morto ou vivo
com a certeza de quem sabe
do grande fogo das vísceras,
cartas marcadas de risco,
cujo mapa é só abismo,
precipício onde se cai.
de mãos dadas com o perigo
e as sete quedas de vício.

Destino
ou sei lá que nome tenha,
com vista para o mar? Não,
para a vida.
E nenhuma pista, a não ser:
poesia.

Mulher
Pela noite, pela tarde, pelo dia
ninguém jamais saberá onde
estiveste
não dupla, múltipla e una,
onde estás
menos real que pressen-
tida.

Homem
sem métrica ou rima
um bicho sim é o homem
provido de asas
Vida II
É do amor que se diz a verdade
toda?
Pois do amor não direi nem a
metade
quando é esta a
verdade que
me cabe.
Vida eu quero é despida de
literatura.

Projeto
de ser: respirar
como uma
erva respira,
útil e
clara como cartilha da infância.

Pássaro
A Celso Japiassu
A noite não é
tua
Mas nos
dias
– curtos
de mais para o vôo –
amadureces
como um fruto.
Tuas asas
seguem as estações.
É tua a curvatura da terra.
Aula
Reconhece-me
pelos pés.
Os pés
sabem tudo, todos os caminhos
– ou quase.
esta máquina
(corpo)
se oferece
em nova geografia:
a cauda
perdeu-se no mar.
Começa então
pelos pés.
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