AO IRMÃO TOMBADO

 

O mundo inteiro parou
fitando fotografias.

Ai noite de agonia,
angústia do ser não ser,
ai tábua de lavar roupas
polida por mãos calosas
que tuas mãos procuravam.

Ai sapatos rasgados
de quem ao pisar deixava
um rastro de luz e vida.
ai sonhos massacrados,
lacerados nos espinhos,
ai sangue regando ainda
todas flores dos caminhos.

Ai irmão, por que tombaste,
se a primavera se rebenta em flor?
Agora a alegria de meu canto
é pranto preso nos grilhões da dor.

Todo herói se parece,
o Homem é todo igual.
A fronte é Castro Alves,
a barba é Tiradentes, 
o olhar fitando espaços
no brilho de flor e aço
brilham todos os olhares
que fitaram a liberdade.

O corpo lacerado
é Cristo crucificado
vivendo novo Calvário.

O último cão da matilha
mordeu teus sonhos puros,
e todos cães se parecem,
os Judas são sempre iguais.
O mesmo rosto assassino,
o mesmo riso cretino,
o mesmo medo da luz.
Os mesmos trinta dinheiros
com que traíram Jesus.

Meu irmão, por que tombaste
se a primavera se rebenta em flor?
Agora a revolta de meu canto
é mais revolta nos grilhões da dor.

Meu verso o futuro espera
 – sei que o tempo não para –
e um dia, quando plena a primavera,
meu verso estará completo
gritando um nome...

 

 

 

 

 

 

AMOR NA PRAIA DO AÇU

 

O poeta  levou
a mocinha morena
pra namorar 
na praia do Açu.

Mostrou pra ela
a pitangueira
vestida de noiva.

Ouviram os dois
o silêncio do mar,
dormindo,
e a conversa
dos viventes das águas, 
de madrugadinha

Acharam a baunilha
em favas cheirosas
abertas ao sol.
Viram o cajueiro
pesado de flores,
cheirando ao calor
da matinha espinhenta
do cômoro da praia.

Ouviram o sabiá
cantando largado 
no pé de mamão.

Comeram do peixe
preparado e doado
por irmãos pescadores.

Cantaram novenas,
machucaram os pés
nas trilhas perdidas
e enluaradas,
onde viceja
o pico de roseta.

Viram lá longe
iluminados navios
catando petróleo.

O poeta ensinou
pra mocinha morena
o riso dos simples,
as dores e penas
do povo da praia
e mais coisas escondidas
em seu coração.

E a mocinha morena,
fugida e escapada
de apartamento perdido
do Rio de Janeiro,
virou poema, musa e mulher
na praia do Açu..
   

 

 

 

      

 

 PESCARIA  [I]  

 

As raízes do bote  
Ficaram na mata  
e já não florescem
nas primaveras.  

Sete metros de louro
cacunda de espinho  
e peroba.  
Dez cavalos de força  
(mais fé que cavalos).  

Na proa Floristo Pedra  
Pedro de Nica na máquina  
João Caranguejo no leme  
mais Nossa Senhora da Penha.  

Meu bote é valente
puxa pra frente  
pula e empina  
segura na crina  
da onda do mar  
e fura o cordão.  

Suspira e descansa  
de leve balança  
puxando arrastão  
e nossa esperança.  

Andorinha do mar  
catando espumas  
escreve nas águas.  

A gaivota  
mergulha gritando  
e volta ensinando  
um peixe a voar.  

Um boto bota  
a cabeça pra fora,  
espia o sol  
e mergulha  
(Pra onde? Pra onde?).  

A tartaruga flutua  
levando cansada  
milênios nas costas.  

(Como seria  
um espadarte voando,  
todo dourado  
de pingos pingados  
das luzes dos sóis?).  

O bote descansa  
de leve balança  
colhemos a rede  
e nossa esperança.  

Água-viva  
Siri  
Peixe Galo  
e um gordo robalo  
muito surpreso.  
Uma pescada  
morre esganada  
na esperança de náilon.  

No pequeno convés  
pula o camarão,  
na suja madeira  
pula nosso pão.  

O sol já descamba  
há sombras no mar.  
O nordeste arrepia  
ondas bravias  
e seu canto desata.  

Minha gente simbora  
que as raízes do bote  
ficaram na mata...  

 

 

 

      

 

GLADIADOR

 

Velho gladiador, 
Campeão da Morte,  
pisa febril a arenosa arena.  
Lança no ar seu cantar de forte,  
o sangue fulge nas brilhantes penas.  

Tudo nele é feito pra matar.  
Nos olhos um cego ódio imortal,  
na arma forte a morte  foi morar,  
moram no bico gerações do mal.  

Pára eriçado. Ao rival indaga.  
Ataca. As esporas como adagas  
furam, sangram, o sangue é sua glória.  

Na agonia o rival tomba na praça
e o gladiador da mestiça raça  
lança no ar o canto da vitória.  

 

 

 

     

 

FAVELA

 

Rebrilha ao sol o zinco da favela.  
Caixas  de banha pintadas de branco  
são barracos a beira do barranco  
e são figuras duma grande tela.  

Um capado fuça numa ruela,  
um preto pita sentado num banco,  
passa ligeiro um cachorrinho manco,  
uma flor brilha na cruz da capela.  

Urubus bicam uma cabra morta,  
uma criança mija num vão  de porta,  
mulheres botam roupas a quarar,  

uma pipa paira serena  no ar.  
Olhada de longe encanta a favela,  
vista de longe, muito longe dela.  

 

 

      

 

PESCARIA (II)

 

 As águas dormem no perau sombrio.  
Do barranco debruçam ingazeiras  
ouvindo atentas o cantar do rio  
rolando manso pelas corredeiras.  

Da canoa, como a tremer de frio,  
treme o caniço à viração ligeira.  
Festa de luz no vesperal de estio  
o sol descamba pelas cordilheiras.

De repente o puxão no fino fio.  
  
O caniço dobra, beijando o rio,  
em pavor o peixe pula. Ressoa  


 
a luta mortal na ponta do anzol.
E o branco robalo, dourado ao sol,  
tomba ofegante na verde canoa.  

 

 

 

SABIÁ

 

Alado canto do mar bravio vento nordeste nos coqueirais                    
doce acalanto do manso rio triste cipreste morrendo em ais.                              

Rubra pitanga, doce caju, flores de cactos, olhar quebranto,                              
a fulva manga, mandacaru, cheiro de mato no doce canto.                                 

Tu que galopas vento nordeste de verdes algas, de espumas vestes                        
e tens o sol na frágil garganta,  

lança teu canto em manhã dourada doce acalanto, canção alada,
meu sabiá canta e canta e canta ...    

 

 

 

MADRUGADA

 

A madrugada pula a janela e entra em meu quarto,
úmida ainda e acompanhada de estrelas.                  

Aspiro-a profundamente, para que ela corra em meu sangue,
ilumine meu cérebro e morre em minha garganta.  

E toda vez que eu cante fique a impressão de que nasce um novo dia ...                      

 

 

 

O BAIRRO NOBRE                                               

 

Falta aqui o canto de um galo.                             
Grossas grades e guardas escolhidos vigiam a fome, os pivetes e os ruídos
e um espirro aqui seria o pânico.                              

Já sei o que fazer quando voltar aqui.                    

Trazer da ilha da Convivência meu galo cabu, cego de um olho, o couro em cicatrizes,     esporas de ferro, o peito de aço.                        

Passear meu galo nesses cimentos altos para trazer os medos e deflagrar os ódios,    
para saudar a manhã desses terraços.  

 

 

 

 

PIVETINHA

 

 Minha pivetinha floriu.                                             

Explodiu em beijos, nos fartos frutos dos seios,                             
desabrochou em carinhos e me liberou todas as flores.                                    

Minha pivetinha explodiu de repenteaprendeu a andar - o mesmo caminhar dos rios - aprendeu a olhar doce-macio e a acender desejos.                                                

Minha estrelinha morena
         - luz tão moça
         e já deflagrando grandes incêndios 

 arredondou as ancas 
 e ganhou jeitos de pura safadeza

Agora,
A primavera habita minha casa e uma estrelinha  morena tomba em minha cama.
          Toda iluminada...