A sede de Deus 

                                      In memoriam de HELENA SALEM

                  Deus é homem para mim e eu, para Ele, sou Deus:
                                          mitigo assim Sua sede e Ele acode em minha ajuda".
                                                             
                                                                                                Angelus Silesius


Há em cada homem um rio que flui
e cada água nova repõe a água passada

                que continua no tempo

e se derrama no cósmico mar.

Quem sabe dos mistérios desse rio ?
Quem pode medir, em águas novas,
a fluidez incessante do tempo ?
Quem sabe de que maravilhosa fonte
                  jorra o fluxo vital desse rio ?

Que correnteza é essa que, implacável,
sendo a essência que habita o homem,
faz do homem o rio e o arrasta
                       para o desconhecido mar ?

Por que esse rio não consegue,
por duas vezes, fluir em um mesmo homem,
e nenhum homem consegue, por duas vezes,
                        banhar-se em um mesmo rio ?

Em que profundo e infinito mar
Deus se eterniza bebendo
a impermanência de tantos rios?

 

 

 

Tarde em Provence

Suave a seda vermelha, serpente,
deslizando sobre os  teus  seios,
enquanto a tarde se veste
com o ouro da  paisagem-enigma
e as luzes bordam as cores
das lavandas e  dos  girassóis.  

Na montanha, um pastor conduz
O seu  rebanho de memórias;
no campo, uma mulher  sopra
segredos nos ouvidos
das uvas grávidas de promessas.    

Sob uma árvore, um velho cego canta
                             uma balada trágica
só para lembrar que a vida é bela;
como tu, ó minha amada;
como o pastor com seus girassóis,
como a mulher colhendo memórias,
como esse vento suave que beija
e alisa a tua branca pele
oferecendo-te, na  plenitude do tempo,
esse efêmero e indecifrável prazer.

       
Fontaine de Vaucluse, set. de l998


 

Biblioteca de Selestat


As palavras... cada letra gravada
em fogo, na pele da memória.

As palavras... cada idéia marcada
em sangue, na pedra da história.

O segredo,  pela escrita revelado,
abrindo-se flor-e-verbo sobre a página
vermelho-sangue da história.

O sagrado, pela escrita guardado,
abrindo-se flor-enigma sobre a árvore
na floresta da memória.

Quantos homens, antes de mim,
arderam no fogo-poesia
que  se ilumina em palavras ?

Quantos homens, depois de mim,
se iluminarão em poesia
dentro do fogo-palavras ?

Quem, por acaso, sobre o túmulo
do poeta que se perdeu da memória,
depositará a flor-poesia
que, não gravada em palavras,
de ser livro se esqueceu
                    na floresta da história ?

                      
Strasbourg, 9 de out. de l998    

 

 

 

Paisagem com vaca


A lua pousada,
entre a montanha e o rio,
é uma vaca ruminando a tarde.

Com as tentações dos eremitas,
e os inconfessáveis pecados,
que nos corações dos homens
se transformaram em pedras,
foi erguida a igrejinha romana,
tão solitária na paisagem
como uma viúva vestida de lua.

Ao  redor do templo, o cemitério,
via láctea de cometas apagados;
O tempo, cão faminto, roeu
nas pedras os nomes dos mortos.

Sem remorsos, a fonte jorra,
o pássaro faz o seu ninho,
a lua se alimenta das flores
que brotam da terra dos mortos,
um criança tortura um lagarto
e como um anjo me oferece
a graça do seu sorriso,
mas eu estou triste até a alma.  

                         
Saint-Gilles/Provence, set. l998

 

 

 

 

As orelhas de Van Gogh


A luz de Provence inventa pintores
e depois os devora, sem piedade.
Na arena  de Arles,
turistas fotografam um leão-luz
que mastiga uma orelha;
uma orelha amarela e absurda
                         como um girassol.

                              
Arles, Set. de l998

 

 

 

A catedral II


Tristes  são os homens
depois que as catedrais
fecharam os seus pequenos
corações de pássaros
e guardaram no passado
as chaves dos seus segredos.

Hoje, os demônios,
sem repouso, possuem o mundo.

                
Strasbourg, 3 de dez. de l997

 

 



Estrangeiro


Sou estrangeiro como o homem
Que, atravessando o espelho,  
Encontrou-se no país das sombras
E na densa floresta se esqueceu
De que forma brilhava a sua luz.    

Sou aquele que, ao voltar,
Entrou na própria casa
E descobriu que a casa não era sua;  
Não mais conseguiu reconhecer
os livros, os discos, as fotografias
dos amigos e não mais falou o idioma
do novo mundo que inventou.

Sou estrangeiro, do outro lado da alma,
Perguntando: o que eu sou?
Sou Bosch e seus fantasmas?
Sou Goya em sua  fase negra ?
Sou Santo Antão e as tentações ?
Sou Jó insistindo em crer num Deus
Que o sonha dentro de um sonho
Que um outro sonho inventou ?    

Ai, sou uma criança tuareg
Que no deserto está perdida
Quer falar mais está muda
E não entende os enigmas
da esfinge que grita:
Me devora ou te decifro.


Sou um estranho estrangeiro
Fora do lugar, fora da lei,
Tão fechado em seus segredos
Como os ideogramas Maias,
Como a linguagem das baleias
E os selos das catedrais.


Assim estrangeiro, nascido
de um sonho, vivo a sonhar
Com  um país que me habita
E no qual estou exilado.  
Por ser um país sonhado
É um país que não existe
A não ser como um deserto,
Onde o homem se procura
E, um dia, talvez possa,
No espelho do sagrado,
A sua alma encontrar.

        
Strasbourg - 12/ 10/ 99  

 

 



A separação


As frágeis asas do amor estão partidas:
A floresta, o rio, o sol,
A janela, a ponte, a rua...
Tudo que foi forma, cor, perfume,
De repente, desencantou-se
Em silêncio e em matéria bruta.

Ai, é tão frágil a vida,
É tão fugaz o corpo  
E tão pequeno o sonho
Para conter a dor profunda.
Os mistérios da morte
Já não revelam a vida
E qualquer toque na minha pele é dor:
As frágeis asas do amor estão partidas.

Na ausência da amada eu me habito
E os fantasmas dos desejos
Fazem estragos em minha alma.
Estou faminto, sem o pão da vida
Ofertado em comunhão;
Estou sedento, sem o vinho do encontro
Na embriagues dos olhos;
Estou sozinho no mundo,
Sem o lume da esperança
Para me guiar na noite escura.
Olho as estrelas no céu,
Penso-me pássaro, mas não posso voar:
as frágeis asas do amor estão partidas.