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Ode ao neoliberal pós-moderno

Não, não se trata e rendição
Também não é medo
nem dor de um amor desfeito .
O desabamento do muro
onde estava escrito
o nome da primeira namorada .

O muro era escroto –
logo ficamos sabendo –
e aquela namorada
encaretou
se casou com outro
se encheu de teias varizes estrias
ficou autoritária feia descrente da vida
como todas as outras tias

Não, não foi por desespero da alma
esse abandono
que acomete os náufragos
esse desejo de fuga
na salinidade dos mares
que se, outrora navegados,
abriga os naufrágios do mundo .

Não me venha com a lógica
que a lógica é somente a loucura possível
de crachá e passaporte expedido
pela chefatura de polícia

Nem me apele para a pragmática
a utilidade, a constatação, a retranca
a eficiência de um cabeça de área
a impossibilidade do drible
a proibição da arte
da manha
uma manhã que se desperta sobre o corpo da amada

Não!
à merda com essa teoria dos tristes
com a técnica do dedo em riste
a precisão dos relógio parados
a imposição de um norte inmantado
a direção de um farol apontando o que ficou pra trás

Esse cinismo adiposo
essa postura destra
essa empáfia de cabelo curto e barba escanhoada
esse sangue desbotado
essa arrogância tingida
essa camisa cor de renúncia
esse sapato engraxado com a gomalina da adesão

Não é somente derrota
não é só traição às metáforas.

Essa paciência para com os coveiros
as tabuletas de não há vagas e é proibido fumar
Não é só cuidado com a saúde do pulmão
Esse telefone aposto para chamar os bombeiros
ao primeiro sinal de chama
Essa certeza de uma nova velha invenção
capaz de curar a morte
sem reinventar a vida

Não é só ilusão
de intelectual chinfrim
Não é só delírio de bufão
de um reino tupiniquim

Quer se justificar
que se justifique ao analista de plantão
Quer se consolar
que se console no shopping center do outro quarteirão

Quer se embriagar
que o faça, mas em outra mesa

Pois eu continuo aqui
no meu porre
no corre-corre do meu coração
escrevendo mais uma canção.

 


 
            

 
 
 
        
Dialética da amada ausente

                                     a  Moacyr  Félix

Sozinho
no apartamento deformado de ausências
me vejo absurdo diante do absurdo
como quem, a convite da loucura,
se veste com o rigor que a causa exige

Mas talvez eu não esteja só
talvez mais que livros
eletrodomésticos restos de bebida
que desabitam este incômodo
convivam comigo pesadelos
que não são só meus,
e sonhos
igualmente não meus somente

Além de mim
existem os homens
e o interminável embate
entre a esperança e a indiferença.
Fazendo história que também é minha,
e que está presente
num livro de poemas
e no alicerce deste prédio de apartamentos.

Não, não estou só.
neste mesmo instante,
esta mesma solidão minha
está sendo vivida por milhões:
nas linhas de montagem
nos hotéis baratos
nos acampamentos de beira de estrada
nos esgotos do capitalismo.
Esta mesma solidão
pequeno-burguesa
funcionária pública
espremida entre contas a pagar
e salário vencido
está sendo vivida entre milhões.
A solidão concreta dos abismos
a insofismável solidão do abandono
que não freqüenta as sessões solenes de posse
que não está entre os verbetes das enciclopédias
ou na contabilidade dos balanços anuais ...

Mas que está no poema
pois embora frágil este coração fraturado
não estou sozinho diante dos homens
não estou ausente da humanidade que me gera.

 


 
 

 

 
 
Alma gauche

Não, meu coração não ficou na quebrada do Yuro
trazia um copo
a história do tempo e das guerras
além de fome, sede e febre de amor

Meu coração sobrevivente vive
já não é tão jovem
( tínhamos todos 20 anos naquele outubro )
o cigarro , essa lua, a bebida ...

Nômade meu coração
se refugia na humanidade dos abismos
por isso fala alto nos bares
pulsa e sinceramente chora.

Meu coração funcionário público
assalariado, brasileiro
carrega todos os sonhos do mundo
e mesmo que desarmado
ama a possibilidade de amar.

 


 
 

 
 

Ode ao pé-sujo

Tua sedução é menos de bar
que de imensas catedrais a nos habitar
pois vem do éter
do hálito
do hábito de te freqüentar.

Mesmo em tempos de falta de tempo
de deselegância e parcos salários
um botequim não é nunca
só para se embriagar

pois além do vício
do vento
da vida e da chuva
existe o que em ti
é somente verso, música
horas passadas em meditação profunda

seus vazios
vasos partidos
amores perdidos
entre mesas balcão e odores
e restos de tira-gostos amargos nos dias difíceis
Sugerem a bêbados
um purgatório provável
de francos sorrisos largos

Suas paredes mal revestidas
de rios e mares e bebidas baratas
exercem sobre os fregueses
desejos de gozos e doses e goles e guizos que guiam  
à ternura plácida de um copo


 

       

 

 

Manhã de outubro

Ainda que este azul que me excita para a vida
Traga em si também a morte
Eu te desejo
Manhã de outubro

Seu azular, o instante que torna rubro este coração
Não é simplesmente sol, brisa, álcool 
                                                      Ou solidão na noite 

Pois o amor já não somente urge,
      
                                                 Espera entre
O mar e a pedra
E os odores de suas pétalas

Outubro derrotou o tédio, o cinza, a náusea 
                                    E a indiferença dos homens

 E mesmo a intransigência das estações
As horas passadas ou perdidas
Seria capaz de deter a flor
Que brota em plena a pressa, o pânico
                      
E os planos do Planalto Central do Brasil.  


 

 


Soneto do amor desfeito

 

E o amor tornou-se impossível:
Permanecerá vivo, no entanto,
Não como gesto imprevisível.
Será silêncio n’algum recanto.

Fosse gasto, prosseguiria
Como armadilhas do desamor.
Teria chance houvesse um guia.
Adormeceria não fosse amor.  

Mas,  jovem desbravador,
Sobrevive da euforia.
Por isso parto, o coração partido,

Antes de um fim que se anuncia
Pois de amar tanto tenho padecido
Que de ilusão tenho sobrevivido.  

 

 


Uma garrafa ao mar

Outrora fiz-me parecer o que de mim esperavam
assim procedendo julgava ser suficiente para não ser notado
Sequer quando de soslaio desdenhava o que de mim queriam
Ou o que a mim se fazia ofertar em meu degredo

Ia às compras tal como todos
Tributável e inexoravelmente rendido pagava as contas que inventavam         
E na falta delas, entediava-me num expediente de inutilidades
resistente como um malmequer de generosas pétalas a  dizer “te quero”

Contudo, meu fingimento idílico não era o bastante
Queriam de mim a crença no que é permitido
a deserção ao sonho
e a esperança perseverante no porvir

 Hoje sobrevivo fiel e infame tal um mambembe náufrago
que na ausência do público ensaia  seu número por temer esquecê-lo
A galhofa é o melhor de mim
E se lamento não serem ouvidos os meus versos
O mesmo não poderei fazer
quando a brisa outonal sepultar, por fim
a estupidez da crença nessa nau fantasma
trazendo o canto que soa ébrio nos bares debruçados sobre o penhasco  


 

 


Despertar  

                        
a Tania Salomé  

Os riscos dos rastros que a esperança deixou em meu corpo
trazem-me a certeza de que a felicidade pode ter vários rostos
mesmo este que a gora do espelho me espreita

A camisa do dia anterior denuncia o inesperado
e o insistente amargo da boca cede lugar a manhã
que desperta sonolenta do fundo do tubo  de creme dental

Estou apto ao  beijo que se amalgama no aroma de café que invade este dia
o desalinho dos cabelos e o desconhecimento dos segredos da casa      
não impedem a intimidade entre os corpos

Lá fora arde a cidade em plena a algazarra da estação
um sol que tinge de luz as cicatrizes da pele
enquanto a chuva inunda a secura de um sobrevivente coração                
que não mais teme do amor seu incerto sabor  de sal ou mel

                                                                                 ( Dez/99 )

                                                        

 

 

Tratado de rendição à Ginofagia

Se fosseis apenas uma
Seria fácil domesticar os impulsos
Evitar os riscos, os vexames
Os reclames deste frágil coração
Fatigado de dentre tantas
Ter que escolher uma somente

Ah! Se fosseis apenas belas
Serieis feitas somente para se contemplar
Como é feita uma inatingível lua
Uma capa de revista
Ipanema vista do Arpoador
A vida, mas toda a vida, em rotação perpétua

 Se fosseis somente e para sempre jovens:
Um botão de flor estilhado à terra
Uma par de seios impunes ao sutiã
Uma manhã de maio
Um sorriso franco
Um beijo em segredo

 Mas não! Há em voz algo em que o Tempo,
Essa matéria prima de banqueiros e fabricantes de cosméticos 
Esquivou-se da morbidez divina para esculpir sua arte
Tal uma sinfonia que para sempre inacabada
Busca do belo a sua dialética

Mas ainda que fosses somente mistério,
O entardecer e todo um imponderável crepuscular
Seria mister observar-vos qual um bizarro basbaque,
Estudar-vos percorrendo os volumes de vossas bibliotecas
E preservar-vos do pó, do toque e do gozo
Do ósculo e dos olhares mundanos.

 E se fosseis apenas sábias
Atléticas, aristocráticas e poderosas,
Conservadas eternas em ácido glicólico
Adornadas em vestes, ouro e jóias
Embebidas no mais nobre perfume
Retidas na retidão de um recinto burguês ?

 Ora! Seríamos apenas discípulos
Escravos submissos, punheteiros
a admirar vossas roupas
Vosso brilho, vosso aroma
Vossas bundas aerobicamente empinadas
Imunes às gloriosas celulites
E como paulistas diríamos: “ Que máquina, meu!”

Mas sois mais
Sois muito
Sois muito mais
Sois Mulher
E diante de vós
Só nos resta a rendição
A paixão
A sarjeta


                                                                        

 


 

Ao bar

 

Tua sedução é menos de bar
Que de imensas catedrais a nos habitar
Pois vem do éter
                Do hálito
                 Do hábito de te freqüentar
Mesmo em tempos de falta de tempo
De deselegâncias e parcos salários
Um botequim não é nunca
Só para se embriagar 

Pois além do vício
                 Do vento
                 Da vida e da chuva
Existe o que em ti
É somente verso, música
Horas passadas em meditação profunda 

Seus vazios
Vasos partidos
Amores perdidos
Entre mesas balcão e odores
E restos de tira-gosto dos dias difíceis
Revelam a bêbados
Um purgatório provável
De francos sorrisos largos 

Suas paredes mal revestidas
De rios e mares e bebidas baratas
Exercem sobre fregueses
Desejos de gozos e doses e goles e guizos que guiam
À ternura plácida de um copo

 

 

 

Epitáfio do amor

                           

O amor, todos sabemos, é o desconhecido
Um corpo a vontade em outro corpo
Enquanto as almas se digladiam incômodas
Numa arena para muito além do ato de amar 

Inútil explicação se dela  nada se aprende quando não mais se ama 

Querer do amor mais do que ele é capaz de se dar
É tão estúpido quanto amar 

querer que ele vá as compras
conserte o automóvel
enxugue os pratos
troque as lâmpadas ?
isso são coisas que o amor não sabe como fazer. 

O amor senta-se  na mesa
não dá conselhos
não paga a conta
não prende ninguém 

Talvez se deite na cama
ande nas ruas
ou simplesmente adormeça e sonhe
e se desperte num outro amor 

não o importune.  

O amor não manda flores
Nem estoura garrafas de champanhe
Ou mesmo se adorna de jóias perfumes e tecidos  

o amor não gera filhos
nem planta árvores
nem mesmo escreve livros
( os livros, os versos, são coisas vindas da ausência de amor) 

o amor não freqüenta as repartições
não carimba papéis
não manda recados
ou edita leis
e tem profundo desprezo pela contabilidade 

o amor é preguiçoso
ama o ócio
e dele se nutre: 

O amor não sobreviveu ao primeiro emprego

 

 

 

 

A Insistência de Rosa   

  

Envelhecer é enterrar os mortos
Já não somente vivo:
Morro. 

A vida frágil como o amanhecer 

Envelhecer é Ter que riscar nomes no caderno de endereços
Sentar a mesa
Pedir bebida para dois ou três ...
E se embriagar em lembranças 

Perversa realidade de saudar os coveiros 

Envelhecer é visitar muitas mortes
Retratos na parede
Fotografias aéreas
Cartas suicidas 

Sempre o mesmo inexorável norte 

O jornal que já não existe
O botequim fechado
Uma namorada casada e com filhos 

O que parecia terno quebrado e esquecido nos porões 

Envelhecer é também não ter mas pressa
É cultivar a raiva e a paciência
Como um jardineiro a esperança 

Uma rosa rubra no coração dos homens.

 

 

 

 

 

Confissão dos Vícios

   

Talvez ainda me reste
Um resto de faringe laringe pulmão
Para que eu possa te tragar
Uma idéia 
                  
Um sonho
                                       Uma ilusão 

Talvez ainda me reste
Um resto de fígado pâncreas vesícula
Para que eu possa te entornar
Faminto
                       Da garganta ao infinito 

Talvez ainda me reste
Um resto de ti
Na pele
           Na unha
                        Nas entranhas
                                            Na saudade  

Para que eu ainda possa ficar
Sem sair porta afora sem vontade (d)e voltar
 

Talvez ainda me reste
Um resto de vida nos olhos
                                                      No grito
Na emoção de uma possível flor que renasce
                                                     No coração 

Já que se não me restar
O álcool a fumaça a amada
Eu te reinventarei Mundo Novo
Ainda que tísico
Ainda que lúcido
Ainda que cético
Ainda que morto                             

 

 

 

Eva

 

sobre as lápides das calçadas imprudentes
brota feito flor furor incandescente
Ela, ainda não fêmea completamente 

eu ali, bebendo skol quente
Ela, me embriagando de  beleza e incontinência
eu, derretendo neste tórrido continente
Ela, gélida ternura e adolescência 

eu, mártir dos embates com a inocência
diante d`Ela indago : deus
que crueldade reserva-me vossa ciência?
expondes aos olhos meus, tão fatigados,
a mais bela criação de vossa arte e intransigência
e no entanto, sob a escolta atenta de vossos soldados,
sem clemência,
deixa um filho vosso –
criatura do barro e das bebidas baratas dos bares –
a própria sorte abandonado
sem um beijo, um sorriso, uma cerveja gelada  

 

 


 

Lista de Preferências

Mulheres
Além de todas, a amada  

Amigos  

Os cúmplices, sempre  
Causas
As impossíveis  
Momentos
Os improváveis  
Cores  
O vermelho dos utópicos
O azul dos trópicos  
Flores  
As ternas, mas com espinhos
Lugares  
Os caminhos
( de preferência um carro de boi numa estrada de chão )
Praias  
A dos náufragos  
Comidas  
As com sal ou mel  
Bebidas  
Com os amigos, ao léu
Música  
Para os ouvidos  
Palavras  
Todas que pudermos inventar  
Poetas  
Drummond, Carlos Lima, Ferreira Gullar ...  
Livros  
Os que foram escritos  
História  
A que escreveremos