Revista
Medusa
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Medusa –
revista de Literatura
e Artes visuais |
Contato com os editores: Tel.: (41) 262 9633 E-mail: medusa@bsi.com.br Caixa postal 5013 Curitiba/Pr 80061-990 |
MEDUSA N° 1
[OUTUBRO/NOVEMBRO
DE 1998]
Destaques
da edição:
entrevista com Glauco Mattoso; epigramas do poeta espanhol Marcial (40 d.C.);
bate-papo sobre poesia recente brasileira com Antonio Cicero, Rodrigo Garcia Lopes e Ricardo Corona;
contos de Marília Kubota; poemas de Joca Reiner Terron; desenhos de Gotto e instalação de Yiftah Peled;
o pensamento orgânico e visionário de Jardelina da Silva, entre outros.
Editorial (n° 1)
A dois passos do fim do milênio (o que significa, exatamente, “fim do milênio”?),
um dos saberes (mitos) que identificam a indumentária da cultura humana
veste e assume a forma de uma revista – MEDUSA –, um ícone possível
para a diversidade contemporânea. Diversidade, mais que variedade, a
palavra significando a valorização do que é dissidente, apostando na ênfase
à diferença, ao dessemelhante, ao contraditório, à divergência, à
oposição.
Mito/alegoria e visão mito/crítica: na cabeça
de cada serpente uma língua, um veneno e um olhar. Os cabelos/cobras
antenam/tensionam a discussão de um momento cultural do “século que está
morrendo”, Medusa, nas suas dez edições, se propõe a pensar questões,
como p. ex. as dos discursos “oficiais” e dissidentes; dos conteúdos
globais e regionais. Uma cabeça com muitas cabeças, tendendo,
naturalmente, para a interdisciplinaridade, para o princípio coletivo em
plano poético. A poesia, enquanto forma de conhecimento, visão de mundo,
trabalho com a linguagem, pode discutir o mundo à nossa volta, outras
disciplinas e fenômenos? A poesia como força aglutinadora, ao mesmo tempo
preservando a diversidade e a individualidade de cada obra e autor. O olhar
paralisante (crítico/estratégico) da produção de um autor para melhor
perceber a sua importância cultural dentro de um tempo marcado pela
proliferação e pela velocidade vertiginosa de informações – um momento
repleto de paradoxos típicos da pós-modernidade. As mudanças se aceleram
e também provocam a sensação ou a idéia de que nada está acontecendo
(“fim da história, das ideologias”, etc). Tudo parece estar acontecendo
ao mesmo tempo e agora. O que é bem diferente da visão de que nada está
acontecendo no tempo de agora.
Medusa, sob o signo da Imaginação
(transmuta-se em Pégaso), abre suas páginas/asas. Olhar paralisador (crítico/estratégico)
sobre o obsceno em tempos de assepsia cultural e tolerância zero – onde
os espaços de ação para a transgressão se tornam cada vez menores e os
discursos dominantes cada vez mais politicamente corretos. Medusa, em parte,
contraria até o que diz o Aurélio: “o que fere o pudor, impuro,
desonesto; diz-se de quem profere ou escreve obscenidades”, para fazer
coro com “aquilo que se mostra”, ou seja, “ob” (em frente) e
“scena” (cena): “em frente à cena”. E mostra, em grande angular, o
pensamento e obra de Glauco Mattoso, um dos poetas menos palatáveis para a
imprensa brasileira. Em entrevista, Glauco fala em tupinik a Medusa, que
publica uma seleção de seus “admerdáveis” poemas, epígrafes satíricas,
história em quadrinhos e outros debiques glauquianos, além de um ensaio
sobre sua obra feito pelo professor e intelectual norte-americano David
William Foster. E para desbocar e desbancar de vez com as múmias enroladas
em papel higiênico: o fescenino e ferino Marcus Valerius Martialis, vulgo
Marcial (40 d.C.). O poeta espanhol é apresentado aqui com dez epigramas
traduzidos por Rodrigo Garcia Lopes.
Na contramão do mosaico/variedade, mostrando
que a produção artística atual não se encontra nem ofegante nem
combalida, Medusa publica, com densidade, uma miniantologia da poesia de Joça
Reiners Terron; reproduz bate-papo sobre poesia recente brasileira, com
Antonio Cícero, Ricardo Corona e Rodrigo Garcia Lopes; três contos de Marília
Kubota; os desenhos & outros bichos de Gotto, feitos no suporte íntimo
de agendas, para depois serem plotados e ganharem o espaço público; a arte
orgânica e o pensamento visionário de Jardelina; as mãos sujas, calejadas
e de unhas “pintadas” com sabão em pó na instalação de Yiftah Peled
e na seção Medusário, o primeiro de uma série de dez textos de
revitalização do mito Medusa.
Curitiba,
outubro de 1998
Ricardo
Corona
Destaques da edição:
entrevista com Sebastião Nunes; mitos da cosmogonia Nivacle,
etnia indígena do Chaco paraguaio;
poemas de Marcos Losnak, Roberto Piva e Rupert Brooke;fotografia de Haruo Ohara; conto de Nelson de Oliveira;
fotomontagem
de Marga Puntel e objetos eróticos de Márcia X; entre outros.
Editorial
(n°3)
Será
exagero dizer que se deveria permitir ao Sebastião Nunes o cargo de anfitrião
da festa? Permitir-lhe a façanha de ser “curador”, ou melhor,
curandeiro de uma grande mostra da arte brasileira – como fora Duchamp em
1938, na França, o des/organizador da primeira e maior exposição
surrealista? Talvez o Tião nem aceitasse o convite. Repetir não é mote
deste que, desde 1989, declara-se ex-poeta, como se quisesse “zerar”,
eclipsar o que o “establishment” entende por “poeta”. A idéia
parece maluca, claro. Mas é uma das primeiras coisas que se pensa ao tomar
contato com o “arsenal” criativo-destrutivo de Sebunes Tião. Sua
guerrilha cultural, fazendo uso de toda sorte de recursos, imprime uma
“estética de provocaçam” que não deixa pedra sobre pedra. É, pensar
que vão convida-lo, assim, distraidamente, parece ser mesmo idéia de
louco. Mas se Narciso acha feio o que não é espelho, Medusa encara em
grande angular o poeta mineiro de Sabará, com entrevista, ensaio de Ricardo
Aleixo e miniantologia mamaluca.
Nesse
sentido, melhor dizendo, nesse movimento de assentar tijolos, é indispensável
a árdua tarefa de tradução de textos “estranhos” e de incluí-los na
babel contemporânea – como sempre nos lembra, em inúmeros ensaios a
respeito dos textos ameríndios e africanos, o poeta e antropólogo Antonio
Risério. Aqui, em tradução de Josely Vianna Baptista, três mitos da
cosmogonia nivacle, etnia indígena do Chaco paraguaio, relatados por
Chajanaj e Chishi’a ao antropólogo Miguel Chase-Sardi, que os publicou,
originalmente, no Pequeño Decameron Nivacle, em Assunção, em 1981.
Os relatos nivacle, agora publicados, iniciam uma série de textos ameríndios
que Medusa publicará nas sete vidas que ainda lhe restam.
Curitiba,
fevereiro de 1999
Ricardo
Corona
Editor
MEDUSA (
N°4)
[ABRIL/MAIO DE 1999]
entrevista com o cineasta Luiz Rosemberg Filho;
poemas de Cruz e Sousa, Francis Ponge, Willy Corrêa de Oliveira, Paul Celan, Allen Ginsberg;
fotomontagem de Eliana Borges e objetos de Paulo Climachauska.
Editorial
(n° 4)
Estamos
em 1999: Francis Ponge (27.3.1899) estaria com cem anos e – como nós –
a alguns meses do terceiro milênio. Mas se não pôde chegar até aqui
(morreu em 1988), Ponge nos legou uma poderosa cosmogonia poética, feita entre as palavras e as coisas – caixote, vela, camarão, fogo, etc. Situada na
concretude densa das coisas, sua poesia regenera – no espelho da linguagem
– o sentido das palavras, interagindo significativamente na língua
(“cada palavra é uma coluna do dicionário, é uma coisa que tem uma
extensão, mesmo no espaço, no dicionário, mas é também uma coisa que
tem uma história, que mudou de sentido, que tem uma, duas, três, quatro,
cinco, seis significações. É uma coisa espessa, contraditória freqüentemente,
como uma beleza do ponto de vista fonético, essa beleza das vogais, das sílabas,
dos ditongos, essa música...”, escreve em Méthodes, que está
disponível em excelente tradução de Leda Tenório da Motta – ed.
Imago).
Se pensarmos que os meios de comunicação, com sua tecnologia, muito
provavelmente, continuarão a avançar em seu duplo percurso, ou seja, ao
mesmo tempo que vieram para desmontar um sistema uno e hierárquico de
informações, pondo um fim à idéia positivista (Augusto Comte) de que as
oligarquias dos discursos se estabelecem de cima para baixo e do centro para
as extremidades, esses mesmos meios, de fato, retalham conteúdos e provocam
a “sensação do todo”, homogeneizando discursos em multimeios. O fastio
da imagem, ou melhor, do seu fragmento, dilatado, que se exibe –
repetidamente – como sendo um todo, como sendo “a” realidade, e que
obriga os significados das partes – com suas complexidades e conflitos –
a convergirem para um suposto centro sem peculiaridades nem qualidades
diferenciais, é que nos faz perceber uma necessidade em Ponge, em sua
cosmogonia moderna, onde a significação nunca chega ao fim, para “tomar
partido das coisas – levar em consideração as palavras”.
No Brasil, há algum tempo, revistas e jornais literários têm se
dedicado a divulgar a poesia de Francis Ponge, chamando a atenção para o
fato de que já é tempo de o autor de Le parti pris dês choses estar devidamente incluído entre nós. Medusa publica uma seleta de
poemas (em verão bilíngüe), na tradução de Adalberto Muller Junior e
Carlos Loria, que ainda não tinham sido publicados em português – à
exceção de La cigarrette e Le feu, traduzidos por Júlio Castañon
Guimarães e incluídos em Francis ponge 13 peças (Noa Noa,
1980).
Curitiba,
abril de 1999
Ricardo
Corona
Editor
MEDUSA
N°5
[JUNHO/JULHO
DE 1999]
Destaques da edição:
entrevista com Jerome Rothenberg;
poemas de Ricardo Corona, Antonio Cícero, Mário Bortolotto e Severo Sarduy;
gravuras de Juliane Fuganti e Maria Angela Biscaia; Cartuns de Guinski.
Editorial (n° 5)
Abertura
dos poros da poesia para a poética de todos os tempos. Esta a impressão
que fica ao ler a entrevista com Jerome Rothenberg. Visão abrangente e
pesquisa/experiência fazem do seu trabalho com a etnopoesia mais que traduções
de textos exóticos, mas inclusão com igual importância no cerne do repertório
mundial. Seu mergulho visceral no imaginário de culturas “estranhas”
sustenta o termo “etnopoesia”, além do multiculturalismo, levando
adiante a experiência poética humana, sem decalca-la do processo de pensar
e dizer o mundo. A consciência temporal/qualitativa, a ancestralidade,
trazidas para o pensa/pulsa da poesia feita pelos caras-pálidas, coloca-nos
em contato com nós mesmos.
Na urgência de
novos modelos e métodos para a poesia, parece ter havido um inevitável
processo “civilizador”. Mesmo os significados do “novo”, nas
vanguardas deste século, entram em cheque. Como explicar os ritmos vocais
dos povos Trobiand (Nova Guiné), que Rothenberg compara à experiência da
poesia sonorista (do genial Vielimir Khlebnikov)? – e assim por diante, em
exemplos de poesia pictórica de outras culturas e povos. Por outro lado, a
radicalidade desses movimentos manteve a poesia em diálogo permanente com o
desenvolvimento tecnológico de comunicação – principal fenômeno
“civilizador” de nosso século (sob a máxima de “quem se comunica, se
civiliza”). Graças a essas experiências, a poesia não se encalacrou na
era guntemberguiana, entretanto, seus conceitos – isolados – entraram em
reparo e carecem mesmo de revisão. Um dos focos de Rothenberg é ligar os
laços consangüíneos de modernismo e pós-modernismo (ele os vê como irmãos
gêmeos). Este vitalizando aquele, preenchendo suas lacunas, trazendo
novamente as dimensões globais da poesia moderna e pós-moderna. Inclusão
– palavra-chave – com visão abrangente, horizontal, para alimentar a
combustão do próximo século.
A poesia – uma de
nossas linguagens mais antigas – merece ser ritualizada, colocada à
disposição do ser humano, libertando-se dos especialistas. Assim, somente
assim, estaremos
nos reinventando e abarrotando de conteúdos nossos meios tecnológicos
triunfantes. O xamã deixa que o texto viva no corpo da tribo. Poetas-xamãs
para o terceiro milênio, enfim.
Curitiba, junho de 1999
Ricardo Corona
Editor
MEDUSA
(N°6)
[ AGOSTO/SETEMBRO DE 1999]
Destaques da edição:
entrevista com Paulo Leminski; contos de Luci Collin;
História em Quadrinhos de Beto e Marcos Losnak;
poemas de Ricardo Aleixo, Robert Hunter, Waly Salomão;
instalação de Eliana Borges e gravura de Andréa Las.
Editorial (n° 6)
Em junho fez uma década que Paulo Leminski se foi. No dia 24 de
agosto completaria cinqüenta e cinco anos de vida. Judoca zen com sotaque
sulista/curitibano, criou uma obra que vai da prosa de invenção ao conto,
da poesia ao haicai, da tradução à letra de música, do ensaio à
biografia. De personalidade forte, polêmica, divertida, o inventor da
teoria do inutensílio para a poesia, ironicamente, tornou-se hoje (vida e
obra) de uma utilidade radical.
Em tempos de
privatização poética, em que a poesia parece ser de poucos, o
ex-estranho, que sentiu “o mais moderno dos sentimentos”,
alimentou/alimenta uma geração de novos poetas como um cd-rom de
informação literária pública. Se vivo, estaria no front cultural,
protagonizando as “ligas” entre as gerações, incendiando as novas
produções – nem que fosse para dizer com quantos paus se faz um poema
–, como escreveu Alice Ruiz na apresentação de La vie em close:
“Sempre doando esse agir e pensar”.
Por outro lado, é
tanta vida nessa literatura, que não é demais afirmar que Leminski está
vivo entre nós, através de seus textos e idéias, cujo legado é – e
sempre será – uma referência. Um cachorro louco sem dono.
“Repassar a lâmpada
ainda acesa”, este era o Lema. E disparou poesia pra todo lado. Poesia com
superfícies de comunicação, com chamamentos ao leitor, com senhas de
acesso, com erudição em estado de repasse, com vida em estado de graça,
de satori.
De vida em vida, Medusa,
em seu sexto número, comemora o aniversário de vida de Paulo Leminski com
dossiê preparado pela equipe editorial: três contos do livro inédito Gozo
fabuloso, cedidos com exclusividade por Alice Ruiz e que estão sendo
publicados pela primeira vez; uma entrevista semi-inédita; ensaio; charge;
cartuns; manuscritos, e fotos nunca publicadas.
Curitiba, agosto de 1999
Ricardo
Corona
Editor
MEDUSA
N°7
[OUTUBRO/NOVEMBRO
DE 1999]
Destaques da edição:
entrevista com Vitor Ramil;
poemas de Ademir Assunção, Glauco Mattoso;
instalação de Jarbas Lopes; mitos indígenas brasileiros;
crônica de Néstor Perlongher; contos de Marcelo Mirisola.
Editorial ( n° 7)
Neste
sétimo número, Medusa abre visão policêntrica para que a razão
– nômade – insista em mirar e refletir o outro. No sentido de pensar o outro, não dispensar o outro. Nada de out, fini ou kaput.
Na estética do
frio, presente na prosa e na música de Vitor Ramil, há uma metáfora que
extrapola a experiência singular do artista, para espelhar, ainda mais, a
rica e polimorfa cultura brasileira. Um imaginário disponível que, à
medida que é tocado, vai se tecendo e se dilatando igual cinema.
Seja via linguagens
de comunicação ou políticas econômicas, a aproximação dos discursos
globais e regionais é um fato, fazendo que também seja pensar, por dentro,
nossa cultura, vitalizando sua qualidade e afirmando sua diversidade e
antropofagia genuínas. Neste sentido, incluir é a prova dos nove no próximo
milênio.
No viés
“ranheta”, Medusa publica o texto Nove meses em Paris, do
poeta e escritor Néstor Perlongher, inédito em língua portuguesa e cedido
com exclusividade por Wilson Bueno. Uma espécie de crônica que “se abre
igual tetas”, jorrando inconformismo sobre o culto do “homo faber”
parisiense, representante dileto do individualismo moderno europeu. De
“ranheta”, ou – se preferirem alguns – “cultura do
ressentimento”, não tem nada, muito pelo contrário, trata-se de um texto
de auto-estima latino-americana, propondo que pensemos através de bases e
categorias filosóficas que correspondam mais à uma razão cotidiana
(nossa) do que a um racionarismo sisudo e a um rigorismo casposo de
filosofia acadêmica francesa, conforme aponta um outro “ranheta”, o
também argentino (este, filósofo) Henrique Lynch (em Prosa e circunstância).
Curitiba,
outubro de 1999
Ricardo Corona
Editor
MEDUSA
N°8
[ DEZEMBRO/JANEIRO DE 1999/2000]
Destaques da edição:
entrevista com Alice Ruiz;
gravura de Larissa Franco;
História em Quadrinhos de Tako X e Wagner Moraes;
poemas de Laura Riding, Maurício Arruda Mendonça e Mario Henriques Domingues;
arte eletrônica de Eduardo Kac;
ensaio de Sebastião Nunes.
Editorial (n° 8)
Neste
oitavo número, Medusa paralisa com os vários focos de sua grande
angular a obra da haicaísta, letrista e poeta Alice Ruiz. Do humor à não-intelectualização,
da ausência de ego à não-verbalização e à grata aceitação das coisas
da vida – essências do zen – são capturados nesta poesia fundida na
pessoa Alice e em tudo ao seu redor. Um equilíbrio entre arte e vida que
também está presente em suas letras de música, haicais e em sua poesia,
digamos, mais ocidental.
Para esta aquariana
com ascendente em Áries, curiosa de religiões, mãe, estudiosa do
comportamento humano, entre outras dedicações à vida, o haicai não
poderia ser tão-somente o puro exercício de métrica da forma fixa
japonesa – ginástica corriqueira em tantos fazedores de haicais e tankas
– mas uma religião, no sentido de ser uma das gratas possibilidades de se
chegar ao satori.
Alice faz haicais
como quem faz-se um veículo deles e faz poesia e letra de música como quem
se afina um instrumento delas.
Curitiba,
dezembro de 1999
Ricardo Corona
Editor
MEDUSA
N°9
[ FEVEREIRO/MARÇO DE 2000]
Destaques da edição:
entrevista com Pedro Xisto;
cartuns de Miran e Rettamozo; fotografia de Milla Jung;
poemas de Rodrigo Garcia Lopes, Jim Morrison, Antonio Risério e Anelito de Oliveira; fotomontagem de Gleyce Cruz da Silva;
prosa de César Aira e Álvaro Cardoso Gomes;
trabalho plástico de Letícia Faria, Ana Gonzalez.
Editorial ( n° 9)
Pedro
Xisto (1901-1987) é um dos poetas mais representativos da vanguarda
brasileira, autor de Haikais & concretos (1960), Vogaláxia (1966), Caminho (1979), entre outros. Seu poema “babel”, ainda na
década de sessenta, foi transformado em show poético-eletrônico, na
Universidade de Toronto, e seu livro Caminho, em espetáculo de dança, por
sua filha, a coreógrafa Lia Robatto, em 1981 (São Paulo).
Além
de poeta, Pedro Xisto também era gravurista, o que lhe somava um
conhecimento especial dos materiais “extrapoéticos” e lhe permitia não
somente conceber visualmente, mas realizar todas as etapas da maioria de
seus poemas e livros. Talvez seja preciso investigar mais atentamente em que
medida essa qualidade repercute em sua obra, entendendo-se que, dentro do
movimento concretista, que incorpora a visualidade como um dos recursos
principais, pode representar uma diferença significativa, um caminho no
sentido inverso: o da visualidade para a palavra. Em Xisto, também atuava
um artista plástico e isso fica evidente em seus logogramas, onde a criação,
o pensamento, a articulação espacial de sua poesia são favorecidos pelo modus
operandi característico do artista plástico. Como destaque, a meu ver,
chamo a atenção para o design, delicado e preciso, de “flower/power”,
“epitalâmio IV” e toda a série “mandala” – entre outros –
inseridos em seu livro Caminho: um ousado objeto gráfico com a
assinatura do próprio autor (capa, diagramação e projeto gráfico),
reproduzido em offset, serigrafia e relevo seco. Caminho mereceria uma reedição luxuosa, com divulgação à altura, fazendo-se a
justa homenagem de incluí-lo definitivamente como um livro-hit do movimento
da Poesia Concreta.
A
grande angular de Medusa, revê a extensa produção de Pedro Xisto,
realizada no auge da experimentação poética das vanguardas brasileiras e
mundiais e que hoje se encontra esquecida. Aqui, publicamos um ensaio,
miniantologia e a última entrevista (inédita) concebida, em 1986, aos
poetas Luis Dolhnikoff, Luiz Sergio Modesto, Philadelpho Menezes e Marcelo Tápia.
Curitiba,
fevereiro de 2000
Ricardo Corona
Editor
MEDUSA
N°10
[ABRIL/MAIO
DE 2000]
Edição especial com mostra de poesia e artes plásticas da produção contemporânea, acompanhada de ensaios críticos de Ricardo Corona, Ademir Assunção e Rodrigo Garcia Lopes (poesia) e Regina Melim (artes plásticas). Poetas participantes: Josely Vianna Baptista, Mário Bortolotto, Luis Dolhnikoff, André Dick, Karen Debértolis, Ricardo Aleixo, Joca Reiners Terron, Maurício Arruda Mendonça, André Sant’Anna, Elson Froés, Marcelo Montenegro, Anelito de Oliveira, Marília Kubota, Dennis Radünz, Cláudio Daniel, Sabrina Bandeira Lopes e Luis Turiba. Artistas plásticos participantes: Adriana Tabalipa, Jardelina da Silva, Analu Cunha, Michel Groisman, Paulo Climachausca, Cabelo, Elizabeht Jobim, Lígia Borga, Tatiana Grinberg, Geraldo Leão, Marcus André, Eliana Borges, Carina Weidle.
Medusa 10: um balanço
Em
seus nove números anteriores, Medusa insistiu na vitalização da
poesia e artes brasileiras recentes. A linha editorial apostou na abertura
do leque de referências, posicionando-se contra a via dupla do viés da crítica,
que tem apontado prematuramente a época como um mosaico-variedade ou como
ausência de novos autores – idéia flagrante em inúmeros ensaios,
resenhas e entrevistas de nossos críticos, poetas-críticos e jornalistas
culturais.
Medusa trabalhou com a idéia de densidade para a diversidade, dedicando
miniantologias a poetas dos anos 90,
revelando alguns – como Marcos Losnak, Mario Henrique Domingues, Elson Fróes
e Jussara Salazar – e apostando em outros em fase inicial (tendo um ou
dois livros publicados por pequenas editoras) – como Joca Reiners Terron,
Ricardo Aleixo e Maurício Arruda Mendonça, por exemplo. Dedicou
páginas especiais à prosa, publicando autores inéditos – como Marília
Kubota e Marcelo Montenegro – e outros já publicados – como Wilson
Bueno, Marcelo Mirisola, Luci Collin, Jorge Pieiro, Álvaro Cardoso Gomes e
Nelson de Oliveira. Publicou traduções de autores pouco conhecidos no
Brasil – como Cesar Aira, Paul Celan, Francis Ponge, Laura Riding, Rupert
Brooke – e outros muito conhecidos, mas pouco traduzidos – como Gary
Snyder, Henri Michaux e Marcial. Traduziu também poetas
“desterritorializados” – como Jim Morrison e Robert Hunter. Organizou
dossiês, investigando sob vários ângulos (ensaio/miniantologia/entrevista),
de autores nacionais e internacionais – com o objetivo de somar novas
referências à cena poética e artística brasileira – como Pedro Xisto,
Roberto Piva, Antonio Risério, Glauco Mattoso, Sebastião Nunes, Luiz
Rosemberg Filho, Alice Ruiz, Willy Corrêa de Oliveira, Waly Salomão, Paulo
Leminski, Jerome Rothenberg, Vitor Ramil e Gary Snyder –, além de debater
o papel das recentes antologias brasileiras. No movimento de rever tradições
e “sacudir a abóbora” (Rothenberg), publicou textos indígenas que vão
dos mitos da cosmogonia Nivacle, Aruá, Macurap e Jabuti à poesia dos
Winnebago, Esquimó, Ekoi, Crow e Trobiand.
Nas artes visuais brasileira e mundial, Medusa apresentou criticamente trabalhos de artistas novos – como
as gravuras de Maria Ângela Biscaia – e de artistas nacionais já
firmados em outros países, mas ainda desconhecidos por aqui – como a arte
eletrônica de Eduardo Kac. Além de publicar produções resultantes de
pesquisas e visualidades heterogêneas – como as de Paulo Climachauska,
Newton Gotto, Márcia X, León Ferrari, Carlos Bevilacqua, Vicente de Mello,
Jarbas Lopes, Alex Cabral, Lina Kim, Francisco Faria, Debora Santiago,
Yiftah Peled, Ernesto Netto, Larissa Franco, entre outros. Como também
publicou trabalhos de desenhistas de HQ, charge e cartum – como do francês
Lionel Andeler, dos italianos Fabio Sironi e Marco Biassoni e dos
brasileiros Miran, Rettamozo, Tako X, Beto, Wagner Moraes, Hermínio Branco,
Guinski, Bellenda, etc. Apresentou criticamente a arte de fotógrafos que
produziram seus trabalhos em outras épocas, mas só nas décadas de 80/90
tiveram reconhecimento – como a do inglês Charles Harry Jones (1866-1959)
e a do imigrante japonês Haruo Ohara (1909-2000) – ao lado de fotógrafos
mais recentes – como Milla Jung e Bernardo Magalhães. Desta maneira,
incluindo linguagens de diferentes origens e procedimentos (escultura,
fotografia, gravura, pintura, instalação, objetos, colagens, desenho,
etc.) de artistas de várias regiões do Brasil, contribuiu para uma
perspectiva panorâmica da arte brasileira atual.
Neste último número de uma primeira
“dentição”, Medusa comemora com a mostra de poesia e arte Medusário,
fazendo um recorte – entre outros possíveis – que mais uma vez
escancara a vitalidade da produção poética e artística brasileira dos últimos
anos.
Curitiba, abril de 2000
Ricardo
Corona
Editor
Contato com Ricardo Corona:
Tel.: (41) 262 9633
E-mail: medusa@bsi.com.br
Caixa postal 5013
Curitiba/Pr
80061-990